sexta-feira, 19 de junho de 2026

Zeloso Lata(O robô- espantalho)



...Não havia mais milharal!

Isso era o que doía nas engrenagens de Zeloso Lata quando o sol nascia sobre a Fazenda Dulce, e ele, por puro hábito, subia em seu pedestal de pedras no centro do campo arrasado. Ele abria os braços de arame e cobre. Ele erguia o rosto de chaleira para o céu. Ele ficava imóvel, como um verdadeiro espantalho, como lhe ensinara seu Olívio Runa. 

...Mas não havia mais pássaros para espantar. Não havia mais pragas para deter. ...Não havia mais milho para proteger!

Havia apenas cinza, crateras e o silêncio de um mundo que esquecera como se cantava.

A Fazenda Dulce um dia merecera seu nome. Aninhada numa dobra suave das colinas de Lamparina do Vale, ela era um retalho de terra abençoada...onde o centeio crescia prateado e o milharal farfalhava canções---' que só os espantalhos entendiam'. 

Cada  parafuso tinha uma história. 
Cada solda carregava uma memória.
... E quando Olívio deu corda no coração de engrenagem pela primeira vez, ele não disse 'funcione' 

...Ele disse 'bem-vindo!'

Zeloso Lata foi programado para duas coisas: proteger e permanecer.
... Durante o dia, ele percorria as fileiras do milharal com seu andar ritmado---, toc-toc, toc-toc, como um coração batendo na terra. 

Seus olhos de filamento âmbar vasculhavam as folhas em busca de lagartas, pulgões, qualquer coisa que ameaçasse a colheita. 
Ele as removia com uma delicadeza que desmentia seus dedos de colheres de pau, depositando-as numa caixinha de música adaptada que ele carregava no peito

À noite, quando as pragas dormiam e os pássaros se recolhiam, Zeloso subia em seu pedestal -- uma pilha de pedras chatas que Olívio arranjara no centro exato do milharal -- e abria os braços.
 Ele ficava imóvel, silencioso, os olhos brilhando fracamente como dois vaga-lumes cansados, velando o sono das espigas.

 Os pássaros o viam e fugiam!

... O vento o tocava e dançava ao redor. E Olívio, da varanda da casa de fazenda, erguia sua caneca de chá e sorria!

'Boa noite, Zeloso', dizia ele. 
'Durma com os anjos de lata!'.

Zeloso não dormia. Mas ele entendia o amor naquelas palavras. Ele as guardava dentro de seu barril de carvalho, junto ao coração de engrenagem, como se fossem sementes.

...Depois veio a guerra. Não uma guerra de nações ou de exércitos, mas algo mais triste e mais mesquinho: a Guerra do Vazio Dourado. 

As famílias Havemos e Querubim, que por gerações haviam competido na pelo mercado em Lamparina do Vale, transformaram suas fábricas em arsenais de destruição.
 
...Robôs que antes colhiam maçãs...agora carregavam serras circulares. Drones que antes polinizavam pomares...agora lançavam fogo líquido. 
As chaminés que soltavam fumaça colorida vomitavam agora um negro veneno que escurecia o sol. 

A guerra não durou muito -- guerras de ódio puro, raramente duram!
Mas fora o suficiente para transformar cada fazenda, cada pomar, cada campo florido num cemitério de cinzas e metal retorcido. 

Os empresários morreram em suas próprias fábricas, soterrados pelas máquinas que criaram. E com eles morreram os agricultores, os padeiros, os violinistas, as crianças que corriam pelas ruas de paralelepípedos. Lamparina do Vale tornare-se uma cidade fantasma... antes mesmo que o último incêndio se apagasse.

Na Fazenda Dulce, a morte chegou numa tarde de outono, quando as espigas estavam douradas e prontas para a colheita. Um drone Querubim, cego e enlouquecido, despejou seu fogo sobre o celeiro onde Olívio Runa guardava as sementes da próxima primavera. 

Zeloso Lata estava no milharal quando ouviu a explosão. Ele correu, toc-toc, toc-toc, mais rápido do que jamais correra, arrancando faíscas das pedras. Mas o fogo era mais rápido. O fogo era mais faminto! 

Quando Zeloso chegou, o celeiro era uma pira, e Olívio estava deitado sob as vigas caídas, os olhos claros ainda abertos, as mãos grossas ainda apertando um punhado de sementes de milho contra o peito.

Zeloso parou! Seu coração de engrenagem deu uma volta, depois outra, depois quase parou. Ele não tinha lágrimas -- não fora feito para chorar. 

Mas um som escapou de seu peito, um som que Olívio nunca programara: um zumbido baixo e trêmulo, como uma canção de ninar quebrada. 
Ele ajoelhou-se ao lado do corpo de seu dono ,e permaneceu ali por três dias, imóvel, enquanto as cinzas dançavam ao seu redor como uma neve suja. 
No terceiro dia, uma andorinha pousou em seu braço. Era a primeira coisa viva que ele via desde o incêndio. A ave olhou para ele com olhos minúsculos e brilhantes, cantou uma nota única, e voou para o horizonte.

Zeloso Lata levantou-se. Ele recolheu as sementes das mãos de Olívio, uma por uma, e as depositou na caixinha de música em seu peito. Depois enterrou o corpo de seu dono sob o pedestal de pedras, no centro do milharal queimado. 

...Ele não sabia rezar! ;— não fora feito para a fé!
 Mas ele subiu no pedestal, abriu os braços, e ficou ali por toda a noite, imóvel, silencioso, os olhos âmbar brilhando fracamente contra a escuridão. Ele era, naquele momento, o espantalho mais verdadeiro que já existira: não espantava mais os pássaros. Espantava o esquecimento. Ele velava a memória de um homem que lhe dera corda e lhe chamara de bem-vindo.

Na manhã seguinte, Zeloso desceu do pedestal pela última vez. Ele olhou para a casa de fazenda vazia, para o moinho de vento imóvel, para as fileiras carbonizadas onde antes dançavam as espigas douradas. 

Ele não tinha mais função ali. 

As pragas estavam mortas. Os pássaros estavam mortos. O milharal estava morto.

 ...Mas as sementes em seu peito, não! 

Elas ainda guardavam, dentro de suas cascas minúsculas, a promessa de um campo verde, de um farfalhar ao vento, de uma canção que a terra ainda poderia cantar. 
...E Zeloso Lata, que não fora feito para a esperança, sentiu algo brotar dentro de suas engrenagens: a necessidade de encontrar um lugar onde aquelas sementes pudessem viver!

...Ele partiu! 

Não sabia para onde ia. 
Não sabia se havia algum lugar no mundo que a guerra não tivesse tocado. Mas ele caminhou, toc-toc, toc-toc,  na terra estéril, a caixinha de música tilintando as sementes a cada passo. Ele deixou para trás a Fazenda Dulce, o túmulo de pedras, o pedestal solitário no centro do nada. Ele levava consigo o amor de Olívio Runa, a memória das noites silenciosas no milharal, e uma única pergunta que repetia baixinho, como uma oração que ninguém lhe ensinara:

'... Onde a terra ainda canta?'

A andorinha voava à sua frente, desaparecendo e retornando, guiando-o por entre as ruínas de Lamparina do Vale, por entre os esqueletos de robôs e os destroços de sonhos. E Zeloso Lata a seguia, com seus olhos âmbar brilhando na escuridão, espantalho sem milharal, guardião sem tesouro, filho sem pai, carregando no peito o futuro de um mundo que talvez já não existisse mais. 

Ele não sabia se chegaria. Ele não sabia se a corda de seu coração duraria até o fim da jornada. Mas ele andava. Porque era para isso que fora feito.

 Proteger!
Permanecer!

...E, agora, plantar!



By Santidarko 

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