No dia 14 de setembro, três jovens deram entrada no quarto 307 após um acidente de carro.
Uma BMW azul contra um poste.
...Duas da manhã. Hálito etílico!
A quarta ocupante, uma menina de dezoito anos que estudava biologia e colecionava conchas, deu entrada diretamente no necrotério.
Os três amigos sobreviveram com escoriações e um medo que não estava nos prontuários.
Eles sabiam que a manhã traria a polícia. Sabiam que o bafômetro os condenaria. Sabiam que um deles não tinha dinheiro sequer... para o exame de corpo de delito.
...Sabiam também, que a amiga de infância estava lá embaixo, fria, etiquetada,
Sozinha!
A descida ao subsolo foi menos uma fuga e mais um pedido de desculpas que nenhum deles saberia formular.
O elevador de serviço rangeu. A porta se abriu para um cheiro que não era só formol.
... Havia algo doce no ar, algo almiscarado, algo que lembrava açúcar queimado e carne antiga. As lâmpadas fluorescentes zumbiam num tom grave, umas piscando em ritmos diferentes, como se cada corredor tivesse sua própria pulsação.
Os azulejos eram de um amarelo que já fora branco, manchados por infiltrações escuras que escorriam lentamente, como se o prédio suasse uma resina espessa.
O necrotério não era grande!
...Mas, gavetas de aço escovado pareciam dobrar o tamanho ambiente.
Carrinhos cirúrgicos repousavam em cantos esquecidos, carregando bandejas de instrumentos que não constavam em nenhum catálogo médico.
Serras com dentes longos como agulhas de tricô. Bisturis curvos cujo corte não seguia uma linha reta.
Frascos de vidro grosso onde líquidos borbulhavam sem fonte de calor.
...O chão de linóleo verde estava perpetuamente úmido, refletindo a luz morta em poças rasas que não tinham origem na chuva.
...
A decisão de descer ao necrotério veio antes do primeiro raio de sol. Os três sabiam que a manhã traria a polícia, o bafômetro, as perguntas que nenhum deles conseguiria responder sem se incriminar.
Mas havia algo mais!
Helena estava lá embaixo. Sozinha.
Gelada!
Etiquetada como um objeto.
Isso pesava em suas mentes, a cada minuto!
...Mesmo com o arrependimento de estar ali, no necrotério!
Não era curiosidade mórbida!
Era dívida!
...Daquelas que não se pagam com dinheiro.
...Foi quando ouviram.
Passos. Passos humanos, pesados, com sola de borracha. Vinham de uma curva à frente. Uma lanterna lançou um feixe de luz trêmulo pela parede. Uma voz masculina, cansada, resmungou algo sobre turnos duplos e horas extras não pagas.
O segurança noturno. Ou o zelador.
...Alguém que não poderia vê-los ali!
Os três se entreolharam. Murilo apontou para trás, na direção do elevador.
...Mas Léo sacudiu a cabeça. O elevador faria barulho. O funcionário os veria!
Tudo estaria perdido!
Caio foi o primeiro a notar. Na parede à esquerda, a poucos metros de onde estavam, havia uma porta. Não era de metal como as gavetas do necrotério.
Não era de madeira como as dos consultórios. Era uma porta comum, de correr, daquelas que separam alas de hospital.
...Mas não estivera ali antes!
Caio tinha certeza!
Ele olhara para aquela parede segundos atrás e vira apenas azulejos manchados.
— Aquela porta... , começou a sussurrar.
— Não importa ,'cortou' Léo, já se movendo.
—... Vai...!
Os passos do funcionário se aproximavam.
O feixe da lanterna dançava mais perto.
A voz agora cantarolava algo.
Murilo empurrou a porta de correr. Rangeu. Os três passaram para o outro lado. Léo puxou a porta de volta, fechando-a com um clique abafado.
Ficaram no escuro por um instante. Depois, uma lâmpada fluorescente acendeu sozinha, zumbindo.
Não estavam mais no hospital.
O corredor à frente era uma repetição do necrotério que tinham visto antes, mas multiplicado.
Gavetas de aço se estendiam além do que a vista alcançava. À esquerda, mais gavetas.
À direita, gavetas e mais gavetas. O chão de linóleo verde agora estava molhado, refletindo a luz amarelada.
O cheiro doce se intensificara. O ar era mais denso, mais quente, como se algo respirasse nas paredes.
Murilo virou-se para a porta por onde haviam entrado. Ela ainda estava lá. Tentou abri-la.
Não cedeu!
... Tentou de novo, com força!A porta não rangeu. Não se moveu. Parecia soldada à parede.
Atrás deles, o corredor se bifurcava em três direções. Na frente, cinco novas entradas. Acima, nenhuma placa. Nenhum mapa.
Nenhuma seta de saída.
Apenas o zumbido!
...E ao longe, muito ao longe, a primeira nota grave de um órgão que não era tocado por mãos humanas.
Eles tinham entrado. A porta que não existia, os engolira. E o necrotério infinito acabava de receber três novos visitantes.
Nenhum mapa guiava aquele lugar.
Nenhuma placa indicava direção. As gavetas tinham nomes, datas, causas de morte -- mas os nomes se repetiam, as datas eram impossíveis, as causas descritas em uma caligrafia trêmula que mencionava coisas como 'desistência dos órgãos'e 'sangue que decidiu não circular mais'.
Os três amigos andaram por horas ou por minutos. O tempo no subsolo não corria; escorria. O relógio de pulso de um deles marcava sempre o mesmo minuto.
O celular de outro exibia apenas uma foto da infância, os quatro juntos, Helena ao centro, sorrindo.
As primeiras pegadas apareceram no terceiro corredor. Eram grandes, afundadas numa pasta escura que coalhava entre os azulejos.
Marcas de mãos acompanhavam as pegadas nas paredes, como se algo se apoiasse para caminhar, como se algo precisasse se equilibrar. As mãos tinham dedos longos demais!
...Depois vieram os sons!
Não o zumbido das lâmpadas, mas algo musical. Um órgão. Notas graves que vibravam nas gavetas, fazendo o aço cantar em harmonia. A melodia não tinha compositor humano.
Era um réquiem que subia e descia como um peito respirando, como um coração que não queria parar.
O primeiro ser foi avistado numa sala circular onde dezenas de macas formavam um anel. Estava de costas, imenso, curvado sobre um cadáver cujo tórax estava aberto como um livro.
Vestia um avental de borracha negra, grosso, coberto de resíduos que brilhavam sob a luz trêmula. Sua cabeça era envolta por uma máscara com algo de metal ma boca -- uma placa de autópsia antiga, moldada para cobrir feições que não deveriam ser vistas.
Cada incisão produzia uma nota. Cada órgão exposto vibrava como uma palheta.
O necrotério inteiro era um instrumento, e o ser o tocava com dedos que nunca erraram uma afinação.
Os três amigos recuaram para outro corredor. Foi quando encontraram o segundo.
Este era mais esguio, mais silencioso.
... Movia-se como um inseto entre as sombras das gavetas. Sua máscara era de uma face de pele antiga ,que cobria toda a sua cabeça.
Caminhava lentamente, parando diante de cada gaveta. Abria uma. Observava o rosto do morto com inclinação de cabeça. Fechava a gaveta. Seguia adiante. Sua maleta balançava no ritmo do órgão distante.
Os amigos o seguiram, escondidos atrás de carrinhos cirúrgicos, sem saber se queriam encontrar o que ele procurava.
O ser parou diante de uma gaveta específica, num corredor mais estreito, onde a luz era mais fraca e o cheiro mais doce. A etiqueta na gaveta tinha um nome que os três conheciam. O ser de virou lentamente a cabeça na direção deles.
By Santidarko