A chuva caía como uma cortina grossa, 'mas sem coragem de molhar de verdade' --'uma chuva abafada', daquelas que grudam a camisa na pele e transformam o ar em caldo.
...Ezequiel dirigia devagar, os faróis acesos contra a escuridão úmida de um bairro que ele muito pouco passara, ou conhecera com exatidão;embora ficasse a apenas quinze minutos de sua casa.
Ele estava à procura de um mercadinho aberto em um domingoà noite.
O aplicativo do celular travou na tela de carregamento, e o GPS virou um bloco de silêncio.
As ruas aparentavam se enrolavam umas nas outras como tripa de boi. Nomes de placas que ele não reconhecia: Beco do Piolho, Travessa da Solidão, Rua dos Passos Perdidos.
...Ezequiel riu sozinho, sem graça.
Tinha saído para comprar pão e leite -- o leite para o filho de 5 anos, o pão para a esposa que esperava um café da manhã decente no dia seguinte. Era um homem simples, desses que se levantam cedo para o outro não precisar.
O poste em que ele estacionou o Sandero prateado piscava como um vagalume moribundo. Luz, escuro, luz, escuro.
No clarão intermitente, Ezequiel viu o mercadinho: uma fachada estreita, pintura amarela descascada, letreiro de neon queimado onde se lia apenas '...ADO...'.
Podia ser 'MERCADO'...
... podia ser 'NADA'!
Ele desligou o motor.
A chuva tamborilava no teto do carro, mas o ar dentro continuava abafado, como se o mundo inteiro estivesse prendendo a respiração.
Ao se aproximar, viu uma mulher atrás do balcão, já com a chave na mão, pronta para fechar a porta de vidro.
...Não tinha movimento nenhum no mercadinho; dentro do mercado ,ou alguém no minúsculo estacionamento, que aparentemente cabiam quatro ou cinco carros.
--Uma porta que vidro, que seria acobertada por aquelas porta de comércio(*portas de rolo ou portas de aço que se desenrolam)--
Ela tinha cabelos presos num coque frouxo e olheiras fundas. O relógio na parede marcava 23h47, mas o letreiro da fachada indicava fechamento às 23h.
--'Por favor' ,dissera Ezequiel, com aquele jeito manso de quem não gosta de incomodar. É só pão e leite. Meu filho está em casa esperando. Eu juro que é rapidinho!
A mulher olhou para ele como quem olha para um fantasma. Seus olhos eram castanhos, mas pareciam cinza na luz falha do poste.
Ela hesitou.
...Tentou persuadi-lo a ir embora!
Aliás,tentou de inúmeras formas!
Disse a Ezequiel, para tentar ir a um posto de gasolina, ou a uma farmácia.
...Mas Ezequiel estava com pouca gasolina, sem dinheiro para abastecer,uma crise financeira, segundo contara à moça, --e um sono avassalador!,completara em sua explicação.
Ela suspirou, e abriu a porta, o bastante para ele passar.
-Três minutos!,dissera.
-E não vá para o fundo!
Ezequiel entrou. O mercadinho cheirava a sabão em pó e coisa velha. As prateleiras baixas, os freezers rangendo. Ele pegou uma cestinha plástica e foi direto ao corredor dos pães.
Havia apenas um tipo: pão de forma branco, daqueles genéricos.
...Ele pegou!
Depois foi até o refrigerador do leite.
...Só restava uma caixa de leite integral, amassada na quina.
...Pegou também!
Ao virar para o caixa, percebeu: não havia mais ninguém.
A mulher tinha sumido. A porta de vidro estava fechada. As luzes do teto piscaram uma vez, depois duas, depois se estabilizaram num tom amarelado doentio. Ezequiel chamou: -Moça?
Silêncio.
-Oi?
-Tem alguém?
Ezequiel dera duas ou três voltas pelos três corredores que o mercadinho possuía -- a cestinha, com o que viera buscar, alternava entre suas mãos, que, ora ou outra, revezadas,as suas mãos, passavam por seus cabelos.
Foi então que o chão tremeu -- não um tremor de terra, mas um ronco grave, como se o mercadinho fosse um animal gigante acordando de um sono de séculos.
As prateleiras começaram a descer.
...Isso mesmo!: descer.
...Não tombar,
...não cair!
Descer para dentro do chão, com um movimento hidráulico suave, como se fossem elevadores de superfície.
As gôndolas de enlatados, os freezers horizontais, o balcão de frios, a própria gaveta do caixa -- tudo recuou para baixo, engolido pelo piso de cerâmica branca e preta.
...Ezequiel ficou parado, com a cestinha nas mãos. O salão agora era um vazio retangular. O teto, antes repleto de lâmpadas fluorescentes, agora mostrava uma claraboia escura, sem lâmpadas, que parecia sugar a luz. No centro do chão, um círculo de metal começou a girar, como a tampa de um silo.
Abriu-se em oito segmentos iguais, revelando uma escada em caracol que descia para uma escuridão densa e fria.
-Isso não é real!, sussurrou Ezequiel.
(*Ezequiel tivera antes, inúmeros problemas de saúde...referente a intorpecentes e bebidas;mas isso, parecia que' fora em uma outra vida'.
...Eram problemas com o trabalho;
...a esposa que o traiu, mas ele também tivera uma porcentagem nessa atitude uxoriana descabida e vingativa.
...Mas ele desceu!
Não porque fosse curioso. Não porque fosse corajoso. Desceu porque, no fundo de seu coração bom, ele achou que talvez a mulher tivesse caído ali, ou precisasse de ajuda.
...Era assim que Ezequiel funcionava: primeiro pensar no outro, depois no medo.
A escada de metal rangia sob seus tênis. O ar ficava mais pesado a cada degrau -- úmido, mas com um cheiro estranho, como ozônio misturado a terra molhada. Ele contou os degraus: 47, 48, 49...
...Perdeu a conta depois de 100. A descida levou quase cinco minutos; pois ia vagarosamente pisando e pensando sobre o que é real, e o que a mente pode fazer com consiga mesma!
Quando seus pés tocaram o piso de concreto, ele ergueu o olho e viu.
O porão era enorme!
...Enorme como uma estaçãode metrô.
Onde estariam os canos subterrâneos, as fiações, e tudo mais?!, pensara.
As paredes desapareciam na penumbra, e o teto devia estar a uns 30 metros de altura.
...Mas o que roubará seu fôlego foi a coisa no centro.
Uma nave!
Não uma nave de filmes, com luzes piscando e metal brilhante. Era uma estrutura orgânica, como uma fruta podre do tamanho de um ônibus de dois andares, com sulcos que pulsavam num ritmo lento -- igual ao de um coração.
A superfície era cinza-azulada, texturizada como pele de elefante, e de suas costuras vazava um líquido âmbar que brilhava na escuridão. Havia símbolos gravados em sua casca, símbolos que pareciam se mover quando Ezequiel desviava o olhar.
--Não era para você descer,dissera uma voz grave e rouca atrás dele.
Ezequiel se virou. A mulher do balcão estava ali, mas diferente. Seus olhos agora brilhavam com uma luz interna, fraca, como fósforo. Ela não usava mais o uniforme do mercadinho.
...Vestia uma túnica púrpura que não refletia a luz.
--Quem é você?, Ezequiel conseguiu perguntar, a voz saindo mais corajosa do que ele se sentia.
--Sou a guardiã deste posto, ela respondeu. O mercadinho é uma fachada! A nave está escondia. Ela está aqui...desde quando este bairro ainda era mangue. Eu fui designada para manter o acesso trancado. Mas você... você insistiu para entrar
...Eu deixei.
Foi um erro!
Ezequiel apertou a cestinha de pão contra o peito.
--Eu só queria comprar leite para meu filho!
A guardiã riu -- um som seco, sem humor.
-O quê?
-Hã?!, indagou Ezequiel.
A guardiã não repetiu. Ela apenas desviou o olhar para a nave que pulsava no centro do porão, e Ezequiel sentiu que a pergunta que ele fizera --'o quê?'--não tinha sido sobre a frase dela, mas sobre algo maior. Sobre tudo. Sobre o leite na cestinha, sobre o filho que esperava, sobre a chuva que não molhava de verdade. A guardiã sabia disso.
...Talvez sempre soubesse!
— Você acha que entrou aqui por acaso?, ela dissera, caminhando até a borda da nave e tocando a superfície com a palma da mão. A textura afundou levemente, como pele de animal vivo.
— Este lugar...não fica em lugar nenhum. As ruas que você percorreu não existem em mapa algum. O aplicativo não travou por falha de sinal; ele travou porque você saiu do alcance do real.
Ezequiel sentiu as pernas amolecerem, mas permaneceu de pé. Havia algo nele -- uma teimosia, uma bondade estúpida -- que se recusava a desmoronar antes de entender.
— Eu só queria pão e leite ,repetiu, e sua voz saiu como a de um menino perdido em um shopping.
— E, no entanto, você está aqui , dissera a guardiã.
— Há quinze anos. Há quinze anos!, você está aqui!
— A mesma chuva. O mesmo filho. A mesma esposa. A mesma caixa de leite amassada na quina. Quinze anos!, Ezequiel.
Ele olhou para a cestinha. O pão estava murcho. O leite, inexplicavelmente quente.
...Mas o que o desconcertou foi o detalhe que nunca notara antes: a embalagem do pão não tinha data de validade. A caixa de leite não tinha código de barras. Eram objetos genéricos, pareciam cenográficos, como aqueles frascos de mentira que decoram prateleiras de vitrine.
— Isso é um mercadinho , continuara a mulher.
— Mas você está em uma câmara de contenção.
—Você não é um terráqueo, você quis ser um.
Ele deu um passo para trás, mas o chão não o deixou ir muito longe. Uma vibração subiu pelas solas de seus tênis, como se o concreto respirasse. A nave soltou um som baixo, um gemido de parto ao contrário, e a guardiã fechou os olhos como quem sente uma contração.
— O que você chama de vida, dissera ela!
—É uma simulação gerada pelos resquícios da sua própria mente. Mas não uma mente humana.
— O quê?
— Você não é Ezequiel. Você nunca foi!
O homem que acreditava ser Ezequiel sentiu o ar faltar. A cestinha plástica escorregou de seus dedos, e a caixa de leite amassada rolou pelo chão de concreto até parar aos pés da guardiã. Ela a recolheu com uma naturalidade triste, como quem recolhe um brinquedo quebrado.
— Meu nome é Ezequiel , insistira ele, mas a voz saiu oca, como se as palavras não coubessem mais na boca.
— Esse é o nome que você roubou , dissera a guardiã.
— Junto com a esposa morena. Junto com o menino de cabelo cacheado e mancha de nascença na nuca. Junto com o Sandero prateado e a casa a quinze minutos daqui. Você roubou uma vida inteira, Kael.
Kael.
O nome atingiu o homem como um golpe no peito. Não porque fosse estranho, mas porque era estranhamente familiar -- como uma palavra esquecida da infância, ou um idioma que só se fala em sonho. Ele levou as mãos às têmporas. Latejavam. Dentro do crânio, algo se mexia, como se uma porta selada há muito tempo estivesse sendo arrombada.
— Eu não roubei nada ,gemera ele.
— Eu amo Isabela. Eu amo Artur. Eu me lembro do parto. Eu chorei quando ele nasceu.
— Você se lembra de assistir a esse parto, corrigiu a guardiã.
— Do lado de fora. Encostado na prateleira de enlatados, fingindo que organizava latas de milho. Você se lembra de vê-lo chegar todas as noites, o verdadeiro Ezequiel, com seu jeito manso de quem não gosta de incomodar. Ele comprava fraldas, depois papinha, depois pão e leite. E você, Kael, você o observava. E desejava sua vida!
O homem chamado Kael caiu de joelhos.
O chão de concreto estava morno, vivo, pulsando no mesmo ritmo da nave. Ele olhou para as próprias mãos. A pele já não parecia tão humana -- havia um brilho fraco sob as unhas, uma fluorescência azulada que subia pelas veias como tinta.
— Eu era o quê? , sussurrou.
A guardiã agachou-se à sua frente. Pela primeira vez, seus olhos não eram de guardiã, não eram de fósforo, não eram de parteira. 'Eram olhos de irmã'.
— Você era um coletor, Kael. Um etnógrafo interestelar. Nós dois somos! Fomos designados para esta estação -- o mercadinho -- porque ela era o ponto de fluxo de narrativas humanas neste setor. Nossa missão era observar, catalogar, registrar os padrões emocionais da espécie. Mas você... você se apaixonou pela história de um deles.
— Ezequiel , ainda...murmurara em sua ainda afirmativa!
—... Ezequiel. O homem simples que comprava pão e leite no domingo à noite. Que dirigia devagar na chuva. Que amava a esposa e o filho com uma intensidade que nossos bancos de dados não conseguiam classificar. Você começou a esperá-lo. A ansiava por suas visitas. Depois, começou a imitá-lo -- o jeito de segurar a cestinha, de ler os rótulos, de sorrir sem mostrar os dentes. E então você tomou uma decisão, explicará a guardiã.
Kael fechou os olhos. As memórias verdadeiras estavam voltando, mas vinham como estilhaços — cortantes, desordenados.
— Eu quis ser ele , dissera, e a voz já não era humana. Tinha harmônicos, como um coral miniaturizado dentro de uma única garganta.
— Você não quis ser ele, Kael. Você o absorveu. Invadiu a mente dele durante uma noite de chuva, quando ele estava cansado e vulnerável. Sugou suas memórias, seus afetos, seus medos. Deixou o corpo verdadeiro vagueando por aí, vazio, enquanto você ocupava a vida dele como quem veste um casaco.
— Eu não sabia , chorou Kael.
— Eu não sabia que faria isso. Eu só queria... eu só queria ser amado. Do jeito que ele era amado.
A guardiã abaixou a cabeça. Ela sabia. Ela sempre soubera. Fora ela quem alertara o Conselho da Nave-Mãe, quem acionara o protocolo de contenção, quem construíra o útero-prisão no subsolo do mercadinho... enquanto Kael dormia o primeiro sono humano de sua existência.
— Foi por isso que vocês me prenderam , dissera Kael, entendendo enfim.
— Não era um útero. Era uma jaula.
— Era as duas coisas , dissera a guardiã.
— Um útero porque precisávamos mantê-lo vivo durante o restante da missão. Uma jaula porque você era um perigo para si mesmo e para os humanos que ainda restavam. A simulação foi ideia do Conselho: demos a você uma réplica da vida que roubou, para que se acalmasse. O pão, o leite, a chuva, o filho, a esposa , tudo falso, Kael. Tudo uma réplica montada com os dados que você mesmo coletou.
— Mas eu sentia , disse ele, golpeando o próprio peito com o punho.
— Eu sentia amor. Amor de verdade!
— Você sentia a memória do amor que roubou. Isso não é a mesma coisa.
Kael ergueu o rosto. As lágrimas que escorriam eram densas, prateadas, como mercúrio. Seus olhos já não tinham íris -- eram esferas negras pontilhadas de estrelas, como pequenos mapas celestes.
— O que vai acontecer comigo agora?
A guardiã levantou-se e caminhou até a nave. A superfície pulsava mais rápido, como um coração agitado. Ela apoiou a mão sobre a casca, e a casca respondeu com um calor quase afetuoso.
— A missão não terminou , dissera ela.
— A Nave-Mãe voltará ao nosso planeta natal em poucas horas. O mercadinho , ou melhor, a estação permanecerá! E você, Kael, será julgado pelo Conselho. Mas...
— Mas?
— Mas eu posso atrasar o seu despertar. Posso deixá-lo na simulação. Deixá-lo despedir-se.
Kael olhou para a caixa de leite no chão. Depois para a cestinha vazia. Depois para as próprias mãos-- mãos que não eram dele, mas que ele aprendera a amar.
— Não quero me despedir , dissera
— Quero acordar.
— Tem certeza? Lá fora, não há Isabela. Não há Artur. Não há pão, não há leite, não há chuva abafada. Há apenas você, Kael, na sua forma verdadeira, com suas memórias verdadeiras, diante de um Conselho que não entenderá por que você fez o que fez.
— Eles não entenderão?
— Não. Porque nossa espécie não ama assim. Nós observamos o amor, catalogamos o amor, mas não o sentimos como eles!. Você, Kael, é o primeiro de nós a sentir. E é por isso que você é tão perigoso. E é por isso que você é tão precioso.
Kael levantou-se devagar. O corpo humano já não lhe servia bem -- os movimentos eram desajeitados, como os de um inseto saindo do casulo. A pele começava a se abrir em fissuras finas, e por dentro não havia carne nem osso, mas uma luz líquida, âmbar, que cheirava a ozônio e terra molhada.
— Eu quero acordar ,repetira inúmeras vezes.
— Mas quero levar uma coisa!
— O quê?
— A memória. Não a que eu roubei. A que eu construí. Nos primeiros anos da simulação, antes de começar a esquecer, eu... eu vivi com eles. Mesmo que fosse mentira, eu vivi. Acordava de madrugada para fazer mamadeira. Ensinava Artur a amarrar o cadarço. Dançava com Isabela na cozinha enquanto o pão queimava. Isso não foi roubado. Isso foi meu.
A guardiã desviou o olhar. Seus olhos brilhavam --não com luz de fósforo, mas com água. Água de verdade, salgada, humana.
— Isso não é possível — mentira ela.
— Você sempre foi ruim para mentir , dissera Kael, e sorriu. Era um sorriso triste, daqueles que só quem já perdeu tudo consegue dar.
A nave gemeu. A fenda no flanco se alargou, e a luz que saiu de dentro era diferente da luz âmbar de antes — era uma luz branca, limpa, como a primeira manhã do mundo. Kael caminhou em direção a ela, despindo-se do corpo humano como quem tira um casaco velho. A cada passo, perdia um pedaço: primeiro os tênis, depois as calças, depois a camisa, depois a pele, depois a forma. O que restou foi uma silhueta de luz líquida, alta, esguia, com seis membros e olhos que eram constelações.
— Kael ? chamara a guardiã.
A silhueta parou.
— Você esqueceu o anel.
Kael olhou para trás. No chão de concreto, brilhando sob a luz da nave, estava um anel simples de prata com uma pedra azul. Ele não sabia se o anel pertencia ao verdadeiro Ezequiel ou se era um artefato criado pela simulação. Mas se abaixou -- ou o equivalente a se abaixar, para um ser sem corpo-- e o recolheu.
— Obrigado , dissera, e sua voz já não era som, mas pensamento puro, transmitido diretamente à mente da guardiã.
Ela assentiu. E então a luz o engoliu.
A Nave-Mãe rompeu a órbita da Terra três horas depois. Dentro dela, em uma câmara de regeneração, Kael despertou em sua forma verdadeira. Ao seu lado, uma outra guardiã -- agora em sua própria forma, uma criatura de luz dourada e olhos sábios -- segurava um pequeno frasco de memória.
— O Conselho permitiu que você ficasse com isso , dissera ela.
— Não é a vida que você roubou. Mas é a vida que você construiu. Eles acharam... justo!
Kael recebeu o frasco e o aproximou do peito, onde os seres de sua espécie guardavam aquilo que os humanos chamariam de coração.
— Doi!, dissera ele.
— Vai doer para sempre, respondera a guardiã.
— Mas essa é a natureza do amor. Mesmo o amor de mentira. Mesmo o amor roubado. Mesmo o amor que a gente inventa para não enlouquecer.
Lá fora, a Terra diminuía na janela de observação -- uma bola azul e branca, com suas chuvas abafadas, seus mercadinhos de domingo à noite, seus postes que piscam como vagalumes moribundos. Kael olhou para ela e sentiu algo que não estava nos catálogos de sua espécie: saudade!
... Saudade de um planeta que não era seu. Saudade de uma família que nunca existiu. Saudade de um homem chamado Ezequiel, que talvez ainda estivesse lá embaixo, vagando sem memória, mas com o coração intacto.
— Um dia , dissera Kael —, eu volto.
A guardiã não respondeu. Mas, pela primeira vez em ciclos de missão, ela sorriu. Um sorriso que não era humano nem alienígena. Era apenas... esperança.
E a nave seguiu rumo às estrelas, carregando em seu ventre um Ser que, pela primeira vez na história de sua espécie, sabia o que era o amor. E sabia, também, o que era a dor de perdê-lo.
Fim.
By Santidarko
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