Averna Malva não esculpe anjos tumulares: 'ela os convoca'. É assim que os coveiros mais antigos do Cemitério da Consolação se referem a essa mulher de estatura miúda, cabelo preso em coque severo e olhos cor de chumbo molhado.
Sua oficina fica num anexo de pedra que já fora uma capela particular, ali perto do cemitério.Ela dorme às vezes ao lado dos blocos de mármore e acorda com o cheiro de gesso úmido incrustado nas cutículas.
Averna herdou o ofício do avô, um italiano de Gênova, que esculpia lápides para os nobres paulistanos;ele ,seu avô, sempre carregara uma convicção ,que jamais confessou a cliente algum: cada anjo que termina carrega um fragmento minúsculo do corpo que vigia —, uma gota de suor do escultor, um fio de cabelo do encomendante, uma lágrima seca que ela mesma derramou na argila ainda fresca. Por isso, quando alguma coisa nos seus anjos se altera — uma fissura onde ontem não havia, uma mancha que parece ter brotado da pedra — ela sente antes de ver.
...E sempre, sempre, isso significa que algo de errado acaba de deitar raízes na terra consagrada.
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O Anjo da Consolação
Averna Malva estava ajoelhada sobre uma lona estendida na grama encharcada do Cemitério da Consolação, o pincel de cerdas finas trêmulo entre os dedos, retocando o azul-claro da íris da estátua. O túmulo dos Albuquerque Ferraz era um monumento de mármore carrara com uma efígie feminina de asas abertas, mãos postas e um rosto que ela modelara a partir de uma fotografia antiga — a filha caçula da família, morta aos dezenove anos . A encomenda viera de dona Virgínia Albuquerque Ferraz, a matriarca e avô da menina;uma mulher de oitenta e três anos que se locomovia entre as capelas funerárias como uma aranha vestida de crepe. Ela queria que o anjo fosse a réplica exata da 'filha-neta';
-Para que Deus não se enganasse de alma na hora do Juízo,sempre repetira isso em' bom som'.
Averna aceitara o trabalho porque dona Virgínia pagava em dinheiro vivo e, jamais pedia para ver o progresso da obra depois do pôr do sol.
A chuva caía desde as quatro da tarde, uma garoa paulistana que grudava a roupa no corpo e embaçava os óculos de aro grosso que Averna só usava para os detalhes. As nuvens estavam tão baixas que roçavam as copas dos ciprestes, e a luz mortiça do fim de agosto transformava as alamedas do cemitério em galerias de sombras alongadas. Averna não se importava com a umidade -- o mármore absorvia melhor a tinta quando o ar estava pesado. O que a incomodava era a fissura.
Ela havia notado na véspera: uma rachadura finíssima, quase capilar, que partia da base do pescoço do anjo e descia em diagonal até a clavícula direita. Coisa de dilatação térmica, pensara a princípio. Mas aquela manhã, ao passar a ponta do estilete para limpar o sulco antes de preenchê-lo, a lâmina encontrara algo macio. Algo que não era pedra nem argamassa. Averna retirou o estilete e observou a ponta: uma substância escura, viscosa, com um brilho opaco que a chuva não conseguia lavar. Ela levou a lâmina ao nariz e sentiu o cheiro adocicado do ferro.
Sangue.
Sangue humano, ela tinha certeza. Não era a primeira vez que Averna sentia aquele odor; aos dezoito anos, ajudara o avô a retirar um corpo que despencara de um túmulo alto durante uma tempestade, e o cheiro do couro cabeludo rompido ficara alojado em sua memória como um carimbo.
Ela olhou ao redor. O cemitério estava deserto, exceto por um vulto distante, um coveiro de capa de chuva que se movia lentamente entre os jazigos. Lázaro Freixo. Averna sabia que ele a observava de longe, como fazia todas as tardes, sem nunca se aproximar. Ela levantou a mão num gesto contido, mas ele desapareceu atrás do mausoléu dos Matarazzo. O silêncio voltou a ser absoluto, quebrado apenas pelo tamborilar da garoa sobre as folhas das palmeiras-imperiais.
Ela tornou a examinar a fissura. O sangue parecia ter brotado de dentro do mármore, como se a pedra tivesse suado. Averna encostou a ponta do dedo na rachadura e sentiu uma pulsação leve, rítmica --ou foi seu próprio sangue latejando na polpa digital? Ela não sabia. Retirou o dedo e viu que a gota escura escorrera um milímetro. O anjo estava chorando sangue pelo pescoço.
Foi então que ouviu passos na alameda lateral.
Eram passos firmes, de sola de couro sobre a pedra molhada. Averna virou o rosto devagar e viu um homem de sobretudo escuro, chapéu de feltro e um cachecol que lhe cobria metade do rosto. Ele parou a três metros de distância, como se respeitasse uma fronteira invisível.
— Dona Averna Malva? , A voz era grave, cansada. — Sou Cássio Morbelli. -A senhora pediu que eu viesse.
Ela havia telefonado para o número que o coveiro Lázaro lhe dera semanas atrás, 'caso alguma coisa estranha acontecesse entre os túmulos'. Morbelli era investigador particular, ex-policial, um homem que ganhava a vida vasculhando os buracos que a lei não queria enxergar. Tinha o rosto magro, os olhos fundos e a expressão de quem já vira coisas demais para se surpreender com qualquer outra.
— O senhor veio rápido ,disse Averna, limpando o estilete no pano. — Isso é bom.
-Aconteceu uma coisa que eu não sei explicar,complementara um pouco surpresa e apreensiva.
Morbelli se aproximou, os olhos fixos no anjo. Tirou uma lanterna pequena do bolso e iluminou a fissura. O sangue brilhou, rubro e fresco. Ele não recuou. Em vez disso, inclinou a cabeça e passou o polegar sobre a mancha.
— Faz quanto tempo que essa escultura está aqui?
— Dois meses. Mas a rachadura é de ontem.
— E a senhora viu alguém mexendo nela?
--Alguém além da família?
Averna pensou em dona Virgínia, no filho mais velho dos Albuquerque Ferraz, um homem de meia-idade chamado Eugênio...que cheirava a naftalina e suor nervoso. Pensou no jardineiro novo, um sujeito de sotaque carregado que ninguém sabia de onde viera. Mas todos eles tinham motivos legítimos para estar ali. Nenhum deles sangraria sobre a estátua de uma morta.
— Ninguém que eu tenha visto , respondeu um pouco apreensiva.
— Mas tem outra coisa!
Ela guiou Morbelli até a parte de trás do túmulo, onde uma laje de mármore selava a cripta da família. Havia marcas recentes na argamassa. Alguém tentara forçar a entrada.
...E, no chão, uma ponta de cigarro ainda úmida, daquelas de palha, que não se vendiam em São Paulo,havia décadas.
Morbelli apanhou a ponta de cigarro com um lenço e guardou no bolso. Depois olhou para Averna com uma intensidade que a fez estremecer.
— A senhora acredita em almas penadas, dona Averna?
— Acredito no que o mármore me conta, Averna respondera um pouco surpresa com tal indagação .
— Então vamos ouvir o que mais ele tem a dizer.
Naquela mesma noite, quando o cemitério já fechara os portões e, a única luz vinha dos postes de iluminação da Rua da Consolação e de precárias luzes do Interior do cemitério, Averna e Morbelli voltaram. Levavam um maçarico pequeno, um pé de cabra e a sensação incômoda de que estavam sendo seguidos. A chuva engrossara, agora batendo contra as estátuas com estalos secos. O anjo parecia mais alto sob a luz trêmula das chamas. Suas asas projetavam sombras que 'se moviam sozinhas'.
Morbelli inseriu o pé de cabra na fissura do pescoço e fez força. O mármore rangeu -- um som agudo, quase um lamento.
...Averna sentiu um arrepio subir pela espinha. Quando a peça cedeu, revelou um oco escuro dentro da estátua. E, lá dentro, algo que nenhum dos dois esperava.
Não era um corpo. Era um pequeno frasco de vidro, daqueles usados em boticários antigos, cheio de um líquido escuro que podia ser sangue -- ou algo mais antigo que sangue. Junto ao frasco, um bilhete dobrado em quatro, escrito com uma caligrafia trêmula:
'Ela não morreu de febre. Perguntem a Eugênio o que aconteceu no quarto dos fundos em 1970. O anjo sabe. O anjo viu'.
Averna leu três vezes. A tinta estava fresca. Alguém colocara aquele bilhete ali nos últimos dias. Alguém que sabia sobre a fissura, sobre o retoque, sobre os segredos dos Albuquerque Ferraz. Ela olhou para Morbelli, que já estava de sobreaviso, a mão dentro do sobretudo.
Um vulto moveu-se atrás do mausoléu.
— Quem está aí? — perguntou Morbelli, a voz firme, mas baixa.
O vulto deu um passo à frente. Era Lázaro Freixo, o coveiro. Mas seus olhos estavam diferentes — vidrados, febris. Ele carregava uma pá.
-Eu sabia que vocês iam encontrar, dissera ele, com a voz rouca. — Eu pus o bilhete. -Mas não fui eu quem sangrou o anjo. -O sangue veio sozinho.
-O sangue veio dela!
— Dela quem? — perguntou Averna.
— Da menina. Da filha de dona Virgínia. Ela não está na cripta. O caixão está cheio de pedras. Eu mesmo vi quando fizeram o enterro, faz dez anos.
-Eugênio matou a irmã, e a mãe acobertou.
--O sangue no anjo é o choro dela, dona Averna. A pedra está chorando porque a menina nunca foi enterrada em solo sagrado.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pela chuva. Morbelli encarou o coveiro, depois Averna. Ela estava pálida, mas não incrédula. Segurava o frasco contra o peito como se fosse um relicário.
— Onde está o corpo dela, seu Lázaro? , perguntara ela.
— Isso o detetive vai ter que descobrir. Eu só sei que o anjo chora toda vez que chove.
Na manhã seguinte, dona Virgínia Albuquerque Ferraz foi encontrada morta em sua mansão nos Campos Elíseos. Causa oficial: parada cardíaca. Mas suas mãos estavam manchadas de algo escuro que as criadas não souberam identificar.
O filho Eugênio desapareceu. E, no Cemitério da Consolação, Averna Malva terminou o retoque do anjo com uma tinta diferente -- um pigmento que ela mesma preparou, misturando o líquido do frasco com pó de mármore. A estátua nunca mais chorou. Mas, nas noites de chuva, quem passa pelo túmulo dos Albuquerque Ferraz jura ouvir um sussurro vindo das asas.
Cássio Morbelli guardou o bilhete no arquivo particular de casos que jamais seriam resolvidos.
...E Averna voltou a esculpir, sabendo que, de todos os seus anjos, aquele era o único que 'realmente tinha uma alma exposta'.
By Santidarko