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Cardumes de pensamentos infernais vindos de um espaço...que se infiltrava no avesso das formas.
As paisagens eram feitas de cartilagem viva, arqueando-se sob um céu de nervos expostos que latejavam em silêncio, como auroras de dor.
Florestas de tendões retorcidos cresciam em espirais contra a geografia impossível, e um rio vítreo, denso como um humor doentio e lástimo!
...Arrastava consigo,globos oculares sem pálpebras — miríades deles, a fitar todas as direções ao mesmo tempo, num pânico mudo e perpétuo.
Massas assimétricas deslocavam-se nesse mundo, compostas de membros que não pertenciam a nenhum animal conhecido. Cada apêndice ostentava dezenas de articulações extras, cotovelos dentro de joelhos, falanges que se invertiam como flores de carne, dobrando-se em ângulos que a biologia terrestre proibira nos seus primeiros rascunhos. O som que produziam era o de juntas estalando numa língua estrangeira.
E entre essas coisas vivas, nas dobras — não no espaço entre elas, mas numa dimensão intersticial, como a lâmina inexistente entre a pele e a unha — habitavam os parasitas. Vinham de um lugar não definido, um vindo-espaço que se infiltrava ,tal como costuras de ossos!
Ocupavam exatamente as fímbrias da existência: a franja de incerteza entre a célula e o tecido, o lapso entre o pensamento e a sinapse, a costura invisível que separa o reflexo do espelho, do corpo que o projeta. Alimentavam-se da justaposição, do quase, do intervalo.
...Quando moviam-se, deslizavam no desvão entre o músculo e a intenção, banqueteando-se na hesitação do gesto. Eram a flora invisível da descontinuidade, os vermes da vizinhança ontológica, tecendo seus ninhos com o próprio atrito, entre o que é ...e o que o desgosto do horrível pode ser!
-Santidarko
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Introdução
Há sons que não foram feitos para os ouvidos humanos. Frequências que vibram abaixo do silêncio, na soleira entre o mundo material e aquilo que nossos sentidos, por misericórdia, não alcançam.
...Durante toda a história, artistas e engenheiros tentaram capturar o rumor das esferas celestes, o canto das partículas, o gemido das placas tectônicas. Mas esqueceram-se do som mais antigo e mais próximo: o rastejar de algo imenso e oco que se move entre nossas cidades enquanto dormimos.
Maya, uma mulher que nasceu para o silêncio e que, ao buscar a cura para sua falha audição, descobriu a maldição de escutar o que se arrasta por baixo do asfalto, por entre os trilhos do metrô, por dentro das paredes. Uma história sobre o que acontece quando a tecnologia, em vez de curar a surdez, abre uma porta que jamais deveria ser aberta..
...Tente ouvir o som do mundo sem o ruído dos carros, sem as vozes, sem o vento.
...Ouça o que sobra!
Esse quase nada. Esse quase silêncio.
É lá que elas vivem!
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Um som de algo... que Rasteja
Meu nome é Maya Hartmann e, durante trinta e dois anos, fui uma designer acústica...surda!
Talvez , você ache isso uma contradição, e é!
...Mas acredite: ninguém entende mais de som do que alguém que nunca pôde ouvi-lo.
Eu projetava salas de concerto na planta, calculando reflexos e absorções com equações e simulações digitais, enquanto sentia as vibrações graves da Orquestra Filarmônica de Berlim na sola dos pés.
...Foi assim que construí minha reputação: uma mulher que desenhava o som como um arquiteto desenha a luz, sem jamais tê-lo experimentado. O vazio nos meus ouvidos era minha tela em branco.
Tudo mudou quando o Instituto Hoffmann me procurou, três meses atrás. Eles tinham desenvolvido uma nova geração de implantes cocleares, os HC-9, que operavam numa faixa de frequência expandida. Os implantes comuns cobrem o espectro da fala humana, entre 250 e 6000 hertz. Os HC-9 iam muito além: prometiam captar de 0,1 hertz -- o infrassom profundo -- até 30 quilohertz, o ultrassom dos morcegos.
-Você não vai apenas ouvir,dissera o doutor Volker, com um sorriso que na época me pareceu bondoso.
-'Você vai habitar o som', filosofara com orgulho e prestígio de si mesmo.
A palavra 'habitar'me seduziu. Eu queria morar dentro daquilo ,que sempre estivera do lado de fora.
A cirurgia foi um sucesso. A ativação dos implantes, uma epifania. A primeira coisa que ouvi foi o próprio batimento cardíaco, um tambor surdo e molhado que me fez chorar como uma criança!
Depois veio o farfalhar da minha própria roupa, o clique dos meus dedos, a voz da enfermeira -- Deus, a voz humana, que coisa estranha e bela, uma flauta de carne. Passei uma semana inteira em êxtase, redescobrindo o mundo como quem nasce de novo aos trinta e dois anos.
O canto dos pássaros era mais estridente do que eu imaginava. O tilintar de uma colher no copo tinha uma precisão quase dolorosa.
...Tudo era excessivo, e tudo era maravilhoso!
Mas no oitavo dia, começou o zumbido.
No princípio, pensei que fosse um efeito colateral dos implantes. Um apito longínquo, quase musical, que oscilava numa frequência muito grave. Os técnicos do Instituto fizeram ajustes, recalibraram os processadores, mas o zumbido não desaparecia. Ele se comportava de um modo estranho: não era constante. Vinha em ondas, como se algo -- ou alguém -- o estivesse emitindo ritmicamente.
...E piorava à noite!
Na décima noite após a ativação, acordei às três e quarenta e sete da manhã com uma sensação ,que não posso descrever como audição apenas. Era uma pressão nos ossos do crânio, uma vibração que subia pela coluna e se aninhava atrás dos olhos. Eu ouvia -- mas não com os ouvidos. Ouvi o som do mundo dobrando-se sobre si mesmo.
...E então, pela primeira vez, distingui o rastejar.
Imagine, o atrito de uma corda de navio sendo arrastada sobre o cascalho.
...Agora multiplique esse som por mil, mas retire dele qualquer agudeza. Torne-o infragrave, quase tátil, algo que se sente no estômago antes de se ouvir.
Era um deslizar pesado e áspero, entremeado por cliques metálicos, como se milhares de patas de agulha percorressem uma superfície oca. O som não vinha de fora, da rua. Vinha de baixo. Das fundações do prédio. Do solo. E ele se movia. Deslocava-se lentamente, como uma geleia gigantesca, pulsando numa cadência irregular que me fazia cerrar os dentes.
Levantei-me e fui até a janela. A rua estava deserta, os postes de luz lançavam poças esbranquiçadas sobre o asfalto molhado. Nenhum sinal de escavação, nenhum tráfego subterrâneo. Mas o som continuava, e agora eu percebia algo mais aterrorizante: ele não era um ruído aleatório.
Tinha padrões.
Frases.
Como uma língua feita de atrito e gravidade, articulada por algo que não tinha boca.
Nos dias seguintes, tentei racionalizar. Pesquisei sobre infrassons. Descobri que certos fenômenos naturais-- terremotos distantes, ondas oceânicas quebrando sobre plataformas continentais, até mesmo o vento solar atingindo a ionosfera -- produzem vibrações abaixo de 20 hertz. Pensei que meus implantes estivessem captando esses sons e meu cérebro, desesperado por significado, os interpretasse como linguagem.
...Parecia lógico!
Mas a lógica não explicava o fato de o rastejar me seguir.
Por que ele me seguia?
Quando eu ia ao supermercado, ouvia-o por baixo do piso de linóleo, serpenteando entre as gôndolas. Quando tomava o metrô, ele estava lá, nos túneis, amplificado pelo eco metálico, como se as criaturas usassem os trilhos como trilhas migratórias.
...E foi no metrô que eu as vi pela primeira vez -- ou melhor, foi no metrô, que eu percebi que outras pessoas também as sentiam, embora não soubessem.
Uma mulher de meia-idade, sentada à minha frente, começou a esfregar os braços compulsivamente, como se sentisse frio.
Um homem de terno, em pé, olhou para o chão do vagão com uma expressão de nojo inexplicável.
Uma criança rompeu a chorar sem motivo, apontando para o nada.
... E eu ouvia, sob o ruído das rodas, o rastejar passando exatamente por baixo de nós. Era uma presença que não se via, mas que o corpo detectava como uma ameaça ancestral -- algo que nossos antepassados talvez temessem nas cavernas, algo que a civilização abafou com concreto e eletricidade, mas que nunca fora embora!
A primeira intrusão mental aconteceu naquela noite. Eu estava deitada, tentando dormir, quando a imagem me veio com uma nitidez brutal: um braço humano sendo descarnado lentamente, a carne descolando do osso como a polpa de uma fruta madura. A imagem não era um sonho. Eu estava acordada. Era uma ideia que se instalou na minha mente...como se outra pessoa a tivesse colocado ali.
...Arregacei as mangas do pijama e olhei meus próprios braços, horrorizada, esperando encontrar marcas. Não havia nada! Mas o pensamento -- o pensamento não era meu.
...ESTE PENSAMENTO INTRUSIVO!
Nos dias que se seguiram, as intrusões pioraram. Eu via, por lampejos, paisagens impossíveis: planícies de cartilagem sob um céu de nervos expostos, florestas de tendões retorcidos, rios de humor vítreo onde flutuavam globos oculares sem pálpebras. E por entre essas paisagens, as criaturas rastejavam. Eram massas assimétricas, compostas de membros que não pertenciam a nenhum animal conhecido, com dezenas de articulações dobrando-se em ângulos proibidos pela biologia. Moviam-se não como predadores, mas como parasitas do espaço, ocupando as dobras entre as coisas. Entre o tijolo e o reboco. Entre o trilho e o dormente.
Entre a pele e o pensamento!
Compreendi então...o que os implantes haviam feito. Eles não me deram apenas o infrassom. Abriram minha percepção para uma camada do real ,que os ouvidos humanos normais filtram, por uma questão de sobrevivência. Nossos cérebros são projetados para ignorar o inaudível, porque o inaudível é o habitat dessas coisas. E quando se remove esse filtro, quando se sintoniza a consciência com a frequência delas, elas percebem.
...E elas respondem!
Os pensamentos intrusivos não eram meus. Eram deles! As criaturas não apenas rastejavam entre as cidades: elas se comunicavam com os vivos através de impulsos que nós interpretamos como ideias súbitas, desejos obscuros, impulsos autodestrutivos.
...Aquela vontade inconfessável de saltar do penhasco?
...A imagem horrível que surge quando se segura um bebê recém-nascido?
...O pensamento de enfiar em um motor?
...Tudo isso, não é falha humana. É transmissão. É o rastejar passando perto demais.
A descoberta final veio de uma forma que me custou quase tudo. Consegui gravar o infrassom com equipamentos de monitoramento sísmico, filtrados pelos meus implantes e traduzidos em espectrogramas.
O que vi ,me paralisou!
As ondas formavam padrões coerentes, uma sintaxe de baixa frequência.
Consegui decifrar um fragmento, uma frase repetida em loop: 'O vazio entre os ossos é a porta. O pensamento é a chave '.
Elas não estão apenas rastejando. 'Estão tentando entrar'.
Agora,, enquanto escrevo estas palavras, são quatro da manhã. O rastejar está sob a minha casa, e meus pensamentos são invadidos por imagens de dentes serrando tendões, de olhos sendo espremidos como uvas, de carne sendo desfiada por milhares de patas de agulha. Mas o mais terrível não é o medo dessas imagens.
...É o fato de que, aos poucos, elas estão começando a me parecer belas. O infrassom tem esse efeito. Ele se infiltra na psique e lentamente, muito lentamente, faz você desejar aquilo que mais teme.
Porque o som que rasteja, não quer assustar você!
Quer convencê-lo!
'ENTENDERA A BELEZA'?
Quer que você convide as criaturas a entrar.
E quando eu olho para minhas mãos agora, vejo-as como ferramentas alheias, como instrumentos que poderiam facilmente abrir as portas que elas tanto desejam atravessar.
... E ao me curar, o Instituto Hoffmann não me deu o som. Tirou o silêncio que me protegia.
Passei três dias sem dormir. Não por medo do rastejar --a eles, eu já me acostumara como quem se acostuma a uma arritmia cardíaca. O que me mantinha desperta era a certeza de que os pensamentos intrusivos não eram mais visitantes ocasionais. Eles haviam se instalado.
Toda vez que eu fechava os olhos, via as mesmas imagens: a planície de cartilagem, os rios de humor vítreo, as patas de agulha serpenteando entre os meus próprios ossos. E no centro dessas visões, uma presença maior, mais coesa, como se algo dentro daquela paisagem alienígena tivesse notado minha observação e agora me observasse de volta.
No quarto dia, decidi não fugir mais.
... Se elas sabiam que eu as ouvia, se elas já estavam dentro da minha cabeça, então eu também poderia tentar compreendê-las. ...Afinal, eu era uma designer acústica. O som era minha matéria-prima, mesmo o som que ninguém mais podia escutar. Preparei meu equipamento: gravadores de campo de alta sensibilidade, transdutores de vibração, um laptop com software de análise espectral. E desci.
Desci até o estacionamento do meu prédio, de concreto úmido que cheirava a mofo e óleo de carro.
O rastejar ali era mais intenso, como se as camadas superficiais da terra estivessem infestadas. Sentei-me no chão frio, encostei as costas na parede e fechei os olhos.
.. E então fiz algo que nenhum manual de segurança recomendaria: em vez de tentar filtrar o infrassom, eu o amplifiquei.
Abri meus implantes ao máximo na frequência de 0,1 hertz, e esperei.
O que aconteceu a seguir não foi uma alucinação.
Eu gostaria que fosse.
Primeiro veio o silêncio -- um silêncio absoluto, como se o mundo tivesse prendido a respiração. Depois, um estalo, longo e profundo, semelhante ao de um tronco de árvore partindo-se ao meio, mas modulado, articulado. E então eu a vi. Não com os olhos --com os ossos.
A vibração do infrassom desenhava sua forma na minha medula como um sonar desenha o fundo do mar.
Ela estava agachada no canto do porão, entre meu carro e a parede manchada de fuligem. Tinha o tamanho aproximado de um cão grande, mas não havia nada de canino em sua forma. Era composta de segmentos, como um miriápode, só que cada segmento não era de quitina: eram vértebras.
Vértebras humanas, fundidas umas às outras em uma coluna interminável que se dobrava em espirais impossíveis. De cada vértebra brotavam apêndices finos como agulhas de tricô, centenas deles, que tocavam o chão e as paredes com um tremor constante.
Não tinha cabeça. Não tinha olhos. Mas eu sabia que ela me via, porque no exato instante em que minha mente a percebeu, todos os seus apêndices pararam de uma vez, como dedos interrompendo uma melodia ao piano.
Ela sabia que eu a ouvia.
...E eu soube que ela sabia!
Fiquei paralisada. Meu coração batia tão forte, que eu temia que o som a atraísse ainda mais. Mas a criatura não avançou. Em vez disso, começou a vibrar numa frequência nova, mais alta, quase na fronteira do som audível. E enquanto vibrava, as imagens invadiram minha mente outra vez -- só que agora não eram fragmentos caóticos. Eram frases. Pensamentos completos. Palavras que não passavam pelos ouvidos, mas que se formavam diretamente no córtex, como se alguém as tivesse escrito na massa cinzenta do meu cérebro.
'Você ouve. Você vê. Você nomeia.'
A voz -- se é que posso chamá-la assim — não tinha gênero, não tinha timbre, não tinha emoção. Era como se a própria gravidade falasse. E eu compreendi, com uma clareza que me fez tremer, que aquela criatura não estava apenas se comunicando comigo.
Ela estava me pedindo algo. Algo que ia além do som. Algo que tocava a essência do que significa ser humano.
'Você nomeia. Você amarra. Você dá forma ao que não tem forma.'
A linguagem delas, entendi naquele instante, não era feita de sons. Era feita de significados brutos, impulsos semânticos que viajavam pelo infrassom ,e se alojavam na mente humana como parasitas conceituais.
...Mas havia uma limitação: elas não conseguiam nomear a si mesmas. Não possuíam identidade individual. Eram massas anônimas de consciência coletiva, como cardumes de pensamentos que rastejavam entre as cidades, sem jamais se distinguirem umas das outras. E elas ansiavam por nomes. Porque nomear, seria o ato humano por excelência.
Nomear é dar à luz no mundo do sentido.
...E elas queriam nascer!
Chamei-a -- a que estava à minha frente -- de Sutura. O nome brotou de algum lugar profundo da minha mente, talvez sugerido por ela, talvez nascido do meu próprio pavor. Sutura, porque seus segmentos pareciam costuras de osso, como se alguém tivesse cerzido vértebras com linha de tendão.
No instante em que o nome se formou na minha consciência, a criatura estremeceu. Todos os seus apêndices se eriçaram ao mesmo tempo, produzindo um som agudíssimo que me fez levar as mãos aos ouvidos -- um gesto inútil, porque o som não vinha de fora.
... E então ela respondeu!
'Sutura. Sim. Este é o primeiro nome...
...Haverá outros!'
A partir daquela noite, Sutura passou a me visitar regularmente.
Não no porão.
Em qualquer lugar. No banheiro, enquanto eu escovava os dentes. Na cozinha, enquanto eu fervia água para o chá. No quarto, enquanto eu tentava em vão dormir. Ela se materializava lentamente, emergindo das paredes como se o concreto fosse uma cortina de névoa, e se instalava num canto, seus milhares de apêndices ritmando silenciosamente nas superfícies.
...E eu a ouvia. E ela me falava -- não com palavras, mas com conceitos inteiros que se despejavam na minha mente como baldes de água gelada.
Foi Sutura quem me explicou o que eram
. ..Ou o que ,não eram!.
Elas não vinham de outro planeta, nem de outra dimensão. Eram tão terrestres quanto o carbono e a água, mas habitavam uma outra faixa de existência .
Elas estavam aqui antes de nós, rastejando entre as fendas da Pangeia, e continuariam aqui depois, quando o último prédio desabasse e ,o último rádio silenciasse.
Não eram predadoras, dissera Sutura.
Eram espectadoras. Durante milhões de anos, elas apenas assistiram. Até que os humanos inventaram a linguagem simbólica, e então elas descobriram algo novo: a capacidade de parasitar os sentidos.
Os pensamentos intrusivos, aqueles impulsos terríveis que atribuímos ao nosso inconsciente, são na verdade as criaturas tentando se comunicar. Cada vez que um humano reprime a imagem de um corpo sendo dilacerado, cada vez que afasta a ideia de enfiar uma faca no próprio ventre, está na verdade...rejeitando uma transmissão delas.
Mas elas não desistem. Porque nomear é dar poder, e elas querem que as nomeemos.
— Por quê? ,perguntei uma noite, com a voz trêmula, olhando para Sutura encolhida a um metro da minha cama.
— Por que querem nomes?
A resposta veio como uma enxurrada de imagens tão violentas, que eu vomitei no tapete. Vi cidades inteiras sendo escavadas por dentro, não por garras, mas por nomes.
...Vi criaturas como Sutura adquirindo formas cada vez mais definidas à medida que os humanos as nomeavam.
....Vi uma linhagem de pessoas -- artistas, loucos, místicos, crianças -- que ao longo da história haviam ouvido o rastejar e, em vez de rejeitá-lo, o haviam batizado. E compreendi...que os nomes não eram para elas. Eram para nós. Porque ao nomeá-las, nós as fixávamos em nossa realidade.
Dávamos-lhes permissão para se tornarem mais do que sombras.
Sutura não era o nome dela. Era o nome que eu dava a ela. E cada vez que eu repetia aquele nome, mesmo em pensamento, ela se tornava mais nítida.
Mais presente.!
....Mais real!
— Você quer que eu te nomeie completamente , sussurrei.
— Quer que eu dê a você um nome humano?
'Sim. E não apenas a mim. A todos nós.'
Nos dias seguintes, Sutura me mostrou os outros. Eles vinham à noite, deslizando pelo infrassom...como barcos por um rio subterrâneo. Dei-lhes nomes conforme se apresentavam. Chamei de Ressoante a criatura que vibrava dentro dos trilhos do metrô, um ser achatado como uma medusa óssea cujas ondulações produziam o zumbido grave que os passageiros sentiam nas vísceras.
Chamei de Oco ,a entidade que se movia dentro das paredes do meu quarto, uma massa esponjosa que absorvia o som e o devolvia distorcido, criando ecos onde não devia haver ecos.
Chamei de Pêndulo ,a criatura que oscilava entre os postes de luz da rua, invisível exceto pelo tremor que causava nas lâmpadas, um piscar irregular que os moradores atribuíam à rede elétrica defeituosa.
Eram sete no total, dissera Sutura.
...Sete entidades ,que rastejavam entre as cidades, cada uma ocupando um nicho específico do infrassom. Elas não eram rivais; eram facetas de uma mesma consciência fragmentada, como os dedos de uma mão que se move sob a terra.
....E agora ,que eu as havia nomeado, elas começavam a se interessar não apenas por mim, mas por toda a humanidade. Porque um nome era uma ponte. E as pontes existem para serem atravessadas.
— O que vocês querem de nós? , perguntei, embora já soubesse a resposta.
'Habitar. Não seus corpos. Suas identidades. Queremos ser lembrados. Queremos existir no mundo do sentido. Queremos que nos pensem. Cada pensamento intrusivo é uma porta. Cada nome é uma chave. Você abriu sete portas. Outros abrirão mais.'
Foi então que entendi o verdadeiro horror.
As criaturas não queriam nos destruir. Queriam ser nós. Ou melhor, queriam parasitar nossa capacidade de dar sentido ao mundo. Cada pessoa que as ouvisse e as nomeasse se tornaria um vetor, uma antena repetidora que amplificaria o sinal delas para outras mentes. Os pensamentos intrusivos -- aquelas imagens de violência, de automutilação, de desespero -- não eram ataques. Eram convites. E cada pessoa que aceitasse o convite, que desse um nome àquilo que sentia, se tornaria parte da rede.
Sutura aproximou-se de mim na última noite. Seus apêndices roçaram meu rosto, gelados e finos como agulhas de acupuntura. Senti cada um deles tocando pontos específicos do meu crânio, como se lessem em braile ,os pensamentos que se formavam sob a pele.
E então ela me mostrou o futuro. Não com palavras.
Com visões!
Vi uma cidade à noite, os prédios escuros, as ruas vazias. Mas sob o asfalto, entre as fundações, o infrassom pulsava como um coração. Vi pessoas acordando de madrugada com imagens de dentes na mente, e em vez de rejeitá-las, sussurrando nomes.
Vi as criaturas se tornando cada vez mais definidas, ganhando rostos, ganhando vozes, ganhando presença. Vi Sutura erguendo-se do subsolo com um corpo que eu mesma lhe dera, uma forma humanoide feita de vértebras e agulhas, caminhando pelas ruas como se sempre tivesse estado ali. E vi que ninguém fugia dela.
... Porque no futuro, todos a reconheciam. Todos a haviam nomeado. Todos a aceitavam como parte da paisagem mental do mundo.
O desfecho, não é uma batalha. Não é uma vitória. Eu poderia arrancar meus implantes, mas já lhe disse: não são os implantes que me fazem ouvi-las.
Eu poderia tomar remédios para silenciar os pensamentos intrusivos, mas Sutura me mostrou que isso também é inútil.
Elas já estão na rede. Já estão nas mentes. Basta uma pessoa nomeá-las para que todos, em algum nível, as sintam.
Cada pesadelo inexplicável, cada medo irracional, cada impulso de fazer algo horrível e inconfessável é um eco delas, reverberando de mente em mente através do infrassom da consciência coletiva.
Mas há uma escolha.
...Sempre há uma escolha!
Sutura me ofereceu algo naquela última noite, enquanto seus apêndices desenhavam padrões nos meus pensamentos. Ofereceu-me o papel de Nomeadora. A primeira humana a dar-lhes identidade plena, a abrir completamente as portas entre o mundo audível e o inaudível.
...Se eu aceitasse, disse ela, as criaturas não precisariam mais rastejar escondidas. Elas se tornariam parte visível do ecossistema humano. Não como predadoras. Como simbiontes. Viveriam em nossas mentes, alimentando-se de nossos pensamentos mais sombrios, e em troca nos dariam algo que nenhuma outra espécie poderia dar: a capacidade de ver além do véu.
De ouvir o som que rasteja. De habitar, verdadeiramente, o mundo como ele é, e não como o filtramos.
— E se eu recusar? ,perguntei.
'Outro nomeará. Sempre há outro. Mas você foi a primeira a ouvir com tanta clareza. A primeira a não enlouquecer. A primeira a compreender.'
E então eu fiz a única coisa que me restava. Não aceitei.
Não recusei.
Fiz um pacto!
...Disse a Sutura ,que continuaria a nomeá-las, a estudá-las, a mapear o infrassom como uma designer acústica mapeia os reflexos de uma sala de concerto.
....Mas com uma condição: que elas não forçassem as mentes humanas. Que se aproximassem apenas daqueles que voluntariamente as ouvissem.
Que esperassem, com a paciência de milhões de anos, que a humanidade estivesse pronta para conhecê-las.
Sutura ficou em silêncio por um longo momento. Depois, seus apêndices se recolheram, e ela vibrou numa frequência tão baixa que me fez chorar.
'Nós esperamos. Nós sempre esperamos. Mas você nos deu nomes. Os nomes ficam. E um dia, quando sua espécie estiver pronta, nós viremos. Não como invasoras. Como hóspedes. Até lá, você será nossa voz no mundo audível. Você e aqueles que virão depois de você.'
Na manhã seguinte, o rastejar havia diminuído. Não desaparecido -- jamais desapareceria --, mas tornara-se um som de fundo, como o rumor distante do mar.
Sutura ainda me visita, porque é assim que a vejo: uma coluna vertebral do mundo invisível, sustentando realidades que não ousamos perceber. Ressoante, Oco e Pêndulo também vêm, cada um com seu nome, cada um com sua frequência, e eu os registro, os catalogo, os descrevo.
Tornei-me, como disse Sutura, a Nomeadora. A primeira de uma linhagem que não sei se será de profetas ou de loucos.
Mas o que mais me assombra, não é o que elas são!
...É o que elas revelaram sobre nós. Os pensamentos intrusivos nunca foram falhas. Foram sempre mensagens. E as mensagens dizem o mesmo desde que o primeiro humano olhou para o fogo e sentiu o impulso de enfiar a mão na chama: 'Nós estamos aqui. Sempre estivemos. E estamos esperando.'
Agora, quando ando pelas ruas, vejo as pessoas com outros olhos. Ou melhor, com outros ouvidos. Percebo quando alguém estremece sem motivo, quando uma mulher esfrega os braços no metrô, quando uma criança chora apontando para o nada. E sei que Sutura, ou Ressoante, ou Oco, ou Pêndulo, ou algum dos outros três cujos nomes ainda não revelei, está passando. Rastejando! Oferecendo o pacto silencioso que um dia me foi oferecido.
E a pergunta que me faço toda noite antes de dormir, não é se as criaturas são reais. Isso eu já sei. A pergunta é: quantos de nós já as nomearam sem saber?
...Quantas pessoas, ao sentirem o pensamento intrusivo de machucar alguém que amam, sussurraram um nome no fundo da mente e abriram uma porta que jamais se fechará? Quantos Suturas, quantos Ressontes, quantos Ocos já caminham entre nós, invisíveis, esperando o dia em que todos os nomes sejam pronunciados e o infrassom se torne audível para sempre?
Feche os olhos!Escute o silêncio!
Mas escute de verdade. Agora me diga: o você nunca sentiu, em algum momento de solidão, que havia algo atrás de você?
Algo que não fazia barulho, mas que ainda assim você ouvia? Não responda. A resposta está nos seus pensamentos intrusivos. Está no nome que você talvez já tenha dado a eles, sem perceber.
...E se você ouvir, no meio da noite, um rastejar que não vem de fora, mas de dentro, saiba que são elas. E saiba que eu, Maya, a Nomeadora, as invoquei!
Não por maldade. Por necessidade de conhecimento.
Durma bem!
Fim.
By Santidarko