Principaia acontecimentos:
A Sinhá-Máquina,A Epidemia da Melancolia (1888),O Carnaval Estatal
Premissa histórica divergente:
O Brasil Império, após um golpe tecnocrático silencioso, abandona a monarquia rural e abraça um projeto de industrialização forçada e distorcida. A Corte, aliada aos barões do café e a inventores renegados, transforma o país num vasto laboratório de progresso brutal.
O vapor, o aço e o chicote fundem-se numa única engrenagem de opressão elegantemente perversa.
...O Rio de Janeiro torna-se uma cidade-Estado murada, e o resto do país, um território de extração de corpos e recursos.
Introdução:
Em 1840, o Brasil Império ainda era uma monarquia rural. As fazendas de café escravistas dominavam a economia. O Rio de Janeiro era uma capital de sobrados coloniais e ruas de terra.
A Corte portuguesa, instalada desde 1808, mantinha a pompa europeia, mas o país era uma colônia disfarçada de reino.
...Foi quando surgiram eles!
Não foram muitos!
Talvez uma dúzia. Eram inventores renegados, expulsos das academias europeias por heresias científicas ou simplesmente ignorados por um mundo que não estava pronto para suas máquinas. Chegaram ao Brasil com plantas de engenhocas impossíveis e a certeza de que, num país atrasado, encontrariam a liberdade que a Europa lhes negara.
Enganaram-se, ou foram eles que enganaram!
O primeiro foi um químico prussiano, expulso de Berlim por propor que a energia vital humana podia ser medida, extraída e convertida em força motriz. Chamava-se Alarico von Trake -- nome que a Corte abrasileirou para Alarico Caldeira.
Ele apresentou ao Imperador uma invenção que chamou de Caldeira Anímica: um tonel de cobre e ferro que, segundo ele, fervia água não com carvão, mas com o calor do Sol.
O Imperador riu!
...Mas os barões do café, não!
O segundo foi uma engenheira francesa que se fazia passar por viúva de um conde inexistente. Chamava-se a si mesma de Condessa de Bruma, e sua invenção era um sistema de tubos acústicos que capturava os passos dos cidadãos nas praças, e convertia em energia para alimentar teares.
A Corte, que sempre precisou de mão de obra para as fábricas ,que começavam a surgir, viu na ideia uma solução elegante.
O terceiro foi um médico português que estudara na Índia e voltara com teorias sobre a substância física -- algo que podia ser coletado, armazenado, destilado e até mesmo vendido. Ele propôs :'Proponho, portanto, a criação de Casas de Transfusão. Estabelecimentos onde escravos selecionados -- de preferência mães que produzem o fluido em maior pureza --sejam conectados aos pacientes por meio de cânulas de prata. O processo é lento, indolor para o receptor, e o resultado é a transferência completa de energia vital!
Um por um, os inventores foram chegando.
...E um por um, foram apoiados!
A Corte percebeu o que aquelas mentes ofereciam: não apenas máquinas, mas um novo sistema de poder.
As invenções permitiam extrair riquezas, não mais apenas da terra ou do trabalho escravo tradicional, mas da própria vida humana -- suas emoções, seus fluidos, seus suspiros.
A escravidão, que já era brutal, tornou-se científica!
Em 1850, o golpe tecnocrático estava completo. O Imperador não foi deposto; fora redesenhado. Tornou-se o primeiro monarca-calibrador, símbolo da fusão entre a Coroa e a nova ordem industrial.
Os inventores ganharam títulos de nobreza, laboratórios, recursos ilimitados. O país foi dividido: o Rio de Janeiro tornou-se uma cidade murada, vitrine do progresso, onde a aristocracia mecânica desfilava suas próteses de bronze e consumia elixires de outros humanos poucos representados por leis de proteção ao indivíduo, ou à vida por direito.
...O resto do território virou zona de extração --de café, de borracha, de corpos!
O vapor move as máquinas.
...Mas o que move o vapor?
O desespero de um país inteiro.
-------
O relógio do Largo do Paço marcava trezentos e doze anos para a Abolição.
Fora projetado pelo inventor-mor Alarico Caldeira e presenteado ao Imperador como símbolo do progresso. Seus ponteiros eram de bronze; seu mostrador, de osso humano moído e prensado -- ossos de escravos, como tudo no Império.
A contagem regressiva era uma piada cruel: a cada ano que passava, um decreto imperial resetava o mecanismo, adiando a libertação para um futuro que jamais chegaria.
...Dorian Fadário odiava aquele relógio!
Sua oficina ficava na Rua do Cano, a poucos quarteirões do Largo. Ele era relojoeiro -- o último relojoeiro do Rio de Janeiro murado. Os outros tinham sido arruinados pelas invenções de Caldeira.
...Mas Dorian não consertava relógios comuns. 'Consertava destinos'.
...Ou assim dizia a placa sobre sua porta, gravada em madeira queimada: Consertam-se sinas.
Poucos entendiam.
...Menos ainda acreditavam!
Naquela tarde de fevereiro de 1888, alguém entrou e não perguntou o preço!
Ela veio com o ruído de saltos de ferro sobre o assoalho de tábuas. A Sinhá-Máquina -- nome que a Corte lhe dera ,e que ela própria adotara com orgulho.
Não era um autômato; era uma mulher de carne e osso ,que voluntariamente se cobrira de próteses mecânicas.
...Começara com uma mão, após um acidente na caldeira de seu engenho. Depois um braço inteiro, articulado com pistões e engrenagens. Depois as pernas, trocadas por estruturas de bronze que a faziam mais alta e mais lenta, como uma garça metálica. Seu rosto ainda era humano, mas coberto por uma máscara de porcelana pintada -- lábios rubros, olhos azuis, expressão doce e fixa.
...Por trás da máscara, ninguém sabia o que restava!
— Senhor Fadário ,dissera ela, e a voz ainda era de mulher, mas saía por uma pequena grade de cobre instalada na garganta, obra do médico-inventor português que estudara as glândulas lacrimais na Índia.
— Preciso de um relógio!
— Todos precisam, Excelência!
—' Um relógio que me mostre quando serei feliz de novo'!
Dorian apoiou as mãos enrugadas sobre o balcão. Tinha cinquenta anos, mas parecia oitenta. O ar da cidade envelhecia os homens mais rápido que o tempo.
— A felicidade não se mede em horas!
— Mas a tristeza, sim., ela abriu a mão de bronze. Na palma, um frasco com um líquido escuro.
— Leite materno. Fermentado com a tristeza de uma escrava que perdeu o filho!Foi o que me venderam como elixir rejuvenescedor. Agora estou envenenada. Todas as damas da Corte estão!
-(*A Epidemia de Melancolia.)
...Dorian ouvira falar!
Nas últimas semanas, senhoras da aristocracia vinham caindo em depressões profundas e súbitas.
Algumas se matavam. Outras simplesmente paravam de falar, de comer, de existir.
A origem era um segredo mal guardado: os cosméticos e elixires que o médico-inventor produzira estavam contaminados com o desespero das escravas das quais extraía as matérias-primas. A tristeza, ao contrário do que ele pregava, não era uma substância inerte que se podia refinar.
Era viva!
...E agora devorava quem a consumia!
— Quero um relógio que me diga quando essa melancolia vai passar ,continuara ela.
— Se é que vai!
— Vai custar caro!
—... O que o senhor quiser!
— Não quero dinheiro. Quero que a senhora me leve ao Carnaval Estatal.
A máscara de porcelana não podia mudar de expressão, mas a cabeça dela moveu-se bruscamente.
— O senhor? Um relojoeiro da Rua do Cano? No baile da Corte?
— Quero ver como os inventores comemoram suas vitórias.
-----
Antes de construir o relógio, Dorian precisava de matéria-prima. E para isso, foi ao cais.
A Baía de Guanabara era uma chaga escura sob a lua. As águas, que nos tempos do Brasil colônia eram azuis e cheias de peixes, agora tinham a cor de chumbo derretido. O cheiro era uma mistura de salmoura, óleo queimado e algo doce -- flores apodrecendo.
Caspian Turvo estava em seu barco.
'Era pescador'!
Com um arpão de prata, recolhia na superfície oleosa da baía ,as inúmeros restos de metal ou engrenagens.
O céu do Rio de Janeiro estava coberto por uma névoa perpétua desde que os inventores instalaram suas caldeiras anímicas --uma fumaça espessa que os óculos solares de magnésio, distribuídos pelo governo, tentavam em vão compensar.
— Caspian!
O pescador levantou-se. Era um homem magro, de pele escura como a noite sem estrelas. Fora escravo até os trinta anos, depois alforriado, depois preso por dívidas e forçado a trabalhar nos engenhos de alma de Alarico Caldeira. Fugira e agora vivia à margem, recolhendo restos de 'coisas desperdiçadas' para vender... a quisesse!
— Relojoeiro ,dissera ele.
— O que quer?
— Uma metal bonito. Preciso de uma peça bonita ou estranha!
— O que tenho são sobras de máquina ou de experimentos!
— Serve!
Caspian remexeu um cesto e tirou um frasco de vidro grosso. Dentro, uma minúscula luz azul pulsava como um coração agonizante.
—' É o reflexo da estrela-d'alva!'
— Quanto?
— Nada!
—...Mas me diga: para que serve?
— Para iluminar o destino de uma mulher que não sabe quem é!
Caspian cuspiu na água. O cuspe flutuou um segundo e depois foi engolido por algo que se moveu sob a superfície -- os peixes mutantes que o médico-inventor criara para se alimentarem dos corpos que a maré trazia.
— A Sinhá-Máquina. Ouvi falar. Ela veio até você?
— Veio!
— Então está mais doente do que pensam! Procurar um relojoeiro de sinas é o último ato antes do fim,, ele fez uma pausa!
— Sabe o que dizem dela? Que trocou as pernas para não sentir mais o chão onde pisava. Os braços para não precisar tocar em mais ninguém. A garganta de cobre para não ter que engolir as próprias palavras. E a máscara... a máscara para não ver o próprio rosto no espelho.
—... Talvez!
— Não talvez.!É o que acontece quando se bebe o leite da própria mãe morta e não se sabe.
Dorian guardou o frasco.
— Adeus, Caspian!
— 'Até o próximo funeral'!
------
A Biblioteca dos Nomes Perdidos ficava no subsolo do Largo do Pelourinho.
Fora construída por ordem do Imperador em 1860, como parte do projeto de modernização do país. Não era uma biblioteca de livros, mas de identidades confiscadas.
Quando os navios negreiros chegavam -- pois o tráfico continuava, apesar das leis inglesas, apesar dos tratados, apesar de tudo --os nomes africanos dos cativos eram registrados em fichas e depois queimados em fornos simbólicos.
As cinzas eram guardadas em frascos etiquetados. O que não queimava -- os sons, as memórias, as maldições -- ficava impregnado na poeira que cobria as estantes.
Valentim Vulto era o guardião dessa poeira.
Fora um dos inventores originais.
... Chegara ao Brasil em 1845, com uma teoria sobre a leitura tátil da matéria: a poeira, dizia, retinha as emoções de quem a produzira. Passando os dedos sobre uma superfície empoeirada, um homem treinado poderia sentir o que as pessoas que ali passaram sentiram. A Corte rira dele, mas o Imperador, curioso, dera-lhe um cargo: curador da Biblioteca dos Nomes Perdidos.
Um cargo que era também uma prisão!
Valentim passara vinte anos respirando aquela poeira. Ficara cego, mas suas mãos liam o passado como ninguém.
— Relojoeiro , disse ele, sem se virar, quando Dorian desceu as escadas.
— Você cheira a óleo de baleia, cinzas de estrelas e remorso.
—O que quer?
— Um nome. E um diagnóstico!
— ...Para a Sinhá-Máquina!
— Como sabe?
— A poeira me conta tudo. Ela esteve aqui ontem, embora não tenha descido. Ficou parada na porta do Largo, olhando para o chão como se pudesse ver através da terra. Não teve coragem de entrar. Mandou você no lugar dela,Valentim passou os dedos sobre uma prateleira, tocando as camadas de pó.
— ...O nome dela é Oyá Tundê!
— O nome da mãe?
— Não!
—O nome dela. A mãe era Oyá Tundê também. Era assim que funcionava: o nome passava de mãe para filha. A mãe morreu num engenho de alma, ordenhada até a última gota de leite--e a última lágrima.
A filha foi levada para a Casa Grande, batizada como Isadora, criada como dama. Casou-se com o filho do senhor. Virou sinhazinha. Depois, quando o marido morreu num acidente de caldeira, ela herdou tudo.
...E para lidar com a culpa, começou a trocar as partes do corpo. Como se o bronze pudesse apagar o sangue.
— E o diagnóstico?
— Ela está bebendo a própria história. O leite materno que os cosméticos usam veio de uma escrava que era irmã de leite dela. Filha da mesma mãe, criada na senzala enquanto ela era criada na Casa Grande. A tristeza que a está matando não é uma doença. É uma herança. Um acerto de contas!
— Tem cura?
— Só se ela descer aqui e tocar a poeira com as próprias mãos. Mas ela não vai. É mais fácil usar máscara.
---
O Carnaval foi idealizado pelo inventor Alarico Caldeira em 1870. Sua teoria era simples: um povo completamente oprimido acumula uma pressão que, mais cedo ou mais tarde, explode!
... A solução era uma válvula de escape controlada. Uma vez por ano, o Império permitia três dias de festa.
...Mas não uma festa qualquer!
As fantasias eram distribuídas gratuitamente pelo governo. Vinham embebidas numa solução química desenvolvida pela Condessa de Bruma, a engenheira francesa. Quando o calor do corpo ativava a substância, ela liberava um vapor que induzia euforia artificial.
As pessoas dançavam sem saber por quê. Riam sem motivo. Gritavam palavras de ordem a favor do Imperador sem nunca as terem pensado.
O baile principal acontecia no Teatro Lírico dos Suplícios, um edifício de ferro e vidro construído sobre o antigo Pelourinho.
A orquestra era composta por músicos escravos, treinados para tocar uma sinfonia de sons industriais: o ranger de engrenagens, o apito das caldeiras, o estalar de chicotes -- tudo coreografado como música.
Na noite de 12 de fevereiro de 1888, o teatro estava lotado!
Dorian Fadário entrou escoltado pela Sinhá-Máquina. Ela usava seu vestido mais luxuoso -- seda púrpura com fios de cobre bordados. Sua máscara de porcelana brilhava. Seus braços e pernas de bronze tilintavam a cada passo.
— Ainda não me entregou o relógio , questionara ela!
— Entregarei à meia-noite. Antes,... quero que a senhora veja uma coisa!
Ele apontou para o centro do salão.
Ali, numa jaula de vidro, estava Ondina Lacustre.
Ela não era uma invenção. Não era um autômato. Era uma mulher de verdade, mas de um tipo que o Império considerava mais valioso que qualquer máquina.
'Tinha a pele translúcida', os cabelos como algas negras, os olhos como poços de água escura.
...Diziam que viera dos lagos do Pantanal, onde seu povo vivia isolado havia séculos.
A Condessa de Bruma a capturara e descobrira seu dom: 'Ondina podia sentir as lágrimas de qualquer pessoa num raio de quilômetros. Podia localizá-las, recolhê-las e, se quisesse, devolvê-las em forma de canto'.
Agora ela estava ali, engaiolada, servindo de atração para o Carnaval.
Os convidados riam dela. Jogavam moedas. Alguns pediam que ela cantasse.
— Ela chora ,dissera Dorian.
— O quê?
— Chora lágrimas que não são dela. São de todos os que choraram nesta cidade e não foram ouvidos!
Os sinos começaram a badalar.
...Onze horas!
Uma hora para a meia-noite.
— O relógio , insistira Sinhá-Máquina.
Dorian tirou-o do casaco. Era pequeno, de bronze escuro, com o mostrador de osso. Dentro, a estrela de Caspian pulsava.
— Antes de abri-lo, Excelência, quero que leia o que está neste frasco.
Ele entregou-lhe o frasco que Valentim lhe dera. O rótulo dizia: Oyá Tundê -- Confiscado em 1847.
...Ela leu!
Suas mãos de bronze tremeram. O frasco caiu no chão e se partiu. As cinzas do nome voaram como uma pequena nuvem escura.
— Este é o meu nome , sussurrara ela!
—... É!
— ...Mas...eu não sou escrava!
— Sua mãe era!
—...E sua irmã de leite ainda é!
—O leite que a senhora bebeu, o elixir que a senhora passou no rosto, tudo veio dela. A tristeza que está matando a senhora é a tristeza da sua própria irmã, chorando a morte da mãe que a senhora nunca soube que tinha.
Os sinos bateram meia-noite!
Lá fora, uma explosão.
...Depois outra.
Gritos.!
Vidros quebrados!
O gás eufórico começou a se dissipar. As pessoas no salão pararam de dançar. Olharam umas para as outras, desorientadas, como sonâmbulos que acordam.
..E Ondina Lacustre levantou-se.
Seus olhos, antes apagados, agora ardiam com uma luz verde. Ela abriu a boca e canto!.
Era um lamento. Mas não um lamento triste. Era um lamento de fúria. Um som que vinha de antes do Brasil, de antes de Portugal, de antes da escravidão. Um som que carregava a dor de todos os nomes perdidos, de todas as lágrimas recolhidas, de todos os filhos arrancados.
...A Sinhá-Máquina caiu de joelhos!
Sua máscara de porcelana rachou. Primeiro uma linha fina, depois uma teia de fissuras. Pedaços começaram a cair, revelando a pele por baixo -- uma pele marcada por cicatrizes, queimaduras, anos de vergonha.
— Abra o relógio , dissera Dorian.
...Ela obedecera com dedos trêmulos!
Dentro, os ponteiros não marcavam horas. Marcavam palavras, gravadas no osso:
A maior alegria: lembrar.
A maior tristeza: ter esquecido.
— A senhora perguntou quando seria feliz de novo. A resposta é: quando lembrar quem é. E acabar com isto!
— Com o quê?
— Com o Carnaval. Com os inventores. Com as caldeiras.
—Com tudo!
...Lá fora, o povo invadia as ruas. Não era mais a euforia química do Carnaval Estatal. Era outra coisa. Algo que o gás não podia fabricar: raiva verdadeira.
Caspian Turvo liderava um grupo de pescadores e ex-escravos. Valentim Vulto, pela primeira vez em vinte anos, saíra da biblioteca subterrânea e caminhava pelas ruas, guiado pela poeira da revolta. Ondina Lacustre cantava, e seu canto derrubava as muralhas de vidro do Teatro.
A Sinhá-Máquina levantou-se!
Seu rosto estava nu agora.
...Não era bonito!
...Mas era humano!
— O que eu faço? , perguntara ela.
— A senhora sabe onde ficam os laboratórios dos inventores. Sabe onde Caldeira guarda suas caldeiras anímicas. Sabe onde a Condessa de Bruma mantém os tubos acústicos que capturam o choro das crianças.
—... Sei!
— Então escolha. Pode continuar sendo a Sinhá-Máquina, dançar até cair e morrer de melancolia como as outras damas. Ou pode ser Oyá Tundê e incendiar tudo!
Ela olhou para suas mãos de bronze. Para as próteses que escolhera usar. Para a máscara quebrada no chão.
— Preciso de fogo , dissera ela.
Dorian entregou-lhe uma caixa de fósforos.
— Eu sou apenas um relojoeiro. O fogo é com a senhora.
Oyá Tundê caminhou para fora do teatro. Seus passos de bronze ecoavam nas pedras. A multidão abriu caminho. Alguém gritou seu nome verdadeiro, e ela se virou. Caspian ergueu seu arpão de prata em saudação.
Ela foi ao laboratório de Alarico Caldeira.
... À torre de coleta de lágrimas da Condessa de Bruma. Aos engenhos de alma onde sua mãe morrera. E em cada um, riscou um fósforo.
...O Rio de Janeiro ardeu naquela noite!
Não a cidade inteira. Apenas as máquinas. As caldeiras. Os tubos. Os frascos de lágrimas engarrafadas. Os elixires envenenados. A Biblioteca dos Nomes Perdidos --o próprio Valentim ateou fogo às prateleiras, e as cinzas dos nomes voaram livres pela primeira vez.
Quando o sol nasceu, o céu ainda estava cinza. Mas era cinza de fumaça, não de fuligem perpétua.
... E a fumaça se dissiparia!
Dorian Fadário fechou sua oficina. Sobre a porta, pregou uma nova placa:
Não se consertam mais sinas.
...Fazem-se novas!
...Mas o poder, nunca deixará uma pequena comemoração estender por muito tempo!
FIM.
By Santidarko
Conceito Brumarismo: desenvolvido por Santidarko.
Bruma ou névoa: vinda da queima excessiva dos produtos químicos ou do' desenvolvimento ' imposto pelos' cientistas '.
Nenhum comentário:
Postar um comentário