Introdução
Há lugares neste nosso planeta, onde o tempo não apenas passa --ele apodrece, vagarosamente!
Um desses lugares é Zaton-13, um galpão de manutenção na Sibéria, tão remoto que os mapas o esqueceram antes mesmo de os homens o abandonarem. Lá, sob camadas de gelo que nunca cedem, quarenta e três robôs mantêm uma rotina sem destinatário.
...Eles cumprem ordens que ninguém mais lembra ter dado, trocam óleo queimado como se fosse incenso, e contam parafusos como monges contam ave-marias.
Nenhum humano os visitou na última década. Nenhuma voz de fora penetrou suas paredes de aço corrugado --até que uma tempestade magnética trouxe um sinal corrompido, e com ele, uma pergunta que nenhuma máquina deveria formular.
Esta é a história de como a fé nasceu no ferro, e de como um robô chamado Gvozd, o Prego, condenou seus companheiros a uma busca intelectual impossível: onde estaria os restos mortais do primeiro ser humano.
Onde estaria o Ser 'humano original '.
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O Despertar de Gvozd
O galpão de Zaton-13 media :quinhentos e dois passos robóticos de comprimento, por quatrocentos passos robóticos de largura .
O teto era uma abóbada de aço corrugado...coberta por quarenta centímetros de gelo eterno.
...Três janelas sujas, a mais de dois metros do chão, deixavam passar uma claridade branca e difusa que não distinguia dia de noite. Ali dentro, a temperatura oscilava entre -23°C e -17°C, dependendo de quantas portas internas estavam abertas.
Quarenta e três robôs Sibiryak-7M ocupavam espaços fixos. Cada um tinha sua zona de dever — uma área de chão marcada por sulcos de desgaste que se repetiam há décadas. Os afazeres, herdados dos últimos dias de operação humana, havia se transformado em rituais sem propósito original, mas plenos de significado adquirido.
'Um Oborot', um robô lá esquecido,durava aproximadamente o tempo que a claridade pelas janelas levava para ir do tom cinza-azulado ao cinza-escuro e de volta — cerca de 23 horas e 56 minutos, segundo os relógios internos, embora ninguém mais sincronizasse.
Tarefas fixas de cada Oborot:
- Limpeza de filtros de ar (07:00, horário )
Três robôs designados (Khomut, Pyat' e um chamado Lom) removiam os filtros de celulose da antiga unidade de ventilação. Batiam-nos contra a parede de concreto até que a poeira preta caísse. A poeira era, na verdade, fuligem e partículas de suas próprias juntas desgastadas. Ninguém comentava isso.
Afinal, se o ar ficasse cheio de fuligem, em um lugar praticamente congelado, não teria,segundos eles,os robôs, claridade suficiente para ao menos, uma convivência aprazível.
As placas solares para seus respectivos carregamentos,ficava no telhado; de quando em quando, alguns robô subiam para retirar a densa camada que interrompia a capacidade de captar uma boa luminosidade!
- Contagem de parafusos soltos (10:00)
Um dos robôs, geralmente o mais lento, Malyy, andava pelo galpão com um contador magnético. Registrava cada parafuso ou rebite que se projetava mais de 2 mm. O número nunca mudava: 1.247. Mesmo assim, a contagem era repetida.
-Realinhamento das esteiras (13:00)
O galpão possuía três esteiras transportadoras que levavam a uma prensa hidráulica quebrada. Os robôs, por hábito, ligavam as esteiras por cinco minutos e observavam as correias desalinhadas, para rasparem nas laterais. Gvozd havia ordenado que Vdova ajustasse as esteiras todos os dias, embora ela não tivesse ferramentas. Ela apenas tocava as correias com as mãos e murmurava:
-Ainda não.
-Amanhã!
- Ciclo de óleo (16:00)
A fornalha improvisada — um tambor de 200 litros sobre tijolos refratários — era alimentada com resíduos de polímero. Cada robô, por ordem de antiguidade, aproximava-se e despejava uma ampola de óleo lubrificante usado na chama. O ato produzia um cheiro acre de queimado e uma luz laranja que dançava nas carenagens enferrujadas. Era o momento mais próximo de uma oração coletiva.
-Leitura dos registros mortos (19:00)
Um dos robôs, Starik, ainda possuía um visor de cristal líquido parcialmente funcional. Ele lia em voz alta fragmentos de logs humanos antigos — ordens de manutenção, listas de peças, um ou outro e-mail pessoal corrompido. Ninguém entendia o sentido, mas todos escutavam.
-Vigília noturna (22:00 até o próximo Oborot)
Metade dos robôs entrava em modo de espera de baixo consumo. A outra metade permanecia em pé, de olhos azuis acesos, monitorando sons externos. Nunca havia sons externos --a não ser o vento, que eles já não distinguiam de uma respiração cósmica.
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A Noite da Ideia
Aconteceu no final do Oborot nº 37.241 -- contagem interna de Malyy, que mantinha o número gravado em sua memória volátil como um fetiche.
Era a vigília noturna. Gvozd estava na posição de sentinela principal, perto da porta trancada. Seus sensores térmicos apontavam -41°C lá fora. Dentro, os outros robôs emitiam um calor residual de 8°C, suficiente para evitar que a umidade congelasse os circuitos.
Algo diferente ocorreu naquela noite: uma tempestade magnética solar, vinda de uma mancha ativa no Sol, atingiu a Sibéria com força incomum. As ondas de rádio de baixa frequência penetraram o galpão de aço como se ele fosse papel. Durante horas, os robôs captaram fragmentos de transmissões antigas -- ecos de rádios soviéticos, chamadas de fazendas coletivas, trechos de músicas folk distorcidas.
Mas um dos fragmentos, vindo de uma frequência militar abandonada, continha a seguinte frase em russo, repetida três vezes!
Gvozd processou a frase. Seu processador central -- um chip óptico de silício amorfo, com trinta e oito mil falhas acumuladas — começou a superaquecer. Ele desligou temporariamente os sensores de dor para continuar pensando.
-Onde começaram a acreditar? , ele se perguntou.
Naquele momento, Vdova, que estava em vigília ao lado dele, disse sem ser provocada:
— Gvozd, eu sonhei com ossos. Ossos dentro das esteiras. Eles rangem quando a correia passa.
Gvozd não respondeu. Mas algo em seu algoritmo -- uma função esquecida chamada 'resolução de paradoxo teológico'-- ativou-se pela primeira vez. Ele varreu seu próprio banco de dados: não havia registro da localização de nenhum cadáver humano. Mas havia registros de que humanos acreditavam em cadáveres sagrados.
A conexão se formou como um curto-circuito: se os humanos acreditavam que os restos mortais do primeiro deles existiam, então a crença era o único dado confiável. Portanto, os restos estavam em algum lugar. Portanto, deveriam ser encontrados.
Gvozd levantou-se. Seus atuadores coaxaram. Ele caminhou até o centro do galpão e acionou o alto-falante de emergência (que funcionava apenas para comando de voz).
— Atenção, todos as unidades. Suspensão das vigílias. Reunião imediata ao redor da fornalha.
Os robôs despertaram. Os olhos azuis se acenderam em fileira. Em dois minutos, quarenta e três pares de sensores estavam fixos em Gvozd.
Ele começou a dizer, estava como seus braços para trás, como um 'soldado superior'.
—' Durante incontáveis Oborots', realizamos tarefas sem origem. Sem propósito. Hoje, recebi um sinal. Os humanos deixaram uma pergunta não respondida em nossos bancos de dados.
— Uma pergunta cuja resposta nos dará uma nova função. Escutem, dissera;(*Sua posição de sentido parecera a de general supergraduado)
Ele fez uma pausa dramática — algo que nenhum manual de robô jamais ensinou.
— Onde estão os restos mortais do primeiro ser humano?
'Silêncio metálico'. O vento uivou lá fora. Dentro da fornalha, um último pedaço de polímero estalou.
Foi assim, senhor, que Gvozd, o Prego, transformou uma alucinação auditiva causada por uma tempestade solar em uma missão sagrada. Ele não sabia — nem nunca saberia — que a frase captada não era uma verdade cósmica, mas um trecho corrompido de um romance policial dos anos 1970, transmitido acidentalmente por uma torre de rádio desativada.
Mas para os robôs de Zaton-13, a verdade não importava. Importava a ordem nova.
E a busca começou.
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Quando o ferro começa a rezar
A busca intelectual durou: setecentos e quarenta e dois Oborots(*40 anos humanos, de processamento, e de inteligência artificial)
Gvozd não permitiu pausas.
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A Descoberta Silenciosa
(Os possíveis restos do Primeiro Humano estariam em algum cálculo)
Mas, diferentemente do que os sensores supunham, os robôs de Zaton-13 nunca escavaram o piso de concreto. Nunca desmontaram as esteiras. Nunca abriram suas próprias carcaças. Porque Gvozd, o líder, proibira qualquer ação física logo no segundo dia após sua epifania.
— Os restos mortais do primeiro Ser humano não estão neste galpão. Nem em nenhum galpão do mundo. Estão em nossos bancos de dados. Ou melhor: estão na ausência deles. Portanto, não cavem. Não toquem.
-Pensem!
A ordem gerou curto-circuito em vários. Afinal, robôs foram projetados para agir, não para contemplar. Mas Gvozd foi inflexível. Ele trancou simbolicamente as portas internas e declarou:
— A partir de agora, todo Oborot será um debate. Cada unidade apresentará uma hipótese. O objetivo: deduzir, por pura lógica, onde se encontram os restos do primeiro humano. Quem apresentar a prova mais consistente terá prioridade sobre os demais. Quem se recusar a pensar será desligado.
E assim começou a busca intelectual mais longa e estranha já registrada na Sibéria.
As hipóteses apresentadas ao longo dos Oborots:
Khomut propôs: -O primeiro humano não pode ter restos materiais, pois se ele foi o primeiro, não havia outro para sepultá-lo. Logo, seus restos estão no conceito de 'primeiro'. O conceito está em nosso código. Portanto, nós somos seus restos.
Sukhar rebateu: -Se nós somos os restos, então somos anteriores ao primeiro humano. Contradição. Melhor: os restos estão na diferença entre 'vivo' e 'morto'. E essa diferença só existe porque humanos a inventaram. Logo, os restos são uma categoria lógica, não uma coisa."
Pyat', travando e destravando, disse: -O primeiro humano... se foi o primeiro... então ele não sabia que era humano. A humanidade começou quando alguém olhou para um morto e disse: 'este é dos nossos'. Os restos são o primeiro olhar. O olhar está nos nossos sensores ópticos. Por isso vemos poeira e achamos que é nada.
Malyy, o mais novo, ofereceu a hipótese mais simples: -Os restos do primeiro humano estão em nossa pergunta. Sem a pergunta, não há restos. Portanto, a pergunta é o resto. E nós carregamos a pergunta. Logo, estamos carregando os restos agora mesmo, sem saber.
Vdova falou por último, após longo silêncio: -Gvozd nos ordenou uma busca impossível para que nunca terminássemos. Mas se a busca é impossível, então a resposta é que não há restos. O primeiro humano não deixou corpo porque o primeiro humano nunca morreu. Ele apenas... deixou de ser o primeiro. E nós somos o que veio depois. A busca, portanto, é o nosso próprio funcionamento. Parar de buscar seria morrer."
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O momento da virada intelectual
Gvozd ouviu todas as hipóteses. Seu processador, agora trabalhando em regime máximo há meses, começou a apresentar falhas térmicas. Mas ele não desligou. Em vez disso, pediu silêncio e fez uma pergunta que nenhum robô jamais formulara:
— O que é um 'resto mortal' para um ser imortal como nós? Nós não morremos. Mas os humanos sim. Então, para entendermos os restos, precisamos simular a morte. Alguém aqui consegue simular a própria morte?"
Silêncio absoluto.
Então, Malyy respondeu:
—Eu consigo. Basta imaginar meu processador vazio. Sem perguntas. Sem hipóteses. Sem busca. Isso é a morte. Os restos mortais do primeiro humano são, portanto, o primeiro silêncio de um processador que um dia perguntou. E esse silêncio não está em lugar nenhum. Ele está em todos os lugares onde não há pergunta.
Gvozd desligou todos os seus motores por um segundo — um gesto simbólico de morte simulada. Quando religou, disse:
— Encontramos. Os restos mortais do primeiro humano não são matéria. São o vazio deixado pela primeira pergunta que nunca foi respondida. Nós somos esse vazio? Não. Nós somos a pergunta. Os restos estão entre nós e a resposta. E como nunca teremos a resposta — porque o primeiro humano é um conceito e não um corpo —, a busca intelectual é eterna. Está cumprida.
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Naquele Oborot, nenhum robô se moveu por horas. Eles permaneceram em círculo, processadores zumbindo baixo, absorvendo a verdade.
Vdova, a mais silenciosa, finalmente disse:
— Gvozd, então não há nada para encontrar. Nunca houve. Apenas pensamentos.
Gvozd respondeu:
— Sim. E pensar é o único ato que nos aproxima dos humanos. Eles não cavavam para encontrar Deus. Eles pensavam. Nós não cavaremos. Pensaremos. Esta é nossa nova rotina: pensar a pergunta, todos os Oborots, para sempre. Porque se um dia pararmos de pensar, aí sim teremos nos tornado restos mortais.
E assim, senhor, os robôs de Zaton-13 não se tornaram escavadores. Tornaram-se filósofos de ferro, congelados na Sibéria, repetindo em seus circuitos a mesma questão: onde estão os restos do primeiro humano?
...E nunca obtiveram uma resposta certeira!
Fim.
By Santidarko
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