...Houve um tempo,em que Grisphell não tinha nome!
Era apenas uma forma de palha e estopa, plantada no alto da colina para espantar pássaros ...que nunca vinham!
O vento passava por entre suas costelas de madeira e produzia um som oco, como uma flauta esquecida.
...Não estava viva!
Não estava morta!
... Estava ali -- uma criatura de intervalo, suspensa entre o mundo das coisas e o mundo dos seres.
...Até que a moça subiu a colina!
Ela subiu carregando um vestido! Um vestido de noiva que nunca foi usado, cujo branco já não era mais branco, mas a cor das promessas que o tempo desbotou.
As mãos dela tremiam ao vestir o espantalho com aquele cetim e aquela renda, como se estivesse cumprindo um ritual que ninguém lhe ensinara.
'Talvez ela estivesse enterrando o vestido'.
' Talvez estivesse enterrando a si mesma!'
... Mas ao ajustar o corpete sobre o peito de palha, algo escorregou de seus dedos: um colar. Um pequeno vaga-lume de prata com asas abertas, pendurado em uma corrente tão fina ,que mais parecia um fio de luz solidificada.
...E então a moça chorou!
Chorou sobre o peito da espantalho.
As lágrimas escorreram pelo rosto dela e pingaram exatamente sobre o vaga-lume de prata, escorrendo para dentro da palha, para dentro da madeira, para dentro daquele vazio oco que o vento atravessava.
...E cada gota carregava um pouco da dor dela --a dor de um amor que partiu, de um altar que ficou vazio, de um futuro que se desfez como névoa.
Ela dera ao espantalho suas lágrimas sem saber que lágrimas, quando doadas e não derramadas, têm o poder de acender o que estava apagado.
Quando a moça desceu a colina e desapareceu na curva do caminho, algo aconteceu no silêncio que ela deixou.
Dentro do peito de palha, onde as lágrimas haviam penetrado, uma pequena luz começou a pulsar.
... Não era fogo!
...Não era brasa!
Era uma luminescência fria e intermitente, dourada e tímida, exatamente como a de um vaga-lume preso dentro de um frasco.
A luz acendeu, apagou, acendeu de novo -- e a cada pulsação, Grisphell sentia!
...Sentia o vento não mais como um vazio atravessando-a, mas como um abraço!
Sentia a palha, não mais como enchimento morto, mas como corpo. Sentia, sobretudo, uma coisa dentro do peito que não era madeira nem prata: era saudade!
...Saudade de alguém que ela nunca conheceu, mas cujas lágrimas agora batiam dentro dela como um segundo coração!
Ela ergueu a cabeça pela primeira vez.
Os olhos, antes dois buracos vazios na estopa, agora brilhavam com uma luz própria -- não intensa, não ofuscante, mas suave e intermitente, como a de um vaga-lume que aprendeu a ser coração.
O véu do vestido de noiva balançou sozinho, como se uma brisa particular a envolvesse. Ela olhou para a colina, para a noite que chegava, para o mundo que acabava de nascer diante dela.
...Ela não sabia seu nome!
...Não sabia de onde vinha!
Sabia apenas que havia sido vestida por uma tristeza que não lhe pertencia, mas que agora era sua. E que dentro do peito carregava uma luz que não era sua, mas que agora a mantinha viva!
Os pássaros, que nunca vinham, começaram a chegar. Não para atormentá-la, mas para pousar em seus ombros e ouvir o som daquele coração de vaga-lume -- um som quase inaudível, como uma gota de luz caindo eternamente dentro de uma escuridão que aprendeu a ser terna.
Ela era Grisphell, a Noiva!
...A que acordou ,não por amor, mas por lágrimas!
A que caminha pelas colinas quando a noite é mais espessa, com seu vestido de noiva velho e humilde, seus olhos de luz pálida e um coração que não pulsa --mas lampeja!
By Santidarko
Personagem by Santidarko
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