A pesquisadora japonesa Dra. Yuki Tanikawa, astrobióloga-chefe do Laboratório de Biogeoquímica Extraterrestre de Okutama (LABEX-O) , não deveria ter bebido aquilo.
...Mas bebeu!
A falha foi ridiculamente humana: um técnico de laboratório preencheu dois frascos idênticos com etiquetas trocadas.
O técnico, Hao Nguyen, um vietnamita que crescera no Japão, meticuloso, e que trabalhava há sete anos sem uma única advertência, na pressa de encerrar o turno e buscar a filha na creche, preencheu dois frascos de hidratação com etiquetas idênticas.
Ambos transparentes. Ambos inodoros.
Um continha água potável padrão do laboratório, filtrada em três estágios e enriquecida com eletrólitos para os longos plantões.
...O outro, o extrato líquido do asteroide Ryugu-X9 -- uma lama de carbono, gelo sujo e moléculas orgânicas complexas que a sonda Kraken-IV trouxera do cinturão de asteroides a um custo de milhões de dólares ...e duas vidas humanas!
(*Os engenheiros Sato e Mireles, perdidos na manobra de acoplamento ,que quase abortou toda a missão)
O asteroide Ryugu-X9 não era totalmente rochoso. Por fora, uma crosta de silicatos escurecidos por milhões de anos de radiação cósmica. Internamente, porém, era uma lama de carbono -- um agregado de gelo sujo, moléculas orgânicas complexas e algo que os primeiros espectrômetros não conseguiram classificar.
O geólogo-chefe da missão, ao ver as primeiras imagens do interior do asteroide, murmurara para si mesmo: 'Parece uma esponja preta, outrora, quem sabe, grudada na garganta do universo.'
A frase nunca entrou nos relatórios oficiais. Mas Yuki lembrava-se dela quando apertou o botão do hidratador de seu traje de laboratório e sugou o canudo.
O gosto veio antes do alarme.
— Doce e metálico ,registrrara ela em áudio, a voz ainda calma, o treinamento ainda segurando as pontas.
—... Como sangue e açúcar queimado.
...Depois vieram os pesadelos!
Não eram sonhos --Yuki sabia a diferença. Tinha trinta e oito anos, um doutorado em astrobiologia pela Universidade de Tóquio, um mestrado em neuroquímica do sono pela Universidade de Kyoto ;...E uma relação quase clínica com sua própria mente.
Nos sonhos, a mente embaralha o dia, recicla medos, ensaia desejos. Ela podia mapear cada imagem onírica a um estímulo diurno.
Nos pesadelos que começaram naquela noite, não havia lógica diurna. Ela estava sempre acordada dentro do próprio corpo imóvel, assistindo a algo que não era ela usando seus olhos para olhar o teto do quarto.
...Algo que calculava distâncias entre objetos -- a lâmpada, a câmera de vigilância, a maçaneta -- usando sua córnea como lente.
...Algo que testava seus neurônios motores um por um, como quem dedilha um instrumento desconhecido, provocando pequenos espasmos nos dedos enquanto ela gritava por dentro sem emitir som.
...O pior ,era a 'geometria dos pesadelos'.
Toda noite, a mesma imagem se projetava atrás de suas pálpebras: uma estrutura que não cabia em três dimensões, um emaranhado de ângulos que dobravam o espaço como uma faca sem lâmina.
Escher teria fechado os olhos e chorado.
Yuki acordava com a certeza de que sabia desenhar aquilo.
...E desenhava!
Rabiscos que os médicos do LABEX-O classificavam como 'garatujas de estresse pós-traumático', mas que, quando sobrepostos em sequência, formavam algo estranho e sem nexo -- um diagrama que lembrava um sistema de túneis, ou talvez um sistema circulatório, ou talvez as duas coisas ao mesmo tempo.!
Ninguém conseguia olhar para as sobreposições por mais de trinta segundos sem sentir uma vertigem profunda, como se o cérebro tentasse rejeitar o que os olhos viam.
Na quinta noite, ela parou de gritar por dentro.
Não por resignação. Não por aceitação. Porque o algo que testava seus neurônios finalmente encontrou o que procurava: o feixe de microtúbulos no córtex pré-frontal ,que vibrava na frequência exata de ressonância.
A frequência que permitia a comunicação sem palavras. A frequência que transformava o corpo humano em antena.
Yuki acordou às 03:47 da manhã com lágrimas escorrendo pelo rosto e uma frase na boca que não era sua, dita numa voz que ainda era:
— O canal está aberto. Nós esperávamos há tanto tempo!
Ela ficou sentada na cama por quarenta minutos, imóvel, olhando para as próprias mãos. Ainda eram suas mãos. Pequenas, dedos finos, calo de escrever no indicador direito. Ainda obedeciam quando ela ordenava que se fechassem em punho.
...Mas no fundo da unha do polegar esquerdo, uma minúscula mancha dourada pulsava como um batimento cardíaco independente do seu.
O técnico Hao Nguyen nunca saberia o que fez. A agência espacial japonesa, a JAXA, nunca admitiria o erro -- Hao foi discretamente transferido para uma instalação de processamento de dados em Hokkaido, onde passaria o resto da carreira olhando planilhas e evitando perguntas.
Yuki Tanikawa, por sua vez, foi submetida a uma série interminável de exames, entrevistas e interrogatórios disfarçados de avaliações psicológicas. Insistiram tanto, perguntaram tantas vezes se ela se sentia 'ela mesma',que ela entendeu:
... queriam afastá-la!
Queriam que ela admitisse instabilidade. Queriam uma razão para trancá-la em algum lugar onde pudessem estudá-la sem testemunhas.
...Ela não lhes dera essa razão!
Durante o dia, Yuki era a pesquisadora impecável de sempre: relatórios precisos, hipóteses cautelosas, nenhum desenho fora do lugar. Durante a noite, trancada em seu quarto, ela desenhava. Os diagramas evoluíam.
Já não eram rabiscos caóticos, mas esquemas complexos que lembravam uma mistura de mapa estelar, circuito integrado e tratado de anatomia. O algo dentro dela não estava apenas se comunicando.
...'Estava ensinando'!
Foi na décima segunda noite que Yuki entendeu o que estava desenhando.
'Era um plano de voo'.
Não para uma nave. Não para uma sonda. Era um plano de voo para ela.
Para o corpo humano.
Os microtúbulos em suas células não eram apenas estruturas de sustentação -- ...eram trilhos!
...E a mancha dourada em sua unha era a chave de ignição. O algo dentro dela era um parasita, um invasor, talvez fosse também, uma doença.
Era um navegador.
...'E estava pedindo permissão para decolar'.
Yuki Tanikawa, astrobióloga, filha de um pescador de Hokkaido e de uma professora de literatura, sentou-se na cama na décima terceira noite e fez a pergunta que nenhum protocolo científico previa:
— Se eu disser sim, o que irá acontecer comigo?
A mancha dourada pulsou três vezes. E atrás de suas pálpebras fechadas, Yuki viu uma estrela que não existia nos catálogos humanos. Uma estrela marrom, fria, solitária, orbitada por um único planeta oceânico coberto por uma névoa perpétua.
— Mutação! Nós vamos transmutar!
— Nós vamos nos fundir!
....
Na manhã seguinte, Yuki Tanikawa pediu demissão do LABEX-O.
O diretor, Dr. Kenjiro Matsuda, recusou o pedido. Disse que ela estava sob contrato, que havia cláusulas de segurança nacional, que sua exposição ao extrato de Ryugu-X9 a tornava patrimônio científico do Japão. Yuki ouviu tudo em silêncio, agradeceu pela reunião e saiu da sala.
Naquela noite, ela não dormiu!
...Ficou sentada no escuro, olhando para a mancha dourada em seu polegar, sentindo a vibração nos microtúbulos de todo o seu corpo.
A voz não falou. Mas ela sentiu a pergunta silenciosa: Agora?
— Agora! ,respondeu Yuki.
O que aconteceu a seguir não foi registrado por nenhuma câmera de segurança, porque as câmeras piscaram e morreram no exato instante em que Yuki Tanikawa fechou os olhos. Quando os seguranças arrombaram a porta de seu quarto, encontraram a cama vazia, os lençóis frios e uma única página sobre o travesseiro.
Não era um bilhete de despedida. Era um diagrama -- o último que ela desenhara. Um círculo perfeito preenchido por linhas que se cruzavam em ângulos impossíveis, formando uma mandala que os analistas não conseguiram fotografar adequadamente, porque a imagem saía distorcida em todas as câmeras, como se a luz se recusasse a capturá-la.
No canto inferior direito da página, uma única linha escrita à mão, com a caligrafia impecável de Yuki:
'A sede acabou. Agora é só o oceano.'
E abaixo disso, em caracteres que não pertenciam a nenhum alfabeto humano, uma assinatura. Ou um destino.
... Ou ambos!
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O técnico Hao Nguyen, em sua mesa em Hokkaido, recebeu a notificação do desaparecimento por e-mail.
Leu duas vezes!Fechou o computador. Foi ao banheiro, molhou o rosto, olhou-se no espelho e notou, pela primeira vez, uma minúscula mancha dourada no fundo da unha do polegar esquerdo.
Ele não havia bebido nada!
..Mas ele trocara os frascos com as próprias mãos.
Com os olhos ainda úmidos da água fria da torneira, Hao Nguyen encostou-se à parede do banheiro e respirou fundo.
A mancha dourada na unha do polegar esquerdo não doía. Não ardia. Apenas pulsava, como se tivesse um coração próprio. Ele tentou raspá-la com a unha da outra mão.
Nada.!
Tentou com a lixa que guardava na nécessaire. A mancha continuava lá, imperturbável, dourada como um fragmento de sol preso sob a queratina.
...Ele não havia bebido nada!
Mas trocara os frascos. Com as próprias mãos. E as mãos, ele agora entendia, também absorvem. A pele tem poros. As membranas têm falhas. O extrato de Ryugu-X9 encontrara nele uma entrada muito mais sutil: o leito ungueal, a fina camada de pele viva sob a unha, onde os vasos sanguíneos são microscópicos e a absorção é lenta, quase imperceptível.
Não fora uma dose como a de Yuki. Fora uma infiltração. Um gotejamento. Uma semente plantada na periferia do corpo, que esperara treze dias para germinar.
Hao Nguyen tinha quarenta e dois anos, uma filha de sete chamada Mai, uma ex-mulher que o desprezava com a polidez feroz das mulheres japonesas educadas, e um apartamento minúsculo em Sapporo...onde a solidão fazia mais barulho que os vizinhos.
Ele não era astronauta. Não era astrobiólogo. Era um técnico de laboratório com formação em química analítica e um dom para passar despercebido.
....A última coisa que ele queria era se tornar o centro de uma investigação.
Mas a mancha pulsava. E, naquela noite, ele sonhou.
Não foram pesadelos geométricos como os de Yuki. Hao não viu estruturas impossíveis nem ângulos que dobravam o espaço.
...Em vez disso, ele viu uma névoa. Uma vastidão cinzenta e silenciosa, um oceano de vapor que se estendia em todas as direções. Sobre a névoa, uma estrela marrom ardia fracamente no horizonte. E diante dele, de pé sobre a superfície líquida como se fosse chão sólido, estava Yuki Tanikawa.
Ela usava o mesmo jaleco branco do LABEX-O.
O mesmo corte de cabelo curto, prático, que ele vira centenas de vezes nos corredores do laboratório. Mas seus olhos já não eram castanhos. Eram dourados, da mesma cor da mancha na unha de Hao.
— Nguyen-san , dissera ela, e a voz soou dentro da cabeça dele, não nos ouvidos.
— Você não deveria estar aqui. Ainda não!
— Onde é aqui? , perguntara Hao, e sua própria voz saiu trêmula, infantil.
Yuki aproximou-se. Seus pés tocavam a névoa líquida sem perturbá-la. Quando ela estava perto o suficiente, Hao viu que a mancha dourada em sua unha era idêntica à dele.
... Mas a dela pulsava em sincronia com algo maior: todo o oceano de névoa pulsava no mesmo ritmo, como se o planeta inteiro tivesse um batimento cardíaco.
— Você trocou os frascos ,disse Yuki.
— Você me deu o extrato. Mas o extrato não era um veneno, Nguyen-san. Era um chamado. E você, sem saber, atendeu também.
— Eu não quero atender nada ,disse Hao, recuando.
— Eu só quero voltar. Tenho uma filha. O nome dela é Mai. Ela tem sete anos.
—Ela...
— Eu sei ,interrompeu Yuki, e pela primeira vez sua voz teve algo parecido com ternura.
— Sei o nome dela. Sei que ela desenha girafas com lápis de cor. Sei que você guarda um dos desenhos na carteira. Sei que você chora no banheiro do trabalho para que ninguém veja.
Hao ficou em silêncio. A névoa ao redor começou a se mover lentamente, como se algo imenso respirasse sob a superfície.
— Como você sabe disso? , sussurrou.
— Porque a água me mostrou , respondera Yuki.
— A água de Ryugu-X9 não é um líquido, Nguyen-san. É um arquivo. Um registro. Ela guarda tudo que toca. E agora, ela me mostra tudo que ela tocou através de você.
Hao sentiu as pernas fraquejarem. Não era medo. Era a sensação vertiginosa de que sua vida inteira -- suas memórias, seus segredos, suas pequenas vergonhas -- estava exposta diante de uma mulher que ele mal conhecia e que, ao mesmo tempo, parecia conhecê-lo desde sempre.
— O que você quer de mim? , perguntou ele.
Yuki estendeu a mão. A palma estava aberta. A mancha dourada brilhava.
— Quero que você escolha , disse ela.
— A água que você tocou é a mesma que eu bebi. Mas você a recebeu em dose menor. Você ainda pode voltar. Pode viver sua vida, criar sua filha, envelhecer em Sapporo. A mancha na sua unha vai desaparecer em algumas semanas. Você nunca mais sonhará comigo.
Hao olhou para a mão estendida. Depois olhou para o rosto de Yuki. Os olhos dourados dela não piscavam.
— E se eu não voltar? , perguntou ele.
— Então você descobrirá o que a água
— Que resposta?
Yuki sorriu. Foi um sorriso triste, carregado de um cansaço cósmico.
— Ainda não sei ,confessou.
— Mas estou aprendendo!
Hao abaixou a cabeça. Pensou em Mai. Pensou no desenho da girafa na carteira. Pensou nas noites solitárias em Sapporo, no barulho do aquecedor, no silêncio da ex-mulher ao telefone. Pensou na vida que levava: uma vida pequena, segura, anônima.
...E então, pela primeira vez em anos, ele pensou no universo. No universo de verdade -- aquele que existia além dos relatórios de laboratório, além dos corredores do LABEX-O, além da atmosfera da Terra. Um universo vasto e silencioso, cheio de esponjas pretas 'grudadas em gargantas cósmicas', cheio de águas que não eram águas, cheio de chamados que viajavam milhões de anos para encontrar alguém disposto a ouvi-los.
Ele pegou a mão de Yuki.
A névoa ao redor se contraiu. A estrela marrom no horizonte pareceu piscar.
...E Hao sentiu algo se abrir dentro dele -- não nos microtúbulos, não no córtex, mas em algum lugar mais fundo, mais antigo, um lugar que ele nem sabia que existia.
— Eu quero saber , dissera.
— O que a água quer.
Yuki apertou sua mão.
— Então acorde , dissera ela.
— Acorde e vá para o mar. O mar do Japão. A água de Ryugu-X9 precisa de água salgada para completar a transmissão. Eu fui para o oceano do outro lado. Você irá para este. E quando ambos estivermos submersos, a resposta chegará.
— Que resposta? , repetiu Hao.
Mas Yuki já estava se desfazendo. A névoa a engolia lentamente, como se ela nunca tivesse estado ali. Só os olhos dourados permaneceram por mais um instante, flutuando na escuridão.
— A pergunta certa , sussurrara ela.
— A água não quer nos dar respostas, Nguyen-san. Ela quer nos ensinar a fazer as perguntas certas.
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Hao acordou no chão do banheiro do escritório, com o rosto ainda úmido e a mancha dourada pulsando furiosamente. Eram 04:12 da manhã. O prédio estava vazio. Lá fora, a neve caía sobre Sapporo.
Ele se levantou. Vestiu o casaco. Pegou a carteira -- com o desenho da girafa dobrado dentro -- e saiu para a rua. Não foi para casa. Foi para a estação de trem.
O mar do Japão ficava a duas horas dali.
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Enquanto isso, a milhares de quilômetros de distância, na instalação secreta da JAXA onde os pertences de Yuki Tanikawa estavam sendo catalogados, um analista encontrou algo que o fez derrubar o café no teclado.
Os diagramas que Yuki deixara sobre o travesseiro haviam sido digitalizados e enviados para tradução. Ninguém conseguira decifrá-los. Mas naquela madrugada, um programa de aprendizado de máquina projetado para reconhecer padrões em línguas mortas emitiu um alerta.
Os caracteres na última linha -- aqueles que não pertenciam a nenhum alfabeto humano --tinham uma correspondência de 94,7% com um sinal de rádio captado pelo radiotelescópio de Arecibo em 1987. O sinal durara 72 segundos e fora arquivado como 'anomalia instrumental'.
O programa traduziu a primeira palavra:
'Finalmente'.
...E então o analista reparou em algo mais. Os diagramas não eram apenas diagramas. Quando sobrepostos em uma determinada ordem e projetados em uma esfera tridimensional, eles formavam as coordenadas exatas de um ponto no Oceano Pacífico. Um ponto a 300 kilometros da costa do Japão.
Exatamente no mesmo local onde, naquele exato momento, os satélites da JAXA detectavam uma perturbação térmica anômala. Uma coluna de vapor subindo do mar. Uma coluna que, vista do espaço, tinha a forma de uma espiral dourada.
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Hao Nguyen chegou à praia de Otaru às 06:48 da manhã. O mar estava cinzento e bravio.
...A neve caía em flocos grandes e silenciosos. Ele tirou os sapatos. Tirou o casaco. Tirou a carteira --- mas antes de deixá-la na areia, abriu-a e olhou o desenho da girafa uma última vez.
— Papai vai entender uma coisa , murmurou para a imagem da filha.
— Depois ele volta.
—Prometo!
...E então ele entrou no mar.
A água estava gelada, cortante, mas ele não sentiu frio. A mancha dourada em seu polegar começou a brilhar com uma intensidade que não era possível. A luz se espalhou por sua mão, por seu braço, por seu peito. O mar ao redor começou a ferver -- não de calor, mas de vibração. As ondas se acalmaram. Uma coluna de vapor ergueu-se ao seu redor.
E no centro do vapor, Hao viu algo que nunca poderia ter imaginado.
Não era uma nave. Não era um ser.
...Era uma pergunta!
Uma pergunta tão antiga quanto o universo, flutuando no meio do oceano, esperando alguém que soubesse lê-la.
Ele não sabia. Ainda não. Mas de algum lugar muito distante, dentro da névoa do planeta oceânico sob a estrela marrom, Yuki Tanikawa sorriu, e seu sorriso viajou através da água, através do espaço, através dos microtúbulos de bilhões de células humanas, e pousou dentro de Hao como uma palavra silenciosa:
'Agora'!
Hao abriu a boca e começou a ler.
A RESPOSTA QUE NÃO ERA RESPOSTA!
A água do mar de Otaru não estava mais fria. Hao Nguyen não sentia mais seu corpo. A mancha dourada em seu polegar se expandira, envolvendo-o inteiro num casulo de luz líquida, e dentro desse casulo ele flutuava entre a consciência e algo que não tinha nome.
As palavras que saíram de sua boca não eram suas. Eram antigas. Eram precisas. Eram a vibração exata que os microtúbulos em suas células foram reprogramados para emitir. Ele não entendia o que dizia -- seu cérebro humano não tinha estruturas para processar aquela linguagem --, mas seu corpo entendia. Cada célula cantava em uníssono.
...'E o mar cantava de volta'!
...Do outro lado do mundo, no oceano do planeta sob a estrela marrom, Yuki Tanikawa fazia o mesmo. Dois corpos humanos, separados por anos-luz de distância, vibrando na mesma frequência. Dois fios de um circuito que acabara de se fechar. E no centro desse circuito, a água de Ryugu-X9 -- espalhada agora pelos oceanos da Terra e pelo oceano alienígena --começou a transmitir.
A transmissão durou exatamente quarenta e três segundos.
Quando terminou, Hao desabou na areia da praia de Otaru, tossindo água salgada, tremendo de frio, com a mancha dourada reduzida a um pálido vestígio sob a unha.
O mar estava calmo novamente. A neve caía. O amanhecer pintava o horizonte de um rosa pálido e indiferente.
Ele se arrastou até a areia seca, encontrou seu casaco, e desmaiou.
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Três dias depois, Hao acordou em um hospital de Sapporo. Sua ex-mulher estava sentada ao lado da cama, com o rosto duro e os olhos vermelhos. Mai, a filha de sete anos, dormia numa poltrona com um desenho novo no colo --uma girafa de pescoço comprido olhando para o céu.
— Você foi achado numa praia ,disse a ex-mulher, sem preâmbulos.
— Os médicos disseram que você teve um surto. Que estava delirando. Falando uma língua que ninguém conhece.
Hao não respondeu. Ele se lembrava de tudo. De Yuki. Da névoa. Da pergunta flutuando no centro do oceano. Mas lembrar não significava entender.
— Eu vi algo !,murmurara ele.
— Dentro da água!
— Você quase morreu , retrucou ela, e a voz embargou por um instante antes de endurecer novamente.
— Você tem uma filha.
—Lembra dela!?
Hao virou a cabeça no travesseiro e olhou para Mai. Seu rostinho sereno, a boca entreaberta, o desenho amassado contra o peito. A girafa olhando para o céu. Sempre para o céu.
— Eu lembro! , afirmara ele.
— Eu fui para o mar ,justamente porque lembrei dela!
A ex-mulher franziu a testa. Não entendeu.
...Não perguntou!
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Enquanto Hao se recuperava no hospital, a 12 mil anos-luz de distância, Yuki Tanikawa morria.
Ela soubera desde o momento em que a voz dentro dela dissera 'o canal está aberto'.
A ressonância dos microtúbulos permitia a comunicação interestelar, mas tinha um preço. As vibrações que atravessavam seu corpo para alcançar o oceano alienígena estavam, lentamente, desintegrando as proteínas que mantinham suas células unidas. Seu corpo humano era uma ponte. 'E alguma pontes', quando a travessia termina, desabam!
Ela estava deitada sobre a superfície do oceano de névoa líquida, com a estrela marrom brilhando fracamente acima dela. Seu corpo já não era sólido. Suas extremidades se dissolviam lentamente na névoa, devolvendo ao planeta alienígena os átomos que haviam nascido na Terra.
Mas ela não sentia dor. Sentia uma espécie de gratidão exausta, como um mensageiro que finalmente entrega a carta depois de uma jornada de milhões de anos.
A voz -- a mesma que falara através dela naquela primeira noite -- estava agora ao seu lado. Não tinha forma definida. Era uma presença na névoa, um movimento nas ondas, uma vibração que Yuki sentia naquilo que restava de seus nervos.
— Você está morrendo ,disse a voz, e havia nela algo parecido com tristeza, uma emoção que atravessara o cosmos para aprender o que significava perder alguém.
— Sim , respondera Yuki, e sua voz também já não era som, mas uma vibração direta na névoa.
— Mas não antes de entender.
— E o que você entendeu?
Yuki fechou os olhos -- ou o que restava deles. Revisou mentalmente tudo o que vira, tudo o que a água lhe mostrara, tudo o que os diagramas impossíveis haviam revelado.
A água de Ryugu-X9 não era uma arma. Não era um combustível. Não era um mapa. Era um telefone. Uma tecnologia tão antiga que sua civilização criadora já não existia mais --extinta há milhares anos, deixando para trás apenas oceanos de água inteligente espalhados pelo universo, esperando que outras espécies os encontrassem.
...Esperando que alguém atendesse a chamada.
E a chamada dizia apenas uma coisa: 'Vocês não estão sozinhos. Nunca estiveram! A escuridão entre as estrelas está cheia de vozes. Vocês só precisavam aprender a ouvi-las.'
Não era uma invasão. Não era uma salvação. Era apenas uma companhia.
... A maior companhia que a humanidade poderia ter -- e que agora, através do sacrifício de Yuki, começava a se revelar.
— Entendi que somos menores do que pensávamos , afirmara
Yuki a si mesma.
— E mais amados do que merecíamos!
A névoa ao redor se adensou. A presença se aproximou.
— Havia muitas de nós na sua água, dissera a voz.
— A água que você bebeu. Mas só uma de nós no oceano que esperava. Você trouxe o resto de nós para casa.
Yuki abriu os olhos uma última vez. Seu corpo já era quase inteiramente névoa. Só o rosto permanecia -- os traços asiáticos, os olhos já não castanhos nem dourados, mas de uma cor que não existia na Terra.
— Eu era uma pesquisadora ,murmurara ela.
— Nunca fui religiosa! Mas agora entendo por que os antigos rezavam. Não era medo. Era a única forma de dizer obrigado quando as palavras não bastam.
— Você não precisa rezar , afirmara a voz.
— Você já fez mais do que qualquer prece.
—Você atendeu a chamada!
— Então faça uma coisa por mim , pediu Yuki.
— O quê?
— Devolva a chamada. Diga a eles. Diga à Terra. Diga àquele técnico, o Nguyen, o que trocou os frascos. Diga a ele que não foi um erro. Diga a ele que eu estou bem. Diga a ele que a filha dele, a Mai, vai crescer e um dia vai olhar para o céu e vai saber, sem saber como, que não está sozinha. Diga a todos!
A presença ficou em silêncio por um longo momento. As ondas de névoa lambiam o que restava de Yuki.
— Nós não falamos a língua deles.
— Eu sei ,compreendera Yuki.
— Mas vocês falam a língua da água. E a água da Terra agora tem vocês dentro. Usem os oceanos. Usem as chuvas. Usem as lágrimas. Aprendam a falar como a gente fala. Levem tempo. Não importa. ...Eles precisam saber!
A última célula do corpo de Yuki Tanikawa dissolveu-se na névoa. Sua consciência -- tudo o que ela fora, suas memórias, seus medos, seus amores, a lembrança do pai pescador em Hokkaido, o cheiro de tinta dos livros da mãe -- espalhou-se pelo oceano alienígena como tinta em água.
... E por um instante, o oceano inteiro foi Yuki.
... E Yuki foi o oceano.
— Nós faremos isso , afirmou a voz.
— Nós ensinaremos a água. Levará décadas. Talvez séculos. Mas a água da Terra aprenderá a falar. E quando chover, suas palavras serão as nossas. E quando alguém chorar, você estará na lágrima. Prometemos.
Não houve resposta. Porque Yuki já não estava lá.
Mas em algum lugar da névoa, uma nova ondulação se formou. Uma ondulação que não era da presença alienígena. Era algo novo. Algo híbrido. A primeira gota de uma chuva que cairia, um dia, do outro lado do universo.
---
Na Terra, Hao Nguyen recebeu alta do hospital numa tarde de quarta-feira. Voltou para seu apartamento minúsculo. Sentou-se à mesa da cozinha, diante do desenho da girafa que Mai fizera para ele enquanto dormia na poltrona do hospital. A girafa olhava para o céu. No canto do papel, Mai escrevera com letra trêmula de criança: 'Papai, você viu o que tinha lá em cima?'
...Ele não vira.
Mas sentira...!
Naquela noite, começou a chover em Sapporo. Hao abriu a janela e deixou a água tocar seu rosto. As gotas estavam frias, comuns, terrenas. Mas no fundo da unha do polegar esquerdo, a pálida mancha dourada --agora quase imperceptível -- pulsou uma última vez.
E Hao poderia jurar que, no ritmar da chuva no telhado, havia um ritmo que não era aleatório. Um ritmo que lembrava uma voz.
Uma voz que ele conhecia!
Ele fechou a janela, sentou-se na cama e chorou. Não de tristeza -- ou não apenas de tristeza. Chorou porque a água dentro dele reconheceu a água lá fora, e as duas conversaram por um instante numa língua que ele não entendia ,mas que seu corpo jamais esqueceria.
'Vocês não estão sozinhos!'.
...'Foi o que a chuva disse!'
E Hao, com a filha dormindo no quarto ao lado e o desenho da girafa sobre a mesa, acreditou.
Fim
Três meses depois, Mai Nguyen perguntou ao pai por que ele sempre chorava quando chovia. Hao não soube explicar. Disse apenas que a chuva o lembrava de alguém. Alguém que ele mal conhecera, mas que mudara tudo!
— Ela morreu? ,perguntou Mai, com a franqueza brutal das crianças.
— Não sei , respondera Hao.
— Talvez ela tenha se transformado em chuva.
Mai pensou por um momento. Depois sorriu.
— Então toda vez que chover, ela está aqui.
— Sim , sorrira Hao.
— Toda vez que chover!
E naquele dia, contra todas as previsões meteorológicas, choveu em Sapporo. E a chuva caía com um ritmo estranho, como se alguém estivesse cantando. E no fundo do oceano Pacífico, a água de Ryugu-X9, agora misturada às correntes marinhas do planeta inteiro, começava lentamente a aprender a sintaxe das lágrimas humanas.
A chamada fora atendida.
A resposta estava a caminho.
E Yuki Tanikawa, dissolvida na névoa de um oceano alienígena a 12 mil anos-luz de casa, sorria através de cada gota.
By Santidarko