PRÓLOGO: A cidade onde os heróis não nascem
Uma cidade que contém cinco supervilões:Cicatriz Vigília,Reverendo Púrpura,O Terceiro Crânio,O Dobrador de Vértebras e o Serrátula.
NENHUM HERÓI!
Calígine não é uma cidade que merece salvadores. É uma cidade que os perdeu no próprio parto.
Geograficamente, ela ocupa uma depressão estreita entre montanhas de calcário negro, um vale que os antigos chamavam de Garganta do Luto.
As nuvens nunca se dissipam -- são um teto perpétuo, cor de chumbo enferrujado, que abafa qualquer estrela.
A chuva não cai; ela permanece, uma garoa gorda que lustra paralelepípedos e gárgulas com a paciência dos séculos.
O sol, quando muito, aparece como uma nódoa pálida atrás da névoa, por volta do meio-dia, e desiste quinze minutos depois.
Calígine é gótica por vocação: suas ruas imitam naves de catedral, seus prédios têm arcobotantes que sustentam nada além de sombra, e a Catedral de São Lázaro Apóstata — hoje um cadáver de pedra e vitrais estilhaçados — ainda se ergue no centro exato, como um coração que parou, mas não foi enterrado.
O governo federal conhece Calígine. Conhece e teme. Em 1987, quando os primeiros surtos psicóticos em massa começaram a ser documentados — o chamado Quebranto —, Brasília enviou três pelotões especiais. Nenhum voltou intacto. Os soldados retornaram com as pupilas dilatadas, as bocas secas, repetindo frases que não eram deles.
Desde então, um cordão sanitário isola a cidade. Oficialmente, para 'conter o risco biopsicossocial' . Na prática, para que o resto do país possa fingir que Calígine não existe.
Há barreiras nas estradas, postos de controle abandonados e um acordo tácito: ninguém entra, ninguém sai, ninguém pergunta. Nas reuniões ministeriais, Calígine é tratada como 'a Assombrada' ,uma mancha nos mapas que os cartógrafos atualizam de olhos fechados.
E ali, nesse esquecimento calculado, os Cinco Apóstatas fizeram seu ninho. Instalaram-se nas ruínas da catedral e começaram a pregar um evangelho de feridas sobre uma população exausta.
Não há heróis que os enfrente.
Nunca houve!
As agências de vigilância meta-humana do continente monitoram Calígine à distância, com satélites que perfuram a névoa, mas nenhum heroi pôs os pés na cidade. Os que tentaram, dizem os boatos, sentiram algo errado na atmosfera — não apenas a umidade, mas uma densidade psíquica, uma sensação de que a cidade não quer ser salva. ...Ou de que a cidade consome qualquer luz que se atreva a brilhar dentro dela.
Por isso, Calígine depende de homens que não têm poderes. De homens que rangem os sapatos e carregam 'revólveres ineficazes'.
O inspetor Martim Salgado é o rosto mais teimoso dessa resistência. Há outros, é verdade: o sargento Teodoro Vaz, que perdeu a audição de um ouvido num confronto com o Reverendo Púrpura e, agora, se comunica por bilhetes; a detetive Olímpia Cruces, que estuda o Terceiro Crânio há cinco anos e, já não dorme sem uma luz acesa; o legista Inácio Furtado, que cataloga as lesões do Dobrador de Vértebras como quem decifra um alfabeto proibido.
Nenhum deles é herói. São apenas pessoas que decidiram que, enquanto o herói não vem — ou se jamais vier —, alguém precisa estar de plantão na madrugada.
Mas há uma pergunta que ninguém ousa formular em voz alta: o herói realmente não existe? Ou existe ,e se recusa a agir?
O velho padre que enlouqueceu nas catacumbas escreveu sobre o Lume Inverso — uma entidade que nasceria em Calígine com o poder de absorver a dor e a ruína, mas que 'não quer brilhar'.
Seus escritos, trancados no arquivo municipal, sugerem que o herói já caminha entre as vielas, oculto em sua recusa. Salgado leu esses papéis. E cada vez que toca uma vítima e sente o arrepio da memória alheia penetrar seus dedos, ele se pergunta se o Lume Inverso não está exatamente onde ninguém procura: escondido dentro de um homem comum, que já perdeu tudo e tem medo de perder o pouco que lhe resta — a si mesmo.
Enquanto isso, a cidade apodrece sob a garoa. 'Os Cinco continuam suas missas'.
...E o governo, atrás de suas barreiras, reza baixinho para que Calígine continue esquecida, para que o Quebranto nunca salte o cordão, para que nenhum herói jamais apareça — porque um herói, afinal, seria a prova de que Calígine merecia ser salva, e isso ninguém quer admitir.
Esta é a história do homem que poderia ter sido o salvador e escolheu ser apenas um detetive. E dos cinco monstros que dominam uma cidade, mas se podrm dominar o mundo.
A da cidade sem estrelas, onde a única luz que resta é a que se nega a acender.
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Uma cidade que têm cinco supervilões, que fazem o que querem;que nem ao menos um herói,ainda não surgira para contradizê-los---- por ainda não existir, ou quem sabe, por ainda ser criança!
Quem saberá?
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Os Filhos do Apóstata
A cidade onde Deus fechou os olhos
'Chovia sobre Calígine...parecia trezentos e doze dias'.
...Não a chuva lavadeira que os forasteiros imaginam, mas uma garoa gorda, pétrea, que não limpa — lustra.
Lustra o calcário negro das gárgulas, os paralelepípedos untuosos, o bronze esverdeado dos portões que ninguém mais ousa fechar. Calígine fica num vale que as cartas geográficas chamam de Depressão Luminífera, como se o nome bonito compensasse o fato de que ali, desde 1987, nenhuma estrela foi vista. As nuvens são perpétuas, cor de chumbo enferrujado, e a luz do sol chega coada, exausta, desistindo no meio da tarde.
A cidade é gótica porque nasceu de uma abadia, a Abadia de São Lázaro Apóstata, erguida no século XVII por frades que acreditavam que a escuridão era uma forma de penitência. A catedral, hoje em ruínas propositais, fica exatamente no centro — uma carcaça de vitrais estilhaçados e torres que parecem costelas fósseis.
Ali, ninguém entra.
...Ali, eles moram!
O resto do país chama Calígine de :'a Assombrada'.
Desde que os Cinco tomaram a catedral, o governo federal decretou cordão sanitário, com medo do Quebranto — um surto psicótico que acomete quem tenta invadir a cidade em força militar. Dizem que é um gás, uma maldição, um subproduto das criaturas que ninham sob os arcobotantes. A verdade, Senhor, é mais simples: o medo deles é tão genuíno ,que nenhum herói quis atravessar a névoa.
Nenhum!
A população ficou órfã de salvadores. Sobrou apenas um homem.
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O homem que não dorme
O inspetor Martim Salgado tinha cinquenta e três anos e uma gastrite que o acordava às quatro da manhã. Usava sobretudo cor de ferrugem, sapatos que rangiam e uma cicatriz no supercílio que não era de briga — fora um caco de vidro, na noite em que a mulher morreu, dez anos antes. Ele não bebia. Dizia que álcool era otimismo líquido, e ele já gastara todo o seu.
Salgado era o único policial que ainda patrulhava o centro após o toque de recolher autoimposto. A delegacia tinha outros nomes, mas eram nomes só — homens que batiam o ponto e trancavam as viaturas no pátio, com medo do que caminha depois que a garoa vira neblina.
Ele não os culpava. Culpava a arquitetura: cada viela de Calígine parece uma catedral virada do avesso, com vitrais que em vez de santos mostram ofícios esquecidos — o curtidor, o sineiro, o que verte chumbo. E as gárgulas não cospem água; sussurram.
Foi numa quarta-feira que o Reverendo Púrpura fez a primeira comunhão pública.
Salgado encontrou o corpo de um vereador ajoelhado no átrio da Catedral, com a língua pintada de violeta e um bilhete na mão: 'Acolhe a púrpura da correção, porque já foste pesado e achado em falta.'
O homem estava vivo, mas catatônico, com olhos que tinham virado poços de tinta seca. O reverendo assinava os bilhetes com um carimbo: um púrpura episcopal.
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Os Cinco Apóstatas
Eles não surgiram do nada. Eles sempre estiveram(*nasceram) em Calígine, como cupins numa viga.Mas com superpoderes!
●Cicatriz Vigília é o mais velho. Dizem que foi soldado em uma guerra...de um país que não existe mais, e que um estilhaço lhe abriu o pescoço de lado a lado. A ferida nunca fechou. Ele não dorme — a cicatriz dói se ele fecha os olhos. Daí o nome. A vigília é perpétua. Ele carrega um relógio de bolso sem ponteiros e fala com a voz de quem está sempre no mesmo minuto. Ataca porque quer alguém que o faça dormir de vez, mas exige que seja um herói à altura. Quer um adversário que o mate com honra.
●Reverendo Púrpura foi excomungado por pregar que o pecado original não está na alma, mas na carne — e que a carne deve ser púrpura, a cor dos mártires, a cor da realeza, a cor da correção. Ele usa uma estola desbotada que um dia foi roxa e hoje é quase negra. Com um toque das mãos, faz a pele alheia adquirir uma contusão arroxeada que se espalha como mapa. Sua missão é 'pintar a cidade de roxo', tornando cada habitante consciente de sua mácula. Ataca porque acredita que Calígine é a Jerusalém do pecado, e que nenhum messias virá a não ser que o pecado fique visível na epiderme.
●O Terceiro Crânio não é uma pessoa, mas três que partilham o mesmo esqueleto. A máscara que ele usa tem duas faces sobrepostas, mas quando se move rápido, uma terceira face parece surgir na zona entre elas — uma ilusão que provoca vertigem. Ele não fala; as três vozes discutem entre si em cochichos. Ataca para anular o Eu dos outros, fundindo identidades. Crê que a cidade está condenada porque tem personalidade demais e caráter de menos. Quer reduzir Calígine a uma única criatura coletiva.
●O Dobrador de Vértebras foi quiropraxista do teatro municipal. Conhecia cada osso, cada articulação, cada sílaba do corpo. Quando o teatro fechou e os atores fugiram da cidade, ele ficou torcendo manequins no escuro. Descobriu que podia realinhar a coluna de um homem de tal forma que a vítima desmaiava em êxtase — ou acordava sentindo-se outra pessoa. Seus dedos compridos não quebram; 'convencem'os ossos a mudarem de lugar. Ele ataca porque quer 'corrigir a postura moral' da cidade. Diz que Calígine vive curvada de medo, e que só uma nova coluna vertebral pode erguê-la.
●Serrátula é o mais silencioso. Seu nome vem de uma planta amarga e de uma serra denteada. Ele usa lâminas curvas nos antebraços, mas nunca corta carne; corta correntes, cadeados, algemas, dobradiças. É o libertador das prisões — mas liberta os presos sem dar-lhes rumo, para que vaguem como almas penadas. Ataca porque odeia a arquitetura fechada, os muros, as portas. Quer transformar a cidade numa ruína aberta, onde não haja esconderijo possível, nem para o bem nem para o mal.
Os Cinco se instalaram na Catedral de São Lázaro Apóstata. Restauraram um altar profano, alimentaram-se do cheiro de incenso apodrecido, e de lá começaram a pregar seu evangelho de feridas.
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A chama que se nega
Salgado descobriu a relação entre eles nas catacumbas do arquivo municipal, onde um velho padre, antes de enlouquecer, rabiscara um mapa astrológico da cidade. No centro, a Catedral; em volta, cinco chagas: o Mercado de Ossos (onde Cicatriz Vigília faz a ronda), o Asilo dos Artistas (onde o Dobrador de Vértebras, ora ou outra, fica no palco por saudades ou algum outro motivodesconhecido), a Fonte dos Césares Mortos (onde o Reverendo Púrpura 'batiza suas vítimas'), o Pátio das Faces (domínio do Terceiro Crânio) e a Praça das Argolas Partidas (onde Serrátula celebra a abertura).
O padre anotara na margem: 'Quando os Cinco Apóstatas se sentarem nos cinco bancos do coro, nascerá aquele que não quer nascer'. O Lume Inverso. O herói que é o avesso do herói, porque carrega o dom de refletir a ruína. E ele dirá: ‘Não quero brilhar’. ...E a cidade ficará sem estrelas para sempre.'
Salgado leu o trecho catorze vezes.
Depois fechou o livro, acendeu um cigarro que não fumou, e olhou para as próprias mãos. Ele sabia. Sempre soubera.
Dez anos antes, quando sua mulher morreu esmagada por uma marquise que desabou na Rua dos Ourives, algo se partiu dentro de Martim Salgado — e algo despertou. Naquela noite, ao tocar o corpo de Helena, ele viu toda a dor dela passar para seus dedos como uma corrente elétrica. A marquise não matara só ela; matara um pedaço da rua, e Salgado sentiu a rua toda.
Depois vomitou cinzas. Depois dormiu três dias. Quando acordou, o médico disse: 'O senhor teve um colapso nervoso, inspetor'. Ele nunca contou a ninguém que podia absorver a memória da dor de qualquer coisa que tocasse — pessoas, objetos, paredes. Era uma empatia às avessas: em vez de compreender o sofrimento, ele o sorbia para dentro de si. Isso o tornaria um herói? Não, tornava-o uma lâmpada que queima com o azeite dos outros. E ele decidiu, naquela madrugada de insônia, que nunca usaria aquilo. Porque cada vez que o usasse, perderia mais um pedaço de si.
Parte do Lume Inverso existia. Mas recusava-se a acender.
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Por que os supervilões não o matam?
Na véspera do solstício de inverno — se é que se pode chamar de véspera numa cidade sem estações distinguíveis — os Cinco emitiram uma proclamação. Iriam realizar a 'Missa da Coluna Partida'.
Convocaram toda a população a comparecer diante da Catedral, sob pena de o Quebranto se alastrar até o último beco. O governo federal reforçou o cordão, com medo de que a loucura vazasse.
Calígine ficou sozinha.
Como sempre!
Salgado foi o único a vestir o coldre. Pegou o revólver que guardava na gaveta — só o peso já confortava — e caminhou até a Catedral.
A chuva parou naquela noite, pela primeira vez em meses. O silêncio era pior.
Na praça diante da igreja, os cinco estavam dispostos nos bancos do coro, arrastados para fora. Cicatriz Vigília segurava o relógio sem ponteiros. Reverendo Púrpura erguia um cálice com tinta violeta. O Terceiro Crânio rodopiava a máscara sobre o rosto, mudando de face a cada instante. O Dobrador de Vértebras dedilhava as vértebras de um manequim. Serrátula serrava calmamente os elos de uma corrente que envolvia o altar-mor.
E no meio, um lugar vazio. O lugar do herói.
— Você veio, inspetor , murmurou Cicatriz Vigília. A voz saía pelo ferimento no pescoço, não pela boca.
— Sabíamos que estava na cidade.
Sabíamos que pricura, ainda,o Lume Inverso.
— Nuncs matei ninguém ,respondera Salgado.
— Vocês é que se matam todos os dias, respondera indignado!
— Mas matá-los... é a única cura , gemeu !
Salgado olhou para os cinco rostos deformados, para as chagas, as tintas, as lâminas, e sentiu o odor adocicado do incenso apodrecido. Calígine tinha de pior, e cansaram de existir. Mas não podiam simplesmente cessar; precisavam de um espelho que os devorasse.
Ele, Martim Salgado, era o espelho. O homem que absorvia a dor.
— E se eu disser que não aceito? Que não quero ser o carrasco nem o salvador?
— TANTO FAZ, cidade é nossa! , sussurraram as três bocas do Terceiro Crânio.
— E você morrerás como o homem que podia ter a salvado, e não a salvou. Porque simplesmente, não pode!
Da população convocada, ainda não havia ninguém. Ainda era cedo.
A fachada da Catedral de São Lázaro Apóstata sob a garoa noturna, por si, já era amedrontadora; com cinco supervilões à noite,
ATERRADOR!
...As gárgulas parecem vivas. 'A única luz segura' vinha de uma viatura solitária, estacionada torta na praça vazia.
O silêncio durou três batidas de coração. ...Então Salgado fez algo que não planejara.
Virou de costas e fora embora!
TODOS OS SUPERVILÕES RIRAM!
....Mas nenhum ,o atacou!
A população começará a chegar na praça.
Os supervilões estavam em cima de um palco em frente à igreja, como astros do rock.
FIM.
By Santidarko
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