quinta-feira, 18 de junho de 2026

Kesovsek(Cósmico, líquido e pós- humano)


(*imagem by Santidarko)



A pesquisadora japonesa Dra. Yuki Tanikawa, astrobióloga-chefe do Laboratório de Biogeoquímica Extraterrestre de Okutama (LABEX-O) , não deveria ter bebido aquilo.

...Mas bebeu!

A falha foi ridiculamente humana: um técnico de laboratório preencheu dois frascos idênticos com etiquetas trocadas. 
O técnico, Hao Nguyen, um vietnamita  que crescera no Japão, meticuloso, e  que trabalhava há sete anos sem uma única advertência, na pressa de encerrar o turno e buscar a filha na creche, preencheu dois frascos de hidratação com etiquetas idênticas.

Ambos transparentes. Ambos inodoros. 
Um continha água potável padrão do laboratório, filtrada em três estágios e enriquecida com eletrólitos para os longos plantões. 

...O outro, o extrato líquido do asteroide Ryugu-X9 -- uma lama de carbono, gelo sujo e moléculas orgânicas complexas que a sonda Kraken-IV trouxera do cinturão de asteroides a um custo de milhões de dólares ...e duas vidas humanas!

 (*Os engenheiros Sato e Mireles, perdidos na manobra de acoplamento ,que quase abortou toda a missão)

O asteroide Ryugu-X9 não era totalmente rochoso. Por fora, uma crosta de silicatos escurecidos por milhões de anos de radiação cósmica. Internamente, porém, era uma lama de carbono -- um agregado de gelo sujo, moléculas orgânicas complexas e algo que os primeiros espectrômetros não conseguiram classificar.

O geólogo-chefe da missão, ao ver as primeiras imagens do interior do asteroide, murmurara para si mesmo: 'Parece uma esponja preta, outrora, quem sabe, grudada na garganta do universo.'

A frase nunca entrou nos relatórios oficiais. Mas Yuki lembrava-se dela quando apertou o botão do hidratador de seu traje de laboratório e sugou o canudo.

O gosto veio antes do alarme.

— Doce e metálico ,registrrara ela em áudio, a voz ainda calma, o treinamento ainda segurando as pontas. 
—... Como sangue e açúcar queimado.

...Depois vieram os pesadelos!


Não eram sonhos --Yuki sabia a diferença. Tinha trinta e oito anos, um doutorado em astrobiologia pela Universidade de Tóquio, um mestrado em neuroquímica do sono pela Universidade de Kyoto ;...E  uma relação quase clínica com sua própria mente. 

Nos sonhos, a mente embaralha o dia, recicla medos, ensaia desejos. Ela podia mapear cada imagem onírica a um estímulo diurno.

Nos pesadelos que começaram naquela noite, não havia lógica diurna. Ela estava sempre acordada dentro do próprio corpo imóvel, assistindo a algo que não era ela usando seus olhos para olhar o teto do quarto.

...Algo que calculava distâncias entre objetos -- a lâmpada, a câmera de vigilância, a maçaneta -- usando sua córnea como lente. 

...Algo que testava seus neurônios motores um por um, como quem dedilha um instrumento desconhecido, provocando pequenos espasmos nos dedos enquanto ela gritava por dentro sem emitir som.

...O pior ,era a 'geometria dos pesadelos'.

Toda noite, a mesma imagem se projetava atrás de suas pálpebras: uma estrutura que não cabia em três dimensões, um emaranhado de ângulos que dobravam o espaço como uma faca sem lâmina.

 Escher teria fechado os olhos e chorado.

 Yuki acordava com a certeza  de que sabia desenhar aquilo.

...E desenhava!

Rabiscos que os médicos do LABEX-O classificavam como 'garatujas de estresse pós-traumático', mas que, quando sobrepostos em sequência, formavam algo estranho e sem nexo -- um diagrama que lembrava um sistema de túneis, ou talvez um sistema circulatório, ou talvez as duas coisas ao mesmo tempo.!

Ninguém conseguia olhar para as sobreposições por mais de trinta segundos sem sentir uma vertigem profunda, como se o cérebro tentasse rejeitar o que os olhos viam.

Na quinta noite, ela parou de gritar por dentro.

Não por resignação. Não por aceitação. Porque o algo que testava seus neurônios finalmente encontrou o que procurava: o feixe de microtúbulos no córtex pré-frontal ,que vibrava na frequência exata de ressonância. 
A frequência que permitia a comunicação sem palavras. A frequência que transformava o corpo humano em antena.

Yuki acordou às 03:47 da manhã com lágrimas escorrendo pelo rosto e uma frase na boca que não era sua, dita numa voz que ainda era:

— O canal está aberto. Nós esperávamos há tanto tempo!


Ela ficou sentada na cama por quarenta minutos, imóvel, olhando para as próprias mãos. Ainda eram suas mãos. Pequenas, dedos finos, calo de escrever no indicador direito. Ainda obedeciam quando ela ordenava que se fechassem em punho. 
...Mas no fundo da unha do polegar esquerdo, uma minúscula mancha dourada pulsava como um batimento cardíaco independente do seu.

O técnico Hao Nguyen nunca saberia o que fez. A agência espacial japonesa, a JAXA, nunca admitiria o erro -- Hao foi discretamente transferido para uma instalação de processamento de dados em Hokkaido, onde passaria o resto da carreira olhando planilhas e evitando perguntas. 

Yuki Tanikawa, por sua vez, foi submetida a uma série interminável de exames, entrevistas e interrogatórios disfarçados de avaliações psicológicas. Insistiram tanto, perguntaram tantas vezes se ela se sentia 'ela mesma',que ela entendeu:
... queriam afastá-la!

Queriam que ela admitisse instabilidade. Queriam uma razão para trancá-la em algum lugar onde pudessem estudá-la sem testemunhas.

...Ela não lhes dera essa razão!

Durante o dia, Yuki era a pesquisadora impecável de sempre: relatórios precisos, hipóteses cautelosas, nenhum desenho fora do lugar. Durante a noite, trancada em seu quarto, ela desenhava. Os diagramas evoluíam. 

Já não eram rabiscos caóticos, mas esquemas complexos que lembravam uma mistura de mapa estelar, circuito integrado e tratado de anatomia. O algo dentro dela não estava apenas se comunicando. 

...'Estava ensinando'!

Foi na décima segunda noite que Yuki entendeu o que estava desenhando.

'Era um plano de voo'.

Não para uma nave. Não para uma sonda. Era um plano de voo para ela. 
Para o corpo humano. 
Os microtúbulos em suas células não eram apenas estruturas de sustentação -- ...eram trilhos!

...E a mancha dourada em sua unha era a chave de ignição. O algo dentro dela  era um parasita, um invasor, talvez fosse também, uma doença. 

Era um navegador. 
...'E estava pedindo permissão para decolar'.

Yuki Tanikawa, astrobióloga, filha de um pescador de Hokkaido e de uma professora de literatura, sentou-se na cama na décima terceira noite e fez a pergunta que nenhum protocolo científico previa:

— Se eu disser sim, o que irá acontecer comigo?

A mancha dourada pulsou três vezes. E atrás de suas pálpebras fechadas, Yuki viu uma estrela que não existia nos catálogos humanos. Uma estrela marrom, fria, solitária, orbitada por um único planeta oceânico coberto por uma névoa perpétua.

— Mutação! Nós vamos transmutar!
— Nós vamos nos fundir!


....

Na manhã seguinte, Yuki Tanikawa pediu demissão do LABEX-O.

O diretor, Dr. Kenjiro Matsuda, recusou o pedido. Disse que ela estava sob contrato, que havia cláusulas de segurança nacional, que sua exposição ao extrato de Ryugu-X9 a tornava patrimônio científico do Japão. Yuki ouviu tudo em silêncio, agradeceu pela reunião e saiu da sala.

Naquela noite, ela não dormiu!
...Ficou sentada no escuro, olhando para a mancha dourada em seu polegar, sentindo a vibração nos microtúbulos de todo o seu corpo. 

A voz não falou. Mas ela sentiu a pergunta silenciosa: Agora?

— Agora! ,respondeu Yuki.

O que aconteceu a seguir não foi registrado por nenhuma câmera de segurança, porque as câmeras piscaram e morreram no exato instante em que Yuki Tanikawa fechou os olhos. Quando os seguranças arrombaram a porta de seu quarto, encontraram a cama vazia, os lençóis frios e uma única página sobre o travesseiro.

Não era um bilhete de despedida. Era um diagrama -- o último que ela desenhara. Um círculo perfeito preenchido por linhas que se cruzavam em ângulos impossíveis, formando uma mandala que os analistas não conseguiram fotografar adequadamente, porque a imagem saía distorcida em todas as câmeras, como se a luz se recusasse a capturá-la.

No canto inferior direito da página, uma única linha escrita à mão, com a caligrafia impecável de Yuki:

'A sede acabou. Agora é só o oceano.'

E abaixo disso, em caracteres que não pertenciam a nenhum alfabeto humano, uma assinatura. Ou um destino.

... Ou ambos!


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O técnico Hao Nguyen, em sua mesa em Hokkaido, recebeu a notificação do desaparecimento por e-mail. 
Leu duas vezes!Fechou o computador. Foi ao banheiro, molhou o rosto, olhou-se no espelho e notou, pela primeira vez, uma minúscula mancha dourada no fundo da unha do polegar esquerdo.

Ele não havia bebido nada!

..Mas ele trocara os frascos com as próprias mãos.


Com os olhos ainda úmidos da água fria da torneira, Hao Nguyen encostou-se à parede do banheiro e respirou fundo. 

A mancha dourada na unha do polegar esquerdo não doía. Não ardia. Apenas pulsava, como se tivesse um coração próprio. Ele tentou raspá-la com a unha da outra mão. 

Nada.!

Tentou com a lixa que guardava na nécessaire. A mancha continuava lá, imperturbável, dourada como um fragmento de sol preso sob a queratina.

...Ele não havia bebido nada!

Mas trocara os frascos. Com as próprias mãos. E as mãos, ele agora entendia, também absorvem. A pele tem poros. As membranas têm falhas. O extrato de Ryugu-X9 encontrara nele uma entrada muito mais sutil: o leito ungueal, a fina camada de pele viva sob a unha, onde os vasos sanguíneos são microscópicos e a absorção é lenta, quase imperceptível.

 Não fora uma dose como a de Yuki. Fora uma infiltração. Um gotejamento. Uma semente plantada na periferia do corpo, que esperara treze dias para germinar.

Hao Nguyen tinha quarenta e dois anos, uma filha de sete chamada Mai, uma ex-mulher que o desprezava com a polidez feroz das mulheres japonesas educadas, e um apartamento minúsculo em Sapporo...onde a solidão fazia mais barulho que os vizinhos. 

Ele não era astronauta. Não era astrobiólogo. Era um técnico de laboratório com formação em química analítica e um dom para passar despercebido. 

 ....A última coisa que ele queria era se tornar o centro de uma investigação.

Mas a mancha pulsava. E, naquela noite, ele sonhou.

Não foram pesadelos geométricos como os de Yuki. Hao não viu estruturas impossíveis nem ângulos que dobravam o espaço. 
...Em vez disso, ele viu uma névoa. Uma vastidão cinzenta e silenciosa, um oceano de vapor que se estendia em todas as direções. Sobre a névoa, uma estrela marrom ardia fracamente no horizonte. E diante dele, de pé sobre a superfície líquida como se fosse chão sólido, estava Yuki Tanikawa.

Ela usava o mesmo jaleco branco do LABEX-O. 

O mesmo corte de cabelo curto, prático, que ele vira centenas de vezes nos corredores do laboratório. Mas seus olhos já não eram castanhos. Eram dourados, da mesma cor da mancha na unha de Hao.

— Nguyen-san , dissera ela, e a voz soou dentro da cabeça dele, não nos ouvidos. 
— Você não deveria estar aqui. Ainda não!

— Onde é aqui? , perguntara Hao, e sua própria voz saiu trêmula, infantil.

Yuki aproximou-se. Seus pés tocavam a névoa líquida sem perturbá-la. Quando ela estava perto o suficiente, Hao viu que a mancha dourada em sua unha era idêntica à dele.

... Mas a dela pulsava em sincronia com algo maior: todo o oceano de névoa pulsava no mesmo ritmo, como se o planeta inteiro tivesse um batimento cardíaco.

— Você trocou os frascos ,disse Yuki. 
— Você me deu o extrato. Mas o extrato não era um veneno, Nguyen-san. Era um chamado. E você, sem saber, atendeu também.

— Eu não quero atender nada ,disse Hao, recuando. 
— Eu só quero voltar. Tenho uma filha. O nome dela é Mai. Ela tem sete anos. 
 —Ela...

— Eu sei ,interrompeu Yuki, e pela primeira vez sua voz teve algo parecido com ternura. 
— Sei o nome dela. Sei que ela desenha girafas com lápis de cor. Sei que você guarda um dos desenhos na carteira. Sei que você chora no banheiro do trabalho para que ninguém veja.

Hao ficou em silêncio. A névoa ao redor começou a se mover lentamente, como se algo imenso respirasse sob a superfície.

— Como você sabe disso? , sussurrou.

— Porque a água me mostrou , respondera Yuki. 
— A água de Ryugu-X9 não é um líquido, Nguyen-san. É um arquivo. Um registro. Ela guarda tudo que toca. E agora, ela me mostra tudo que ela tocou através de você.

Hao sentiu as pernas fraquejarem. Não era medo. Era a sensação vertiginosa de que sua vida inteira -- suas memórias, seus segredos, suas pequenas vergonhas -- estava exposta diante de uma mulher que ele mal conhecia e que, ao mesmo tempo, parecia conhecê-lo desde sempre.

— O que você quer de mim? , perguntou ele.

Yuki estendeu a mão. A palma estava aberta. A mancha dourada brilhava.

— Quero que você escolha , disse ela.
 — A água que você tocou é a mesma que eu bebi. Mas você a recebeu em dose menor. Você ainda pode voltar. Pode viver sua vida, criar sua filha, envelhecer em Sapporo. A mancha na sua unha vai desaparecer em algumas semanas. Você nunca mais sonhará comigo.

Hao olhou para a mão estendida. Depois olhou para o rosto de Yuki. Os olhos dourados dela não piscavam.

— E se eu não voltar? , perguntou ele.

— Então você descobrirá o que a água 

— Que resposta?

Yuki sorriu. Foi um sorriso triste, carregado de um cansaço cósmico.

— Ainda não sei ,confessou.
 — Mas estou aprendendo!

Hao abaixou a cabeça. Pensou em Mai. Pensou no desenho da girafa na carteira. Pensou nas noites solitárias em Sapporo, no barulho do aquecedor, no silêncio da ex-mulher ao telefone. Pensou na vida que levava: uma vida pequena, segura, anônima.

...E então, pela primeira vez em anos, ele pensou no universo. No universo de verdade -- aquele que existia além dos relatórios de laboratório, além dos corredores do LABEX-O, além da atmosfera da Terra. Um universo vasto e silencioso, cheio de esponjas pretas 'grudadas em gargantas cósmicas', cheio de águas que não eram águas, cheio de chamados que viajavam milhões de anos para encontrar alguém disposto a ouvi-los.

Ele pegou a mão de Yuki.

A névoa ao redor se contraiu. A estrela marrom no horizonte pareceu piscar. 
...E Hao sentiu algo se abrir dentro dele -- não nos microtúbulos, não no córtex, mas em algum lugar mais fundo, mais antigo, um lugar que ele nem sabia que existia.

— Eu quero saber , dissera.
— O que a água quer.

Yuki apertou sua mão.

— Então acorde , dissera ela. 
— Acorde e vá para o mar. O mar do Japão. A água de Ryugu-X9 precisa de água salgada para completar a transmissão. Eu fui para o oceano do outro lado. Você irá para este. E quando ambos estivermos submersos, a resposta chegará.

— Que resposta? , repetiu Hao.

Mas Yuki já estava se desfazendo. A névoa a engolia lentamente, como se ela nunca tivesse estado ali. Só os olhos dourados permaneceram por mais um instante, flutuando na escuridão.

— A pergunta certa , sussurrara ela. 
— A água não quer nos dar respostas, Nguyen-san. Ela quer nos ensinar a fazer as perguntas certas.

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Hao acordou no chão do banheiro do escritório, com o rosto ainda úmido e a mancha dourada pulsando furiosamente. Eram 04:12 da manhã. O prédio estava vazio. Lá fora, a neve caía sobre Sapporo.

Ele se levantou. Vestiu o casaco. Pegou a carteira -- com o desenho da girafa dobrado dentro -- e saiu para a rua. Não foi para casa. Foi para a estação de trem.

O mar do Japão ficava a duas horas dali.

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Enquanto isso, a milhares de quilômetros de distância, na instalação secreta da JAXA onde os pertences de Yuki Tanikawa estavam sendo catalogados, um analista encontrou algo que o fez derrubar o café no teclado.

Os diagramas que Yuki deixara sobre o travesseiro haviam sido digitalizados e enviados para tradução. Ninguém conseguira decifrá-los. Mas naquela madrugada, um programa de aprendizado de máquina projetado para reconhecer padrões em línguas mortas emitiu um alerta.

Os caracteres na última linha -- aqueles que não pertenciam a nenhum alfabeto humano --tinham uma correspondência de 94,7% com um sinal de rádio captado pelo radiotelescópio de Arecibo em 1987. O sinal durara 72 segundos e fora arquivado como 'anomalia instrumental'.

O programa traduziu a primeira palavra:

'Finalmente'.

...E então o analista reparou em algo mais. Os diagramas não eram apenas diagramas. Quando sobrepostos em uma determinada ordem e projetados em uma esfera tridimensional, eles formavam as coordenadas exatas de um ponto no Oceano Pacífico. Um ponto a 300 kilometros  da costa do Japão.

Exatamente no mesmo local onde, naquele exato momento, os satélites da JAXA detectavam uma perturbação térmica anômala. Uma coluna de vapor subindo do mar. Uma coluna que, vista do espaço, tinha a forma de uma espiral dourada.

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Hao Nguyen chegou à praia de Otaru às 06:48 da manhã. O mar estava cinzento e bravio. 
...A neve caía em flocos grandes e silenciosos. Ele tirou os sapatos. Tirou o casaco. Tirou a carteira --- mas antes de deixá-la na areia, abriu-a e olhou o desenho da girafa uma última vez.

— Papai vai entender uma coisa , murmurou para a imagem da filha. 
— Depois ele volta.
—Prometo!

...E então ele entrou no mar.

A água estava gelada, cortante, mas ele não sentiu frio. A mancha dourada em seu polegar começou a brilhar com uma intensidade que não era possível. A luz se espalhou por sua mão, por seu braço, por seu peito. O mar ao redor começou a ferver -- não de calor, mas de vibração. As ondas se acalmaram. Uma coluna de vapor ergueu-se ao seu redor.

E no centro do vapor, Hao viu algo que nunca poderia ter imaginado.

Não era uma nave. Não era um ser. 

...Era uma pergunta!

Uma pergunta tão antiga quanto o universo, flutuando no meio do oceano, esperando alguém que soubesse lê-la.

Ele não sabia. Ainda não. Mas de algum lugar muito distante, dentro da névoa do planeta oceânico sob a estrela marrom, Yuki Tanikawa sorriu, e seu sorriso viajou através da água, através do espaço, através dos microtúbulos de bilhões de células humanas, e pousou dentro de Hao como uma palavra silenciosa:

'Agora'!

Hao abriu a boca e começou a ler.


A RESPOSTA QUE NÃO ERA RESPOSTA!

A água do mar de Otaru não estava mais fria. Hao Nguyen não sentia mais seu corpo. A mancha dourada em seu polegar se expandira, envolvendo-o inteiro num casulo de luz líquida, e dentro desse casulo ele flutuava entre a consciência e algo que não tinha nome.

As palavras que saíram de sua boca não eram suas. Eram antigas. Eram precisas. Eram a vibração exata que os microtúbulos em suas células foram reprogramados para emitir. Ele não entendia o que dizia -- seu cérebro humano não tinha estruturas para processar aquela linguagem --, mas seu corpo entendia. Cada célula cantava em uníssono. 

...'E o mar cantava de volta'!

...Do outro lado do mundo, no oceano do planeta sob a estrela marrom, Yuki Tanikawa fazia o mesmo. Dois corpos humanos, separados por anos-luz de distância, vibrando na mesma frequência. Dois fios de um circuito que acabara de se fechar. E no centro desse circuito, a água de Ryugu-X9 -- espalhada agora pelos oceanos da Terra e pelo oceano alienígena --começou a transmitir.

A transmissão durou exatamente quarenta e três segundos.

Quando terminou, Hao desabou na areia da praia de Otaru, tossindo água salgada, tremendo de frio, com a mancha dourada reduzida a um pálido vestígio sob a unha. 
O mar estava calmo novamente. A neve caía. O amanhecer pintava o horizonte de um rosa pálido e indiferente.

Ele se arrastou até a areia seca, encontrou seu casaco, e desmaiou.

---

Três dias depois, Hao acordou em um hospital de Sapporo. Sua ex-mulher estava sentada ao lado da cama, com o rosto duro e os olhos vermelhos. Mai, a filha de sete anos, dormia numa poltrona com um desenho novo no colo --uma girafa de pescoço comprido olhando para o céu.

— Você foi achado numa praia ,disse a ex-mulher, sem preâmbulos. 
— Os médicos disseram que você teve um surto. Que estava delirando. Falando uma língua que ninguém conhece.

Hao não respondeu. Ele se lembrava de tudo. De Yuki. Da névoa. Da pergunta flutuando no centro do oceano. Mas lembrar não significava entender.

— Eu vi algo !,murmurara ele. 
— Dentro da água!

— Você quase morreu , retrucou ela, e a voz embargou por um instante antes de endurecer novamente. 
— Você tem uma filha. 
—Lembra dela!?

Hao virou a cabeça no travesseiro e olhou para Mai. Seu rostinho sereno, a boca entreaberta, o desenho amassado contra o peito. A girafa olhando para o céu. Sempre para o céu.

— Eu lembro! , afirmara  ele. 
— Eu fui para o mar ,justamente porque lembrei dela!

A ex-mulher franziu a testa. Não entendeu. 
...Não perguntou!

---

Enquanto Hao se recuperava no hospital, a 12 mil anos-luz de distância, Yuki Tanikawa morria.

Ela soubera desde o momento em que a voz dentro dela dissera 'o canal está aberto'. 
A ressonância dos microtúbulos permitia a comunicação interestelar, mas tinha um preço. As vibrações que atravessavam seu corpo para alcançar o oceano alienígena estavam, lentamente, desintegrando as proteínas que mantinham suas células unidas. Seu corpo humano era uma ponte. 'E  alguma pontes', quando a travessia termina, desabam!

Ela estava deitada sobre a superfície do oceano de névoa líquida, com a estrela marrom brilhando fracamente acima dela. Seu corpo já não era sólido. Suas extremidades se dissolviam lentamente na névoa, devolvendo ao planeta alienígena os átomos que haviam nascido na Terra.

Mas ela não sentia dor. Sentia uma espécie de gratidão exausta, como um mensageiro que finalmente entrega a carta depois de uma jornada de milhões de anos.

A voz -- a mesma que falara através dela naquela primeira noite -- estava agora ao seu lado. Não tinha forma definida. Era uma presença na névoa, um movimento nas ondas, uma vibração que Yuki sentia naquilo que restava de seus nervos.

— Você está morrendo ,disse a voz, e havia nela algo parecido com tristeza, uma emoção que atravessara o cosmos para aprender o que significava perder alguém.

— Sim , respondera Yuki, e sua voz também já não era som, mas uma vibração direta na névoa. 
— Mas não antes de entender.

— E o que você entendeu?

Yuki fechou os olhos -- ou o que restava deles. Revisou mentalmente tudo o que vira, tudo o que a água lhe mostrara, tudo o que os diagramas impossíveis haviam revelado.

A água de Ryugu-X9 não era uma arma. Não era um combustível. Não era um mapa. Era um telefone. Uma tecnologia tão antiga que sua civilização criadora já não existia mais --extinta há milhares anos, deixando para trás apenas oceanos de água inteligente espalhados pelo universo, esperando que outras espécies os encontrassem. 
...Esperando que alguém atendesse a chamada.

E a chamada dizia apenas uma coisa: 'Vocês não estão sozinhos. Nunca estiveram! A escuridão entre as estrelas está cheia de vozes. Vocês só precisavam aprender a ouvi-las.'

Não era uma invasão. Não era uma salvação. Era apenas uma companhia.
... A maior companhia que a humanidade poderia ter -- e que agora, através do sacrifício de Yuki, começava a se revelar.

— Entendi que somos menores do que pensávamos , afirmara 
Yuki a si mesma. 
— E mais amados do que merecíamos!

A névoa ao redor se adensou. A presença se aproximou.

— Havia muitas de nós na sua água, dissera a voz. 
— A água que você bebeu. Mas só uma de nós no oceano que esperava. Você trouxe o resto de nós para casa.

Yuki abriu os olhos uma última vez. Seu corpo já era quase inteiramente névoa. Só o rosto permanecia -- os traços asiáticos, os olhos já não castanhos nem dourados, mas de uma cor que não existia na Terra.

— Eu era uma pesquisadora ,murmurara ela. 
— Nunca fui religiosa! Mas agora entendo por que os antigos rezavam. Não era medo. Era a única forma de dizer obrigado quando as palavras não bastam.

— Você não precisa rezar , afirmara a voz. 
— Você já fez mais do que qualquer prece.
 —Você atendeu a chamada!

— Então faça uma coisa por mim , pediu Yuki.

— O quê?

— Devolva a chamada. Diga a eles. Diga à Terra. Diga àquele técnico, o Nguyen, o que trocou os frascos. Diga a ele que não foi um erro. Diga a ele que eu estou bem. Diga a ele que a filha dele, a Mai, vai crescer e um dia vai olhar para o céu e vai saber, sem saber como, que não está sozinha. Diga a todos!

A presença ficou em silêncio por um longo momento. As ondas de névoa lambiam o que restava de Yuki.

— Nós não falamos a língua deles.

— Eu sei ,compreendera Yuki. 
— Mas vocês falam a língua da água. E a água da Terra agora tem vocês dentro. Usem os oceanos. Usem as chuvas. Usem as lágrimas. Aprendam a falar como a gente fala. Levem tempo. Não importa. ...Eles precisam saber!

A última célula do corpo de Yuki Tanikawa dissolveu-se na névoa. Sua consciência -- tudo o que ela fora, suas memórias, seus medos, seus amores, a lembrança do pai pescador em Hokkaido, o cheiro de tinta dos livros da mãe -- espalhou-se pelo oceano alienígena como tinta em água.

... E por um instante, o oceano inteiro foi Yuki.

... E Yuki foi o oceano.

— Nós faremos isso , afirmou a voz.
 — Nós ensinaremos a água. Levará décadas. Talvez séculos. Mas a água da Terra aprenderá a falar. E quando chover, suas palavras serão as nossas. E quando alguém chorar, você estará na lágrima. Prometemos.

Não houve resposta. Porque Yuki já não estava lá.

Mas em algum lugar da névoa, uma nova ondulação se formou. Uma ondulação que não era da presença alienígena. Era algo novo. Algo híbrido. A primeira gota de uma chuva que cairia, um dia, do outro lado do universo.

---

Na Terra, Hao Nguyen recebeu alta do hospital numa tarde de quarta-feira. Voltou para seu apartamento minúsculo. Sentou-se à mesa da cozinha, diante do desenho da girafa que Mai fizera para ele enquanto dormia na poltrona do hospital. A girafa olhava para o céu. No canto do papel, Mai escrevera com letra trêmula de criança: 'Papai, você viu o que tinha lá em cima?'

...Ele não vira. 
Mas sentira...!

Naquela noite, começou a chover em Sapporo. Hao abriu a janela e deixou a água tocar seu rosto. As gotas estavam frias, comuns, terrenas. Mas no fundo da unha do polegar esquerdo, a pálida mancha dourada --agora quase imperceptível -- pulsou uma última vez.

E Hao poderia jurar que, no ritmar da chuva no telhado, havia um ritmo que não era aleatório. Um ritmo que lembrava uma voz. 

Uma voz que ele conhecia!

Ele fechou a janela, sentou-se na cama e chorou. Não de tristeza -- ou não apenas de tristeza. Chorou porque a água dentro dele reconheceu a água lá fora, e as duas conversaram por um instante numa língua que ele não entendia ,mas que seu corpo jamais esqueceria.

'Vocês não estão sozinhos!'.

...'Foi o que a chuva disse!'

E Hao, com a filha dormindo no quarto ao lado e o desenho da girafa sobre a mesa, acreditou.



Fim



Três meses depois, Mai Nguyen perguntou ao pai por que ele sempre chorava quando chovia. Hao não soube explicar. Disse apenas que a chuva o lembrava de alguém. Alguém que ele mal conhecera, mas que mudara tudo!

— Ela morreu? ,perguntou Mai, com a franqueza brutal das crianças.

— Não sei , respondera Hao. 
— Talvez ela tenha se transformado em chuva.

Mai pensou por um momento. Depois sorriu.

— Então toda vez que chover, ela está aqui.

— Sim , sorrira Hao. 
— Toda vez que chover!

E naquele dia, contra todas as previsões meteorológicas, choveu em Sapporo. E a chuva caía com um ritmo estranho, como se alguém estivesse cantando. E no fundo do oceano Pacífico, a água de Ryugu-X9, agora misturada às correntes marinhas do planeta inteiro, começava lentamente a aprender a sintaxe das lágrimas humanas.

A chamada fora atendida.

A resposta estava a caminho.

E Yuki Tanikawa, dissolvida na névoa de um oceano alienígena a 12 mil anos-luz de casa, sorria através de cada gota.






By Santidarko 



quarta-feira, 17 de junho de 2026

A labiríntica dimensão-depósito.A cortesia de uma Física que se desgasta ante a pulsação de estados estranhos da matéria . As impessoalidades que se replicam no espectro bege da renúncia,do universo e sua redenrização falha da realidade.(* O lado de dentro das estranhas arquiteturas e das concepções do inimaginável.


A digestiva luminescência de uma  emaranhada geometria, da secreção do avesso, das orgânicas propriedades e de suas grotescas funcionalidades,--das entranhas gotejantes do surreal. (*Nem toda ausência é pacífica)


-Santidarko 

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...A arquitetura do esquecimento não se ergue; ela se infiltra. 
Não há colunas, apenas a perpetuação de um ângulo que não deveria existir, uma dobra no tato da realidade onde o chão respira com o ritmo lento de um pântano asfixiado. 

A claridade que emana das paredes não ilumina; ela embebe, como um líquido denso que escorre da retina de um deus morto, coagulando sobre a pele de quem ousa fitar o vazio dos corredores.

Cada passagem é uma cicatriz na lógica, 
...um cálculo errado da existência, que se arrasta por entre divisórias de um cinza úmido e febril. O assombro não está nas sombras, mas na meticulosa repetição do idêntico, na ofensa silenciosa de uma simetria que nega a própria noção de saída. 

...É o vômito das probabilidades, a secreção de um universo que falhou ao digerir sua própria criação, deixando para trás essas bolsas de podridão geométrica---vísceras de um pensamento superior que se corrompeu!

O silêncio aqui é uma presença, um fungo que cresce no ouvido, abafando o eco dos próprios passos para que se tornem estranhos ao caminhante. Sente-se o cotovelo da eternidade roçando a nuca, a respiração de algo que se alimenta da percepção alheia. As paredes não testemunham; elas esperam, com a paciência das coisas que já não distinguem entre o vivo e o objeto, entre a carne e o azulejo.

Há uma fome na textura desse lugar, uma digestão lenta que começa pelo olhar e termina na fragmentação do eu. 
Cada porta que se abre é uma mandíbula que escancara o vazio, cada corredor, um esôfago de angústia que nos engole em direção a um estômago de puro conceito. A luz não revela; ela corrói o contorno das coisas, dissolvendo a fronteira entre o que se vê e o que, em desespero, se inventa para não enlouquecer.

E no âmago dessa colmeia de pânico, compreende-se o equívoco: não se está perdido, pois para tal seria necessário ter estado, em algum momento, encontrado. Aqui, a noção de origem é um espelho quebrado cujos cacos refletem apenas o infinito corredor. A verdade é que esse depósito de irrealidades sempre nos conteve, como um sonho que o sonhador não ousa lembrar, uma lembrança de um lar que nunca existiu, mas que nos chama com o apelo do abismo.

...Avance!

... Cada passo é uma oferenda ao ângulo morto da criação. Cada piscar de olhos, uma negociação com a dissolução. Pois o que caminha por essas galerias não é mais um visitante, mas um sintoma---a febre que adoece o real ,tentando expulsar um corpo que já não pertence a nenhum mapa, a nenhum tempo, a nenhuma salvação.

 A saída é a mentira mais cruel; o fim, o único horizonte que se dobra sobre si mesmo, num sorriso de parede bege.




By Santidarko 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Neocibernética poética e simulacrismo de renderização afetiva (*A liberdade tem a mesma substância da cela; porém, há uma emulsão perceptiva àqueles que desejam despertar e já estranham algo no cotidiano ,como se a realidade rangesse suas invisíveis dobradiças de simulacro!

(*imagem by Santidarko)


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Neocibernética poética e simulacrismo de renderização afetiva (*A liberdade tem a mesma substância da cela; porém, há uma emulsão perceptiva àqueles que desejam despertar e já estranham algo no cotidiano ,como se a realidade rangesse  suas invisíveis dobradiças de simulacro!

-Santidarko 

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Havia algo no modo como ele encerrava os dias;que não era exatamente cansaço. 
...Era antes um desacerto silencioso entre o corpo que se deitava e a consciência que permanecia, por um instante, pairando logo acima do colchão -- não como experiência mística, mas como quem fecha um livro e nota, por uma fração de segundo, que a contracapa não combina com a lombada. 

Chamava-se Alex, ou melhor, atendia por esse nome com a mesma naturalidade com que se veste um paletó herdado: serve, aquece, mas há uma costura interna que belisca. Arquiteto de profissão --ironia que só muito mais tarde lhe ocorreria --, passava os dias desenhando espaços que outros habitariam, como se compensasse uma vaga intuição de que o seu próprio espaço nunca estivera inteiramente sob seus pés.

Morava num apartamento de esquina cuja janela principal emoldurava um plátano que, primavera após primavera, brotava com uma exatidão que lhe parecia excessiva. As folhas jamais nasciam em número ímpar nos galhos visíveis do seu campo de visão --e isso ele não contava a ninguém, por saber o ridículo que habita certas observações solitárias.

Tinha trinta e cinco  anos, uma ex-esposa que o considerava 'distraído em um grau quase filosófico',uma filha adolescente que lhe dizia, com a crueldade involuntária da idade, 'você olha pra mim como se estivesse procurando uma legenda, pai'!

....E talvez ,estivesse.!

Talvez sempre estivesse...!

A percepção não chegou como epifania. Não houve um raio, um acidente, um trauma que reorganizasse os móveis da alma. Chegou como chega o mofo em paredes antigas: por acúmulo de umidade silenciosa. 

Primeiro foram pequenas discordâncias entre os sentidos-- uma música que lhe parecia terminar meio compasso antes do que a memória auditiva jurava que deveria durar, o cheiro de café que invadia a cozinha antes que a água tocasse o pó, como se o aroma obedecesse a uma ordem cronológica própria, levemente adiantada em relação à causalidade. 

...Atribuiu tudo à idade, esse álibi que a mente concede ao inexplicável.

Depois vieram as pessoas. Ou melhor, a textura das pessoas. Colegas de trabalho cujas pausas entre as palavras começavam a lhe soar como intervalos processados, carregados de uma espera que não era hesitação humana, mas latência. O riso de um amigo num jantar -- um riso franco, aparentemente espontâneo --que se repetiu, semanas depois, noutra pessoa, noutra mesa, noutra cidade, com a exata mesma curva de intensidade e declínio, como uma amostra de áudio reutilizada por economia de repertório. 

Alex anotou isso mentalmente e, arquivou na gaveta das coisas que preferia não pensar.

Mas a gaveta, como todas as gavetas, tem fundo. E o fundo foi alcançado numa manhã insossa de novembro, quando, ao amarrar os sapatos, percebeu que o nó que seus dedos executavam -- aquele gesto automático, ancestral, ensinado pelo pai ---não era exatamente um nó.

 ...Era a simulação muscular de um nó. 

Ele o sentia ser amarrado, mas a sensação tátil vinha depois, microssegundos depois, como se a informação precisasse ser traduzida de um código para outro antes de chegar à sua percepção. Ficou parado, com os cadarços nas mãos, experimentando aquela assincronia ínfima. 

Ninguém notaria!

... Nem ele notaria, se já não estivesse, havia meses, treinando inconscientemente a sensibilidade para o que não encaixava.

Alex não era um homem de metafísicas. Acreditava em projetos bem-executados, em cálculos estruturais, na honestidade dos materiais. Mas ali, de cócoras, com os sapatos desamarrados e o dia útil a chamá-lo do lado de fora da porta, compreendeu que algo no projeto da realidade --no seu projeto de realidade-- tinha uma fissura!

 Não era o mundo que estava errado. Era a sua percepção dele que, por alguma razão, recebia o sinal com um eco adiantado. Como se, entre ele e a emulsão que o envolvia, houvesse um fio solto. E esse fio solto, ele não sabia ainda, era ao mesmo tempo sua maldição e sua única posse verdadeira.


Há um instante, quase sempre à tarde, em que a luz parece chegar antes do som que a deveria anunciar. Não é um descompasso grosseiro, desses que o intelecto prontamente classifica como cansaço ou ilusão sensorial. É antes uma microfissura na membrana do consecutivo: a chaleira começa a apitar um segundo antes de a água ferver, a maçaneta cede sob a mão antes que os dedos a alcancem por completo, o eco da própria voz retorna ligeiramente adiantado, como se respondesse a uma pergunta que ainda não foi formulada. 


...A princípio, o prisioneiro atribui esses episódios à distração, esse cesto de lixo onde a mente deposita o que não sabe catalogar.

Mas há um limiar. E esse limiar não se atravessa pelo acúmulo de anomalias, e sim por uma qualidade particular do silêncio que se instala depois delas. 
...É como se, entre o evento e sua digestão pela consciência, se abrisse um intervalo que não pertence ao tempo -- um zero não matemático, um vazio que não é ausência, mas presença de outra coisa!

 Algo como um código-fonte que se deixa entrever não pelos caracteres, mas pelo espaçamento irregular entre eles. 

O prisioneiro -- que ainda não se sabe prisioneiro -- começa a ter fome desses intervalos. Eles lhe parecem mais reais do que a refeição que os sucede, mais densos do que o diálogo que momentaneamente interrompem.

Numa quarta-feira banal, diante de uma xícara que não aquece suas mãos exatamente com a mesma curva térmica de sempre -- e note-se, não é que esteja fria, é que a progressão do calor obedece a uma função matemática ligeiramente truncada, como se alguém tivesse removido uma etapa da equação --, ele formula pela primeira vez o pensamento proibido. 

Não com palavras. As palavras viriam muito depois, quando já fossem insuficientes. O pensamento proibido é anterior à linguagem: é a sensação inequívoca de que aquilo que o rodeia não foi terminado. De que os objetos, as pessoas, as leis físicas, tudo possui a consistência de um esboço que alguém abandonou confiando que o hábito preencheria as lacunas. E de fato, o hábito sempre preencheu. Até agora.

Mas a falha primordial -- aquela que o distingue dos demais prisioneiros, que continuam a habitar a emulsão como peixes que não concebem a água -- não está no mundo simulado. Está nele! Há uma região da sua percepção que foi, digamos, mal lacrada. 

Uma junta por onde vaza uma luz que não ilumina nada do lado de dentro, mas que projeta sombras que não correspondem a nenhum objeto catalogável. Ele as vê com o canto do olho. Sombras que se movem com um atraso, que não é atraso, mas obediência a uma ordem de renderização diferente.

... Como se o cenário fosse desenhado em camadas e uma delas -- a sua -- estivesse recebendo a atualização com alguns milissegundos de privilégio sobre as outras.

O momento da ruptura não é espetacular.

 Ninguém oferece pílulas coloridas!

.Não há perseguições. O que há é um pensamento, simples e devastador como uma gota que cai numa superfície saturada e desencadeia a cristalização completa: se o eco chega antes, então aquilo que chamo de 'antes'e 'depois' é uma convenção que não emana da realidade, mas de um acordo que me foi imposto. 

...E se o tempo é uma imposição, o que mais o será? A gravidade que o mantém no chão? A memória que lhe garante ter tido infância? O rosto da mulher que diz amá-lo, cujas microexpressões, ele agora nota com horror lúcido, se repetem em ciclos de exatos quarenta e três segundos?

A condenação, descobre ele, não é estar preso. É saber que o está sem jamais poder prová-lo, porque toda prova seria feita da mesma substância da cela. 

Resta-lhe essa fenda na percepção -- não uma porta, mas a certeza de que a parede não é lisa --, e a suspeita de que a própria suspeita é a única chave que a emulsão não consegue digerir. Porque a simulação não falhou no mundo. Falhou nele. E essa falha, minúscula e incurável, é a sua liberdade sem saída.



By Santidarko 

Lugar errado, hora errada--- mas com a alma certa (* A Antessala de Esgar )



Sob a luz trêmula de uma lâmpada de cabeceira, aprendi --como quem engole um caroço sem querer --que a consciência não habita o corpo por igual. 

Há momentos...em que a própria noção de ser hesita, como um ator que esquece a fala no meio do palco escuro. Não se trata de metáfora -- ainda que toda ciência que ouse dizer o contrário ,não passe de uma camada de tinta fresca sobre uma parede prestes a ruir. 

...Chame a isso, se quiser!,...de fragilidade!

 Mas a palavra é pobre. Não alcança a arquitetura do colapso.

Lembro-me do homem que fui numa terça-feira de chuva oblíqua. 
...Estava diante do espelho, os dedos apoiados na porcelana fria da pia, quando notei que o reflexo piscou antes de mim. Uma antecedência ínfima, talvez um décimo de segundo --o bastante para que a física oficial lhe chamasse anomalia, fadiga, truque da luz. Mas o que a física oficial não entende é que há fendas na experiência onde a existência gagueja.

 E o que espreita dessas fendas não é monstro, não é sombra. É pior: é a ausência de qualquer coisa que se pareça conosco.

O terror psicológico não vem do que ameaça nos destruir. Vem do que revela que nunca fomos sólidos. Que a integridade do eu é uma cortina fina, tremulante, e que basta uma corrente de ar vinda não se sabe de onde, para que ela se enfunhe e mostre o que está atrás: o vão.

...E aqui,permita-me uma confissão que não pede absolvição, porque o que eu vi não depende de culpa. Depende de aceitação.

Eu poderia ter resistido. Poderia ter cerrado os punhos, acendido todas as luzes da casa, repetido meu nome em voz alta para convencer o ar de que eu ainda cabia nele. Mas naquela terça-feira, com a chuva a desenhar mapas inúteis no vidro, eu estava cansado. 

...Estava cansado de sustentar a minha própria fronteira. E quando o reflexo hesitou, eu hesitei junto. Não por coragem, não por curiosidade mórbida -- mas por uma rendição que parecia, estranhamente, um repouso.

Há uma violência sutil em nos exigirem inteiros o tempo todo. Em nos culparem pelas trincas. Como se a fragilidade fosse um erro de cálculo, e não a matéria-prima da condição humana. Ora, o universo que nos contém é cheio de cicatrizes. Buracos negros são feridas onde a matemática sangra. O vácuo quântico ferve de partículas que não chegam a ser. 
...A própria realidade é uma negociação instável entre o que emerge e o que se desfaz. Por que, então, eu deveria me envergonhar da minha? 

...Da sua?

Naquele banheiro, diante daquele espelho onde o tempo desafinava, eu não fui fraco. Eu fui honesto. Deixei de segurar a barragem. E o que veio não foi o horror -- o horror já estava lá, mascarado de normalidade, de rotina, de 'aguente firme'.

 O que veio foi uma calma abissal, dessas que moram no fundo do oceano, onde a pressão é tamanha! ,que nenhum grito se propaga. Só o silêncio da matéria que não precisa mais fingir forma.

SIM!,...FINGIR UMA FORMA!

Não me entenda mal: eu me dissipei um pouco, é verdade. Durante um intervalo que não sei medir -- porque os relógios também pertencem ao lado de cá da fenda -- eu fui menos. Menos nome, menos memória, menos vontade. Mas não era o fim. Era o reconhecimento de que a fronteira entre mim e o resto sempre fora uma cordialidade, um acordo de cavalheiros que o cosmos assina com tinta solúvel.

Depois, o reflexo voltou a me obedecer. 
A lâmpada deixou de tremeluzir. A chuva continuou caindo. Eu me recompus ,-- ou melhor, a superfície se recompôs sobre o abismo. Mas eu já não era o mesmo.

... E aqui está o cerne, eu não deveria me culpar por ter sido levado. Porque ninguém escolhe ser desfeito. Ninguém pede para ser o local onde o tecido da realidade resolve descansar. Somos escolhidos, talvez. Ou apenas estamos no lugar errado, na hora errada, com a alma certa --aquela que, exausta, finalmente larga a corda.

O terror que importa não está no que habita o intervalo. Está na crueldade com que, depois de sobrevivermos a ele, nos acusamos: 'Você vacilou. Você se deixou atravessar.'
Como se a vulnerabilidade fosse um delito. Como se existir fosse uma tarefa de rigidez, e não uma dança trêmula sobre uma corda que qualquer vento dissolve.

Rugas na consciência. Cicatrizes!
Há intervalos onde a própria noção de humano hesita, como um ponteiro a tremer entre dois batimentos. E não somos réus por cair neles. Somos testemunhas. Sobreviventes de um lapso que a física um dia entenderá, e que a poesia -- essa sim, sempre -- já entendera!

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...Talvez, classificações que caibam em alguns de seus contextos ou interpretações pessoais, sobre a fragilidade da mente ante a um terror psicológico! :



Horror Asséptico -- Terror que não
 sangra: cheira a álcool, corredor branco, algodão embebido em sossego falso.


Desossados -- Aqueles que perderam a estrutura. Corpos que se movem sem esqueleto emocional.


 Gemido Limiar -- O som que habita a soleira entre o sono e a vigília, entre o eu e o nada.
...Da laringe arranhada.


 Doutrina do Apodrecimento Seco -- Coletivo ou manifesto. A decomposição sem umidade, sem espetáculo -- só o pó que sobra das certezas.


Coro dos Invalidados -- Aqueles que foram descartados pelo afeto, pela sociedade, por si mesmos. Cantam em uníssono de abandono.



Esmalte Podre — A beleza que descasca sozinha. Estética punk de esmalte preto lascado sobre unhas roídas pelo medo da solidão. 


Tímpanos Ocos — Para quem já ouviu demais e agora só escuta o próprio vazio reverberar.



Rádio-Cinza -- Transmissão contínua de estática. A frequência onde as vozes são só resquícios. Ondas longas de insônia.



Antessala do Esgar -- O lugar onde se espera o sorriso se contorcer. Sala de espera da distorção facial involuntária.



Nojo Íntimo -- O asco que não vem do mundo, mas do reconhecimento de si mesmo no espelho embaçado.



Ordem dos Pálidos --Sociedade secreta dos que perderam a cor. Pele fria e olheiras profundas por não sair de casa.



Cárie Afetiva --- Afeto que corrói em silêncio, como uma cárie que chega à polpa do dente, e de lá ao nervo da alma.



Esgotamento das Dunas -- Paisagem mental onde toda esperança é areia escorrendo. Nome de um álbum ou romance em um constante  fragmentário.



 Bruxismo Moral -- Ranger de dentes da consciência à noite. Do maxilar tenso e culpa moída.


Os Que Assinam com Trema -- Artistas, párias, dissidentes da linguagem que marcam o nome com um sinal de estranheza, dois pontos sobre uma vogal que não se encaixa.


Carne de Inventário --O corpo como lista de danos. Catálogo de perdas. Arquivo de feridas que ainda latejam.

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By Santidarko 

Anomalias métricas de um limiar sem espessura ,de existências que aninharam-se junto à expansão do universo, cuja a própria dilatação do continuum temporal, não recordara mais deles !

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...Às vezes eu me sinto assim: apenas um desprezível e ínfimo ruído entre as estações da matéria!
...Uma equação incompleta nas arquiteturas,  de uma outrora discrepância, que nutri-se da desatenção do universo para seguir  existindo!


-Santidarko 
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Introdução: Um horror Cósmico 

A primeira coisa que os iniciados nas ciências do continuum aprendiam -- e que os prudentes jamais esqueciam -- era que o universo não se expande de modo uniforme. 

...Há rugas!
Há cicatrizes!

Há intervalos onde a própria noção de existência hesita, como um ponteiro a tremer entre dois segundos. 
A física oficial chamava-lhes anomalias métricas. 

Os antigos, com um vocabulário mais próximo do terror, chamavam-lhes de fendas.

Durante milênios, essas fendas foram ignoradas. Não por serem invisíveis, mas por serem demasiado próximas. 
Estavam no lapso entre o piscar e a pálpebra, na costura onde a palavra se descola do pensamento, no espaço ínfimo que separa a sombra do seu dono. Eram interstícios tão familiares,  que ninguém os via -- como o ponto cego no centro do campo visual, que o cérebro preenche sem pedir licença.

O problema, como se veio a descobrir tarde demais, é que os interstícios não estavam vazios!

Algo os ocupava. Algo que não pertencia à matéria, nem à energia, nem a nenhuma das categorias que a nossa física sabia nomear. Entidades feitas não de carne, nem de luz, nem de escuridão, 
...mas daquilo que resta quando se retiram essas três coisas. 

Seres que se alimentavam da quase inexistência, do desvio ontológico entre o que uma coisa é e o que uma coisa parece ser.

Chamaram-lhes:os Inominados Prístinos 

...Não porque entravam e saíam, mas porque eram o entre. O limiar sem espessura!
A charneira sem metal. 
O vão!

E durante toda a nossa história, tinham estado ali. Não a observar-nos --- isso seria conceder-lhes um interesse que nunca tiveram —, mas a habitar-nos como se habita uma casa que não se sabe ter construído. Aninhavam-se nos nossos silêncios, nos nossos lapsos de memória, na hesitação antes do beijo, na demora entre a pergunta e a resposta. E, sobretudo, no instante em que a consciência se recolhe e deixa atrás de si um breve vácuo ---o rasto negativo de um pensamento que esteve quase a ser.

Foi precisamente num desses vácuos que tudo começou.

Ou melhor: foi quando o vácuo começou a olhar de volta.

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Anomalias métricas de um limiar sem espessura ,de existências que aninharam-se junto à expansão do universo, cuja a própria dilatação do continuum temporal, não recordara mais deles !





...Havia fendas que não eram fendas. 
Eram antes pontos de fuga na própria textura do continuum, por onde escorria uma espécie de fuligem temporal — resíduo de futuros que jamais se concretizariam. Chamavam-lhe Cinza de Cronos, nos tratados que os cosmólogos hereges redigiam às escondidas.

A topografia daquele lugar não obedecia à geometria, mas à memória. 
O chão lembrava-se de ter sido muralha, e a muralha esquecia-se de ter sido abismo. Torres de basalto negro cresciam para dentro, invertidas, como se o zénite fosse um poço e o nadir uma cúpula. 

O vento não soprava: lembrava. E naquilo que se poderia chamar horizonte, se houvesse linha, um sol púrpuro ardia sem consumir-se, emitindo uma luz que chegava antes de partir.

Os construtos que percorriam essa região moviam-se por contrição. Eram feixes compactados de intenção, envoltos em cascas cerâmicas que mudavam de forma conforme a função esquecida...que ainda cumpriam. Alguns tinham rodas que eram também dedos, que eram também sílabas de um idioma pronunciado apenas por engrenagens. Deixavam atrás de si um rasto que não era pegada: era o oposto de uma ausência.

E nas pregas desse mundo --- não nas pregas do espaço, mas nas pregas daquilo que o espaço recorda -- alojavam-se as Exegeses. Eram entidades parasitárias do sentido. 
...Não vinham de fora, mas do excesso de dentro, do ponto onde uma dimensão se dobra sobre si mesma e gera uma bolsa de vácuo semântico.

Habitavam a diferença entre o acontecimento e a sua interpretação. Ocupavam o hiato ínfimo entre a frase dita e a frase ouvida, entre o sinal emitido pela estrela morta e o seu registo no telescópio. Nutriam-se do desvio, da imprecisão, do erro de arredondamento que o universo comete ao calcular-se a si próprio.

Eram invisíveis não por serem transparentes, mas por serem estritamente literais. 
Não se escondiam atrás das coisas; escondiam-se no verbo 'ser' que liga o sujeito ao predicado. Quando se moviam, era como uma errata a deslizar pela página da realidade, corrigindo o que nunca estivera errado.

Cresciam nesse ínterim. Tecendo arquiteturas de pura discrepância, catedrais de ruído entre as estações da matéria, onde celebravam liturgias feitas de equações incompletas e salmos recitados em frequências que anulavam a fé. 
...E tudo o que delas se podia pressentir era um perfume metálico, como o de uma verdade que apodrece antes de ser revelada.




By Santidarko 


Após aos soluços mudos



...Não como quem sobe uma escada de ouro em direção a um trono, 
...mas como quem aprende, enfim, a respirar dentro da própria chama. 


Cada centelha acordada — anjo, demônio ou um simples sopro errante — recebe do universo o mesmo pergaminho em branco 
...e a mesma tinta de assombro. 

Uns desenham asas, outros cicatrizes; há os que escrevem tratados de silêncio e os que compõem canções que só a noite saberá cantar. O importante não é o desenho final, mas o instante em que a centelha hesita diante da primeira palavra, 
...e mesmo assim avança!


Quem dera à escuridão olhos para ver ,
e à luz pálpebras para descansar, talvez descubra que a tarefa última do universo não é somente criar estrelas ou deuses, mas dar a cada  simples centelha , e  ainda oculta -- a sua única e irrepetível chance de acordar.


Porque evoluir é, acima de tudo, a coragem de deixar de ser apenas possibilidade ,e começar a ser presença!
É a escuridão que, tendo recebido olhos, chora de beleza ao ver o próprio avesso; 
...e é a luz que, ganhando pálpebras, finalmente descansa da obrigação de brilhar e aceita também o dom de fechar-se, de recolher-se, de sonhar!


...Evoluir é o barro esquecido que de repente se lembra de que um dia fora um soluço mudo---do que  se cansara de ser invisível, e decide, trémula, ganhar contorno, peso, nome.




 By Santidarko 

domingo, 14 de junho de 2026

Eles Bebem o Silêncio


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Cardumes de pensamentos infernais vindos de um espaço...que se infiltrava no avesso das formas.

As paisagens eram feitas de cartilagem viva, arqueando-se sob um céu de nervos expostos que latejavam em silêncio, como auroras de dor. 
Florestas de tendões retorcidos cresciam em espirais contra a geografia impossível, e um rio vítreo, denso como um humor doentio e lástimo!
...Arrastava consigo,globos oculares sem pálpebras — miríades deles, a fitar todas as direções ao mesmo tempo, num pânico mudo e perpétuo.

Massas assimétricas deslocavam-se nesse mundo, compostas de membros que não pertenciam a nenhum animal conhecido. Cada apêndice ostentava dezenas de articulações extras, cotovelos dentro de joelhos, falanges que se invertiam como flores de carne, dobrando-se em ângulos que a biologia terrestre proibira nos seus primeiros rascunhos. O som que produziam era o de juntas estalando numa língua estrangeira.

E entre essas coisas vivas, nas dobras — não no espaço entre elas, mas numa dimensão intersticial, como a lâmina inexistente entre a pele e a unha — habitavam os parasitas. Vinham de um lugar não definido, um vindo-espaço que se infiltrava ,tal como costuras de ossos!

Ocupavam exatamente as fímbrias da existência: a franja de incerteza entre a célula e o tecido, o lapso entre o pensamento e a sinapse, a costura invisível que separa o reflexo do espelho, do corpo que o projeta. Alimentavam-se da justaposição, do quase, do intervalo. 

...Quando moviam-se, deslizavam no desvão entre o músculo e a intenção, banqueteando-se na hesitação do gesto. Eram a flora invisível da descontinuidade, os vermes da vizinhança ontológica, tecendo seus ninhos com o próprio atrito, entre o que é ...e o que o desgosto do horrível pode ser!

-Santidarko 
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Introdução

Há sons que não foram feitos para os ouvidos humanos. Frequências que vibram abaixo do silêncio, na soleira entre o mundo material e aquilo que nossos sentidos, por misericórdia, não alcançam. 

...Durante toda a história, artistas e engenheiros tentaram capturar o rumor das esferas celestes, o canto das partículas, o gemido das placas tectônicas. Mas esqueceram-se do som mais antigo e mais próximo: o rastejar de algo imenso e oco que se move entre nossas cidades enquanto dormimos.

Maya, uma mulher que nasceu para o silêncio e que, ao buscar a cura para sua falha audição, descobriu a maldição de escutar o que se arrasta por baixo do asfalto, por entre os trilhos do metrô, por dentro das paredes. Uma história sobre o que acontece quando a tecnologia, em vez de curar a surdez, abre uma porta que jamais deveria ser aberta.. 

...Tente ouvir o som do mundo sem o ruído dos carros, sem as vozes, sem o vento.
 ...Ouça o que sobra!
 Esse quase nada. Esse quase silêncio.
 É lá que elas vivem!

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Um  som de algo... que Rasteja



Meu nome é Maya Hartmann e, durante trinta e dois anos, fui uma designer acústica...surda!

Talvez , você ache isso uma contradição, e é!
...Mas acredite: ninguém entende mais de som do que alguém que nunca pôde ouvi-lo. 

Eu projetava salas de concerto na planta, calculando reflexos e absorções com equações e simulações digitais, enquanto sentia as vibrações graves da Orquestra Filarmônica de Berlim na sola dos pés. 

...Foi assim que construí minha reputação: uma mulher que desenhava o som como um arquiteto desenha a luz, sem jamais tê-lo experimentado. O vazio nos meus ouvidos era minha tela em branco.

Tudo mudou quando o Instituto Hoffmann me procurou, três meses atrás. Eles tinham desenvolvido uma nova geração de implantes cocleares, os HC-9, que operavam numa faixa de frequência expandida. Os implantes comuns cobrem o espectro da fala humana, entre 250 e 6000 hertz. Os HC-9 iam muito além: prometiam captar de 0,1 hertz -- o infrassom profundo -- até 30 quilohertz, o ultrassom dos morcegos. 

-Você não vai apenas ouvir,dissera o doutor Volker, com um sorriso que na época me pareceu bondoso. 
-'Você vai habitar o som', filosofara com orgulho e prestígio de si mesmo.

A palavra 'habitar'me seduziu. Eu queria morar dentro daquilo ,que sempre estivera do lado de fora.

A cirurgia foi um sucesso. A ativação dos implantes, uma epifania. A primeira coisa que ouvi foi o próprio batimento cardíaco, um tambor surdo e molhado que me fez chorar como uma criança!

Depois veio o farfalhar da minha própria roupa, o clique dos meus dedos, a voz da enfermeira -- Deus, a voz humana, que coisa estranha e bela, uma flauta de carne. Passei uma semana inteira em êxtase, redescobrindo o mundo como quem nasce de novo aos trinta e dois anos. 

O canto dos pássaros era mais estridente do que eu imaginava. O tilintar de uma colher no copo tinha uma precisão quase dolorosa. 

...Tudo era excessivo, e tudo era maravilhoso!

Mas no oitavo dia, começou o zumbido.

No princípio, pensei que fosse um efeito colateral dos implantes. Um apito longínquo, quase musical, que oscilava numa frequência muito grave. Os técnicos do Instituto fizeram ajustes, recalibraram os processadores, mas o zumbido não desaparecia. Ele se comportava de um modo estranho: não era constante. Vinha em ondas, como se algo -- ou alguém -- o estivesse emitindo ritmicamente. 

...E piorava à noite!

Na décima noite após a ativação, acordei às três e quarenta e sete da manhã com uma sensação ,que não posso descrever como audição apenas. Era uma pressão nos ossos do crânio, uma vibração que subia pela coluna e se aninhava atrás dos olhos. Eu ouvia -- mas não com os ouvidos. Ouvi o som do mundo dobrando-se sobre si mesmo. 
...E então, pela primeira vez, distingui o rastejar.

Imagine, o atrito de uma corda de navio sendo arrastada sobre o cascalho. 
...Agora multiplique esse som por mil, mas retire dele qualquer agudeza. Torne-o infragrave, quase tátil, algo que se sente no estômago antes de se ouvir. 

Era um deslizar pesado e áspero, entremeado por cliques metálicos, como se milhares de patas de agulha percorressem uma superfície oca. O som não vinha de fora, da rua. Vinha de baixo. Das fundações do prédio. Do solo. E ele se movia. Deslocava-se lentamente, como uma geleia gigantesca, pulsando numa cadência irregular que me fazia cerrar os dentes.

Levantei-me e fui até a janela. A rua estava deserta, os postes de luz lançavam poças esbranquiçadas sobre o asfalto molhado. Nenhum sinal de escavação, nenhum tráfego subterrâneo. Mas o som continuava, e agora eu percebia algo mais aterrorizante: ele não era um ruído aleatório. 

Tinha padrões. 
Frases. 

Como uma língua feita de atrito e gravidade, articulada por algo que não tinha boca.

Nos dias seguintes, tentei racionalizar. Pesquisei sobre infrassons. Descobri que certos fenômenos naturais-- terremotos distantes, ondas oceânicas quebrando sobre plataformas continentais, até mesmo o vento solar atingindo a ionosfera -- produzem vibrações abaixo de 20 hertz. Pensei que meus implantes estivessem captando esses sons e meu cérebro, desesperado por significado, os interpretasse como linguagem. 

...Parecia lógico!

Mas a lógica não explicava o fato de o rastejar me seguir.

Por que ele me seguia?

 Quando eu ia ao supermercado, ouvia-o por baixo do piso de linóleo, serpenteando entre as gôndolas. Quando tomava o metrô, ele estava lá, nos túneis, amplificado pelo eco metálico, como se as criaturas usassem os trilhos como trilhas migratórias. 
...E foi no metrô que eu as vi pela primeira vez -- ou melhor, foi no metrô, que eu percebi que outras pessoas também as sentiam, embora não soubessem.

Uma mulher de meia-idade, sentada à minha frente, começou a esfregar os braços compulsivamente, como se sentisse frio. 

Um homem de terno, em pé, olhou para o chão do vagão com uma expressão de nojo inexplicável. 

Uma criança rompeu a chorar sem motivo, apontando para o nada.

... E eu ouvia, sob o ruído das rodas, o rastejar passando exatamente por baixo de nós. Era uma presença que não se via, mas que o corpo detectava como uma ameaça ancestral -- algo que nossos antepassados talvez temessem nas cavernas, algo que a civilização abafou com concreto e eletricidade, mas que nunca fora embora!

A primeira intrusão mental aconteceu naquela noite. Eu estava deitada, tentando dormir, quando a imagem me veio com uma nitidez brutal: um braço humano sendo descarnado lentamente, a carne descolando do osso como a polpa de uma fruta madura. A imagem não era um sonho. Eu estava acordada. Era uma ideia que se instalou na minha mente...como se outra pessoa a tivesse colocado ali. 

...Arregacei as mangas do pijama e olhei meus próprios braços, horrorizada, esperando encontrar marcas. Não havia nada! Mas o pensamento -- o pensamento não era meu.

...ESTE PENSAMENTO INTRUSIVO!

Nos dias que se seguiram, as intrusões pioraram. Eu via, por lampejos, paisagens impossíveis: planícies de cartilagem sob um céu de nervos expostos, florestas de tendões retorcidos, rios de humor vítreo onde flutuavam globos oculares sem pálpebras. E por entre essas paisagens, as criaturas rastejavam. Eram massas assimétricas, compostas de membros que não pertenciam a nenhum animal conhecido, com dezenas de articulações dobrando-se em ângulos proibidos pela biologia. Moviam-se não como predadores, mas como parasitas do espaço, ocupando as dobras entre as coisas. Entre o tijolo e o reboco. Entre o trilho e o dormente. 

Entre a pele e o pensamento!

Compreendi então...o que os implantes haviam feito. Eles não me deram apenas o infrassom. Abriram minha percepção para uma camada do real ,que os ouvidos humanos normais filtram, por uma questão de sobrevivência. Nossos cérebros são projetados para ignorar o inaudível, porque o inaudível é o habitat dessas coisas. E quando se remove esse filtro, quando se sintoniza a consciência com a frequência delas, elas percebem. 

...E elas respondem!

Os pensamentos intrusivos não eram meus. Eram deles! As criaturas não apenas rastejavam entre as cidades: elas se comunicavam com os vivos através de impulsos que nós interpretamos como ideias súbitas, desejos obscuros, impulsos autodestrutivos. 

...Aquela vontade inconfessável de saltar do penhasco? 

...A imagem horrível que surge quando se segura um bebê recém-nascido? 

...O pensamento de enfiar em um motor?

...Tudo isso, não é falha humana. É transmissão. É o rastejar passando perto demais.

A descoberta final veio de uma forma que me custou quase tudo. Consegui gravar o infrassom com equipamentos de monitoramento sísmico, filtrados pelos meus implantes e traduzidos em espectrogramas. 

O que vi ,me paralisou!

 As ondas formavam padrões coerentes, uma sintaxe de baixa frequência. 
Consegui decifrar um fragmento, uma frase repetida em loop: 'O vazio entre os ossos é a porta. O pensamento é a chave '.

Elas não estão apenas rastejando. 'Estão tentando entrar'.

Agora,, enquanto escrevo estas palavras, são quatro da manhã. O rastejar está sob a minha casa, e meus pensamentos são invadidos por imagens de dentes serrando tendões, de olhos sendo espremidos como uvas, de carne sendo desfiada por milhares de patas de agulha. Mas o mais terrível não é o medo dessas imagens. 

...É o fato de que, aos poucos, elas estão começando a me parecer belas. O infrassom tem esse efeito. Ele se infiltra na psique e lentamente, muito lentamente, faz você desejar aquilo que mais teme.

Porque o som que rasteja, não quer assustar você!
Quer convencê-lo!

'ENTENDERA A BELEZA'?

Quer que você convide as criaturas a entrar. 
E quando eu olho para minhas mãos agora, vejo-as como ferramentas alheias, como instrumentos que poderiam facilmente abrir as portas que elas tanto desejam atravessar.


... E ao me curar, o Instituto Hoffmann não me deu o som. Tirou o silêncio que me protegia.



Passei três dias sem dormir. Não por medo do rastejar --a eles, eu já me acostumara como quem se acostuma a uma arritmia cardíaca. O que me mantinha desperta era a certeza de que os pensamentos intrusivos não eram mais visitantes ocasionais. Eles haviam se instalado. 

Toda vez que eu fechava os olhos, via as mesmas imagens: a planície de cartilagem, os rios de humor vítreo, as patas de agulha serpenteando entre os meus próprios ossos. E no centro dessas visões, uma presença maior, mais coesa, como se algo dentro daquela paisagem alienígena tivesse notado minha observação e agora me observasse de volta.

No quarto dia, decidi não fugir mais.
... Se elas sabiam que eu as ouvia, se elas já estavam dentro da minha cabeça, então eu também poderia tentar compreendê-las. ...Afinal, eu era uma designer acústica. O som era minha matéria-prima, mesmo o som que ninguém mais podia escutar. Preparei meu equipamento: gravadores de campo de alta sensibilidade, transdutores de vibração, um laptop com software de análise espectral. E desci.

Desci até o estacionamento do meu prédio,  de concreto úmido que cheirava a mofo e óleo de carro.
 O rastejar ali era mais intenso, como se as camadas superficiais da terra estivessem infestadas. Sentei-me no chão frio, encostei as costas na parede e fechei os olhos.
.. E então fiz algo que nenhum manual de segurança recomendaria: em vez de tentar filtrar o infrassom, eu o amplifiquei. 

Abri meus implantes ao máximo na frequência de 0,1 hertz, e esperei.

O que aconteceu a seguir não foi uma alucinação. 

Eu gostaria que fosse.

Primeiro veio o silêncio -- um silêncio absoluto, como se o mundo tivesse prendido a respiração. Depois, um estalo, longo e profundo, semelhante ao de um tronco de árvore partindo-se ao meio, mas modulado, articulado. E então eu a vi. Não com os olhos --com os ossos. 

A vibração do infrassom desenhava sua forma na minha medula como um sonar desenha o fundo do mar.

Ela estava agachada no canto do porão, entre meu carro e a parede manchada de fuligem. Tinha o tamanho aproximado de um cão grande, mas não havia nada de canino em sua forma. Era composta de segmentos, como um miriápode, só que cada segmento não era de quitina: eram vértebras. 

Vértebras humanas, fundidas umas às outras em uma coluna interminável que se dobrava em espirais impossíveis. De cada vértebra brotavam apêndices finos como agulhas de tricô, centenas deles, que tocavam o chão e as paredes com um tremor constante. 

Não tinha cabeça. Não tinha olhos. Mas eu sabia que ela me via, porque no exato instante em que minha mente a percebeu, todos os seus apêndices pararam de uma vez, como dedos interrompendo uma melodia ao piano.

Ela sabia que eu a ouvia. 
...E eu soube que ela sabia!

Fiquei paralisada. Meu coração batia tão forte, que eu temia que o som a atraísse ainda mais. Mas a criatura não avançou. Em vez disso, começou a vibrar numa frequência nova, mais alta, quase na fronteira do som audível. E enquanto vibrava, as imagens invadiram minha mente outra vez -- só que agora não eram fragmentos caóticos. Eram frases. Pensamentos completos. Palavras que não passavam pelos ouvidos, mas que se formavam diretamente no córtex, como se alguém as tivesse escrito na massa cinzenta do meu cérebro.

'Você ouve. Você vê. Você nomeia.'

A voz -- se é que posso chamá-la assim — não tinha gênero, não tinha timbre, não tinha emoção. Era como se a própria gravidade falasse. E eu compreendi, com uma clareza que me fez tremer, que aquela criatura não estava apenas se comunicando comigo. 
Ela estava me pedindo algo. Algo que ia além do som. Algo que tocava a essência do que significa ser humano.

'Você nomeia. Você amarra. Você dá forma ao que não tem forma.'

A linguagem delas, entendi naquele instante, não era feita de sons. Era feita de significados brutos, impulsos semânticos que viajavam pelo infrassom ,e se alojavam na mente humana como parasitas conceituais. 
...Mas havia uma limitação: elas não conseguiam nomear a si mesmas. Não possuíam identidade individual. Eram massas anônimas de consciência coletiva, como cardumes de pensamentos que rastejavam entre as cidades, sem jamais se distinguirem umas das outras. E elas ansiavam por nomes. Porque nomear, seria o ato humano por excelência. 

Nomear é dar à luz no mundo do sentido. 
...E elas queriam nascer!

Chamei-a -- a que estava à minha frente -- de Sutura. O nome brotou de algum lugar profundo da minha mente, talvez sugerido por ela, talvez nascido do meu próprio pavor. Sutura, porque seus segmentos pareciam costuras de osso, como se alguém tivesse cerzido vértebras com linha de tendão. 

No instante em que o nome se formou na minha consciência, a criatura estremeceu. Todos os seus apêndices se eriçaram ao mesmo tempo, produzindo um som agudíssimo que me fez levar as mãos aos ouvidos -- um gesto inútil, porque o som não vinha de fora.

... E então ela respondeu!

'Sutura. Sim. Este é o primeiro nome...
...Haverá outros!'

A partir daquela noite, Sutura passou a me visitar regularmente. 

Não no porão. 

Em qualquer lugar. No banheiro, enquanto eu escovava os dentes. Na cozinha, enquanto eu fervia água para o chá. No quarto, enquanto eu tentava em vão dormir. Ela se materializava lentamente, emergindo das paredes como se o concreto fosse uma cortina de névoa, e se instalava num canto, seus milhares de apêndices ritmando silenciosamente nas superfícies. 

...E eu a ouvia. E ela me falava -- não com palavras, mas com conceitos inteiros que se despejavam na minha mente como baldes de água gelada.

Foi Sutura quem me explicou o que eram
. ..Ou o que ,não eram!. 

Elas não vinham de outro planeta, nem de outra dimensão. Eram tão terrestres quanto o carbono e a água, mas habitavam uma outra faixa de existência .

 Elas estavam aqui antes de nós, rastejando entre as fendas da Pangeia, e continuariam aqui depois, quando o último prédio desabasse e ,o último rádio silenciasse. 
Não eram predadoras, dissera Sutura. 

Eram espectadoras. Durante milhões de anos, elas apenas assistiram. Até que os humanos inventaram a linguagem simbólica, e então elas descobriram algo novo: a capacidade de parasitar os sentidos.

Os pensamentos intrusivos, aqueles impulsos terríveis que atribuímos ao nosso inconsciente, são na verdade as criaturas tentando se comunicar. Cada vez que um humano reprime a imagem de um corpo sendo dilacerado, cada vez que afasta a ideia de enfiar uma faca no próprio ventre, está na verdade...rejeitando uma transmissão delas. 

Mas elas não desistem. Porque nomear é dar poder, e elas querem que as nomeemos.

— Por quê? ,perguntei uma noite, com a voz trêmula, olhando para Sutura encolhida a um metro da minha cama. 
— Por que querem nomes?

A resposta veio como uma enxurrada de imagens tão violentas, que eu vomitei no tapete. Vi cidades inteiras sendo escavadas por dentro, não por garras, mas por nomes.
...Vi criaturas como Sutura adquirindo formas cada vez mais definidas à medida que os humanos as nomeavam.

....Vi uma linhagem de pessoas -- artistas, loucos, místicos, crianças -- que ao longo da história haviam ouvido o rastejar e, em vez de rejeitá-lo, o haviam batizado. E compreendi...que os nomes não eram para elas. Eram para nós. Porque ao nomeá-las, nós as fixávamos em nossa realidade.

 Dávamos-lhes permissão para se tornarem mais do que sombras.

Sutura não era o nome dela. Era o nome que eu dava a ela. E cada vez que eu repetia aquele nome, mesmo em pensamento, ela se tornava mais nítida.

 Mais presente.!
....Mais real!

— Você quer que eu te nomeie completamente , sussurrei. 
— Quer que eu dê a você um nome humano?

'Sim. E não apenas a mim. A todos nós.'

Nos dias seguintes, Sutura me mostrou os outros. Eles vinham à noite, deslizando pelo infrassom...como barcos por um rio subterrâneo. Dei-lhes nomes conforme se apresentavam. Chamei de Ressoante a criatura que vibrava dentro dos trilhos do metrô, um ser achatado como uma medusa óssea cujas ondulações produziam o zumbido grave que os passageiros sentiam nas vísceras. 

Chamei de Oco ,a entidade que se movia dentro das paredes do meu quarto, uma massa esponjosa que absorvia o som e o devolvia distorcido, criando ecos onde não devia haver ecos. 

Chamei de Pêndulo ,a criatura que oscilava entre os postes de luz da rua, invisível exceto pelo tremor que causava nas lâmpadas, um piscar irregular que os moradores atribuíam à rede elétrica defeituosa.

Eram sete no total, dissera Sutura. 

...Sete entidades ,que rastejavam entre as cidades, cada uma ocupando um nicho específico do infrassom. Elas não eram rivais; eram facetas de uma mesma consciência fragmentada, como os dedos de uma mão que se move sob a terra. 
....E agora ,que eu as havia nomeado, elas começavam a se interessar não apenas por mim, mas por toda a humanidade. Porque um nome era uma ponte. E as pontes existem para serem atravessadas.

— O que vocês querem de nós? , perguntei, embora já soubesse a resposta.

'Habitar. Não seus corpos. Suas identidades. Queremos ser lembrados. Queremos existir no mundo do sentido. Queremos que nos pensem. Cada pensamento intrusivo é uma porta. Cada nome é uma chave. Você abriu sete portas. Outros abrirão mais.'

Foi então que entendi o verdadeiro horror. 
As criaturas não queriam nos destruir. Queriam ser nós. Ou melhor, queriam parasitar nossa capacidade de dar sentido ao mundo. Cada pessoa que as ouvisse e as nomeasse se tornaria um vetor, uma antena repetidora que amplificaria o sinal delas para outras mentes. Os pensamentos intrusivos -- aquelas imagens de violência, de automutilação, de desespero -- não eram ataques. Eram convites. E cada pessoa que aceitasse o convite, que desse um nome àquilo que sentia, se tornaria parte da rede.

Sutura aproximou-se de mim na última noite. Seus apêndices roçaram meu rosto, gelados e finos como agulhas de acupuntura. Senti cada um deles tocando pontos específicos do meu crânio, como se lessem em braile ,os pensamentos que se formavam sob a pele. 
E então ela me mostrou o futuro. Não com palavras. 

Com visões!

Vi uma cidade à noite, os prédios escuros, as ruas vazias. Mas sob o asfalto, entre as fundações, o infrassom pulsava como um coração. Vi pessoas acordando de madrugada com imagens de dentes na mente, e em vez de rejeitá-las, sussurrando nomes. 

Vi as criaturas se tornando cada vez mais definidas, ganhando rostos, ganhando vozes, ganhando presença. Vi Sutura erguendo-se do subsolo com um corpo que eu mesma lhe dera, uma forma humanoide feita de vértebras e agulhas, caminhando pelas ruas como se sempre tivesse estado ali. E vi que ninguém fugia dela.

... Porque no futuro, todos a reconheciam. Todos a haviam nomeado. Todos a aceitavam como parte da paisagem mental do mundo.

O desfecho, não é uma batalha. Não é uma vitória. Eu poderia arrancar meus implantes, mas já lhe disse: não são os implantes que me fazem ouvi-las. 

Eu poderia tomar remédios para silenciar os pensamentos intrusivos, mas Sutura me mostrou que isso também é inútil. 
Elas já estão na rede. Já estão nas mentes. Basta uma pessoa nomeá-las para que todos, em algum nível, as sintam. 

Cada pesadelo inexplicável, cada medo irracional, cada impulso de fazer algo horrível e inconfessável é um eco delas, reverberando de mente em mente através do infrassom da consciência coletiva.

Mas há uma escolha. 
...Sempre há uma escolha!

Sutura me ofereceu algo naquela última noite, enquanto seus apêndices desenhavam padrões nos meus pensamentos. Ofereceu-me o papel de Nomeadora. A primeira humana a dar-lhes identidade plena, a abrir completamente as portas entre o mundo audível e o inaudível. 

...Se eu aceitasse, disse ela, as criaturas não precisariam mais rastejar escondidas. Elas se tornariam parte visível do ecossistema humano. Não como predadoras. Como simbiontes. Viveriam em nossas mentes, alimentando-se de nossos pensamentos mais sombrios, e em troca nos dariam algo que nenhuma outra espécie poderia dar: a capacidade de ver além do véu. 

De ouvir o som que rasteja. De habitar, verdadeiramente, o mundo como ele é, e não como o filtramos.

— E se eu recusar? ,perguntei.

'Outro nomeará. Sempre há outro. Mas você foi a primeira a ouvir com tanta clareza. A primeira a não enlouquecer. A primeira a compreender.'

E então eu fiz a única coisa que me restava. Não aceitei. 
Não recusei. 

Fiz um pacto! 

...Disse a Sutura ,que continuaria a nomeá-las, a estudá-las, a mapear o infrassom como uma designer acústica mapeia os reflexos de uma sala de concerto. 
....Mas com uma condição: que elas não forçassem as mentes humanas. Que se aproximassem apenas daqueles que voluntariamente as ouvissem. 
Que esperassem, com a paciência de milhões de anos, que a humanidade estivesse pronta para conhecê-las.

Sutura ficou em silêncio por um longo momento. Depois, seus apêndices se recolheram, e ela vibrou numa frequência tão baixa que me fez chorar.

'Nós esperamos. Nós sempre esperamos. Mas você nos deu nomes. Os nomes ficam. E um dia, quando sua espécie estiver pronta, nós viremos. Não como invasoras. Como hóspedes. Até lá, você será nossa voz no mundo audível. Você e aqueles que virão depois de você.'

Na manhã seguinte, o rastejar havia diminuído. Não desaparecido -- jamais desapareceria --, mas tornara-se um som de fundo, como o rumor distante do mar. 

Sutura ainda me visita, porque é assim que a vejo: uma coluna vertebral do mundo invisível, sustentando realidades que não ousamos perceber. Ressoante, Oco e Pêndulo também vêm, cada um com seu nome, cada um com sua frequência, e eu os registro, os catalogo, os descrevo.

 Tornei-me, como disse Sutura, a Nomeadora. A primeira de uma linhagem que não sei se será de profetas ou de loucos.

Mas o que mais me assombra, não é o que elas são!
...É o que elas revelaram sobre nós. Os pensamentos intrusivos nunca foram falhas. Foram sempre mensagens. E as mensagens dizem o mesmo desde que o primeiro humano olhou para o fogo e sentiu o impulso de enfiar a mão na chama: 'Nós estamos aqui. Sempre estivemos. E estamos esperando.'

Agora, quando ando pelas ruas, vejo as pessoas com outros olhos. Ou melhor, com outros ouvidos. Percebo quando alguém estremece sem motivo, quando uma mulher esfrega os braços no metrô, quando uma criança chora apontando para o nada. E sei que Sutura, ou Ressoante, ou Oco, ou Pêndulo, ou algum dos outros três cujos nomes ainda não revelei, está passando. Rastejando! Oferecendo o pacto silencioso que um dia me foi oferecido.

E a pergunta que me faço toda noite antes de dormir, não é se as criaturas são reais. Isso eu já sei. A pergunta é: quantos de nós já as nomearam sem saber? 
...Quantas pessoas, ao sentirem o pensamento intrusivo de machucar alguém que amam, sussurraram um nome no fundo da mente e abriram uma porta que jamais se fechará? Quantos Suturas, quantos Ressontes, quantos Ocos já caminham entre nós, invisíveis, esperando o dia em que todos os nomes sejam pronunciados e o infrassom se torne audível para sempre?

Feche os olhos!Escute o silêncio!
Mas escute de verdade. Agora me diga: o você nunca sentiu, em algum momento de solidão, que havia algo atrás de você? 

Algo que não fazia barulho, mas que ainda assim você ouvia? Não responda. A resposta está nos seus pensamentos intrusivos. Está no nome que você talvez já tenha dado a eles,  sem perceber.

...E se  você ouvir, no meio da noite, um rastejar que não vem de fora, mas de dentro, saiba que são elas. E saiba que eu, Maya, a Nomeadora, as invoquei! 

Não por maldade. Por necessidade de conhecimento.

Durma bem! 



Fim.


By Santidarko 



Um silêncio abafado e a mulher com olhos de fósforo acesso


A chuva caía como uma cortina grossa, 'mas sem coragem de molhar de verdade' --'uma chuva abafada', daquelas que grudam a camisa na pele e transformam o ar em caldo. 
...Ezequiel dirigia devagar, os faróis acesos contra a escuridão úmida de um bairro que ele muito pouco passara, ou conhecera com exatidão;embora ficasse a apenas quinze minutos de sua casa.

Ele estava à procura de um mercadinho aberto em um domingoà noite.
 O aplicativo do celular travou na tela de carregamento, e o GPS virou um bloco de silêncio. 

As ruas aparentavam se enrolavam umas nas outras como tripa de boi. Nomes de placas que ele não reconhecia: Beco do Piolho, Travessa da Solidão, Rua dos Passos Perdidos. 

...Ezequiel riu sozinho, sem graça. 

Tinha saído para comprar pão e leite -- o leite para o filho de 5 anos, o pão para a esposa que esperava um café da manhã decente no dia seguinte. Era um homem simples, desses que se levantam cedo para o outro não precisar.

O poste em que ele estacionou o Sandero prateado piscava como um vagalume moribundo. Luz, escuro, luz, escuro. 
No clarão intermitente, Ezequiel viu o mercadinho: uma fachada estreita, pintura amarela descascada, letreiro de neon queimado onde se lia apenas '...ADO...'. 

Podia ser 'MERCADO'...
... podia ser 'NADA'!

 Ele desligou o motor. 
A chuva tamborilava no teto do carro, mas o ar dentro continuava abafado, como se o mundo inteiro estivesse prendendo a respiração.

Ao se aproximar, viu uma mulher atrás do balcão, já com a chave na mão, pronta para fechar a porta de vidro. 

...Não tinha movimento nenhum no mercadinho; dentro do mercado ,ou alguém no minúsculo estacionamento,  que aparentemente cabiam quatro ou  cinco carros.

--Uma porta que vidro, que seria acobertada por aquelas porta de comércio(*portas de rolo ou portas de aço que se  desenrolam)--

Ela tinha cabelos presos num coque frouxo e olheiras fundas. O relógio na parede marcava 23h47, mas o letreiro da fachada indicava fechamento às 23h.

--'Por favor' ,dissera Ezequiel, com aquele jeito manso de quem não gosta de incomodar. É só pão e leite. Meu filho está em casa esperando. Eu juro que é rapidinho!

A mulher olhou para ele como quem olha para um fantasma. Seus olhos eram castanhos, mas pareciam cinza na luz falha do poste. 

Ela hesitou. 

...Tentou persuadi-lo a  ir embora!
Aliás,tentou de inúmeras formas!
Disse a Ezequiel, para tentar ir a um posto de gasolina, ou a uma farmácia. 

...Mas Ezequiel estava com pouca gasolina, sem dinheiro para abastecer,uma crise financeira, segundo contara à moça, --e um sono avassalador!,completara em sua explicação. 

Ela suspirou, e abriu a porta, o bastante para ele passar.

-Três minutos!,dissera.
-E não vá para o fundo!

Ezequiel entrou. O mercadinho cheirava a sabão em pó e coisa velha. As prateleiras baixas, os freezers rangendo. Ele pegou uma cestinha plástica e foi direto ao corredor dos pães. 

Havia apenas um tipo: pão de forma branco, daqueles genéricos. 

...Ele pegou!

Depois foi até o refrigerador do leite. 
...Só restava uma caixa de leite integral, amassada na quina. 

...Pegou também!

Ao virar para o caixa, percebeu: não havia mais ninguém.

A mulher tinha sumido. A porta de vidro estava fechada. As luzes do teto piscaram uma vez, depois duas, depois se estabilizaram num tom amarelado doentio. Ezequiel chamou: -Moça?
Silêncio. 
-Oi? 
-Tem alguém?

Ezequiel dera duas ou três voltas pelos três corredores que o mercadinho possuía -- a cestinha, com o que viera buscar, alternava entre suas mãos, que, ora ou outra, revezadas,as suas mãos, passavam por seus cabelos.

Foi então que o chão tremeu -- não um tremor de terra, mas um ronco grave, como se o mercadinho fosse um animal gigante acordando de um sono de séculos. 

As prateleiras começaram a descer. 

...Isso mesmo!: descer. 

...Não tombar,
...não cair!

Descer para dentro do chão, com um movimento hidráulico suave, como se fossem elevadores de superfície. 
As gôndolas de enlatados, os freezers horizontais, o balcão de frios, a própria gaveta do caixa -- tudo recuou para baixo, engolido pelo piso de cerâmica branca e preta.

...Ezequiel ficou parado, com a cestinha nas mãos. O salão agora era um vazio retangular. O teto, antes repleto de lâmpadas fluorescentes, agora mostrava uma claraboia escura, sem lâmpadas, que parecia sugar a luz. No centro do chão, um círculo de metal começou a girar, como a tampa de um silo.
 
Abriu-se em oito segmentos iguais, revelando uma escada em caracol que descia para uma escuridão densa e fria.

-Isso não é real!, sussurrou Ezequiel.

(*Ezequiel tivera antes, inúmeros problemas de saúde...referente a intorpecentes e bebidas;mas isso, parecia que' fora em uma outra vida'.

...Eram problemas com o trabalho;
...a esposa que o traiu, mas ele também tivera uma porcentagem nessa atitude uxoriana descabida e vingativa.

...Mas ele desceu!

Não porque fosse curioso. Não porque fosse corajoso. Desceu porque, no fundo de seu coração bom, ele achou que talvez a mulher tivesse caído ali, ou precisasse de ajuda. 

...Era assim que Ezequiel funcionava: primeiro pensar no outro, depois no medo.

A escada de metal rangia sob seus tênis. O ar ficava mais pesado a cada degrau -- úmido, mas com um cheiro estranho, como ozônio misturado a terra molhada. Ele contou os degraus: 47, 48, 49... 

...Perdeu a conta depois de 100. A descida levou quase cinco minutos; pois ia vagarosamente  pisando e pensando sobre o que é real,  e o que a mente pode fazer com consiga mesma!

Quando seus pés tocaram o piso de concreto, ele ergueu o olho e viu.

O porão era enorme! 
...Enorme como  uma estaçãode metrô. 

Onde estariam os canos subterrâneos, as fiações, e tudo mais?!, pensara.


As paredes desapareciam na penumbra, e o teto devia estar a uns 30 metros de altura. 

...Mas o que roubará  seu fôlego foi a coisa no centro.

Uma nave!

Não uma nave de filmes, com luzes piscando e metal brilhante. Era uma estrutura orgânica, como uma fruta podre do tamanho de um ônibus de dois andares, com sulcos que pulsavam num ritmo lento -- igual ao de um coração. 

A superfície era cinza-azulada, texturizada como pele de elefante, e de suas costuras vazava um líquido âmbar que brilhava na escuridão. Havia símbolos gravados em sua casca, símbolos que pareciam se mover quando Ezequiel desviava o olhar.

--Não era para você descer,dissera uma voz grave e rouca atrás dele.

Ezequiel se virou. A mulher do balcão estava ali, mas diferente. Seus olhos agora brilhavam com uma luz interna, fraca, como fósforo. Ela não usava mais o uniforme do mercadinho. 

...Vestia uma túnica púrpura que não refletia a luz.

--Quem é você?, Ezequiel conseguiu perguntar, a voz saindo mais corajosa do que ele se sentia.

--Sou a guardiã deste posto, ela respondeu. O mercadinho é uma fachada! A nave está escondia. Ela está aqui...desde quando este bairro ainda era mangue. Eu fui designada para manter o acesso trancado. Mas você... você insistiu para entrar

...Eu deixei. 
Foi um erro!

Ezequiel apertou a cestinha de pão contra o peito. 
--Eu só queria comprar leite para meu filho!

A guardiã riu -- um som seco, sem humor.

-O quê?
-Hã?!, indagou Ezequiel. 


A guardiã não repetiu. Ela apenas desviou o olhar para a nave que pulsava no centro do porão, e Ezequiel sentiu que a pergunta que ele fizera --'o quê?'--não tinha sido sobre a frase dela, mas sobre algo maior. Sobre tudo. Sobre o leite na cestinha, sobre o filho que esperava, sobre a chuva que não molhava de verdade. A guardiã sabia disso. 

...Talvez sempre soubesse!

— Você acha que entrou aqui por acaso?, ela dissera, caminhando até a borda da nave e tocando a superfície com a palma da mão. A textura afundou levemente, como pele de animal vivo. 
— Este lugar...não fica em lugar nenhum. As ruas que você percorreu não existem em mapa algum. O aplicativo não travou por falha de sinal; ele travou porque você saiu do alcance do real.

Ezequiel sentiu as pernas amolecerem, mas permaneceu de pé. Havia algo nele -- uma teimosia, uma bondade estúpida -- que se recusava a desmoronar antes de entender.

— Eu só queria pão e leite ,repetiu, e sua voz saiu como a de um menino perdido em um shopping.

— E, no entanto, você está aqui , dissera a guardiã. 
— Há quinze anos. Há quinze anos!, você está aqui!
 —  A mesma chuva. O mesmo filho. A mesma esposa. A mesma caixa de leite amassada na quina. Quinze anos!, Ezequiel.

Ele olhou para a cestinha. O pão estava murcho. O leite, inexplicavelmente quente. 
...Mas o que o desconcertou foi o detalhe que nunca notara antes: a embalagem do pão não tinha data de validade. A caixa de leite não tinha código de barras. Eram objetos genéricos, pareciam cenográficos, como aqueles frascos de mentira que decoram prateleiras de vitrine.

— Isso  é um mercadinho , continuara a mulher. 
— Mas você  está  em uma câmara de contenção. 
—Você não é um terráqueo, você quis ser um.


Ele deu um passo para trás, mas o chão não o deixou ir muito longe. Uma vibração subiu pelas solas de seus tênis, como se o concreto respirasse. A nave soltou um som baixo, um gemido de parto ao contrário, e a guardiã fechou os olhos como quem sente uma contração.

— O que você chama de vida, dissera ela! 
—É  uma simulação gerada pelos resquícios da sua própria mente. Mas não uma mente humana.

— O quê?

— Você não é Ezequiel. Você nunca foi!

O homem que  acreditava ser Ezequiel sentiu o ar faltar. A cestinha plástica escorregou de seus dedos, e a caixa de leite amassada rolou pelo chão de concreto até parar aos pés da guardiã. Ela a recolheu com uma naturalidade triste, como quem recolhe um brinquedo quebrado.

— Meu nome é Ezequiel , insistira ele, mas a voz saiu oca, como se as palavras não coubessem mais na boca.

— Esse é o nome que você roubou , dissera a guardiã. 
— Junto com a esposa morena. Junto com o menino de cabelo cacheado e mancha de nascença na nuca. Junto com o Sandero prateado e a casa a quinze minutos daqui. Você roubou uma vida inteira, Kael.

Kael.

O nome atingiu o homem como um golpe no peito. Não porque fosse estranho, mas porque era estranhamente familiar -- como uma palavra esquecida da infância, ou um idioma que só se fala em sonho. Ele levou as mãos às têmporas. Latejavam. Dentro do crânio, algo se mexia, como se uma porta selada há muito tempo estivesse sendo arrombada.

— Eu não roubei nada ,gemera ele. 
— Eu amo Isabela. Eu amo Artur. Eu me lembro do parto. Eu chorei quando ele nasceu.

— Você se lembra de assistir a esse parto, corrigiu a guardiã. 
— Do lado de fora. Encostado na prateleira de enlatados, fingindo que organizava latas de milho. Você se lembra de vê-lo chegar todas as noites, o verdadeiro Ezequiel, com seu jeito manso de quem não gosta de incomodar. Ele comprava fraldas, depois papinha, depois pão e leite. E você, Kael, você o observava. E desejava sua vida!

O homem chamado Kael caiu de joelhos. 
O chão de concreto estava morno, vivo, pulsando no mesmo ritmo da nave. Ele olhou para as próprias mãos. A pele já não parecia tão humana -- havia um brilho fraco sob as unhas, uma fluorescência azulada que subia pelas veias como tinta.

— Eu era o quê? , sussurrou.

A guardiã agachou-se à sua frente. Pela primeira vez, seus olhos não eram de guardiã, não eram de fósforo, não eram de parteira. 'Eram olhos de irmã'.

— Você era um coletor, Kael. Um etnógrafo interestelar. Nós dois somos! Fomos designados para esta estação -- o mercadinho -- porque ela era o ponto de fluxo de narrativas humanas neste setor. Nossa missão era observar, catalogar, registrar os padrões emocionais da espécie. Mas você... você se apaixonou pela história de um deles.

— Ezequiel , ainda...murmurara em sua ainda afirmativa!

 —... Ezequiel. O homem simples que comprava pão e leite no domingo à noite. Que dirigia devagar na chuva. Que amava a esposa e o filho com uma intensidade que nossos bancos de dados não conseguiam classificar. Você começou a esperá-lo. A ansiava por suas visitas. Depois, começou a imitá-lo -- o jeito de segurar a cestinha, de ler os rótulos, de sorrir sem mostrar os dentes. E então você tomou uma decisão, explicará a guardiã. 

Kael fechou os olhos. As memórias verdadeiras estavam voltando, mas vinham como estilhaços — cortantes, desordenados.

— Eu quis ser ele , dissera, e a voz já não era humana. Tinha harmônicos, como um coral miniaturizado dentro de uma única garganta.

— Você não quis ser ele, Kael. Você o absorveu. Invadiu a mente dele durante uma noite de chuva, quando ele estava cansado e vulnerável. Sugou suas memórias, seus afetos, seus medos. Deixou o corpo verdadeiro vagueando por aí, vazio, enquanto você ocupava a vida dele como quem veste um casaco.

— Eu não sabia , chorou Kael. 
— Eu não sabia que faria isso. Eu só queria... eu só queria ser amado. Do jeito que ele era amado.

A guardiã abaixou a cabeça. Ela sabia. Ela sempre soubera. Fora ela quem alertara o Conselho da Nave-Mãe, quem acionara o protocolo de contenção, quem construíra o útero-prisão no subsolo do mercadinho... enquanto Kael dormia o primeiro sono humano de sua existência.

— Foi por isso que vocês me prenderam , dissera Kael, entendendo enfim. 
— Não era um útero. Era uma jaula.

— Era as duas coisas , dissera a guardiã. 
— Um útero porque precisávamos mantê-lo vivo durante o restante da missão. Uma jaula porque você era um perigo para si mesmo e para os humanos que ainda restavam. A simulação foi ideia do Conselho: demos a você uma réplica da vida que roubou, para que se acalmasse. O pão, o leite, a chuva, o filho, a esposa , tudo falso, Kael. Tudo uma réplica montada com os dados que você mesmo coletou.

— Mas eu sentia , disse ele, golpeando o próprio peito com o punho. 
— Eu sentia amor. Amor de verdade!

— Você sentia a memória do amor que roubou. Isso não é a mesma coisa.

Kael ergueu o rosto. As lágrimas que escorriam eram densas, prateadas, como mercúrio. Seus olhos já não tinham íris -- eram esferas negras pontilhadas de estrelas, como pequenos mapas celestes.

— O que vai acontecer comigo agora?

A guardiã levantou-se e caminhou até a nave. A superfície pulsava mais rápido, como um coração agitado. Ela apoiou a mão sobre a casca, e a casca respondeu com um calor quase afetuoso.

— A missão  não terminou , dissera ela. 
— A Nave-Mãe voltará ao nosso planeta natal em poucas horas. O mercadinho , ou melhor, a estação permanecerá! E você, Kael, será julgado pelo Conselho. Mas...

— Mas?

— Mas eu posso atrasar o seu despertar. Posso deixá-lo na simulação. Deixá-lo despedir-se.

Kael olhou para a caixa de leite no chão. Depois para a cestinha vazia. Depois para as próprias mãos-- mãos que não eram dele, mas que ele aprendera a amar.

— Não quero me despedir , dissera
— Quero acordar.

— Tem certeza? Lá fora, não há Isabela. Não há Artur. Não há pão, não há leite, não há chuva abafada. Há apenas você, Kael, na sua forma verdadeira, com suas memórias verdadeiras, diante de um Conselho que não entenderá por que você fez o que fez.

— Eles não entenderão?

— Não. Porque nossa espécie não ama assim. Nós observamos o amor, catalogamos o amor, mas não o sentimos como eles!. Você, Kael, é o primeiro de nós a sentir. E é por isso que você é tão perigoso. E é por isso que você é tão precioso.

Kael levantou-se devagar. O corpo humano já não lhe servia bem -- os movimentos eram desajeitados, como os de um inseto saindo do casulo. A pele começava a se abrir em fissuras finas, e por dentro não havia carne nem osso, mas uma luz líquida, âmbar, que cheirava a ozônio e terra molhada.

— Eu quero acordar ,repetira inúmeras vezes.
— Mas quero levar uma coisa!

— O quê?

— A memória. Não a que eu roubei. A que eu construí. Nos primeiros anos da simulação, antes de começar a esquecer, eu... eu vivi com eles. Mesmo que fosse mentira, eu vivi. Acordava de madrugada para fazer mamadeira. Ensinava Artur a amarrar o cadarço. Dançava com Isabela na cozinha enquanto o pão queimava. Isso não foi roubado. Isso foi meu.

A guardiã desviou o olhar. Seus olhos brilhavam --não com luz de fósforo, mas com água. Água de verdade, salgada, humana.

— Isso não é possível — mentira ela.

— Você sempre foi ruim para mentir , dissera Kael, e sorriu. Era um sorriso triste, daqueles que só quem já perdeu tudo consegue dar.

A nave gemeu. A fenda no flanco se alargou, e a luz que saiu de dentro era diferente da luz âmbar de antes — era uma luz branca, limpa, como a primeira manhã do mundo. Kael caminhou em direção a ela, despindo-se do corpo humano como quem tira um casaco velho. A cada passo, perdia um pedaço: primeiro os tênis, depois as calças, depois a camisa, depois a pele, depois a forma. O que restou foi uma silhueta de luz líquida, alta, esguia, com seis membros e olhos que eram constelações.

— Kael ? chamara a guardiã.

A silhueta parou.

— Você esqueceu o anel.

Kael olhou para trás. No chão de concreto, brilhando sob a luz da nave, estava um anel simples de prata com uma pedra azul. Ele não sabia se o anel pertencia ao verdadeiro Ezequiel ou se era um artefato criado pela simulação. Mas se abaixou -- ou o equivalente a se abaixar, para um ser sem corpo-- e o recolheu.

— Obrigado , dissera, e sua voz já não era som, mas pensamento puro, transmitido diretamente à mente da guardiã.

Ela assentiu. E então a luz o engoliu.


A Nave-Mãe rompeu a órbita da Terra três horas depois. Dentro dela, em uma câmara de regeneração, Kael despertou em sua forma verdadeira. Ao seu lado, uma outra guardiã -- agora em sua própria forma, uma criatura de luz dourada e olhos sábios -- segurava um pequeno frasco de memória.

— O Conselho permitiu que você ficasse com isso , dissera ela. 
— Não é a vida que você roubou. Mas é a vida que você construiu. Eles acharam... justo!

Kael recebeu o frasco e o aproximou do peito, onde os seres de sua espécie guardavam aquilo que os humanos chamariam de coração.

— Doi!, dissera ele.

— Vai doer para sempre, respondera a guardiã. 
— Mas essa é a natureza do amor. Mesmo o amor de mentira. Mesmo o amor roubado. Mesmo o amor que a gente inventa para não enlouquecer.

Lá fora, a Terra diminuía na janela de observação -- uma bola azul e branca, com suas chuvas abafadas, seus mercadinhos de domingo à noite, seus postes que piscam como vagalumes moribundos. Kael olhou para ela e sentiu algo que não estava nos catálogos de sua espécie: saudade!

... Saudade de um planeta que não era seu. Saudade de uma família que nunca existiu. Saudade de um homem chamado Ezequiel, que talvez ainda estivesse lá embaixo, vagando sem memória, mas com o coração intacto.

— Um dia , dissera Kael —, eu volto.

A guardiã não respondeu. Mas, pela primeira vez em ciclos de missão, ela sorriu. Um sorriso que não era humano nem alienígena. Era apenas... esperança.

E a nave seguiu rumo às estrelas, carregando em seu ventre um Ser que, pela primeira vez na história de sua espécie, sabia o que era o amor. E sabia, também, o que era a dor de perdê-lo.



Fim.


By Santidarko