Quando as sombras desbotam, as coisas perdem seus contornos afiados. As arestas se rendem!
... E nessa rendição, o mundo deixa de ser um embate entre luz e trevas,para se tornar uma única massa suave, onde tudo se toca sem se ferir.
-Santidarko
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...Não é o preto que despede-se.
É o azul que havia dentro dele, o roxo que se escondia em sua profundeza, o marrom que ele engolia sem revelar. A sombra, ao desbotar, devolve ao mundo as cores que havia aprisionado.
-Santidarko
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...Há sombras que desbotam como certas tardes de outono: não se vão de uma vez, mas demoram-se numa agonia delicada, como se pedissem licença para permanecer mais um instante antes de se tornarem memória.
-Santidarko
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Depois que as sombras desbotam, resta uma claridade sem origem --não vem do sol, não vem do fogo, não vem de lugar nenhum!
...É uma luz ,que simplesmente está ali, como um esquecimento ,que nem sempre é confortável.
-Santidarko
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Existe uma categoria de beleza que não grita, não reluz, não convida!
Ela se insinua como uma névoa baixa, que não apaga as formas, mas as torna mais suaves, mais distantes, como se cada coisa estivesse se despedindo silenciosamente de si mesma!
...Não se trata de tristeza, não exatamente -- a tristeza é um golpe, um evento!
Isso é outra coisa: é uma coloração da luz, uma temperatura da alma que aprendeu a encontrar abrigo no que está ligeiramente gasto, no que perdeu o viço mas ganhou uma dignidade secreta.
...Há objetos e momentos que carregam essa qualidade sem nome.
Um vestido de noiva guardado por décadas em um baú de madeira escura, cujo branco já não é mais branco, mas um marfim que lembra a cor das cartas antigas.
Uma flor que secou no próprio caule e permaneceu ali, intacta, como se tivesse decidido não cair.
Um espelho com o aço da moldura levemente oxidado, que devolve os rostos com uma névoa dourada, como se todos os que nele se miraram tivessem deixado um pouco de sua passagem.
...Nada disso é feio!
Tudo isso dói de um jeito quase agradável, como uma nota musical que vibra numa frequência vizinha à da saudade, mas sem ter do que sentir saudade.
Essa estética -- se é que posso dar-lhe um nome -- reside na dignidade do que está de partida.
Não é a ruína completa, que já perdeu sua forma, nem o novo, que ainda não tem história.
...É o instante intermediário: quando as coisas começam a dobrar-se sobre si mesmas, a criar pregas, a acumular sombras nas reentrâncias.
Uma parede que descasca revela camadas de cores antigas, e nessa arqueologia doméstica há uma beleza ,que a parede lisa jamais teve!
...É como se o tempo, ao desgastar, também revelasse!
O rosto humano participa disso.
Há olhos que olham para dentro antes de olhar para fora, e essa inversão produz uma luz diferente -- uma luz que não ilumina o mundo, mas o recolhe. Esses olhos não pedem consolo.
Parecem, ao contrário, oferecer uma companhia silenciosa, como se dissessem: 'Eu também sei que tudo passa, e ainda assim estou aqui'.
Talvez seja essa a beleza melancólica: uma aceitação que não se rende, uma tristeza que não se apaga, mas que também não se impõe. Ela simplesmente está ali, como um móvel antigo no canto do quarto, testemunhando a vida sem exigir nadadela!
...E então , há as cores dessa melancolia.
Não são as cores do luto -- o preto absoluto, o cinza sem esperança.
São cores que arderam lentamente e sobraram em cinzas matizadas: o azul que quase virou cinza mas ainda lembra o céu; o rosa que desbotou até ficar da cor de uma pétala esquecida num livro; o dourado que já não brilha, apenas retém uma luminescência baça, como uma vela que se apagou mas cuja fumaça ainda perfuma o ar. Essas cores não agridem a retina.
...Elas a convidam a repousar!
O que torna essa estética tão profundamente bela é que ela não mente.
A beleza ruidosa do mundo quer convencer-nos da eternidade do instante, da juventude perpétua, da superfície sem rugas.
... Mas esta outra beleza, a que escurece nas pontas, conhece a sua própria finitude e não se envergonha dela. Ela é verdadeira porque é transitória.
E ao reconhecer sua transitoriedade, paradoxalmente, permanece.
...Torna-se um abrigo... para quem também se reconhece ...em ser apenas uma passagem!
By Santidarko
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