Ficção Científica Paratópica ou Voidor Ficction : desenvolvida por Santidarko
●Ficção Científica Paratópica
O subgênero onde a tecnologia não nos leva às estrelas, mas aos espaços secretos aninhados ao lado da realidade: fendas, corredores, quartos interditos. A geografia oculta do mundo é o poder último.
●Voidoir Fiction
A corrente estética do luxo solitário no abismo. Quartos belíssimos suspensos no nada, onde a elite saboreia o prazer e o pavor de estar absolutamente só.
... 'O vazio decorado'!
Paratópico = a descoberta do lugar ao lado.
Voidoir = a decoração desse vazio com veludo e silêncio.
Sim, neste conceito, as backrooms são e podem ser abertos por dispositivos tecnológicos-- como forma de entretenimento e/ ou um serviço ofertados a milionários .
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Introdução:O Túnel Propter hoc
A Organização Secreta:Costela de Schrödinger
A companhia chama-se Párallo CO.
Tem apenas uma sede física conhecida, apenas um símbolo -- um labirinto dourado em uma enorme placa de prata- espelhada.(*Dizem estudar ou financiar estruturas tecnológicas para a melhoria humana, ou de entretenimento intectual)
A Párallo é financiada por um consórcio de bilionários,que descobriram que o verdadeiro luxo não é acumular objetos, mas sim, fugir das consequências de os possuir.
...O seu lema interno é: 'O mundo tem arestas. Nós alisamo-las.'
O Convite (O Bilhete Anacrônico):
Nenhum milionário ou bilionário recebe um email ou uma carta. 'O convite da Párallo manifesta-se'
.... Num momento de tédio profundo --durante um jantar de gala entediante ou a bordo de um iate onde tudo já foi visto -- o candidato sente um peso súbito no bolso do casaco, um bolso que jurava estar vazio.
De lá ...retira um pequeno objeto: um paralelepípedo de obsidiana negra com veios de bismuto iridescente, do tamanho exato da palma da sua mão.
Ao toque, a pedra não é fria, mas morna, como pele. Ao virá-la contra a luz, os veios formam, por um segundo, o nome completo do destinatário e uma frase mutável: 'O tédio é a única prisão sem fechadura. Nós temos a chave!'
Não há morada, não há RSVP.(*Responda por favor).
O simples ato de guardar o objeto no bolso sela o contrato. A primeira mensalidade de um milhão de euros é automaticamente deduzida de uma conta, que o próprio banco do convidado 'desconhece existir'!
O Dispositivo de Mão: O Trinômio de Acesso
Após o primeiro pagamento, o convite-guia reage. No dia seguinte, o novo membro encontra na sua residência uma caixa de metal poroso, sem aparente abertura.
Um toque escaneado dissolve a tampa. Dentro, repousa o dispositivo, que a Párallo batizou de Limiar.
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O dispositivo não corta matéria física, mas sim, a costura da realidade!
Um gesto rápido e preciso faz uma incisão em paredes, que se abre como uma boca vertical, revelando a Backroom desejada. Ideal para desaparecimentos instantâneos.
O Modo Passagem (O Olho de Morfeu):
Para uma transição suave e contemplativa,
O Modo Evocação (O Diapasão de Ausência)
...A forma mais íntima. O Limiar torna-se um pequeno diapasão de um metal negro que não reflete luz. Ao ser tangido, não emite som, mas uma emoção: uma nota de nostalgia por um lugar onde nunca se esteve, um desamparo cósmico!
Essa vibração emocional atrai uma Backroom específica para a localização do membro, como um peixe abissal atraído por uma isca. O espaço onde ele está simplesmente começa a 'sangrar' para a nova realidade, dissolvendo-se lentamente. É a forma de acesso para os assinantes mais filosóficos ou desesperados.
O Novo Mundo de Backrooms (Para Além do Medo):
A Párallo catalogou as Backrooms, transformando-as numa propriedade de timeshare interdimensional.
...Não são purgatórios, são paraísos curados e outras arquiteturas da mente:
●Os Jardins-Reflexo de Epicuro:
Para os filósofos e hedonistas. Piscinas infinitas cujo líquido não é água, mas uma substância que materializa o desejo da carne em esculturas líquidas e anônimas, que se desfazem quando o pensamento muda. O ar é um psicadélico suave que dissolve o ego em geometrias sagradas e cores que cheiram a fruta esquecida.
...Aqui, um magnata pode dissolver-se numa paisagem de pensamento puro ,por horas!
●A Ciclovia da Tranquilidade Absoluta: Uma rota de gravilha perfeitamente lisa que serpenteia por um campo de trigo sob um céu de três sóis crepusculares. O vento é sempre a favor. Não há fauna, não há outros humanos, não há o risco de um assalto, um acidente de carro ou uma selfie indesejada.
Apenas o som hipnótico dos pneus e um silêncio que abraça. É o escape dos que temem a própria fama.
●A Sala de Chá Liquen: Uma réplica perfeita de uma estação de metro parisiense Art Nouveau, mas os azulejos são substituídos por líquen luminescente que respira. Os túneis levam a salas ovais forradas a estantes de madeira petrificada com livros que contêm apenas poemas escritos em línguas inventadas durante o sono. O cheiro é de chuva, terra e tinta fresca.
● O Anfiteatro de Coral Oco: Um espaço submerso, mas sem água. Paredes de coral branco como osso formam uma concha acústica perfeita. Ao centro, uma esfera de luz pulsa, traduzindo o silêncio do cosmos em composições sinfónicas que nunca se repetem. Um lugar para choro contemplativo.
●A Biblioteca dos Ecrãs Quebrados: Corredores e corredores de celulares e televisores, todos com o visor estilhaçado, exibindo um único frame congelado da vida do observador -- momentos de genuína felicidade que ele ignorou. Um lugar de aterrorizante beleza e confronto, reservado aos que buscam redenção.
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●O Arquipélago de Pólen: Pequenas ilhas que flutuam num mar de névoa dourada. Cada ilha tem o tamanho exato de um quarto de hotel de luxo, com uma cama cujos lençóis são pétalas. As ilhas deslocam-se lentamente, colidindo suavemente, permitindo encontros fugazes e anônimos entre membros, sem rostos, apenas silhuetas na névoa.
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O Crime Perfeito e o Detetive:
Elias Vance, um herdeiro de uma fortuna tecnológica e assinante Párallo, descobre uma falha terrível: as Backrooms não são bolsões isolados, mas uma rede.
Com o seu Limiar 3D , percebe que poderia cometer um crime brutal e sair por uma fenda, ileso, e sem ser vigiado ou testemunhado; desaparecer sem deixar rasto. As Backrooms tornam-se a sua rota de fuga e o seu campo de caça.
O detetive Ishmael , um homem destruído pela sua própria intuição, começa a ligar os pontos.
Investiga um homicídio em Nova Iorque: a vítima foi morta numa sala blindada, trancada por dentro. O suspeito, Elias Vance, é visto a entrar no prédio e nunca a sair.
Simplesmente evaporou-se. Ishmael, obcecado, encontra incongruências geométricas nas câmaras de vigilância -- um pixel que sangra, uma sombra que se dobra para dentro. A caçada de Ishmael não é apenas a um assassino intradimensional, mas à própria Párallo e à verdade que ela vende: a de que é possível fugir do mundo sem, ao mesmo tempo, o destruir.
O peso emocional de Ishmael reside na sua solidão existencial: ele é o único homem a ver a arquitetura de uma fuga invisível e a compreender que a impunidade absoluta é o verdadeiro horror cósmico.
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O Limiar da Páralo
O Encontro
O jantar decorria na cobertura do Mandarin Oriental, com vista para a baía de Hong Kong iluminada como um tabuleiro de diamantes. Elias Vance rodava o cálice de Romanée-Conti 1998 na mão, o vinho tinto -- que deveria ser extraordinário -- tinha o sabor de papel molhado na sua boca. À sua volta, os convidados tagarelavam sobre NFTs de macacos pixelizados e iates híbridos.
...O mesmo tédio profundo de sempre, revestido de seda e diamantes!
O bolso do casaco Savile Row pesou subitamente.
Impossível, pensara!Tinha mandado o mordomo verificar os bolsos antes de sair -- por precaução, depois daquele incidente em Mônaco. Nada. O casaco estava imaculado!
Mas o peso estava lá, quente contra a sua coxa.
Desculpando-se com um sorriso ensaiado, Elias retirou-se para o terraço privado. A noite de Hong Kong estendia-se abaixo, incrivelmente bela e absolutamente indiferente. O bolso do casaco, tocado pela ponta dos dedos, ofereceu uma forma lisa e geométrica.
'A obsidiana negra'repousou na sua palma aberta. Veios de bismuto-eletrônicos atravessavam a superfície como nervos de metal líquido, e o dispositivo- convite, por assim dizer,era morno.
...Como pele humana!
Quando a virou para a luz dos arranha-céus, os veios moveram-se.
Elias Malcolm Vance.
A frase que se seguiu flutuou por um instante antes de se fixar:
'O tédio é a única prisão sem fechadura. Nós temos a chave.'
Não havia endereço. Não havia instruções. O bilhete anacrónico materializava-se no momento exato em que a alma mais precisava de uma porta.
Elias enfiou o dispositivo desconhecido em seu bolso.
Na manhã seguinte, o seu gestor de conta do UBS ligou-lhe, nervoso:
— Senhor Vance, houve uma movimentação... que eu não consigo rastrear. Um milhão de euros saiu da sua conta numerada. O sistema não regista a transferência. Nenhum dos meus superiores tem registo!
— Não se preocupe com isso , dissera Elias, sentindo o peso da pedra-guia contra o peito, agora guardada no bolso interior do casaco.
...
A caixa chegou no dia seguinte, entregue por um serviço de correio que ninguém na recepção de seu edifício se lembrava de ter autorizado. Metal poroso, cinzento-azulado, sem fendas, sem fechaduras, sem costura aparente.
...Elias encostou o eletrônico-guia à superfície!
O metal dissolveu-se como gelo em água morna, revelando o interior forrado de veludo negro.
O dispositivo repousava sobre o tecido: uma peça de metal polido que lembrava um estilete cirúrgico, com um cabo de osso fossilizado e uma lâmina que não refletia a luz, antes a absorvia como um buraco negro portátil. O nome estava gravado na base em caracteres minúsculos: LIMIAR - Série 7B - Propriedade da Párallo.
..Elias segurou-o.
Era mais leve do que parecia. E mais quente. O cabo ajustou-se à sua mão como se tivesse sido moldado para ela.
— Como se usa? , 'perguntara ao ar vazio'.
O dispositivo vibrou. Não respondeu, mas algo na sua mente --um instinto, uma memória ancestral -- ensinou-lhe o gesto.
Três dedos no cabo. Uma rotação suave de 45 graus. Um movimento rápido para baixo.
Na parede de vidro do seu apartamento, com vista para o Victoria Harbour, uma linha vertical abriu-se como uma boca.
Não era uma fenda na matéria -- era uma fenda no espaço. O interior parecia uma sala de estar de tamanho modesto, com paredes de papel de parede amarelo-desbotado, iluminada por luz fluorescente que não vinha de lado nenhum.
Um jardim de inverno vazio.
Elias hesitou!
Do outro lado, o tédio continuava. O escritório vazio. As reuniões por Zoom. A fortuna que não lhe trazia nenhuma emoção.
Deu um passo.
Atravessou o Limiar.
...Caiu!
Não fisicamente --a transição fora suave, como atravessar uma cortina de água -- mas o espaço curvou-se à sua volta, e de repente os pés de Elias encontraram uma superfície que não era chão.
Era ar líquido. O chão onde pisava era feito de pensamento.
Os Jardins-Reflexo estendiam-se diante dele: piscinas infinitas de uma substância translúcida que se movia com a lentidão de mel derretido. A luz não vinha de cima --vinha de dentro do líquido, como se cada gota contivesse uma estrela.
Elias aproximou-se da margem de uma das piscinas. A superfície tremulou!
O líquido ergueu-se, formando uma coluna que se moldou lentamente. Braços. Pernas. Um torso.
Uma escultura líquida, anônima, de um corpo que ele reconheceu como o da sua primeira namorada -- não como ela era, mas como ele se lembrava dela, uma versão idealizada que nunca existiu realmente.
A escultura desfez-se antes que pudesse tocá-la.
Outra surgiu: o corpo de um homem que ele nunca vira, mas que o líquido sabia que ele desejava.
...Desfez-se.!
...Outra.!
...Outra!
Cada uma uma fantasia de carne líquida que se dissolvia quando o pensamento mudava.
O ar começou a tingir-se de verde. Elias sentiu o cheiro a fruta esquecida: manga de sua infância na Espanha, antes da fortuna, antes das escolas internas, antes do tédio.
O seu ego dissolveu-se lentamente enquanto geometrias sagradas dançavam na sua visão periférica.
....'Não sei quem sou'!, pensara!
E pela primeira vez em décadas, isso não o incomodou.
...
Era o terceiro mês de assinatura.
Elias tinha explorado todas as Backrooms da Párallo. Os Jardins-Reflexo. A Ciclovia da Tranquilidade Absoluta, onde pedalara durante horas sob três sóis crepusculares, o vento sempre a favor, o silêncio a abraçá-lo como um manto. A Sala de Chá Liquen, com os seus azulejos luminescentes e os poemas em línguas sonhadas.
...Mas o tédio...regressava sempre!
Era mais profundo agora, porque tinha provado o paraíso.
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O Homem que Não Existia
Elias Vance era um fantasma que pagava impostos.
Viajava de cidade em cidade -- de carro, de avião, de comboio. Sempre sozinho. Sempre discreto. Nos hotéis, pedia quartos no fim do corredor. Nas casas alugadas, escolhia bairros onde ninguém reparava em ninguém. ...Nos negócios, era apenas mais um executivo de terno cinzento, com um sorriso ensaiado e um aperto de mão frio.
Mas à noite, quando as cidades adormeciam, Elias tornava-se outra coisa.
...Por um doentio prazer!
'Precisava de sentir as arestas do mundo'. Precisava de ver o sangue escorrer, de ouvir o último suspiro, de provar o momento exato em que a vida se desfazia. Só assim o tédio recuava.
'...Somente assim, ele sentiria-se vivo!'.
...E depois, quando o corpo ainda estava quente, quando o sangue ainda se espalhava pelo chão do hotel ou da casa vazia,
Elias desaparecia!
Não pela porta. Não pela janela.
Por uma fenda na realidade. Um rasgo invisível que só ele via, que só ele podia abrir.
...As Backrooms!
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O Primeiro — Londres
O hotel era antigo, de paredes grossas e corredores de carpete vermelho. Elias escolhera o quarto 412 -- no fim do corredor, perto da escada de emergência, longe dos olhos das câmaras.
A vítima era um homem de negócios chamado Pemberton. Dormia no quarto ao lado. Elias sabia ... porque estudara a sua rotina durante três dias. Sabia que ele tomava um uísque todas as noites às 22h30 ,e que adormecia profundamente até às 7h.
Às 23h15, Elias entrou no quarto de Pemberton.
Não com uma chave mestra. Não com um cartão magnético.
Com a mão.
A maçaneta da porta, sob os seus dedos, tornou-se líquida(*Porque Elias começou a ativar o dispositivo, para iniciar a abertura da Backroom, e depois a desativou repentinamente. Mas essa iniciação de abertura pode quebrar a cadeia de matéria sólida, por intantes) A madeira cedeu, e Elias atravessou-a como se fosse névoa. Não abriu a porta.
...Simplesmente... passou!
Pemberton dormia. O uísque ainda estava na mesa de cabeceira.
Elias aproximou-se silenciosamente. A almofada foi suficiente -- macia, abafada. Pemberton agitou-se por alguns segundos, depois ficou imóvel.
Elias soltou a almofada. O corpo estava ali, os olhos abertos, a boca entreaberta. O quarto cheirava a álcool e a morte.
...O tédio recuou!
Elias sentiu a centelha --- a única coisa que o fazia sentir-se vivo. Olhou para as suas mãos. Estavam limpas. Não havia sangue. Não havia provas!
Mas havia o corpo.
...E era aí que as Backrooms entravam!
O ar à sua frente começou a vibrar. Uma linha vertical abriu-se -- fina, dourada, pulsante!(Ele abrira agora a fenda para a Backroom, por completa.)
...Fugiu por ela!
Ele não empurrou ninguém para lá. Não jogou o corpo. Não escondeu nada.
Ele simplesmente entrou.
A fenda fechou-se atrás de si. O quarto 412 estava vazio, exceto pelo corpo de Pemberton, que seria encontrado na manhã seguinte pela camareira.
Elias, por seu lado, estava nos Jardins-Reflexo -- um segmento da Backroom ,de espelhos e lagos de mercúrio, onde o tempo não passava. Caminhou lentamente pelos corredores de vidro, vendo o seu reflexo multiplicar-se infinitamente. As cores eram suaves, as formas fluidas.
Ficou ali por horas -- ou talvez por minutos.
'O tempo nas Backrooms era elástico'.
Quando saiu, estava no aeroporto de Heathrow. No mesmo banco onde estivera sentado antes do crime. O seu voo para Nova Iorque chegara ao instante!
Ninguém o vira entrar. Ninguém o vira sair.
Ele nunca estivera no hotel.
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Paris — O Segundo
Dois dias depois, Elias estava em Paris.
A viagem de avião fora tranquila. Primeira classe, champanhe, jornais. Mais um executivo a viajar a negócios.
O alvo era um crítico de arte chamado Moreau. Morava num apartamento no sexto andar, com vista para o Sena.
Elias passara três noites a observá-lo, a estudar os seus hábitos. Moreau jantava tarde, bebia muito, e dormia com a janela aberta.
...Não havia necessidade de forçar a entrada.
Elias simplesmente atravessou a porta do prédio. Depois a porta do elevador. Depois a porta do apartamento. A madeira, o metal, o vidro --' tudo se tornava permeável sob o seu toque'.(*Graças ao dispositivo).
Moreau estava na sala, a ouvir música clássica, a escrever uma crítica que destruiria a carreira de mais um artista.
— Jean-Luc Moreau.
O crítico virou-se. O rosto enrugou-se numa expressão de surpresa.
— Quem é você? Como entrou?
— ...Não importa!
Elias avançou. A faca era pequena, de lâmina fina. Moreau recuou, tropeçou na mesa, derrubou o copo de vinho. O tapete ficou manchado de vermelho --... vinho e sangue, consequentemente.
Moreau caiu. O corpo tombou sobre a mesa, os olhos ainda abertos, a boca a formar uma palavra que nunca saiu.
Elias limpou a faca no casaco de Moreau. Olhou para o corpo. Para o sangue no tapete. Para a janela aberta com vista para o Sena.
A centelha brilhou!
Depois, a fenda abriu-se. Elias entrou nos Jardins-Reflexo, caminhou pelos espelhos, e emergiu numa casa de banho pública perto da Gare du Nord.
Pagou um café. Comprou um jornal.
No dia seguinte, a notícia: 'Crítico de arte encontrado morto em Paris. Sem sinais de arrombamento.'
Elias leu a notícia no avião, a caminho de Madrid.
Não havia suspeitos. Não havia testemunhas. Ele nunca estivera lá.
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Madrid -- O Terceiro
Agora, o padrão estava estabelecido.
Elias viajava de avião ou de carro. Escolhia uma cidade. Estudava uma vítima. Matava --com almofada, faca, corda, o que funcionasse. Depois, a fenda. As Backrooms!
...O desaparecimento!
E, em cada lugar, a mesma verdade: ele nunca estivera lá. Não havia digitais. Não havia cabelos. Não havia fibras. Apenas o corpo e o mistério.
Em Madrid, o alvo era um homem chamado Fuentes -- um antigo sócio que o traíra. Elias matou-o no jardim da sua mansão, com uma corda, enquanto Fuentes fumava um cigarro ao pôr do sol.
Depois, a fenda. Os Jardins-Reflexo.
...O aeroporto.
O corpo foi encontrado na manhã seguinte, pendurado na árvore. A polícia chamou de suicídio.
Elias leu a notícia no carro alugado, a caminho de Berlim.
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Berlim — O Quarto
Em Berlim, o alvo era um industrial chamado Weber.
Elias alugou um carro e conduziu até à mansão de Weber, nos arredores. Estudou a casa durante três dias. Descobriu que Weber dormia no segundo andar, sozinho, com a janela entreaberta.
Às 2h da manhã, Elias atravessou a porta dos fundos. Depois a porta da cozinha. Depois a porta do quarto.
Weber acordou com a mão de Elias no seu pescoço.
— O quê...? Quem...
—SSSHHHH!... Silêncio!
A mão apertou. Weber debateu-se por alguns segundos. Depois, a resistência cessou!
Elias soltou o corpo. Olhou para o homem na cama, os olhos arregalados, a boca aberta.
'A centelha brilhou'...!
A fenda abriu-se. Elias entrou nos Jardins-Reflexo e, quando saiu, estava no aeroporto de Berlim, a tempo do voo para Nova Iorque.
No avião, leu a notícia: 'Industrial alemão encontrado morto na sua mansão. Suspeita-se de ataque cardíaco.'
Elias dobrou o jornal. A centelha ainda ardia.
Estava a tornar-se viciado.
...
A Sombra que Via
...Mas, em Berlim, algo mudou.
Um detetive chamado Ishmael Mallory -- um homem de cabelo grisalho e olhos cansados -- chegou à mansão de Weber no dia seguinte ao crime.
Não havia provas!
...Não havia suspeitos!
..Mas Ishmael viu algo que os outros não viram!
Uma marca sombreada.
No quarto de Weber, a luz da manhã projetava sombras nítidas. Mas uma das sombras -- a sombra da cortina --tinha uma dobra. Uma linha vertical, perfeita, geométrica.
... Como uma porta!
Ishmael ajoelhou-se e tocou-a com a ponta dos dedos.
A dobra não era uma ilusão de luz.
'Aparentava ser uma nítida passagem apagada'.
— Ele não entrou pela porta ,teorizara Ishmael.
— ...Ele atravessou!
Kaito, o seu assistente, olhou para ele com uma expressão preocupada.
—... Atravessou o quê?
— Não sei ao certo !Como se alguém usasse uma porta invisível. Entra, mata, e sai por onde ninguém vê!
Seu assistente olhou para os outros detetives presentes no local, e tentou desculpar-se pelo 'cansaço de seu chefe'.
Ishmael levantou-se lentamente. Os seus olhos fixaram-se na dobra da sombra.
— Vamos apanhá-lo, Kaito. Vamos encontrar 'o responsável 'pela porta!
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Ishmael começou a ligar os pontos, depois de inúmeras investigações.
Londres. Paris. Madrid. Berlim.
...Em cada cidade, o mesmo padrão. Um corpo. Sem arrombamento. Sem digitais. Sem testemunhas. E uma sombra com uma dobra.
Em cada local, um nome comum: Elias Vance.
— Ele não foge, dissera Ishmael para Kaito, no seu escritório no Brooklyn ,NY.
— Ele desaparece!.
—Entra por uma porta que não existe, mata, e sai pela mesma porta.
— Mas como é que ele faz isso?
— Não sei. Mas sei que ele viaja normalmente. De avião, de carro, de trem.
... Precisa de ser visto. Precisa de uma cobertura. Mas, quando está sozinho... abre a porta.
Ishmael apontou para o mapa. Os alfinetes vermelhos desenhavam uma espiral.
— O próximo alvo será em Roma. Daqui a onze dias.
— Como sabes?
— Porque ele está a seguir uma lista.
—..E o próximo nome está...em Roma!
Ishmael pegou o computador.
—... Vamos para Roma!
Elias aterrou em Roma numa tarde quente.
O alvo era um banqueiro chamado Conti -- um homem que roubara a herança da sua mãe. Elias estudou a villa, os seguranças, as câmaras. Tudo perfeito.
À noite, atravessou a parede lateral da villa, entrou no quarto de Conti, e matou-o com uma almofada.
O corpo caiu. O sangue manchou o lençol.
Elias fechou os olhos. A fenda abriu-se.
Mas, antes de entrar, sentiu algo.
Uma presença.
Virou-se.
A porta do quarto abriu-se. E Ishmael estava ali, olhando para ele.
— Elias Vance.
—PARE!
Elias congelou.
— Co-CO- CO...COMO?
— COMO VOCÊ SABIA QUE EU ESTARIA AQUI?!
(*continua)
By Santidarko