...Lamento nunca dorme!
A cidade que chora se ergue sobre um vale profundo, onde fontes vertem água escura e os sinos das catedrais 'tocam sozinhos' à meia-noite!
Em algumas ruas de paralelepípedos molhados, da úmida Lamento, brilham sob a luz , e uma névoa rasteira... serpenteia entre os becos como um animal vivo.
Lamento é agitada, febril, pulsante --- teatros abrem suas cortinas quando o sol se põe, mercadores noturnos vendem relíquias em praças escuras, e os bondes tilintam sobre trilhos de ferro até as três da madrugada.
...Quem visita Lamento diz que a cidade tem cheiro de incenso, chuva e ferro velho.
...Quem vive em Lamento...sabe que a cidade tem cheiro de segredos!
No coração dessa metrópole de sombras, num sobrado estreito entre uma livraria de obras raras e uma capela abandonada, vive Keimilla Avis.
Keimilla tem vinte e oito anos, cabelos negros presos num coque severo, olhos castanhos tão escuros, que parecem pretos à primeira vista, e uma palidez de quem passa mais tempo sob a luz de uma escrevaninha ,do que sob o sol.
Ela é escrivã e advogada .
Keimilla copia documentos à mão, registra contratos, escreve cartas para os analfabetos, transcreve testamentos.
...Sua letra é impecável, sua caligrafia é arte.
Ela conhece os segredos da cidade porque as pessoas lhe confiam palavras que não ousam dizer em voz alta.
...Ela é a guardiã silenciosa das confissões! alheias.
...Mas Keimilla Avis guarda um segredo! próprio.
Quando o relógio da Catedral de Nossa Senhora das Lágrimas bate as oito badaladas, Keimilla deixa sua escrivaninha.
Ela sobe até o sótão do sobrado e abre um baú de ferro com fechadura de três voltas.
... Lá dentro, um uniforme negro com textura estilizadas. Uma capa longa e assimétrica, presa a anéis de metal escuro.
Uma máscara rígida com pontas alongadas como chifres de penas de coruja. Lentes brancas e opacas, como as de uma ave noturna.
...Ela veste a noite!
Ela se torna Avisnigrum.
Nas sombras de Lamento, os criminosos aprenderam a temer um vulto que não faz ruído ao pousar, que não anuncia sua chegada, que observa do alto das gárgulas com a paciência de um predador alado.
... Dizem que não é humana.
...Dizem que é o espírito de uma ave que pertenceu a uma santa esquecida.
...Dizem que suas asas são reais e que seus olhos brancos enxergam os pecados escritos na alma dos homens.
A verdade é mais simples e mais terrível: Avisnigrum é uma mulher que lê os segredos da cidade durante o dia, e os pune,os criminosos que ousam enganar pobres e pessoas desamparadas por burocracias,durante a noite.
Cada documento que Keimilla Avis copia é uma pista.
Cada testamento falso, cada contrato fraudulento, cada história de ameaça que passa por suas mãos é registrado em sua memória. Ela sabe quem roubou, quem matou, quem traiu.
...Ela sabe quem merece justiça e quem merece medo!
E quando a noite cai sobre Lamento, a escrivã silenciosa se transforma no presságio alado.
Mas os criminosos de Lamento já sabem: a cidade que chora agora tem 'uma guardiã que voa'. E a escrivã de olhos escuros está sempre a uma palavra de descobrir o próximo pecado.
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Vilãs Recorrentes
●A Craniomandibular
A família Von Eisenkalt chegou a Lamento há quatro gerações, vinda de uma região esquecida da antiga Prússia.
Trouxeram consigo fábricas, forjas e uma ética de ferro -- nunca perdoar, nunca esquecer, nunca recuar.
Hoje, as Indústrias Eisenkalt controlam a siderurgia, a metalurgia de precisão e a fabricação de instrumentos cirúrgicos da cidade. O brasão da família é uma bigorna com uma engrenagem no centro.
O lema, cunhado em alemão arcaico: Schmerz ist Stahl -- 'A dor é aço'..
Dra. Isolde von Eisenkalt era a herdeira perfeita.
Inteligente, bela, fria!
... Formou-se em cirurgia craniofacial com louvor, especializou-se em reconstrução óssea, publicou artigos, deslumbrou congressos. Seu consultório particular em Lamento atendia a elite da cidade.
Ela tinha mãos de pianista e olhos de juíza.
...Nunca perdeu um paciente.!
Até a noite do acidente.
O motorista dirigia embriagado. Atravessou o sinal vermelho na Avenida das Fontes. O impacto destruiu o carro de Isolde.
...Ela sobreviveu !,- mas seu rosto, a ferramenta de sua profissão e de sua identidade, foi dilacerado.
Fraturas múltiplas no maxilar superior e inferior.
...Perda de t dentes.!
A mandíbula partida em quatro lugares!
Os médicos disseram que ela nunca mais teria o mesmo rosto.
...Isolde discordou!
Ela mesma projetou as próteses.
Placas de titânio, parafusos de precisão, uma estrutura craniomandibular externa que não apenas reconstruía seu maxilar -- ela o reinventava.
A estrutura metálica abraçava seu crânio como uma segunda face, com articulações visíveis, molas de tensão calibrada, fios de aço tensionados. Quando terminou, seu rosto não era mais humano. Era uma máquina de osso e metal.
...'Uma engrenagem com olhos!'.
O motorista foi encontrado três semanas depois. Tinha o maxilar quebrado em exatamente quatro lugares. Sobre seu peito, um cartão das Indústrias Eisenkalt.
Isolde descobriu algo naquela noite: punir era mais satisfatório do que curar!
Ela não parou mais.
Hoje, a Dra. Isolde von Eisenkalt continua atendendo em seu consultório durante o dia. Seus pacientes a veem como uma figura trágica e brilhante -- a cirurgiã que usa uma máscara de metal para esconder as cicatrizes. Mas à noite, quando os corredores do hospital(*seu hospital, construido e projetado por ela) esvaziam, ela desce ao subsolo, onde mantém uma sala cirúrgica particular.
...É lá que ela recebe os que a contrariam!
...'Uma lição de anatomia ,que eles nunca esquecerão!
Uma assinatura de aço. Uma bigorna sobre os ossos.
Seu símbolo é uma mandíbula humana aberta, com um fio de prata saindo dela como uma língua, formando um ponto de interrogação. Porque Isolde sempre pergunta antes de operar.
A pergunta é sempre a mesma:
— Você sente dor?
E se a resposta não a agradar, ela mesma ensina o significado da palavra.
'Em Lamento, a justiça tem gosto de aço.
...E a doutora von Eisenkalt está sempre de plantão.'
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●A Abadessa Fantasma
O nome verdadeiro dela era Irmã Celeste d'Âmbre.
Celeste nasceu em Lamento, filha de um sineiro e de uma bordadeira de sudários.
... Cresceu entre badaladas e mortalhas, entre o bronze que anunciava a morte e a seda que a vestia.
Desde menina, acreditava que sua vocação era o silêncio. Aos dezessete anos, ingressou no Convento de Nossa Senhora das Lágrimas, uma ordem contemplativa cujas freiras faziam voto perpétuo de clausura e intercessão pelas almas do purgatório.
...Ela era a noviça mais dedicada!
A que acordava mais cedo para acender os círios. A que cantava o ofício divino com a voz mais límpida. A que jejuava até desmaiar, porque acreditava que a fome purificava.
Sua beleza era notada por todos -- uma beleza pálida, de cabelos castanhos claros e olhos cor de âmbar, como o incenso queimando.
...Por isso a chamavam de Celeste d'Âmbre: celestial e resinosa, perfume de altar.
Aos vinte e dois anos, na véspera de seus votos perpétuos, Celeste recebeu permissão para visitar a mãe doente.
Era uma noite de novembro.
...Ela saiu do convento com o véu negro sobre o rosto, o terço nas mãos, o hábito imaculado.
Ela nunca chegou à casa da mãe.
Três homens a interceptaram no Beco das Gárgulas.
...Não queriam dinheiro -- ela era uma freira, não tinha nada. Queriam o que ela guardava sob o hábito. Queriam macular o que era sagrado. Queriam ouvir uma noviça rezar enquanto pecavam sobre el!.
...Celeste rezou!
Rezou enquanto era arrastada para o chão. Rezou enquanto suas vestes eram rasgadas. Rezou enquanto sua carne era violada, enquanto sua boca era tapada, enquanto suas lágrimas molhavam o paralelepípedo.
...Rezou até perder a voz.!
...Rezou até perder a consciência!
Quando acordou, estava sozinha. O véu rasgado ao lado. O terço quebrado, as contas espalhadas como gotas de sangue seco. Algo dentro dela também estava quebrado -- mas não era a fé.
...Era a sanidade!
Celeste voltou ao convento. Não contou a ninguém. Mas as outras freiras notaram a mudança. Ela já não cantava. Ela já não jejuava. Ela passava as noites na capela, ajoelhada diante do crucifixo, mas seus olhos já não se fechavam em prece -- eles fitavam a imagem de Cristo como se esperassem uma resposta.
A resposta veio na terceira noite.
'Eles não se arrependeram, rezara uma voz dentro dela. 'Eles não pedirão perdão'.
O perdão é meu para dar -e eu o dou a você.
Vá!
..Pune.!
...'E será como se eu mesmo punisse!.'
Celeste d'Âmbre morreu naquela noite.
O que nasceu em seu lugar não era mais uma noviça. Não era mais uma mulher.
Era algo entre a santa e o espectro, entre a mártir e a algoz.
Ela rasgou o hábito e o costurou de novo, agora justo ao corpo, negro como breu, com uma gola clerical manchada de fuligem. Sobre o rosto, um véu de viúva italiana de renda negra espessa, sob o qual brilha levemente uma estrutura óssea -- não uma máscara, mas os ossos de seu próprio rosto, visíveis através de uma pele que parece ter se tornado translúcida.
...Ela se tornou A Abadessa Fantasma!
Ela nunca foi ordenada abadessa.
...Mas o título lhe cabe.!
Ela é a superiora de sua própria ordem: a ordem do prazer na dor, da justiça que não redime, da punição que não salva.
Ela reza antes de cada ato -- uma Ave-Maria invertida, uma ladainha que só ela conhece -- e depois pune!
Seu trauma é o toque. Não suporta ser tocada.
Quem encosta em sua pele sente um frio sepulcral, e ela recua como se tivesse sido queimada.
...Sua loucura é a certeza: ela acredita que Deus a escolheu!
Acredita que cada agressor que ela castiga é uma alma que ela está purgando. Acredita que o véu sobre seu rosto esconde não cicatrizes, mas uma santidade tão terrível que enlouqueceria quem a visse.
Ela não mata.
Ela faz pior: ela faz o agressor sentir o que ela sentiu. A humilhação. A vulnerabilidade. O terror de estar nas mãos de alguém que não tem piedade. Depois, ela os abandona nos becos de Lamento, vivos, mas quebrados -- com um terço de contas negras enrolado nos pulsos e uma única palavra sussurrada ao ouvido:
...'Reze.'
Seu símbolo é uma cruz latina que na metade inferior se transforma em uma adaga, com uma gota de sangue esmaltada na ponta da lâmina.
...'A cruz da fé.'.
A adaga da punição. O sangue do crime que nunca será esquecido.
'Em Lamento, o perdão não existe. Existe apenas a Abadessa Fantasma, ajoelhada sobre seu peito, perguntando a Deus se você merece uma segunda chance.
...E Deus, ao que parece, sempre responde: não!'.
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● A Rubro gélida
O nome dela era Valquíria Haas.
Valquíria nasceu no distrito industrial de Lamento, filha de um operário alemão e de uma lavadeira brasileira.
O pai trabalhava nas caldeiras das Indústrias Eisenkalt; a mãe lavava os uniformes manchados de graxa dos funcionários.
Crescera,entre o chiado do vapor e o cheiro de soda cáustica.
Aos sete anos, já sabia a diferença entre ácido sulfúrico e ácido clorídrico pelo cheiro.
Aos quinze, montou seu primeiro laboratório no porão de casa.
Aos vinte e três, formou-se em engenharia química com uma tese sobre polímeros criogênicos -- plásticos que não se rompem sob frio extremo.
As Indústrias Kryos a contrataram imediatamente.
A Kryos era uma fábrica de refrigeração industrial. Produzia serpentinas, compressores e líquidos refrigerantes.
O dono chamava-se Otto Krause, um homem gordo e corado, que sorria muito e pagava pouco.
Ele chamava os funcionários de 'família'. ...Valquíria aprendeu rápido que, na boca de Otto Krause, 'família'significava 'gado'.
...O acidente aconteceu numa terça-feira!
Um dos tanques de nitrogênio líquido rompeu a válvula de segurança. Valquíria estava perto demais.
O jato criogênico atingiu seu braço esquerdo, seu ombro, parte do pescoço e do rosto.
...A temperatura caiu para duzentos graus negativos em um segundo. Sua pele congelou instantaneamente. Quando a tiraram dali, seu lado esquerdo parecia vidro fosco.
...Ela sobreviveu!
. ..Mas a pele perdeu a sensibilidade.
Para sempre!
O acordo oferecido por Otto Krause era uma miséria: trinta por cento do valor do seguro. Ele embolsaria os outros setenta -- e ainda cobraria da empresa uma taxa de 'risco administrativo'.
...Não era a primeira vez!
Valquíria descobriu os arquivos!
Dezoito funcionários acidentados. Dezoito acordos de trinta por cento. Dezoito vidas mutiladas para que Otto Krause comprasse seu terceiro carro, sua casa de veraneio, seu iate ancorado no Rio Lethes.
...Ela não aceitou o acordo!
Ela preparou uma solução.
Durante três meses, Valquíria trabalhou silenciosamente. Catalogou cada produto químico da fábrica. Estudou cada composto. E numa noite de inverno, quando Otto Krause saía de seu escritório, ela o recebeu com um sorriso e um borrifador.
O composto era simples: água, gelo seco e um polímero criogênico de sua própria invenção. Quando a névoa tocou o rosto de Otto Krause, sua pele congelou em dois segundos.
...Ele gritou !-- mas já não sentia os lábios. Caiu de joelhos. Valquíria se aproximou e sussurrou:
— Trinta por cento!
...O resto é meu!
Ela poderia tê-lo matado.
...Mas descobriu que preferia vê-lo sofrer!
Otto Krause sobreviveu. Ficou com o rosto paralisado, sem expressão, sem tato. Todas as suas contas foram expostas.
Ele perdeu a fábrica, os carros, o iate.
...Mas Valquíria já não se importava com justiça.
Ela havia descoberto algo dentro de si.
...'Algo frio'!
Ela perdeu a sensibilidade da pele, mas ganhou outra coisa: a clareza gélida de quem já não sente dor. E percebeu que o mundo estava cheio de Otto Krauses.
Patrões que exploravam. Maridos que batiam. Agiotas que sufocavam. Pessoas que usavam outras pessoas como degraus.
...Ela decidiu que todos pagariam!
Hoje, Valquíria Haas veste um sobretudo longo de lã negra com gola alta rígida estilo militar-vitoriano.
Sua máscara é uma placa de gelo que cobre o rosto, com rachaduras internas que brilham em vermelho pulsante como veias de sangue congelado.
Seus lábios expostos são pálidos, azulados, e exalam vapor frio constantemente.
...Ela se tornou Rubro Gélida!
Seu método é químico e poético.
Ela desenvolveu cápsulas criogênicas, sprays de paralisia térmica, bombas de névoa congelante. Suas vítimas não morrem --elas sentem o frio entrando nos ossos, a pele adormecendo, o corpo deixando de responder.
Ela as imobiliza e as obriga a olhar em seus olhos.
A última coisa que elas veem é o vapor rubro saindo de seus lábios.
A última coisa que sentem é a pergunta que ela sempre faz, com uma voz tão fria quanto o nitrogênio que destruiu sua pele:
—... Você sente isso?
E se a resposta não a agradar, ela abaixa a máscara de gelo e mostra o rosto que perdeu a sensibilidade --mas não perdeu a fúria.
Seu símbolo é um coração anatômico estilizado sendo perfurado por um estalactite de gelo, com uma gota de sangue na ponta.
O coração da vida.!
...O gelo da morte!
A gota que nunca cai -- mas também nunca seca.
Em Lamento, o frio não vem somente do inverno.Vem dela também!E quando o vapor rubro sobe dos becos, os culpados sabem: a química que perdeu o tato está sentindo o cheiro do medo deles. E ela nunca erra a fórmula.'
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O que difere a Heroína das Vilãs ?
As Vilãs fazem pelo prazer de ferir , e nem querem saber ao certo, se suas vítimas são totalmente culpadas!
...Saem à noite para caçar emoções, e não justiça, propriamente dita !
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By Santidarko
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