segunda-feira, 29 de junho de 2026

O Louva-Sombras(*Personagem by Santidarko)




O Louva-Sombras(O Colecionador de Chamas Aftas)



...Há muito tempo, quando o inverno ainda não tinha nome e as noites duravam semanas, existia uma floresta de pinheiros tão densa ,que nem a lua ousava espiar por entre seus galhos. 

Os moradores das vilas ao redor chamavam-na de : Pinhais do Silêncio Súbito, pois qualquer som que ali entrasse -- um riso, um grito, uma prece --era imediatamente abafado, como se a floresta o engolisse antes que pudesse alcançar os ouvidos de Deus.

...No coração desses pinhais, onde a cerração nunca se dissipa e o musgo cresce negro sobre as pedras, vive uma criatura que os antigos chamam de : O Louva-Sombra!

...Ninguém sabe se ele foi um homem, um pássaro ou um fungo que aprendeu a andar.

 Os poucos que o viram -- e viveram para contar --descrevem uma figura atarracada e corcunda, envolta numa sobrecasaca de antiquário remendada com páginas de livros que nunca foram escritos.

 Sua cabeça é a de uma coruja-das-torres, mas tão velha e doente ,que suas penas, ralas e oleosas, pendem como farrapos de veludo mofado.

...Mas não são as penas que assustam!
...É a máscara!

Sobre o rosto de coruja, ele usa uma máscara de cera preta, moldada grosseiramente no formato de um sorriso humano. 

A cera está sempre a derretendo ,, escorrendo pelo queixo em fios finos que endurecem antes de tocar o chão. 

...Dizem que ele a remodela todas as noites, tentando lembrar-se de um rosto que viu uma vez -- um rosto que o amou, ou que ele amou, ou que ele comeu!

...Ele próprio já não sabe!

Seus olhos são duas lentes de óculos quebradas, atrás das quais ardem pupilas minúsculas como pontas de cigarro. 

Não o olhe diretamente nos olhos!

...Quem o faz, vê por um instante o reflexo da própria morte -- um vislumbre paralisante que dura apenas um segundo, mas que o Louva-Sombras aproveita para roubar algo precioso: a sombra do incauto.

Ele é um colecionador!

...Um catalogador do que se apaga!

Nas mãos -- quatro dedos longos e nodosos, como garras de sapo -- ele carrega sempre uma xícara de ágata preta, lascada na borda. 

Dentro dela, uma vela vermelha-escura queima com uma chama inquieta e fumacenta, que não aquece, mas gela!

 A fumaça sobe em espirais lentas e, se você prestar atenção, verá que ela forma pequenos vultos -- silhuetas humanas que se contorcem e se dissipam no ar.

...Cada uma dessas silhuetas já foi a sombra de alguém.

Ele as cultua. Inclina sua cabeça de coruja para elas. Sussurra para elas com uma voz que borbulha como cera quente, tomando nota em sua sobrecasaca com um dedo molhado de fuligem.

 Ele sabe o nome de cada sombra!

Sabe como foram perdidas. Sabe o último pensamento de cada dono antes de se separar dela.

...E ele espera...!

No centro da clareira onde vive, rodeado por pinheiros retorcidos que mais parecem dedos esqueléticos saindo da terra, o Louva-Sombras acendeu centenas de velas em xícaras lascadas. 

...Às vezes, numa noite sem vento, ele ergue sua xícara de ágata diante de si e caminha lentamente entre as chamas, num ritual silencioso. 

A floresta inteira se aquieta!

Até a cerração prende a respiração!

...É o momento em que ele louva as sombras perdidas, uma por uma, chamando-as pelo nome.

E se você estiver na floresta nessa hora, sentirá um arrepio na nuca -- não de frio, mas de vazio. 

...Como se algo atrás de você tivesse acabado de se apagar!



By Santidarko 

Personagem by Santidarko 

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