( * Imagem e personagem by Santidarko)
Longe de quaisquer ecos da internet,ei- la,moldada na penumbra das décadas de 60 e 70.
A Detetive
Nome: Eleonora Marília D'Ávila Rossetti.
Para os íntimos, apenas Lola Rossetti, um contraste quase cruel entre a doçura do apelido e a frieza de seu ofício.
Perfume: Usa L'Heure Bleue de Guerlain, uma fragrância crepuscular e atalcada, com notas de anis, cravo e íris. Ela o aplica nos pulsos e atrás dos lóbulos das orelhas antes de qualquer entrevista ou visita à cena de um crime, como um escudo olfativo contra o cheiro da morte que insiste em persegui-la.
O perfume, de 1912, é um eco de uma era perdida de elegância que ela insiste em preservar, uma ironia silenciosa em meio à brutalidade que investiga.
'Os Cadernos do Ocaso'.
Refere-se tanto ao seu método de registrar casos em cadernos de couro gasto, escritos à luz do entardecer, quanto ao tipo de mente que ela persegue: seres para quem o sol da razão já se pôs há muito tempo.
Prefácio
Antes que os crimes em série se tornassem um jargão clínico, antes que o termo serial killer cruzasse as fronteiras americanas e se alojasse no vocabulário policial brasileiro, eles já existiam. Eles caminhavam entre nós com a naturalidade dos monstros que não se sabem nomeados. No Brasil dos anos dourados e de chumbo, entre a bossa nova, a construção de Brasília e o silêncio imposto pelos porões da ditadura, outra escuridão, mais privada e igualmente metódica, florescia à margem dos noticiários, muitas vezes ignorada ou disfarçada de acidente, desaparecimento ou crime passional.
Foi nesse vácuo de olhares, nessa fresta entre o desenvolvimento ufanista e a brutalidade institucionalizada, que Eleonora Marília D'Ávila Rossetti encontrou sua vocação. Não por escolha, mas por uma condenação do destino. Onde a polícia via um acidente, ela enxergava o método. Onde a sociedade preferia não ver, ela teimava em iluminar com sua lanterna solitária, mesmo que a luz revelasse abismos dentro de si mesma.
Introdução de Vida
Lola Rossetti não nasceu para as sombras, mas foi parida por elas na noite de 12 de novembro de 1966, em Curitiba. Até então, era uma jovem promissora da alta sociedade curitibana, filha do desembargador Olavo Rossetti e da mecenas Celina D'Ávila. Eleonora estudava piano clássico e se preparava para um casamento que uniria duas famílias tradicionais do estado. Sua vida era um estudo em aquarela de tons pastéis.
A tragédia não bateu à porta; arrombou-a.
...Ao retornar inesperadamente de uma viagem a São Paulo, onde fora provar o vestido de noiva, Lola encontrou a mansão da família no Batel em absoluto silêncio. Um silêncio denso, adoçado pelo cheiro metálico do sangue que escorria pela escadaria de mármore. Seus pais e dois irmãos mais novos haviam sido meticulosamente mortos, dispostos em uma cena que ia além da violência: era uma encenação. Sobre o piano de cauda, uma rosa branca com uma única gota de sangue na pétala. O criminoso jamais foi encontrado. A polícia arquivou o caso como latrocínio seguido de morte, mas Lola sabia.' Havia beleza naquela monstruosidade', uma assinatura.
O noivo, temendo o escândalo, rompeu o noivado. A sociedade, que antes a abraçava, agora a observava com um misto de piedade mórbida e desconfiança. Destroçada, mas lúcida, Lola usou o que restou de sua herança para desaparecer. Trocou os saraus pelos arquivos policiais, as partituras por livros de criminologia, o piano por um revólver. A tragédia lhe roubou a alma de debutante e lhe deu uma nova: a de caçadora.
Onde Vive e Trabalha Agora
Lola vive em um sobrado discreto e decadente na Rua São Francisco, no centro histórico de São Paulo, cidade para a qual fugiu em 1971 para se reinventar. O local é um híbrido de lar, escritório e santuário. No térreo, funciona, sob a fachada de uma modesta loja de penhores e antiguidades — 'Casa do Ocaso' —, seu verdadeiro escritório de investigações. É uma alfaiataria da alma, como ela mesma a descreve.
A loja é uma metáfora de seu trabalho: recebe objetos carregados de histórias trágicas, de pessoas que precisam de dinheiro, mas também de discrição. É o ponto de contato perfeito. Seus clientes não chegam por anúncios, mas pelo boca a boca sussurrado de vítimas, jornalistas marginalizados e delegados velhos demais para se importar com a política. No andar de cima, entre livros empilhados, mapas de Curitiba e São Paulo, fotocópias de inquéritos antigos e um toca-discos que repete exaustivamente as Bachianas Brasileiras de Villa-Lobos, Lola Rossetti desmonta metodicamente a psique de assassinos que ninguém mais procura.
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Miniconto: 'A Pele dos Mortos'
São Paulo, outono de 1973.
A névoa que subia do Vale do Anhangabaú lambia as janelas do meu sobrado quando o delegado Barcelos, um alcoólatra funcional com olheiras de cão abandonado, largou a pasta sobre o meu balcão de penhores. O som foi oco, como a própria alma dele.
-Lola, isso não é furto de joias.
...- E você sabe disso!, disse Barcelos enxugando seu suor de ansiedade, com seu lenço branco e bordado com suas iniciais,que tirara de seu terno cinza...bagunçado e um pouco apertado.
Eu sabia. O cheiro da morte tem um timbre próprio, e Barcelos exalava um desespero que nem a cachaça barata conseguia mascarar. Abri a pasta. Fotografias. Três mulheres. A primeira, uma costureira do Brás. A segunda, uma bibliotecária da Móoca. A terceira, encontrada naquela manhã, uma florista da Santa Ifigênia. Diferentes idades, diferentes vidas. Apenas um traço macabro em comum: todas foram encontradas nuas, com os corpos limpos, os cabelos lavados e penteados, e as unhas lixadas e pintadas com um esmalte de um vermelho específico, um carmim quase negro. As pálpebras estavam cerradas com cola, e sobre cada uma delas, o assassino depositara uma pequena pedra de ametista, uma para cada olho, como se pagasse pela travessia de um barqueiro moderno. Um zumbido agudo e insuportável instalou-se nos meus ouvidos. A obsessão, a mise-en-scène, o cuidado post-mortem. Não era um crime, era um ritual.
-Isto não é um maníaco sexual comum, Barcelos.
-Ele não as está violentando.
...-'Ele as está purificando'.
-Para ele, a sujeira está em outra coisa.
-A morte é a higienização final, murmurei, mais para mim mesma do que para ele. Toquei as fotos com a ponta dos dedos, sentindo uma fisgada fria que vinha do meu peito e descia até o estômago. Meu perfume, o L'Heure Bleue, preencheu minhas narinas, uma âncora de sanidade em meio à loucura que aquelas imagens sugeriam.
Barcelos fungou. -A última, a florista... trabalhava perto daqui.
-Uma casa de flores na rua do Arouche.
O zumbido cessou. Substituído por um silêncio absoluto, o mesmo silêncio da escadaria de mármore no Batel. As peças de um quebra-cabeça doentio começaram a se encaixar em uma dança obscena em minha mente: a pedra, a flor, a pureza, o ritual. As vítimas não eram aleatórias. Eram oferendas.
Naquela noite, sozinha em meu escritório, enquanto Villa-Lobos preenchia o vazio com seu lamento contido, tirei o esmalte carmim do bolso do casaco. Um frasco pequeno, frio. Eu o havia subtraído da bolsa de evidências de Barcelos. Virei-o contra a luz amarelada do abajur. Dentro dele, a cor não era apenas tinta. Era a própria essência da morte, refinada e engarrafada. Apliquei uma gota no dorso da mão esquerda, onde a pele é mais fina, onde a cicatriz em forma de clave de sol -- lembrança daquela noite em Curitiba -- parece pulsar. O cheiro não era de acetona, mas de algo doentemente adocicado, como lírios em decomposição.
Saí para a rua deserta, a gola do sobretudo levantada contra o frio. A luz amarelada do poste mais próximo banhava a calçada. Ergui a mão. Sobre minha pele, a gota de esmalte não era mais um cosmético. Era um olho. Um olho rubro, vítreo e acusador. E naquele instante, no reflexo fantasmagórico da vitrine de minha própria loja, deixei de ser Lola Rossetti, a investigadora. Pela primeira vez, eu era a vítima perfeita. O anzol que o verdadeiro assassino -- um homem que, eu tinha certeza, não escolhia aleatoriamente, mas colhia almas que julgava impuras — lançaria sua isca. O caçador não sabe, pensei, acariciando o cabo frio do revólver no bolso do casaco, mas a isca que ele procura sou eu. E desta vez, os olhos que se fecharão na escuridão eterna verão o meu rosto antes que as ametistas toquem suas pálpebras.
O jogo havia começado. E eu sempre joguei para vencer, mesmo que a vitória tivesse o gosto amargo e metálico do sangue que jamais saiu da minha memória.
By Santidarko