segunda-feira, 15 de junho de 2026

Neocibernética poética e simulacrismo de renderização afetiva (*A liberdade tem a mesma substância da cela; porém, há uma emulsão perceptiva àqueles que desejam despertar e já estranham algo no cotidiano ,como se a realidade rangesse suas invisíveis dobradiças de simulacro!

(*imagem by Santidarko)


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Neocibernética poética e simulacrismo de renderização afetiva (*A liberdade tem a mesma substância da cela; porém, há uma emulsão perceptiva àqueles que desejam despertar e já estranham algo no cotidiano ,como se a realidade rangesse  suas invisíveis dobradiças de simulacro!

-Santidarko 

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Havia algo no modo como ele encerrava os dias;que não era exatamente cansaço. 
...Era antes um desacerto silencioso entre o corpo que se deitava e a consciência que permanecia, por um instante, pairando logo acima do colchão -- não como experiência mística, mas como quem fecha um livro e nota, por uma fração de segundo, que a contracapa não combina com a lombada. 

Chamava-se Alex, ou melhor, atendia por esse nome com a mesma naturalidade com que se veste um paletó herdado: serve, aquece, mas há uma costura interna que belisca. Arquiteto de profissão --ironia que só muito mais tarde lhe ocorreria --, passava os dias desenhando espaços que outros habitariam, como se compensasse uma vaga intuição de que o seu próprio espaço nunca estivera inteiramente sob seus pés.

Morava num apartamento de esquina cuja janela principal emoldurava um plátano que, primavera após primavera, brotava com uma exatidão que lhe parecia excessiva. As folhas jamais nasciam em número ímpar nos galhos visíveis do seu campo de visão --e isso ele não contava a ninguém, por saber o ridículo que habita certas observações solitárias.

Tinha trinta e cinco  anos, uma ex-esposa que o considerava 'distraído em um grau quase filosófico',uma filha adolescente que lhe dizia, com a crueldade involuntária da idade, 'você olha pra mim como se estivesse procurando uma legenda, pai'!

....E talvez ,estivesse.!

Talvez sempre estivesse...!

A percepção não chegou como epifania. Não houve um raio, um acidente, um trauma que reorganizasse os móveis da alma. Chegou como chega o mofo em paredes antigas: por acúmulo de umidade silenciosa. 

Primeiro foram pequenas discordâncias entre os sentidos-- uma música que lhe parecia terminar meio compasso antes do que a memória auditiva jurava que deveria durar, o cheiro de café que invadia a cozinha antes que a água tocasse o pó, como se o aroma obedecesse a uma ordem cronológica própria, levemente adiantada em relação à causalidade. 

...Atribuiu tudo à idade, esse álibi que a mente concede ao inexplicável.

Depois vieram as pessoas. Ou melhor, a textura das pessoas. Colegas de trabalho cujas pausas entre as palavras começavam a lhe soar como intervalos processados, carregados de uma espera que não era hesitação humana, mas latência. O riso de um amigo num jantar -- um riso franco, aparentemente espontâneo --que se repetiu, semanas depois, noutra pessoa, noutra mesa, noutra cidade, com a exata mesma curva de intensidade e declínio, como uma amostra de áudio reutilizada por economia de repertório. 

Alex anotou isso mentalmente e, arquivou na gaveta das coisas que preferia não pensar.

Mas a gaveta, como todas as gavetas, tem fundo. E o fundo foi alcançado numa manhã insossa de novembro, quando, ao amarrar os sapatos, percebeu que o nó que seus dedos executavam -- aquele gesto automático, ancestral, ensinado pelo pai ---não era exatamente um nó.

 ...Era a simulação muscular de um nó. 

Ele o sentia ser amarrado, mas a sensação tátil vinha depois, microssegundos depois, como se a informação precisasse ser traduzida de um código para outro antes de chegar à sua percepção. Ficou parado, com os cadarços nas mãos, experimentando aquela assincronia ínfima. 

Ninguém notaria!

... Nem ele notaria, se já não estivesse, havia meses, treinando inconscientemente a sensibilidade para o que não encaixava.

Alex não era um homem de metafísicas. Acreditava em projetos bem-executados, em cálculos estruturais, na honestidade dos materiais. Mas ali, de cócoras, com os sapatos desamarrados e o dia útil a chamá-lo do lado de fora da porta, compreendeu que algo no projeto da realidade --no seu projeto de realidade-- tinha uma fissura!

 Não era o mundo que estava errado. Era a sua percepção dele que, por alguma razão, recebia o sinal com um eco adiantado. Como se, entre ele e a emulsão que o envolvia, houvesse um fio solto. E esse fio solto, ele não sabia ainda, era ao mesmo tempo sua maldição e sua única posse verdadeira.


Há um instante, quase sempre à tarde, em que a luz parece chegar antes do som que a deveria anunciar. Não é um descompasso grosseiro, desses que o intelecto prontamente classifica como cansaço ou ilusão sensorial. É antes uma microfissura na membrana do consecutivo: a chaleira começa a apitar um segundo antes de a água ferver, a maçaneta cede sob a mão antes que os dedos a alcancem por completo, o eco da própria voz retorna ligeiramente adiantado, como se respondesse a uma pergunta que ainda não foi formulada. 


...A princípio, o prisioneiro atribui esses episódios à distração, esse cesto de lixo onde a mente deposita o que não sabe catalogar.

Mas há um limiar. E esse limiar não se atravessa pelo acúmulo de anomalias, e sim por uma qualidade particular do silêncio que se instala depois delas. 
...É como se, entre o evento e sua digestão pela consciência, se abrisse um intervalo que não pertence ao tempo -- um zero não matemático, um vazio que não é ausência, mas presença de outra coisa!

 Algo como um código-fonte que se deixa entrever não pelos caracteres, mas pelo espaçamento irregular entre eles. 

O prisioneiro -- que ainda não se sabe prisioneiro -- começa a ter fome desses intervalos. Eles lhe parecem mais reais do que a refeição que os sucede, mais densos do que o diálogo que momentaneamente interrompem.

Numa quarta-feira banal, diante de uma xícara que não aquece suas mãos exatamente com a mesma curva térmica de sempre -- e note-se, não é que esteja fria, é que a progressão do calor obedece a uma função matemática ligeiramente truncada, como se alguém tivesse removido uma etapa da equação --, ele formula pela primeira vez o pensamento proibido. 

Não com palavras. As palavras viriam muito depois, quando já fossem insuficientes. O pensamento proibido é anterior à linguagem: é a sensação inequívoca de que aquilo que o rodeia não foi terminado. De que os objetos, as pessoas, as leis físicas, tudo possui a consistência de um esboço que alguém abandonou confiando que o hábito preencheria as lacunas. E de fato, o hábito sempre preencheu. Até agora.

Mas a falha primordial -- aquela que o distingue dos demais prisioneiros, que continuam a habitar a emulsão como peixes que não concebem a água -- não está no mundo simulado. Está nele! Há uma região da sua percepção que foi, digamos, mal lacrada. 

Uma junta por onde vaza uma luz que não ilumina nada do lado de dentro, mas que projeta sombras que não correspondem a nenhum objeto catalogável. Ele as vê com o canto do olho. Sombras que se movem com um atraso, que não é atraso, mas obediência a uma ordem de renderização diferente.

... Como se o cenário fosse desenhado em camadas e uma delas -- a sua -- estivesse recebendo a atualização com alguns milissegundos de privilégio sobre as outras.

O momento da ruptura não é espetacular.

 Ninguém oferece pílulas coloridas!

.Não há perseguições. O que há é um pensamento, simples e devastador como uma gota que cai numa superfície saturada e desencadeia a cristalização completa: se o eco chega antes, então aquilo que chamo de 'antes'e 'depois' é uma convenção que não emana da realidade, mas de um acordo que me foi imposto. 

...E se o tempo é uma imposição, o que mais o será? A gravidade que o mantém no chão? A memória que lhe garante ter tido infância? O rosto da mulher que diz amá-lo, cujas microexpressões, ele agora nota com horror lúcido, se repetem em ciclos de exatos quarenta e três segundos?

A condenação, descobre ele, não é estar preso. É saber que o está sem jamais poder prová-lo, porque toda prova seria feita da mesma substância da cela. 

Resta-lhe essa fenda na percepção -- não uma porta, mas a certeza de que a parede não é lisa --, e a suspeita de que a própria suspeita é a única chave que a emulsão não consegue digerir. Porque a simulação não falhou no mundo. Falhou nele. E essa falha, minúscula e incurável, é a sua liberdade sem saída.



By Santidarko 

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