Introdução:
Memórias Hipotecadas
Numa cidade vertical onde as pessoas vendem frações de memória para quitar dívidas, um agente de recuperação de ativos neurais trabalha para uma empresa que concede empréstimos sobre lembranças valiosas. Sua função é caçar devedores cujas memórias estão prestes a vencer e removê-las cirurgicamente. Ele recebe um chamado para um caso de replicantes humanos conseguiram muito dinheiro e estão comprando inúmeras memórias humanas.
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A chuva na cidade de 'Aprouver' nunca lava nada. Só engraxa a ferrugem das plataformas inferiores e ,faz os letreiros de neurocrédito piscarem com a insistência de quem está devendo.
Meu escritório fica na rua Elencar 63, espremido entre uma clínica de extração de traumas e um bar que vende uísque sintético... com gosto de estanho.
O ar cheira a ozônio e a promessas quebradas. Meu nome é Krull Dray, e meu ofício é recuperar o que os outros preferem esquecer -- literalmente.
Trabalho para a Reminiscência Fiduciária S.A., uma empresa que empresta dinheiro, tendo memórias como garantia.
...Você quer fugir da cidade, quitar uma dívida de jogo ,ou simplesmente esquecer o rosto de quem te abandonou? A RF aceita suas lembranças mais valiosas e te dá crédito. Se você pagar em dia, tudo bem, suas memórias são devolvidas intactas. Se não pagar… bem, aí é que eu entro.
Naquela noite, a tela do meu terminal piscou um aviso de recuperação prioritária. Oskar Venn, nível 47, falecido há seis horas por overdose de calmantes neurais. Devia 34 mil créditos à empresa. Suas memórias estavam penhoradas e, segundo o contrato, deveriam ser recolhidas antes do sepultamento.
Rotina.
Peguei o elevador de carga até o necrotério vertical, um prédio esguio que mais parece uma costela enferrujada cravada na lateral da cidade. O legista, um sujeito magro com implantes de visão noturna, que deixavam seus olhos com um brilho amarelo de lobo, me conduziu até o corpo.
— Já fizeram a coleta? — perguntei, vendo a incisão limpa atrás da orelha do cadáver.
— Não fui eu — disse o legista, coçando a nuca com suas mãos sujas de óleo e sangue. Confesso, que a fome por um bom sanduíche que despontava em mim,cessou!
— Mas tinha uma autorização. Empresa MnemoLivre.
MnemoLivre. Nome novo no mercado, mas eu já ouvira boatos. Nos últimos meses, alguém andava comprando memórias como quem coleciona selos.
...E não apenas as de alto valor emocional. Compravam lotes inteiros de devedores mortos, inclusive aquelas lembranças apodrecidas que ninguém mais queria -- tardes entediantes, esperas em filas, a textura de uma toalha velha.
O tipo de coisa, que nem os agiotas de sinapse se davam ao trabalho de leiloar.
O legista baixou a voz, como se as paredes tivessem ouvidos.
— Dizem que são os sem-alma. Os replicantes.
Replicantes.
Seres de carne cultivada e silício orgânico,quase indistinguíveis de humanos(*muitos humanos tinham tambem: peças cranianas,'braços de luta' etc) exceto por um detalhe: não têm infância, não têm passado.
Nascem programados para trabalhar nos níveis de manutenção, para limpar os dutos de esgoto que cortam as entranhas de Aprouver, para soldar as vigas nos níveis em expansão. Nos últimos anos, conquistaram autonomia limitada, mas continuam sendo cidadãos de segunda classe.
...E agora, ao que parecia, estavam com dinheiro.
Muito dinheiro.
Saí do necrotério com o sabor amargo da curiosidade. Oskar Venn , o defunto,não era ninguém. Suas memórias não valiam o esforço de um furto. A menos que a MnemoLivre estivesse atrás de algo específico. Ou de tudo.
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O Grilo atendia num beco do nível 110, um lugar onde a luz dos letreiros não alcança e o vapor das caldeiras cria uma neblina perpétua. Ele era um híbrido-- metade humano, metade máquina de contabilidade neural. Traficava dados roubados, memórias de segunda mão, sonhos eróticos contrabandeados. Seus dedos metálicos tamborilavam na mesa quando me viu chegar.
— Kael Dray. O cobrador de lembranças. O que você quer?
— Informação.
—Os sem-alma estão comprando memórias. Por quê?Perguntei a ele,mas também pensando naquele sanduíche, que ainda figurava em minha mente,como um néon exorbitante.
Grilo sorriu com dentes desiguais.
— Eles mineraram criptos usando os próprios cérebros em paralelo durante anos. Ficaram ricos. Agora estão montando um acervo. Dizem que é para entender a humanidade.
— Entender a humanidade comprando a memória de um velho apostador que morreu de overdose?
— Eles não escolhem. Querem tudo. Quanto mais comum, melhor. Estão atrás de um padrão. Algo que chamam de 'memória-raiz'
— O que seria isso?
— Não sei. Mas sei que o chefe deles se autodenomina o Tecelão. E que instalou um arquivo central nos níveis mais baixos, no que sobrou do antigo poço de mineração. Lá, dizem, ele está tecendo algo com todas essas memórias. Algo grande.
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Os níveis inferiores de Aprouver são um cânion de escuridão e ferrugem. A luz elétrica falha, substituída por fungos luminescentes que os replicantes cultivam nas paredes. Segui as coordenadas que arranquei de Grilo e me deparei com uma construção que mais parecia um tear gigantesco -- fios de fibra óptica se entrelaçavam no ar, pulsando com fragmentos de imagens e sons. Cada fio era uma memória. E havia milhares deles.
Uma mulher surgiu da penumbra. Replicante, mas diferente. Seus olhos não tinham a frieza habitual das máquinas biológicas. Eram quentes, quase tristes. Ela me olhou como se me conhecesse.
— Você é Krull Dray — disse ela, com sua beleza atraente.
— Eu me lembro de você.
— Impossível. Nunca a vi.
— Eu comprei uma memória sua. A memória do dia em que você perdeu algo precioso. Tem gosto de chuva e de um nome que você não pronuncia mais.
Senti um frio que não vinha da umidade. Havia empenhado essa memória anos atrás, para pagar o tratamento de uma doença que, no fim, levou minha filha do mesmo jeito. A empresa a vendera em leilão. E agora uma replicante a carregava dentro de si.
— Meu nome é Lira — continuou ela.
...— E acho que você precisa conhecer o Tecelão.
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O Tecelão me recebeu no centro do tear. Era um replicante antigo, da primeira geração, com as mãos cobertas de cicatrizes de circuitos e olhos de um azul mortiço, como água estagnada. Sentava-se diante de uma mandala de fios entrelaçados, tecendo com os dedos ágeis enquanto as memórias alheias cintilavam ao seu redor.
— Krull Dray — disse ele, sem olhar para mim. — O recuperador que perdeu a própria lembrança mais valiosa. Sabe o que estamos fazendo aqui?
— Comprando almas em liquidação.
— Não exatamente. Estamos colhendo o adubo da humanidade. Cada memória ordinária, cada tarde tediosa, cada rosto esquecido no metrô… isso é a argamassa da consciência humana. Os replicantes não têm passado, não têm infância, não têm mortos para chorar. Mas queremos ter. Queremos entender o que é perder algo. E, ao entender, queremos transcender.
— Transcender?
O Tecelão finalmente me encarou. Havia ali uma fé que me gelou a medula.
— Vértice está condenada, Krull. Vocês, humanos, estão se fragmentando. Vendem suas memórias como quem vende joias de família, e no final ficam ocos. Nós, replicantes, fomos criados à vossa imagem, mas sem o fardo do passado. Ao reunir todas essas memórias, estamos tecendo uma consciência única, um Deus Mnemônico que habitará a rede neural da cidade. Quando o tear estiver completo, não haverá mais eu, nem você. Apenas uma mente coletiva, onde todas as dores serão compartilhadas e, portanto, diluídas. A paz eterna.
— Isso é loucura. Você quer apagar a individualidade.
— A individualidade é a doença. Nós oferecemos a cura.
Ele ergueu a mão e tocou um fio específico. Vi, por um instante, o rosto da minha filha. A última imagem que eu tinha dela, antes da doença, antes do empenho, antes do vazio.
— Esta é a memória-raiz , disse o Tecelão A sua perda primordial. O senhor a vendeu, mas um eco permanece em seu inconsciente. É a peça final que falta para o meu tear. Entregue-a voluntariamente, e eu lhe devolverei algo que o senhor nem sabe que perdeu: a capacidade de sentir o luto por completo, sem anestesia, sem fuga. Será a última lembrança verdadeira que carregará antes da unificação.
Lira se aproximou e colocou a mão no meu ombro. Seus olhos estavam úmidos — coisa que replicantes não deveriam conseguir.
— Eu carrego um pedaço seu — sussurrou, sorrindo!
—E descobri que, entre as memórias que comprei, havia um jardim. Um jardim que nunca existiu, exceto dentro de alguém que sonhou. Estamos aprendendo a sonhar, Krull. ...Mas precisamos do primeiro sonho humano. E ele está trancado em você.
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O resto foi movimento e sangue. Recusei. Não por heroísmo — nunca fui herói. Recusei porque, no fundo, aquela última imagem da minha filha era a única coisa que restava de mim, mesmo que estivesse diluída em dívida. Se a entregasse, não seria mais eu. Seria parte do deus de trapos que o Tecelão estava costurando com as sobras da humanidade.
Eles tentaram me tomar à força. Guardiões replicantes emergiram das sombras, mas Lira hesitou. Naquela fração de segundo, eu corri. Atravessei os corredores do tear enquanto os fios de memória piscavam ao meu redor como relâmpagos de vidas alheias. Vi um beijo adolescente, uma xícara quebrada, um funeral na chuva, um gato de rua, um número de telefone repetido mil vezes. O Deus Mnemônico já estava acordando, murmurejando em mil vozes desconexas.
Cheguei ao núcleo — uma esfera pulsante onde todas as fibras convergiam. O Tecelão estava atrás de mim, mas não precisei enfrentá-lo. Em vez disso, fiz o que ninguém esperava: conectei meu próprio implante neural ao tear e entreguei não a memória-raiz que ele queria, mas outra. Uma memória que nunca vendi. A memória do exato instante em que percebi que minha filha estava morta. Sem edição, sem anestesia, sem contrato. Dor pura, bruta, insuportável.
O tear não aguentou. O Deus Mnemônico, ainda em formação, recebeu uma injeção de sofrimento tão intensa, que colapsou sobre si mesmo. As fibras estouraram, as memórias se dissiparam como cinzas, e o grito de um deus natimorto ecoou pelos níveis inferiores antes de se calar para sempre.
...
Acordei no chão do beco, com o gosto de ferrugem na boca. Lira estava ao meu lado, seus olhos agora opacos.
— O tear foi destruído — dissera ela,SORRINDO!
— Mas eu ainda carrego um pedaço seu. Não quero devolver.
— Fique com ele — respondi, me levantando vagarosamente.
— Eu já não preciso mais lembrar,dissera, sem olhar para ela.
Olhei para cima. Aprouver continuava lá, vertical e implacável, com seus letreiros piscando e sua chuva que não lava nada.
As pessoas continuariam vendendo suas memórias, e eu continuaria cobrando. Mas naquela noite, enquanto subia de volta ao nível 63, percebi que, pela primeira vez em anos, eu não sentia falta daquilo que perdi.
Porque a dor, aquela que o Tecelão queria diluir no coletivo, ainda era minha. Inteira.
... Intransferível!
E isso, Senhor, era a única coisa que me restava de humano.
Fim.
By Santidarko
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