quarta-feira, 24 de junho de 2026

Ultraevanescência


Ficção Científica Paratópica ou Voidor Ficction : desenvolvida por Santidarko 



●Ficção Científica Paratópica

O subgênero onde a tecnologia não nos leva às estrelas, mas aos espaços secretos aninhados ao lado da realidade: fendas, corredores, quartos interditos. A geografia oculta do mundo é o poder último.



●Voidoir Fiction

 A corrente estética do luxo solitário no abismo. Quartos belíssimos suspensos no nada, onde a elite saboreia o prazer e o pavor de estar absolutamente só.

... 'O vazio decorado'!


Paratópico = a descoberta do lugar ao lado.
Voidoir = a decoração desse vazio com veludo e silêncio.


Sim, neste conceito, as backrooms são e podem ser abertos por dispositivos  tecnológicos-- como forma de entretenimento e/ ou um serviço ofertados a milionários .



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Introdução:O Túnel Propter hoc
 



A Organização Secreta:Costela de Schrödinger

A companhia chama-se Párallo CO.
Tem  apenas uma sede física conhecida, apenas um símbolo -- um labirinto dourado  em uma enorme placa  de prata- espelhada.(*Dizem estudar ou financiar estruturas tecnológicas para a melhoria humana, ou de entretenimento intectual)

A Párallo é financiada por um consórcio de bilionários,que descobriram que o verdadeiro luxo não é acumular objetos, mas sim, fugir das consequências de os possuir. 

...O seu lema interno é: 'O mundo tem arestas. Nós alisamo-las.'


O Convite (O Bilhete Anacrônico):
Nenhum milionário ou bilionário recebe um email ou uma carta. 'O convite da Párallo manifesta-se'

.... Num momento de tédio profundo --durante um jantar de gala entediante ou a bordo de um iate onde tudo já foi visto -- o candidato sente um peso súbito no bolso do casaco, um bolso que jurava estar vazio. 

De lá ...retira um pequeno objeto: um paralelepípedo de obsidiana negra com veios de bismuto iridescente, do tamanho exato da palma da sua mão. 

Ao toque, a pedra não é fria, mas morna, como pele. Ao virá-la contra a luz, os veios formam, por um segundo, o nome completo do destinatário e uma frase mutável: 'O tédio é a única prisão sem fechadura. Nós temos a chave!'

Não há morada, não há RSVP.(*Responda por favor).
O simples ato de guardar o objeto no bolso sela o contrato. A primeira mensalidade de um milhão de euros é automaticamente deduzida de uma conta, que o próprio banco do convidado 'desconhece existir'!

O Dispositivo de Mão: O Trinômio de Acesso

Após o primeiro pagamento, o convite-guia reage. No dia seguinte, o novo membro encontra na sua residência uma caixa de metal poroso, sem aparente abertura. 

Um  toque escaneado dissolve a tampa. Dentro, repousa o dispositivo, que a Párallo batizou de Limiar.

.

 O dispositivo não corta matéria física, mas sim, a costura da realidade!

Um gesto rápido e preciso faz uma incisão em paredes, que se abre como uma boca vertical, revelando a Backroom desejada. Ideal para desaparecimentos instantâneos.


O Modo Passagem (O Olho de Morfeu): 
Para uma transição suave e contemplativa, 



O Modo Evocação (O Diapasão de Ausência)

...A forma mais íntima. O Limiar torna-se um pequeno diapasão de um metal negro que não reflete luz. Ao ser tangido, não emite som, mas uma emoção: uma nota de nostalgia por um lugar onde nunca se esteve, um desamparo cósmico!

Essa vibração emocional atrai uma Backroom específica para a localização do membro, como um peixe abissal atraído por uma isca. O espaço onde ele está simplesmente começa a 'sangrar' para a nova realidade, dissolvendo-se lentamente. É a forma de acesso para os assinantes mais filosóficos ou desesperados.

O Novo Mundo de Backrooms (Para Além do Medo):
A Párallo catalogou as Backrooms, transformando-as numa propriedade de timeshare interdimensional. 

...Não são purgatórios, são paraísos curados e outras arquiteturas da mente:


●Os Jardins-Reflexo de Epicuro:
 Para os filósofos e hedonistas. Piscinas infinitas cujo líquido não é água, mas uma substância que materializa o desejo da carne em esculturas líquidas e anônimas, que se desfazem quando o pensamento muda. O ar é um psicadélico suave que dissolve o ego em geometrias sagradas e cores que cheiram a fruta esquecida. 

...Aqui, um magnata pode dissolver-se numa paisagem de pensamento puro ,por horas!


●A Ciclovia da Tranquilidade Absoluta: Uma rota de gravilha perfeitamente lisa que serpenteia por um campo de trigo sob um céu de três sóis crepusculares. O vento é sempre a favor. Não há fauna, não há outros humanos, não há o risco de um assalto, um acidente de carro ou uma selfie indesejada. 

Apenas o som hipnótico dos pneus e um silêncio que abraça. É o escape dos que temem a própria fama.


●A Sala de Chá Liquen: Uma réplica perfeita de uma estação de metro parisiense Art Nouveau, mas os azulejos são substituídos por líquen luminescente que respira. Os túneis levam a salas ovais forradas a estantes de madeira petrificada com livros que contêm apenas poemas escritos em línguas inventadas durante o sono. O cheiro é de chuva, terra e tinta fresca.


● O Anfiteatro de Coral Oco: Um espaço submerso, mas sem água. Paredes de coral branco como osso formam uma concha acústica perfeita. Ao centro, uma esfera de luz pulsa, traduzindo o silêncio do cosmos em composições sinfónicas que nunca se repetem. Um lugar para choro contemplativo.


●A Biblioteca dos Ecrãs Quebrados: Corredores e corredores de celulares e televisores, todos com o visor estilhaçado, exibindo um único frame congelado da vida do observador -- momentos de genuína felicidade que ele ignorou. Um lugar de aterrorizante beleza e confronto, reservado aos que buscam redenção.
·

●O Arquipélago de Pólen: Pequenas ilhas que flutuam num mar de névoa dourada. Cada ilha tem o tamanho exato de um quarto de hotel de luxo, com uma cama cujos lençóis são pétalas. As ilhas deslocam-se lentamente, colidindo suavemente, permitindo encontros fugazes e anônimos entre membros, sem rostos, apenas silhuetas na névoa.

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O Crime Perfeito e o Detetive:
Elias Vance, um herdeiro de uma fortuna tecnológica e assinante Párallo, descobre uma falha terrível: as Backrooms não são bolsões isolados, mas uma rede.

Com o seu Limiar 3D , percebe que poderia cometer um crime brutal e sair por uma fenda, ileso,  e sem ser  vigiado ou testemunhado; desaparecer sem deixar rasto. As Backrooms tornam-se a sua rota de fuga e o seu campo de caça.

O detetive Ishmael , um homem destruído pela sua própria intuição, começa a ligar os pontos. 

Investiga um homicídio em Nova Iorque: a vítima foi morta numa sala blindada, trancada por dentro. O suspeito, Elias Vance, é visto a entrar no prédio e nunca a sair. 

Simplesmente evaporou-se. Ishmael, obcecado, encontra incongruências geométricas nas câmaras de vigilância -- um pixel que sangra, uma sombra que se dobra para dentro. A caçada de Ishmael não é apenas a um assassino intradimensional, mas à própria Párallo e à verdade que ela vende: a de que é possível fugir do mundo sem, ao mesmo tempo, o destruir. 

O peso emocional de Ishmael reside na sua solidão existencial: ele é o único homem a ver a arquitetura de uma fuga invisível e a compreender que a impunidade absoluta é o verdadeiro horror cósmico.

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O Limiar da Páralo


O Encontro

O jantar decorria na cobertura do Mandarin Oriental, com vista para a baía de Hong Kong iluminada como um tabuleiro de diamantes. Elias Vance rodava o cálice de Romanée-Conti 1998 na mão, o vinho tinto -- que deveria ser extraordinário -- tinha o sabor de papel molhado na sua boca. À sua volta, os convidados tagarelavam sobre NFTs de macacos pixelizados e iates híbridos. 


...O mesmo tédio profundo de sempre, revestido de seda e diamantes!

O bolso do casaco Savile Row pesou subitamente.

Impossível, pensara!Tinha mandado o mordomo verificar os bolsos antes de sair -- por precaução, depois daquele incidente em Mônaco. Nada. O casaco estava imaculado!

Mas o peso estava lá, quente contra a sua coxa.

Desculpando-se com um sorriso ensaiado, Elias retirou-se para o terraço privado. A noite de Hong Kong estendia-se abaixo, incrivelmente bela e absolutamente indiferente. O bolso do casaco, tocado pela ponta dos dedos, ofereceu uma forma lisa e geométrica.

'A obsidiana negra'repousou na sua palma aberta. Veios de bismuto-eletrônicos atravessavam a superfície como nervos de metal líquido, e o dispositivo- convite, por assim dizer,era morno. 

...Como pele humana!

Quando a virou para a luz dos arranha-céus, os veios moveram-se.

Elias Malcolm Vance.

A frase que se seguiu flutuou por um instante antes de se fixar:

'O tédio é a única prisão sem fechadura. Nós temos a chave.'

Não havia endereço. Não havia instruções. O bilhete anacrónico materializava-se no momento exato em que a alma mais precisava de uma porta.

Elias enfiou o  dispositivo  desconhecido  em seu  bolso.

Na manhã seguinte, o seu gestor de conta do UBS ligou-lhe, nervoso:

— Senhor Vance, houve uma movimentação... que eu não consigo rastrear. Um milhão de euros saiu da sua conta numerada. O sistema não regista a transferência. Nenhum dos meus superiores tem registo!

— Não se preocupe com isso , dissera Elias, sentindo o peso da pedra-guia contra o peito, agora guardada no bolso interior do casaco.

...

A caixa chegou no dia seguinte, entregue por um serviço de correio que ninguém na recepção de seu edifício se lembrava de ter autorizado. Metal poroso, cinzento-azulado, sem fendas, sem fechaduras, sem costura aparente.

...Elias encostou o eletrônico-guia à superfície!

O metal dissolveu-se como gelo em água morna, revelando o interior forrado de veludo negro.

O dispositivo repousava sobre o tecido: uma peça de metal polido que lembrava um estilete cirúrgico, com um cabo de osso fossilizado e uma lâmina que não refletia a luz, antes a absorvia como um buraco negro portátil. O nome estava gravado na base em caracteres minúsculos: LIMIAR - Série 7B - Propriedade da Párallo.

..Elias segurou-o.

Era mais leve do que parecia. E mais quente. O cabo ajustou-se à sua mão como se tivesse sido moldado para ela.

— Como se usa? , 'perguntara ao ar vazio'.

O dispositivo vibrou. Não respondeu, mas algo na sua mente --um instinto, uma memória ancestral -- ensinou-lhe o gesto.

Três dedos no cabo. Uma rotação suave de 45 graus. Um movimento rápido para baixo.

Na parede de vidro do seu apartamento, com vista para o Victoria Harbour, uma linha vertical abriu-se como uma boca.

Não era uma fenda na matéria -- era uma fenda no espaço. O interior parecia uma sala de estar de tamanho modesto, com paredes de papel de parede amarelo-desbotado, iluminada por luz fluorescente que não vinha de lado nenhum.

Um jardim de inverno vazio.

Elias hesitou!

Do outro lado, o tédio continuava. O escritório vazio. As reuniões por Zoom. A fortuna que não lhe trazia nenhuma emoção.

Deu um passo.

Atravessou o Limiar.



...Caiu!

Não fisicamente --a transição fora suave, como atravessar uma cortina de água -- mas o espaço curvou-se à sua volta, e de repente os pés de Elias encontraram uma superfície que não era chão.

Era ar líquido. O chão onde pisava era feito de pensamento.


Os Jardins-Reflexo estendiam-se diante dele: piscinas infinitas de uma substância translúcida que se movia com a lentidão de mel derretido. A luz não vinha de cima --vinha de dentro do líquido, como se cada gota contivesse uma estrela.

Elias aproximou-se da margem de uma das piscinas. A superfície tremulou!

O líquido ergueu-se, formando uma coluna que se moldou lentamente. Braços. Pernas. Um torso.

Uma escultura líquida, anônima, de um corpo que ele reconheceu como o da sua primeira namorada -- não como ela era, mas como ele se lembrava dela, uma versão idealizada que nunca existiu realmente.

A escultura desfez-se antes que pudesse tocá-la.

Outra surgiu: o corpo de um homem que ele nunca vira, mas que o líquido sabia que ele desejava. 

...Desfez-se.!
...Outra.!
...Outra!

Cada uma uma fantasia de carne líquida que se dissolvia quando o pensamento mudava.

O ar começou a tingir-se de verde. Elias sentiu o cheiro a fruta esquecida: manga de sua infância na Espanha, antes da fortuna, antes das escolas internas, antes do tédio.

O seu ego dissolveu-se lentamente enquanto geometrias sagradas dançavam na sua visão periférica.

....'Não sei quem sou'!, pensara!

E pela primeira vez em décadas, isso não o incomodou.


...


Era o terceiro mês de assinatura.

Elias tinha explorado todas as Backrooms da Párallo. Os Jardins-Reflexo. A Ciclovia da Tranquilidade Absoluta, onde pedalara durante horas sob três sóis crepusculares, o vento sempre a favor, o silêncio a abraçá-lo como um manto. A Sala de Chá Liquen, com os seus azulejos luminescentes e os poemas em línguas sonhadas.

...Mas o tédio...regressava sempre!

Era mais profundo agora, porque tinha provado o paraíso.


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 O Homem que Não Existia

Elias Vance era um fantasma que pagava impostos.

Viajava de cidade em cidade -- de carro, de avião, de comboio. Sempre sozinho. Sempre discreto. Nos hotéis, pedia quartos no fim do corredor. Nas casas alugadas, escolhia bairros onde ninguém reparava em ninguém. ...Nos negócios, era apenas mais um executivo de terno cinzento, com um sorriso ensaiado e um aperto de mão frio.

Mas à noite, quando as cidades adormeciam, Elias tornava-se outra coisa.

...Por um doentio prazer!

'Precisava de sentir as arestas do mundo'. Precisava de ver o sangue escorrer, de ouvir o último suspiro, de provar o momento exato em que a vida se desfazia. Só assim o tédio recuava. 

'...Somente assim, ele  sentiria-se  vivo!'.

...E depois, quando o corpo ainda estava quente, quando o sangue ainda se espalhava pelo chão do hotel ou da casa vazia,

 Elias  desaparecia!

Não pela porta. Não pela janela.

Por uma fenda na realidade. Um rasgo invisível que só ele via, que só ele podia abrir.

...As Backrooms!

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 O Primeiro — Londres

O hotel era antigo, de paredes grossas e corredores de carpete vermelho. Elias escolhera o quarto 412 -- no fim do corredor, perto da escada de emergência, longe dos olhos das câmaras.

A vítima era um homem de negócios chamado Pemberton. Dormia no quarto ao lado. Elias sabia ... porque estudara a sua rotina durante três dias. Sabia que ele tomava um uísque todas as noites às 22h30 ,e que adormecia profundamente até às 7h.

Às 23h15, Elias entrou no quarto de Pemberton.

Não com uma chave mestra. Não com um cartão magnético.

Com a mão.

A maçaneta da porta, sob os seus dedos, tornou-se líquida(*Porque Elias começou a ativar o dispositivo, para iniciar a abertura da Backroom,  e depois a  desativou repentinamente. Mas essa iniciação de abertura pode quebrar a cadeia  de matéria sólida, por intantes) A madeira cedeu, e Elias atravessou-a como se fosse névoa. Não abriu a porta. 

...Simplesmente... passou!

Pemberton dormia. O uísque ainda estava na mesa de cabeceira.

Elias aproximou-se silenciosamente. A almofada foi suficiente -- macia, abafada. Pemberton agitou-se por alguns segundos, depois ficou imóvel.

Elias soltou a almofada. O corpo estava ali, os olhos abertos, a boca entreaberta. O quarto cheirava a álcool e a morte.

...O tédio recuou!

Elias sentiu a centelha --- a única coisa que o fazia sentir-se vivo. Olhou para as suas mãos. Estavam limpas. Não havia sangue. Não havia provas!

Mas havia o corpo.

...E era aí que as Backrooms entravam!

O ar à sua frente começou a vibrar. Uma linha vertical abriu-se -- fina, dourada, pulsante!(Ele abrira agora a fenda para a Backroom,  por completa.)

...Fugiu por ela!

Ele não empurrou ninguém para lá. Não jogou o corpo. Não escondeu nada.

Ele simplesmente entrou.

A fenda fechou-se atrás de si. O quarto 412 estava vazio, exceto pelo corpo de Pemberton, que seria encontrado na manhã seguinte pela camareira.

Elias, por seu lado, estava nos Jardins-Reflexo --  um segmento da Backroom ,de espelhos e lagos de mercúrio, onde o tempo não passava. Caminhou lentamente pelos corredores de vidro, vendo o seu reflexo multiplicar-se infinitamente. As cores eram suaves, as formas fluidas.

Ficou ali por horas -- ou talvez por minutos. 
'O tempo nas Backrooms era elástico'.

Quando saiu, estava no aeroporto de Heathrow. No mesmo banco onde estivera sentado antes do crime. O seu voo para Nova Iorque chegara ao instante!

Ninguém o vira entrar. Ninguém o vira sair.

Ele nunca estivera no hotel.

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 Paris — O Segundo

Dois dias depois, Elias estava em Paris.

A viagem de avião fora tranquila. Primeira classe, champanhe, jornais. Mais um executivo a viajar a negócios.

O alvo era um crítico de arte chamado Moreau. Morava num apartamento no sexto andar, com vista para o Sena. 
Elias passara três noites a observá-lo, a estudar os seus hábitos. Moreau jantava tarde, bebia muito, e dormia com a janela aberta.

...Não havia necessidade de forçar a entrada.

Elias simplesmente atravessou a porta do prédio. Depois a porta do elevador. Depois a porta do apartamento. A madeira, o metal, o vidro --' tudo se tornava permeável sob o seu toque'.(*Graças ao dispositivo).

Moreau estava na sala, a ouvir música clássica, a escrever uma crítica que destruiria a carreira de mais um artista.

— Jean-Luc Moreau.

O crítico virou-se. O rosto enrugou-se numa expressão de surpresa.

— Quem é você? Como entrou?

— ...Não importa!

Elias avançou. A faca era pequena, de lâmina fina. Moreau recuou, tropeçou na mesa, derrubou o copo de vinho. O tapete ficou manchado de vermelho --... vinho e sangue, consequentemente.

Moreau caiu. O corpo tombou sobre a mesa, os olhos ainda abertos, a boca a formar uma palavra que nunca saiu.

Elias limpou a faca no casaco de Moreau. Olhou para o corpo. Para o sangue no tapete. Para a janela aberta com vista para o Sena.

A centelha brilhou!

Depois, a fenda abriu-se. Elias entrou nos Jardins-Reflexo, caminhou pelos espelhos, e emergiu numa casa de banho pública perto da Gare du Nord.

Pagou um café. Comprou um jornal.

No dia seguinte, a notícia: 'Crítico de arte encontrado morto em Paris. Sem sinais de arrombamento.'

Elias leu a notícia no avião, a caminho de Madrid.

Não havia suspeitos. Não havia testemunhas. Ele nunca estivera lá.

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Madrid -- O Terceiro

Agora, o padrão estava estabelecido.

Elias viajava de avião ou de carro. Escolhia uma cidade. Estudava uma vítima. Matava --com almofada, faca, corda, o que funcionasse. Depois, a fenda. As Backrooms!

...O desaparecimento!

E, em cada lugar, a mesma verdade: ele nunca estivera lá. Não havia digitais. Não havia cabelos. Não havia fibras. Apenas o corpo e o mistério.

Em Madrid, o alvo era um homem chamado Fuentes -- um antigo sócio que o traíra. Elias matou-o no jardim da sua mansão, com uma corda, enquanto Fuentes fumava um cigarro ao pôr do sol.

Depois, a fenda. Os Jardins-Reflexo. 
...O aeroporto.

O corpo foi encontrado na manhã seguinte, pendurado na árvore. A polícia chamou de  suicídio.

Elias leu a notícia no carro alugado, a caminho de Berlim.


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Berlim — O Quarto

Em Berlim, o alvo era um industrial chamado Weber.

Elias alugou um carro e conduziu até à mansão de Weber, nos arredores. Estudou a casa durante três dias. Descobriu que Weber dormia no segundo andar, sozinho, com a janela entreaberta.

Às 2h da manhã, Elias atravessou a porta dos fundos. Depois a porta da cozinha. Depois a porta do quarto.

Weber acordou com a mão de Elias no seu pescoço.

— O quê...? Quem...

—SSSHHHH!... Silêncio!

A mão apertou. Weber debateu-se por alguns segundos. Depois, a resistência cessou!

Elias soltou o corpo. Olhou para o homem na cama, os olhos arregalados, a boca aberta.

'A centelha brilhou'...!

A fenda abriu-se. Elias entrou nos Jardins-Reflexo e, quando saiu, estava no aeroporto de Berlim, a tempo do voo para Nova Iorque.

No avião, leu a notícia: 'Industrial alemão encontrado morto na sua mansão. Suspeita-se de ataque cardíaco.'

Elias dobrou o jornal. A centelha ainda ardia.

Estava a tornar-se viciado.


...

A Sombra que Via

...Mas, em Berlim, algo mudou.

Um detetive chamado Ishmael Mallory -- um homem de cabelo grisalho e olhos cansados -- chegou à mansão de Weber no dia seguinte ao crime. 

Não havia provas!
...Não havia suspeitos!

..Mas Ishmael viu algo que os outros não viram!

Uma marca  sombreada.

No quarto de Weber, a luz da manhã projetava sombras nítidas. Mas uma das sombras -- a sombra da cortina --tinha uma dobra. Uma linha vertical, perfeita, geométrica.

... Como uma porta!

Ishmael ajoelhou-se e tocou-a com a ponta dos dedos.

A dobra não era uma ilusão de luz. 
'Aparentava ser  uma nítida passagem apagada'.

— Ele não entrou pela porta ,teorizara Ishmael. 
— ...Ele atravessou!

Kaito, o seu assistente, olhou para ele com uma expressão preocupada.

—... Atravessou o quê?

— Não  sei ao certo !Como se alguém usasse  uma porta invisível. Entra, mata, e sai por onde ninguém vê!

Seu assistente olhou para os outros detetives presentes no local, e tentou desculpar-se pelo  'cansaço de seu  chefe'.

Ishmael levantou-se lentamente. Os seus olhos fixaram-se na dobra da sombra.

— Vamos apanhá-lo, Kaito. Vamos encontrar 'o responsável 'pela porta!

..

Ishmael começou a ligar os pontos, depois de inúmeras investigações. 

Londres. Paris. Madrid. Berlim. 
...Em cada cidade, o mesmo padrão. Um corpo. Sem arrombamento. Sem digitais. Sem testemunhas. E uma sombra com uma dobra.

Em cada local, um nome comum: Elias Vance.

— Ele não foge, dissera Ishmael para Kaito, no seu escritório no Brooklyn ,NY.
— Ele desaparece!.
—Entra  por uma porta que não existe, mata, e sai pela mesma porta.

— Mas como é que ele faz isso?

— Não sei. Mas sei que ele viaja normalmente. De avião, de carro, de trem.
... Precisa de ser visto. Precisa de uma cobertura. Mas, quando está sozinho... abre a porta.

Ishmael apontou para o mapa. Os alfinetes vermelhos desenhavam uma espiral.

— O próximo alvo será em Roma. Daqui a onze dias.

— Como sabes?

— Porque ele está a seguir uma lista. 
—..E o próximo nome está...em Roma!

Ishmael pegou o computador.

—... Vamos para Roma!



Elias aterrou em Roma numa tarde quente.

O alvo era um banqueiro chamado Conti -- um homem que roubara a herança da sua mãe. Elias estudou a villa, os seguranças, as câmaras. Tudo perfeito.

À noite, atravessou a parede lateral da villa, entrou no quarto de Conti, e matou-o com uma almofada.

O corpo caiu. O sangue manchou o lençol.

Elias fechou os olhos. A fenda abriu-se.

Mas, antes de entrar, sentiu algo.

Uma presença.

Virou-se.

A porta do quarto abriu-se. E Ishmael estava ali, olhando para ele.

— Elias Vance. 
—PARE!

Elias congelou.

— Co-CO- CO...COMO?

— COMO VOCÊ SABIA QUE EU ESTARIA AQUI?!



(*continua)


By Santidarko 


terça-feira, 23 de junho de 2026

A ausência do ladrido


Helena Macedo de Almeida tinha trinta e seis anos, um apartamento espaçoso demais em São Paulo, e um único amor na vida!

Esse amor se chamava Teodoro, mas ela o tratava por Téo, Teozinho, ou simplesmente, 'meu filho'!

 Era um Golden Retriever de pelo dourado, orelhas macias como veludo e um talento especial para derrubar vasos com a cauda. Helena o adotara ainda filhote, numa feira de adoção na Vila Madalena, num sábado de sol em que ela saíra de casa jurando que só ia 'olhar'. 

Voltou com uma bolinha de pelos dormindo em seu colo e a sensação absurda de que sua vida tinha acabado de ganhar propósito.

Durante oito anos, Téo foi a família que Helena escolheu!
 Festa de aniversário com bolo de cenoura e cenourinha. Sessões de cinema no sofá com a cabeça dele apoiada em seu colo, os olhos castanhos acompanhando a tela como se entendesse o enredo. Perfil no Instagram onde ela postava fotos dele dormindo de barriga para cima, a língua para fora, as patas recolhidas -- @teoogolden, doze mil seguidores, uma legião de desconhecidos que acompanhavam a rotina daquele cachorro como quem acompanha uma novela.

...Quando alguém lhe perguntava se tinha filhos, Helena respondia com o queixo erguido:

— Tenho! Peludo, mas tenho!

Ninguém entendia aquilo. A mãe de Helena, dona Sônia, dizia que ela precisava 'assentar a cabeça','arrumar um homem de verdade', parar de tratar bicho como gente.
 Os colegas do escritório de arquitetura trocavam olhares condescendentes quando ela saía mais cedo para levar Téo ao veterinário. Os namorados que passaram por sua vida --nenhum durou mais que seis meses -- cedo ou tarde soltavam a mesma frase: ''Você ama mais esse cachorro do que a mim.'

...Era verdade!
...E Helena não se desculpava por isso!

Téo foi testemunha das suas crises de choro, companheiro das noites de insônia, o único ser vivo que a recebia na porta como se ela fosse o próprio sol entrando em casa. Quando ela chegava exausta do trabalho, ele largava o brinquedo, abanava a cauda com tanta força que parecia desequilibrar o corpo e a lambia até arrancar uma risada. Em noites de tempestade, deitava-se aos pés da cama, atento, como um guardião silencioso. 

Nos dias tristes, apoiava o focinho em seu joelho e ficava ali, imóvel, respirando junto.

Quando Téo morreu, o mundo de Helena desabou sem fazer barulho.

...Foi um câncer silencioso!

 Hemangiossarcoma, disse o veterinário, com a voz grave de quem já deu essa notícia muitas vezes. Em quarenta e oito horas, Téo passou de cachorro feliz -- ainda abanou a cauda ao vê-la na manhã de quinta -- a corpo frio na mesa de aço da clínica. 

Helena segurou a pata dele até o último instante, sentindo a almofadinha que tantas vezes apertara de brincadeira. Quando o coração parou, ela não chorou. Só ficou ali, imóvel, como se o mundo tivesse perdido o som.

Ninguém no escritório entendeu sua dor. Dona Sônia, ao telefone, soltou um suspiro que Helena conhecia bem:

— Pelo menos agora você pode viajar, filha. Aproveitar a vida!

Os amigos enviaram mensagens protocolares: 'Meus sentimentos.'
Depois, silêncio!

... Ninguém apareceu com uma lasanha. Ninguém perguntou se ela queria companhia. Ninguém a abraçou enquanto ela chorava. Porque, afinal, 'era só um cachorro'.

Helena guardou a guia vermelha na gaveta da mesa de cabeceira. Guardou a coleira com plaquinha de prata -- 'Teodoro — contato: Helena' -- no fundo da bolsa, como um amuleto. E passou três dias deitada no chão da sala, exatamente onde ficava a cama dele. O apartamento inteiro cheirava a ausência. Os pelos dourados ainda grudados no sofá, o pote de ração intocado na cozinha, a mancha de baba no vidro da varanda.

Na quarta noite, ela enfiou a cara no tapete onde ele dormia, tentando encontrar o cheiro que já estava desaparecendo, e então, enfim, chorou!

A proposta de emprego veio como uma tábua de salvação, embora Helena soubesse que era apenas uma fuga disfarçada de oportunidade. 

Coordenar a restauração de um teatro histórico em Curitiba. O Cine Teatro Ópera, uma joia art déco dos anos quarenta que seria transformada em centro cultural. 

O salário era bom!

O prazo era longo. E Curitiba era fria, organizada, o oposto de São Paulo -- o oposto de tudo que ela conhecia.

Partiu sem se despedir de ninguém. Colocou a coleira de Téo no bolso do casaco, sentiu o peso da plaquinha de prata contra o peito e tomou o voo para o sul numa terça-feira chuvosa de abril.

Curitiba a recebeu com seu céu cinza e suas ruas de pedra. Ela alugou um apartamento térreo no bairro Juvevê, com um pequeno quintal que dava para um jardim de inverno. Tinha espaço para plantar hortelã. Tinha uma jabuticabeira no canto. Tinha um pedaço de grama que seria perfeito para um cachorro.

...Seria!

Nos primeiros dias, Helena se ocupou com o trabalho. O teatro era uma ruína gloriosa, cheio de camarins abandonados, poltronas de veludo carcomido, um palco que cheirava a madeira antiga e histórias esquecidas. Ela mergulhou nos projetos, nas medições, nas reuniões com fornecedores. Mas à noite, quando voltava para o apartamento vazio, o silêncio era... insuportável!

E então, numa tarde de maio, enquanto caminhava pelo centro da cidade tentando decorar os nomes das ruas, ela viu o cartaz.

Era uma folha simples, afixada no mural da Biblioteca Pública do Paraná. Letras pretas sobre fundo branco, uma impressão caseira, quase amadora. Dizia:

'Grupo de Apoio para Pais Enlutados -- Toda quarta-feira, 19h, no porão da Catedral Basílica. Não é preciso falar. Basta estar.'

Helena ficou parada diante do cartaz por um tempo que não soube medir.

...Pais enlutados!

...Ela não era mãe de ninguém!

Não tinha carregado um filho no ventre, não tinha velado um corpo pequeno num caixão branco, não tinha fotos de uma criança na carteira. Mas tinha velado um corpo coberto por um lençol azul numa clínica veterinária, com as mãos trêmulas e uma dor tão grande que parecia ocupar todo o espaço entre suas costelas.

O que a levou até lá não foi coragem. 

...Foi desespero!

Fome de ser compreendida.
A necessidade insuportável de falar sobre Téo sem que alguém respondesse 'era só um cachorro'.

Na quarta-feira seguinte, Helena atravessou a praça em frente à Catedral Basílica, sentiu o cheiro de incenso e cera que saía pela porta principal, e contornou o prédio até a entrada lateral. Uma escada de pedra conduzia ao porão. Seus sapatos faziam eco nos degraus.

Lá embaixo, a sala era modesta. Paredes de tijolos aparentes, iluminadas por uma luz amarela que deixava tudo com aparência de fotografia antiga. Cadeiras de madeira dispostas em círculo. Uma garrafa térmica com café. Uma caixa de lenços de papel no centro da roda. E oito pessoas.

Oito pessoas com olheiras profundas e ombros caídos.

Oito pessoas que carregavam no peito o peso mais insuportável que existe!

Helena sentou-se na cadeira mais afastada, perto da porta, pronta para fugir se precisasse.

 Uma senhora de cabelos grisalhos e voz mansa -- dona Glória, ex-professora primária -- coordenava o grupo.

 Havia ali uma jovem de vinte e poucos anos que perdera um bebê de colo. 

Havia um casal de meia-idade cujo filho adolescente batera o carro numa madrugada. 

Havia uma mulher que não dizia nada, apenas chorava em silêncio, abraçada a um ursinho de pelúcia gasto.

...E havia ele!

Sentado perto da janela, um homem de ombros largos e mãos que pareciam esculpidas em madeira. Usava um avental manchado de verniz, como se tivesse saído direto do trabalho. Os cabelos castanhos começavam a ficar grisalhos nas têmporas. Os olhos eram escuros e demoravam a piscar, como se tivessem esquecido o ritmo do mundo.

Ele não falou durante toda a reunião. Apenas ouviu. E seus olhos estavam sempre marejados, como se prestes a transbordar sem nunca cair.

Quando chegou sua vez de falar, Helena sentiu a boca seca. As palavras emperradas na garganta. Sabia que não podia dizer a verdade -- 'meu cachorro morreu'.!

Já imaginava os olhares de incredulidade, a indignação muda, talvez um pedido para que se retirasse. Aquele não era lugar para ela.

...Então mentiu!

Quase sem querer. Como quem tropeça.

— Meu nome é Helena. Meu filho... ele se chamava Téo.

E Téo renasceu ali: não mais como um Golden Retriever de pelo dourado e cauda de vassoura, mas como um menino humano. Um menino que nunca existiu, mas que agora precisava ganhar rosto, história, brinquedo favorito, comida preferida.

As semanas seguintes foram um exercício de construção. 

A cada reunião, uma nova mentira.

Na segunda reunião, dona Glória perguntou de que Téo tinha morrido. Helena pensou rápido. 

..Leucemia, respondeu!

Leucemia aos seis anos. E assim Téo ganhou idade e uma doença, longa, cruel, cheia de internações e falsas esperanças.

Ela descreveu corredores de hospital, noites em claro ao lado da cama, a quimioterapia que parecia funcionar até que não funcionou mais. Não eram memórias reais, mas eram tão vívidas que às vezes ela mesma quase acreditava!

Na terceira reunião, dona Glória sugeriu que cada pai trouxesse um objeto do filho. Algo para compartilhar com o grupo. Helena entrou em pânico. 

O que levaria? 
A coleira de Téo? 
A bolinha de borracha que ele adorava?

Passou uma tarde inteira vasculhando lojas de antiguidades no centro de Curitiba. Encontrou um coelhinho de pelúcia numa vitrine empoeirada da Rua Riachuelo. Era marrom, gasto, com uma orelha rasgada e um olho torto. Parecia ter sido amado por alguém. Helena comprou na hora.

Na reunião seguinte, segurou o coelhinho no colo e disse, com a voz embargada:

— Ele dormia com este coelho todas as noites. Se chamava Pipoca.

Uma das mães enlutadas sorriu entre as lágrimas. Outra perguntou se Téo tinha outros brinquedos. Helena começou a inventar: um caminhão de bombeiro vermelho, uma espada de plástico, uma coleção de gibis da Turma da Mônica que ele guardava embaixo do travesseiro.

O homem perto da janela ergueu os olhos e encontrou os dela.

Depois da reunião, ele se aproximou. E Helena sentiu o cheiro de serragem e verniz que emanava de sua roupa, um perfume áspero e doce ao mesmo tempo.

— Meu filho também tinha um bicho , dissera  ele, com a voz grave e pausada, como se cada palavra custasse. 
— Um macaco de pelúcia. Chamava Bananinha. Até hoje guardo!

Era a primeira vez que ele falava. Seu nome era Lucas.

Lucas Novaes Resende. Quarenta e um anos. Marceneiro e restaurador de imagens sacras. Tinha perdido a esposa e o filho num mesmo dia, um ano e quatro meses atrás, nas águas barrentas do Rio das Velhas, durante um passeio que deveria ser feliz. O menino se chamava João. Sete anos. Sabia nadar, mas a correnteza era mais forte.

Lucas contou isso tudo num café depois da quarta reunião, quando convidou Helena para tomar um chocolate quente na padaria em frente à Catedral. A noite estava fria, e o vapor das xícaras subia como pequenos fantasmas entre eles.

— Faz um ano e quatro meses , contara ele, mexendo o chocolate com a colher. 
— ...E ainda tem dias... que eu acordo achando que vou ouvir a risada dele na sala.

Helena sentiu o coração apertar. Queria contar a verdade. Queria dizer que entendia aquela dor, mas que seu filho tinha quatro patas e um rabo que abanava. Queria confessar que também acordava esperando ouvir passos que não viriam mais -- patas no chão de taco, unhas arranhando a porta, um latido abafado.

...Mas não conseguiu!

Em vez disso, começou a inventar
 
...Eduardo.

— Meu marido... ele não aguentou , dissera ela, com os olhos fixos na xícara. 
— Depois que o Téo morreu, ele foi embora. Não conseguiu ficar na casa, olhar para mim, para os brinquedos... Disse que cada canto lembrava o menino. Um dia eu cheguei do trabalho e ele tinha sumido. Só deixou um bilhete.

Lucas a olhou com uma compaixão tão profunda, que Helena quase se afogou nela.

—...Sinto muito! , confortada  ele.

Ela assentiu, incapaz de responder, porque a mentira pesava agora como chumbo no estômago.

Nas semanas seguintes, a história de Téo cresceu em detalhes.

Ela contou que ele gostava de desenhar nuvens. Que tinha medo de trovão. 
Que o prato preferido era macarrão com salsicha, mas só se a salsicha fosse cortada em rodelinhas, nunca em pedaços grandes. 

Que ele ria com a boca toda aberta, mostrando uma falha nos dentes da frente. 

Que no último Natal, pediu uma bicicleta azul, mas nunca aprendeu a andar sem rodinhas.

...Eram mentiras!

Mas eram mentiras que doíam como verdades.

Porque, no fundo, Helena falava de Téo.
 Do verdadeiro Téo. O Golden Retriever que tinha medo de trovão e se escondia atrás do sofá. Que comia macarrão escondido quando ela não estava olhando. Que a recebia com tanta alegria, que parecia rir com a boca toda aberta, a língua para fora. 

...Que no último Natal ganhou uma caminha nova e passou a noite inteira abanando a cauda.

Ela criou uma pasta no celular. 'Téo -- Fotos'.
Mas as imagens que guardava ali não eram do cachorro. Eram fotos aleatórias de crianças desconhecidas, baixadas da internet: uma nuca loira, uma mão pequena segurando giz de cera, uma silhueta contra o pôr do sol. 

Para Lucas, ela mostrava apenas a nuca do suposto menino. Dizia que não conseguia olhar para o rosto dele ainda. 
...Que doía demais!

Lucas nunca insistiu.

Ele entendia. Ele também tinha fotos que não conseguia olhar.

O problema, Helena descobriu tarde demais, é que mentiras criam raízes.
... E raízes, se não forem arrancadas a tempo, viram árvores.

Dois meses depois da primeira reunião, ela e Lucas já não eram apenas dois estranhos que dividiam um café.
 Eram quase amigos. 
Quase confidentes. 
Quase alguma coisa que ela não ousava nomear.

Ele a levou para conhecer sua oficina, um galpão nos arredores do bairro São Francisco, cheio de santos mutilados e anjos sem asas. Mostrou a ela como restaurava as imagens barrocas que chegavam das igrejas históricas do interior. Havia uma Nossa Senhora das Dores sem mãos. Um São Miguel Arcanjo sem espada. Um Menino Jesus cujo rosto tinha sido carcomido pelo tempo.

— Meu trabalho é consertar o que parece irreparável , dissera Lucas, lixando com cuidado a borda de um altar.
 — É nisso que eu acredito!

Helena olhou para ele -- as mãos firmes, os olhos concentrados, a serragem nos cabelos -- e sentiu um aperto no peito que era ao mesmo tempo ternura e pavor.

— E quando não tem conserto!? , perguntara.

Lucas parou de lixar. Ergueu os olhos para ela.

— Sempre tem. A gente só não sabe ainda como.

Foi nesse instante que Helena se apaixonou. Não com fogos de artifício ou borboletas no estômago, mas com a gravidade silenciosa de quem escorrega num barranco e já não pode mais voltar.

...E foi também nesse instante que ela percebeu que estava perdida.

Porque Lucas amava uma mulher que não existia. Uma mãe enlutada que chorava por um menino de seis anos, não por um Golden Retriever. Uma viúva abandonada por um marido que nunca existiu. Uma sobrevivente que carregava uma dor que não era a sua.

A dor de Helena era real. Mas o filho, não!

Na última quarta-feira de agosto, dona Glória fez um anúncio que congelou o sangue de Helena.

— No Dia de Finados, vamos fazer uma homenagem coletiva , disse raa velha senhora, com a voz serena.
 — Cada um vai ao túmulo do seu filho, acende uma vela e traz uma flor para compartilhar na reunião seguinte.

Helena sentiu o chão se abrir.

Os outros pais assentiram. Alguns já sabiam o que levariam: rosas brancas, margaridas, girassóis. Lucas disse que plantaria um manacá no jardim da oficina, porque era a flor que João mais gostava.

— E você, Helena? , perguntou dona Glória. — Que flor vai levar para o Téo?

— Crisântemo , respondera ela, porque era a primeira flor que lhe veio à mente.

Naquela noite, Helena voltou para o apartamento do Juvevê e vomitou!

Ela não tinha um túmulo para visitar. 
Téo, o verdadeiro Téo, tinha sido cremado. Suas cinzas estavam num vaso de cerâmica azul na estante da sala, ao lado de uma foto sua correndo na praia e da coleira vermelha. Mas não havia túmulo. Não havia lápide com nome e data.

 Não havia um lugar no cemitério onde ela pudesse acender uma vela e fingir que era mãe de uma criança morta.

A não ser que...

A ideia surgiu como um verme. Repugnante e inevitável.

Ela poderia ir a qualquer cemitério de Curitiba. Escolher um túmulo ao acaso. Uma criança enterrada ali há anos, esquecida por todos. E fingir que era o seu filho.

Passou a noite em claro, revirando a ideia na cabeça. 

Era loucura! 
Era obsceno.!

...Era a única saída que lhe restava!

Na manhã seguinte, um sábado nublado, Helena tomou um ônibus até o Cemitério Municipal São Francisco de Paula. 

As alamedas estavam desertas. Os ciprestes balançavam ao vento frio. 
Ela caminhou entre os túmulos como uma ladra, procurando lápides de crianças.

Encontrou várias. Algumas recentes, com flores ainda frescas e brinquedos sobre a pedra. Outras antigas, cobertas de limo, abandonadas há décadas.

E então, numa alameda lateral, sob a sombra de um ipê sem flores, ela viu!

Um túmulo simples, de mármore gasto. A inscrição dizia: 'Mateus Oliveira. 2012-2018. Saudades eternas de seus pais.'

Mateus. Seis anos. A mesma idade que Helena inventara para Téo.

Ela ficou parada diante da lápide por muito tempo. Depois se ajoelhou, arrancou as ervas daninhas que cresciam ao redor, limpou a pedra com as mãos nuas.

— Me perdoa, Mateus , sussurrara 
— Eu sei que você não é meu filho. Mas eu preciso de um lugar para chorar!

E chorou. Ali, de joelhos sobre a terra fria, chorou por Téo, o cachorro que ninguém considerava digno de luto. Chorou por Lucas, que a amava sem saber quem ela realmente era. Chorou por si mesma, pela solidão insuportável de carregar uma dor que o mundo inteiro julgava ridícula.

Quando se levantou, as calças estavam sujas de terra e os olhos inchados. 

...Mas sentia-se estranhamente leve.

Foi então que ouviu uma voz atrás de si.

— Helena?

Ela se virou.

Lucas estava ali, parado na alameda, segurando um buquê de flores. Visitava o túmulo do filho, que ficava algumas quadras adiante. Seus olhos iam de Helena à lápide, da lápide a Helena.

— É aqui? , perguntara ele, com a voz incerta. 
— O túmulo do Téo?

Helena quis dizer a verdade. Todas as palavras se acumularam na garganta: 'Não, Lucas, Téo não está aqui, Téo está num vaso azul na minha estante, Téo era um cachorro, Téo tinha quatro patas e um rabo que abanava, e eu menti para você, eu menti para todos, me perdoa, me perdoa, me perdoa.'

Mas o que saiu foi:

— É....Aqui!

Lucas se aproximou. Depositou uma flor de manacá sobre a lápide de Mateus.
... E depois, com uma naturalidade que desarmou Helena por completo, passou o braço ao redor dos seus ombros.

— É bonito o nome dele , dissera

Ela não respondeu. Apenas encostou a cabeça no ombro de Lucas e fechou os olhos, deixando que a mentira a envolvesse como um abraço.

O retorno para casa foi silencioso. Lucas dirigiu seu carro velho pelas ruas de Curitiba, as mãos firmes no volante, os olhos fixos na estrada. Helena ia ao seu lado, olhando pela janela, vendo as luzes da cidade passarem como fantasmas.

— Posso te fazer uma pergunta? , dissera Lucas, de repente.

— Pode.

— Como ele era? O Téo. De verdade.

Helena fechou os olhos. E então, sem planejar, começou a falar.

Não sobre o menino inventado. Mas sobre o cachorro.

— Ele era dourado! —,dissera ela.
— Tinha os olhos cor de mel. As orelhas macias, muito macias. Quando ficava feliz, abanava a cauda com tanta força que derrubava tudo ao redor. Ele dormia no meu quarto, aos pés da cama. De manhã, me acordava lambendo meu rosto. Ele gostava de correr na praia, de deitar no sol, de comer cenoura. Tinha medo de trovão. E eu... eu amava ele. Amava mais que tudo. 

...Mais que a mim mesma!

Lucas ficou em silêncio por um momento.

— Você está falando de um cachorro? , perguntara, por fim.

O coração de Helena parou.

O carro entrou na Rua das Flores. As luzes dos postes passavam em intervalos regulares, iluminando o rosto de Lucas em lampejos. Ele não parecia zangado. Apenas... curioso.

— Sim , confessara Helena. 
— Um Golden Retriever.

Silêncio.

— Ele era o meu filho , continuara ela, com a voz embargada. 
— Eu sei que não é a mesma coisa. Eu sei que as pessoas acham ridículo. Mas eu não tinha mais ninguém no mundo, Lucas. Só ele. E quando ele morreu, ninguém me abraçou. Ninguém me disse que ia ficar tudo bem. Ninguém me levou uma flor.

O carro parou em frente ao apartamento de Helena. Lucas desligou o motor e ficou olhando para o volante, como se buscasse ali as palavras certas.

— Eu não sei o que é perder um cachorro — dissera ele, por fim. 
— Mas eu sei o que é perder quem você ama. E a dor não tem hierarquia, Helena. A dor é só dor!

Ela sentiu as lágrimas escorrerem.

— Você está com raiva de mim?

Lucas virou-se para ela. Seus olhos escuros estavam marejados, como sempre, mas agora havia algo diferente ali. Uma espécie de compreensão triste.

— Não estou com raiva , respondera 
— Só estou pensando numa coisa.

— O quê?

— Que o túmulo que a gente visitou não era do seu filho. E que a gente vai precisar de um lugar de verdade para acender a vela no Dia de Finados.

Helena piscou, sem entender.

— Como assim?

Lucas pegou a mão dela. As mãos ásperas de marceneiro envolveram seus dedos frios.

— Você tem as cinzas dele, não tem? Do Téo.

— Tenho.

— Então a gente vai plantar uma árvore. Uma jabuticabeira, que nem aquela do seu quintal. E a gente vai colocar as cinzas na terra. E ela vai crescer, e dar frutos, e você vai ter um lugar para visitar. Um lugar de verdade!

Helena olhou para ele por um longo tempo. Depois sorriu -- um sorriso frágil, ainda molhado de lágrimas.

— Você faria isso por mim?

— Faria , afirmara  Lucas. 
— Mas você vai ter que fazer uma coisa por mim também.

— O quê?

— Da próxima vez que a gente for ao grupo, você vai contar a verdade. Sobre o Téo. Sobre tudo.

O sorriso de Helena vacilou.

— Eles vão me odiar.

— Talvez. Mas a dona Glória sempre diz que o grupo é para quem quer sarar. E você não vai sarar se continuar carregando essa mentira.

— E você? , perguntara ela, com a voz pequena. 
— Vai continuar... comigo?

Lucas apertou sua mão.

— Helena, eu passei o último ano e meio consertando santos quebrados. Devolvendo asas a anjos que tinham perdido tudo. Você acha mesmo que eu vou desistir de você por causa de um cachorro?

Ela riu, e o riso se misturou ao choro, e as duas coisas juntas pareceram, pela primeira vez em muitos meses, com esperança.

Na quarta-feira seguinte, Helena desceu as escadas de pedra da Catedral Basílica pela última vez. Não levava o coelhinho de pelúcia. Levava apenas a coleira vermelha de Téo no bolso do casaco.

Sentou-se no círculo. Olhou para dona Glória, para os pais enlutados, para Lucas, que lhe devolveu um aceno quase imperceptível, como quem diz: estou aqui.

E então, com a voz trêmula mas as palavras firmes, disse:

— Meu nome é Helena. E eu quero contar a vocês sobre o meu filho. O meu filho de verdade.

No bolso, seus dedos se fecharam em torno da coleira.

A plaquinha de prata estava fria contra sua pele.

Mas seu coração, pela primeira vez desde a morte de Téo, estava quente!



FIM.



By Santidarko 


Cárnite Sambênito(*Anti-herói ,CÁRNEO) by Santidarko




Introdução  a CÁRNEO(* Dorian Morbanno)   e ao Rancúlmine

Antes de ser o justiceiro que caminha entre as sombras, ele era apenas um homem quebrado!

Um soldado que viu sua família ser consumida pelo fogo cruzado de uma guerra urbana que não era a sua. 
No momento da morte -- seu corpo estendido sobre o asfalto molhado, o peito aberto por estilhaços -- ele não clamou a Deus. 

Ele clamou por vingança. 

...E algo nas profundezas respondeu!

...Não era um demônio!
 Era algo mais antigo e mais trágico: um anjo caído, exilado do Paraíso,não por rebelião, mas por se recusar a brandir a espada contra seus irmãos. Um ser que compreendia a dor da injustiça e o peso da desobediência justa.
 
Esse anjo, cansado de observar o sofrimento dos inocentes, arrancou  sua penúltima  de sua asa -- uma pena que carregava os  últimos resquício de sua graça celestial, corrompida pela queda, mas ainda poderosa!

Ele a entregou a Cárneo ...com um pacto silencioso. Não exigiu sua alma, não pediu adoração. O preço foi outro.
Cárneo confeccionou um medalhão e pôs a pena dentro desse medalhão, que carrega em  seu peito.




O anjo caído, Gratiaal  ,não quer almas!

...Ele quer memória!
 Em troca da pena, Cárneo carrega o peso de jamais ser lembrado como herói, jamais ter seu nome escrito em luz, jamais encontrar paz na morte. Cada vida que salva, cada inocente que protege, cada culpado que pune -- tudo será atribuído ao acaso, ao medo, à lenda urbana.

 Cárneo é um espectro que caminha sem glória, um salvador anônimo !


O anjo caído, por sua vez, deseja que suas próprias memórias do Paraíso -- as cores, os sons, a luz -- sejam preservadas dentro da consciência de Cárneo. 

...Assim, enquanto Cárneo vive, o anjo não esquece o que perdeu. E Cárneo, ao carregar essas visões celestiais que jamais poderá alcançar, sofre a cada noite com sonhos de um céu que o rejeita. É o preço da pena: lembrar o divino para sempre, mas jamais tocá-lo.

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Rancúlmine : O traje de Carne

Sob o sobretudo negro de kevlar, Cárneo(*Dorian Morbanno) veste Rancúlmine -- um organismo simbionte que é ao mesmo tempo armadura, músculo e confissão.

 Ele não veste o traje; o traje o habita!

Quando o medalhão com a pena do anjo caído toca seu peito, a graça corrompida desperta Rancúlmine. O tecido emerge dos poros como uma segunda epiderme: vermelho escuro, textura de fibras musculares estriadas, úmido como carne recém-exposta. Em repouso, parece um uniforme tático de combate justo ao corpo, com placas orgânicas que imitam blindagem balística -- mas que pulsam, respiram, reagem.

Quando ferido, Rancúlmine se regenera diante dos olhos. As fibras se retorcem, buscam umas às outras como vermes famintos, costuram-se sozinhas!

 Se Cárneo cai de grandes alturas, o traje absorve o impacto expandindo-se em uma rede de tendões que dissipam a energia cinética. Se recebe disparos, os filamentos endurecem instantaneamente em placas ósseas.

Mas o preço é constante: Rancúlmine se alimenta do rancor de Cárneo. Cada injustiça que ele testemunha, cada culpado que escapa, cada memória do céu que ele carrega -- tudo vira combustível. O traje não o deixa esquecer. Ele mantém Cárneo em estado perpétuo de indignação controlada, uma fúria fria que o torna implacável, mas jamais irracional.



As Tendrilhas de Sístole

Das mangas de Rancúlmine, sob o casaco, emergem os microfilamentos braçais -- tentáculos finos como fios de cobre, mas resistentes como aço. 

Eles se movem com vontade semiautônoma, reagindo ao instinto de combate de Cárneo antes mesmo que ele ordene.

Quando um inimigo se aproxima pelas costas, os filamentos se eriçam como pêlos de animal acuado. Quando Cárneo precisa escalar, eles se projetam contra superfícies e criam âncoras microscópicas. Em combate corpo a corpo, chicoteiam o ar, desarmam adversários, estrangulam, perfuram. 

Eles são a extensão física do rancor que Cárneo carrega -- visíveis, palpáveis, letais.

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A cidade de Vergasta



Vergasta nunca fora uma cidade para os puros. .
...Sob catedrais de fuligem e vitrais manchados de pecado, ergue-se uma metrópole gótica-industrial onde a luz não se compra -- aluga-se em prestações de culpa!

... Dizem que até os anjos pagam para entrar, mas ajoelham-se antes de cruzar os portões. 

Porque Vergasta não é apenas corrupta: é Ajoelhada. Curvou-se por vontade própria ao crime, e no seu coração gangrenado dois clãs disputam o direito de podridão.

O primeiro, conhecido como Clã do  Sarcófago, entoam obediência  ao' Salmista de Sangue'.

(*O Salmista de Sangue)

Não matam somente  por dinheiro -- matam por versículo. Cada execução é um salmo entoado, cada cadáver uma estrofe numa liturgia macabra que só eles compreendem. Vestem-se com estolas de pele humana e entoam ladainhas enquanto cometem crime.

...Para os Sarcófagos, o crime é sacramento!



Abaixo deles, rasteja o Linho Mortuário ; escória devota que serve o clã...como cães famintos!

Devem  devoção ao 'Máscara de Ossos';
Um louco com  máscara de caveira esculpida com ossos .

Acredita-que ele era um juiz ou empresário antes de assumir ' o seu trono'.

(*O máscara de Ossos)




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Malena Vundo, a Auditriz


O que fazia antes?

Malena Vundo era uma física teórica especializada em acústica quântica -- o estudo de como o som se comporta em estados anómalos da matéria. Trabalhava para a Universidade de Vergasta (setor de Indústria Bélica) até perceber que as suas pesquisas sobre frequências de anulação estavam a ser desviadas para uso desconhecido. 

Pediu transferência para o Ministério Público como perita forense. Tornou-se promotora -- oficialmente, para combater o crime com provas científicas.

... Mas a verdade é outra!



Por que a Promotoria? (A mentira da justiça)

Malena Vundo nunca quis ser promotora por vocação. Ela veste a toga como quem veste uma Máscara :para se camuflar entre os inimigos do seu verdadeiro alvo.

A sua estratégia é simples e monstruosa:

Quanto mais implacável parece contra o crime, mais perto chega de Cárneo.

Ela constrói uma reputação férrea. 
...Acusa bandidos com provas irrefutáveis. 

Ganha manchetes como 'A Auditriz '--a promotora que ouve o que ninguém ouve!

Torna-se a cara da justiça em Vergasta. Mas cada processo que move contra capangas menores do Linho Mortuário serve um único propósito: forçar Cárneo a notá-la.

Ela quer que ele a veja nos tribunais. 
...Quer que ele leia as suas alegações finais como quem lê cartas de amor codificadas em linguagem jurídica. 

Quer que ele perceba que ela não está apenas a  destruir o crime -- está a podá-lo, removendo ervas daninhas para que 'a flor negra' do Salmista de Sangue floresça menos ainda!

Ela mente ser justa ...porque a justiça é a única linguagem que Cárneo respeita.

 Ele não se impressionaria com uma groupie. 

...NO COMEÇO!

...Mas uma ajudante ...brilhante? 


Malena quer ser a única voz que ele não consegue silenciar -- e, para isso, precisa de chegar o mais perto possível.
 A promotoria lhe dá acesso aos autos, às provas, aos interrogatórios, aos corpos. 
...É a posição mais íntima que se pode ter com um criminoso sem lhe tocar.



Como se ganha poderes além do dinheiro?

Ela quer, uma única resposta :como se ganha poderes além do dinheiro?

Como  Cárneo tem poderes?


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By Santidarko 

Personagens  by Santidarko 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Corisbelle e a cidade de Lacrimosel (*Personagem by Santidarko)


Corisbelle  é uma menina de doze anos que parece ter nascido já despedaçada. 
...Sua pele tem a palidez leitosa de quem nunca recebeu sol suficiente, e seus longos cabelos negros caem em mechas irregulares, como se ela mesma os cortasse com uma tesoura enferrujada. 

Seus olhos são de um castanho tão escuro ,que beiram o preto, e têm a profundidade de poços abandonados: olham para dentro antes de olhar para fora. Veste sempre o mesmo vestido de veludo cinzento, puído nas mangas, com uma gola de renda que sua falecida avó começou a bordar ...e nunca terminou !--- os fios soltos dançam quando ela se move.

Corisbelle fala pouco, mas quando o faz, suas palavras são escolhidas como quem apanha cacos de vidro. Ela tem o hábito de colecionar objetos minúsculos que ninguém mais valoriza: um botão sem par, uma chave que não abre nada, um selo de carta que nunca chegou.

 Esses objetos vivem num pote de vidro que ela chama de Museu das Coisas Órfãs

.... Sua única alegria verdadeira era Sombra, um labrador de pelo negro como tinta fresca, com olhos castanhos profundos ...que pareciam compreender tudo o que ela não dizia. 

Corisbelle conversava com ele em sussurros, abraçando seu corpo morno e macio nas noites frias, e Sombra dormia aos pés de sua cama, um vulto escuro que aquecia seus pés gelados e afastava os pesadelos.

O padrasto, um homem seco e amargo chamado Cipriano Desalma, sempre a considerou uma presença incômoda -- uma testemunha indesejada de um casamento anterior que ele preferiria apagar. A mãe de Corisbelle, Dona Isaura, está doente dos pulmões... e passa os dias tossindo junto à janela, envolta em xales, dizendo 'sim' a tudo que o marido decide. 

Quando Cipriano deu Sombra a uma família de outra cidade, Corisbelle sentiu que a última brasa do seu peito estava sendo pisoteada!

...Naquela noite, não chorou. Apenas encheu os bolsos do vestido com os objetos do Museu das Coisas Órfãs, pegou uma lanterna cuja luz era amarela e trêmula como uma vela, e saiu pela porta dos fundos. 

Não deixou bilhete. 

...Deixou apenas a ausência!

...

O cachorro chamava-se Sombra -- porque, desde filhote, acompanhava Corisbelle como uma segunda silhueta, um vulto preto e fiel colado aos seus calcanhares. Ela o chamava com a voz mais doce que possuía, e ele respondia com um abanar de cauda que fazia seu corpo inteiro oscilar, uma mancha de tinta viva contra o chão gasto da casa.

...

A cidade para onde o padrasto enviou Sombra chama-se Lacrimosel, um vilarejo encravado entre montanhas de carvão e um mar que não brilha!

O nome deriva de lacrimosa —'cheia de lágrimas' -- e diz a lenda que a cidade foi fundada por uma mulher que chorou um rio de pranto até que suas lágrimas formassem o único lago do lugar, o Lago Suspiro, cujas águas são paradas e cinzentas como mercúrio. 

Em Lacrimosel, 'chove trezentos dias por ano', e os habitantes usam sombrinhas de renda preta e caminham devagar, como se carregassem pesos invisíveis nos ombros.
 

As casas são estreitas e altas, com janelas que mais parecem pálpebras cerradas!



Corisbelle seguiu o caminho de terra batida que seu padrasto percorrera dois dias antes, quando voltou sem Sombra e sem explicação!

 ...Ela sabia que a família destinatária se chamava Os Penedos,  que moravam numa casa com telhado de ardósia azul-escura, a única da rua com uma figueira seca na frente.

Chegou a Lacrimosel ao cair da noite, quando a garoa fina como agulhas começou a cair. 

As ruas estavam desertas, e os lampiões a gás lançavam uma luz alaranjada e doentia sobre os paralelepípedos molhados. 

...Em cada esquina, estátuas de crianças de pedra seguravam vasos de onde brotavam flores negras. Corisbelle sentiu que aquelas estátuas a observavam com olhos de musgo.

Ao encontrar a casa dos Penedos, bateu à porta com os nós dos dedos, três pancadas secas. Quem atendeu foi uma mulher de vestido cor de ameixa e rosto alongado, a Senhora Eulália Penedo, que a examinou sem surpresa, como se já a esperasse há muito tempo.

—... Então, és tu a dona do cão negro , disse Eulália, com uma voz doce e oca. 
— Entra, menina. Sombra está no quintal dos fundos, brincando com as outras crianças.

Corisbelle atravessou o corredor da casa, onde as paredes eram cobertas por retratos ovalados de pessoas que pareciam tristes e pálidas. 

No quintal, havia um jardim cinzento, com grama alta e descolorida como cabelos de velhos, e lá estavam quatro crianças, todas de olhos muito abertos e roupas antiquadas, sentadas em círculo ao redor de Sombra. 

...O labrador estava imóvel, os olhos fixos, como se dormisse de olhos abertos. 
...Seu pelo negro não tinha o brilho de sempre; estava opaco e frio como pedra de rio. Corisbelle correu para ele e o tomou nos braços. Sombra não respirava.

— Ele é nosso agora! , dissera uma das crianças, uma menina com tranças loiras e um sorriso que não alcançava os olhos. 
— Nós também fomos dados à Senhora Eulália. Nossos pais nos deram, como o teu padrasto dera o cão!

Corisbelle compreendeu, com um arrepio que lhe subiu pela espinha como uma centopeia de gelo:' aquelas crianças não estavam vivas!'.

...'Eram espectros', memórias de crianças que foram rejeitadas, entregues ou esquecidas, e que agora viviam naquela casa como bonecas de um tempo parado

A Senhora Eulália alimentava-se não de carne, mas de devoção -- o amor que as crianças sentiam por algo ou alguém era transformado em sustento para mantê-las ali, num estado de eterna brincadeira triste. Sombra fora levado porque o amor de Corisbelle por ele era tão puro e intenso ,que brilhava como uma chama no escuro, e a Senhora Eulália precisava dessa chama para aquecer seu reino de penumbra.

Corisbelle sentiu o coração afundar no peito, ...mas não fugiu!

... Em vez disso, sentou-se no chão úmido do jardim e colocou a cabeça de Sombra em seu colo, alisando suas orelhas macias e frias. Das crianças espectrais, a que mais se aproximou foi um menino de suspensórios e olheiras profundas, que se apresentou como Salviano.

—. ..Se quiser que ele volte ,a ser como antes, terá que ceder algo , explicara Salviano, com uma voz que parecia o eco de um sino distante. 
— A Senhora Eulália  gosta de coisas caras!

A memória mais feliz de Corisbelle. Ela revirou o Museu das Coisas Órfãs dentro de si mesma e encontrou-a: a tarde em que Sombra, ainda filhote, uma bolinha de pelo escuro e patas desajeitadas, adormeceu sobre seus pés e ela sentiu, pela primeira vez, que alguém no mundo a amava sem condições!

O calor daquele pequeno corpo negro, o suspiro canino, a confiança absoluta. Aquela memória era uma brasa que a aquecia nas noites em que o padrasto gritava, ou a mãe tossia sangue.

Corisbelle fechou os olhos e pensou. 

...Não havia garantias!

A Senhora Eulália era uma criatura de barganhas, não de justiça!
 ...Mas Corisbelle era, acima de tudo, uma colecionadora de coisas órfãs, 'arqueóloga ' de cousas perdidas pelas pessoas--e Sombra era a mais órfã e substancial de todas, naquele momento!


Eulália marcou de se encontrar com Corisbelle em uma igreja abandonada ali perto de sua casa , para lhe propor uma barganha, ao longe dos atentos ouvidos  de seu marido e das curiosas crianças!


Na noite seguinte....

...Subiu a colina até a Capela dos Sinos Ocos, uma construção de pedra negra cujo campanário não abrigava sinos, mas sim,  buracos vazios por onde o vento assobiava melodias de luto. 


...Lá dentro, a escuridão era espessa como veludo molhado. Os bancos de madeira carcomida alinhavam-se em fileiras tortas, e o altar, que outrora sustentara imagens sagradas, agora exibia apenas uma pedra nua e rachada, de onde brotava uma luz pálida e pulsante, como um coração subterrâneo. 

O vento atravessava os buracos do campanário e produzia um som que não era bem um assobio, mas um lamento prolongado, uma nota contínua que parecia a respiração de algo muito antigo e muito cansado.

A Senhora Eulália Penedo já estava lá, sentada no primeiro banco, as mãos cruzadas sobre o colo como uma santa de cemitério. Seu vestido cor de ameixa arrastava-se pelo chão de pedra, e seu rosto alongado estava iluminado pela luz bruxuleante de sete velas negras dispostas em círculo aos seus pés.

— Fizeste bem em vir, menina! ,dissera Eulália, sem se virar. 
— A maioria chora, esperneia, chama pela mãe. Tu não. Tu vieste. Isso é raro!

Corisbelle avançou pelo corredor central, sentindo o frio das lajes subir pelos seus pés. Parou diante do altar, e disse:
— Quero o meu cão de volta !

 Corisbelle. Sua voz não tremia, embora suas mãos sim.

— E eu quero algo em troca , respondera Eulália, virando-se finalmente. Seus olhos eram de um verde desbotado, como folhas que apodrecem no outono. 
— Não me contento com pouco, menina!O  smor a um animal amado é uma iguaria rara. Não o troco por bagatelas!

— O que quer?

Eulália sorriu. Seus dentes eram pequenos e numerosos, como os de um peixe abissal.

— Há uma casa em Lacrimosel, na Rua dos Chorões, número treze. Lá vive uma mulher chamada Dona Filomena das Dores. Ela possui uma joia que me pertence por direito, embora ela não o saiba. Chama-se Lágrima de Heliotrópio, um broche de prata escura com uma pedra cor de sangue seco. Quero que a tragas para mim.

— Por que não a  pega ....Você mesma?
, perguntara Corisbelle, com a desconfiança de quem já aprendera a não confiar em adultos.

— Porque não posso entrar naquela casa!, admitiu Eulália, e pela primeira vez sua voz perdeu a doçura. 
— Filomena é uma mulher que nunca amou nada, nem ninguém. Não há devoção em seu coração, apenas posse! Minha fome não encontra porta em corações assim. Ela me repele como o alho repele os vampiros das histórias antigas. Mas tu... tu és uma menina viva, com um coração que ainda bate. Tu poderás entrar!

Corisbelle pensou em Sombra, imóvel no jardim cinzento, seu pelo negro sem brilho. Pensou na língua morna que lambia suas mãos, na cauda que batia como um tambor feliz.

— Se eu trouxer o broche, devolve o Sombra?

— Palavra de Eulália Penedo , dissera a sombria  mulher, levando a mão ao peito num gesto teatral. 
—... E a minha palavra é a única moeda que jamais desvaloriza nesta cidade!

Corisbelle não acreditou totalmente, mas não tinha alternativa. Como um farol em busca de algo na escuridão ,deixou a capela, descendo a colina rumo à Rua dos Chorões.

---

A casa número treze era uma construção estreita de três andares, com sacadas de ferro forjado que pareciam gaiolas vazias. As janelas estavam todas fechadas, exceto uma, no último andar, de onde escapava uma luz trêmula de lamparina. Uma trepadeira seca subia pela fachada como veias petrificadas.

Corisbelle bateu à porta!

...O som ecoou por dentro como se a casa estivesse oca. Depois de um longo silêncio, passos arrastados aproximaram-se, e a porta abriu-se numa fresta, revelando metade de um rosto enrugado e um olho cinzento que a examinou de cima a baixo.

— O que quer uma criança, a esta hora da noite? , perguntou a mulher, Dona Filomena, com uma voz áspera como lixa.

— Sou viajante ,mentira Corisbelle.
 — Perdi-me no caminho e vi a luz. Poderia dar-me um copo de água?

Filomena hesitou. Seu olho cinzento vasculhou a rua deserta atrás da menina, como se procurasse cúmplices ou armadilhas. Finalmente, abriu a porta o suficiente para que Corisbelle entrasse.

O interior da casa era um museu de coisas acumuladas. Pelas paredes, pendiam tapeçarias mofadas; sobre mesas e cadeiras, amontoavam-se bibelôs de porcelana rachada, relógios parados, candelabros sem velas, livros com as lombadas desfeitas. 

...Tudo cheirava a naftalina e a tempo estagnado. Mas o que chamou a atenção de Corisbelle foi uma vitrine de vidro, no centro da sala principal, iluminada por uma única lâmpada. Dentro dela, sobre uma almofada de veludo desbotado, repousava o broche: uma lágrima de prata escura, com uma pedra cor de sangue seco incrustada no centro, que absorvia a luz e não a devolvia.

— Bebe , dissera Filomena, estendendo um copo de água turva.

Corisbelle bebeu um gole por educação, sem desviar os olhos da vitrine.

— É bonito, afirmara, apontando para o broche.

— Não é para meninas ,'ensinara' Filomena, fechando a cara. 
— Foi presente do meu falecido marido, Ezequiel das Dores, no dia do nosso casamento. Ele disse que a pedra era uma lágrima de anjo. Tolice!Anjos não choram!

— Choram, sim — afirmara Corisbelle, baixinho.
 — Eu sei que choram!

Filomena olhou-a com um estranhamento súbito, como se visse algo na menina que não estava lá antes.

— Tu não és uma criança comum! , murmurou.

— Sou apenas uma colecionadora! , dissera Corisbelle, e pela primeira vez usou a palavra com orgulho. 
— Guardo coisas que ninguém quer. O seu broche... a senhora ainda o ama?

Filomena piscou, confusa.

— Amar? O que tem o amor a ver com isso? Aquilo é meu. É uma posse. Uma recordação. Um objeto.

— Então não o ama — concluira Corisbelle@ ...Apenas o guarda!

E, num gesto rápido, meteu a mão no bolso do vestido e retirou um dos objetos do seu Museu das Coisas Órfãs: um selo de carta que nunca foi enviada, amarelado pelo tempo, com a imagem de uma garça em relevo.

— Troco este selo pelo broche , ofertara!

Filomena riu, um riso seco e desagradável.

— Um selo velho por uma joia? Estás louca?

— Este selo pertenceu a um homem que escreveu uma carta de amor e nunca a enviou!Ele morreu antes de ter coragem. A carta perdeu-se, mas o selo ficou. Carrega a história de um amor que nunca foi dito. O seu broche carrega a história de um amor que a senhora já esqueceu. Qual vale mais!?

Dona Filomena fitou o selo. Algo no seu rosto enrugado vacilou.

— Como sabes a história deste selo?

— Não sei , admitira Corisbelle. 
— Inventei-a agora. Mas podia ser verdade. E se for, este selo é mais raro do que o seu broche. Porque o broche foi dado. O selo, não. O selo é uma coisa órfã. E coisas órfãs têm mais valor do que coisas possuídas.

A velha ficou em silêncio por um longo momento. Depois, com as mãos trêmulas, abriu a vitrine, retirou o broche e colocou-o na palma da mão de Corisbelle. Em troca, tomou o selo e examinou-o à luz da lamparina.

— Some daqui , dissera, com a voz embargada. 
— Suma, antes que me arrependa!

Corisbelle não esperou que o dissesse...duas vezes!

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Quando retornou à Capela dos Sinos Ocos, a aurora começava a despontar sobre Lacrimosel, uma aurora cinzenta e pálida como leite aguado. Eulália ainda estava lá, imóvel como uma estátua de cera.

— Conseguiste ,perguntara com uma ansiedade  faminta!
— ...A velha Filomena nunca cedeu nada a ninguém!

Corisbelle estendeu o broche. Eulália tomou-o com avidez e prendeu-o no peito do seu vestido cor de ameixa. A pedra cor de sangue seco brilhou por um instante, como se reconhecesse a sua verdadeira dona.

— O Sombra!,exigira Corisbelle.

Eulália suspirou, contrariada, mas cumpriu a promessa. 

— Leva-o. Mas lembra-te: deste-me algo teu. Não a joia; a astúcia. Aprendeste a barganhar como uma das minhas. Isso também tem preço!

Corisbelle não respondeu. Desceu a colina correndo, com os pés apressados nos paralelepípedos molhados, e irrompeu no jardim cinzento da casa dos Penedo. 

'As crianças espectrais' ainda estavam lá, sentadas em círculo, como se o tempo não passasse. Sombra continuava imóvel, mas quando Corisbelle o beijou... junto ao seu focinho , o labrador estremeceu. Seus olhos recuperaram o brilho castanho, seu peito encheu-se de ar, e ele lançou um latido curto e grave, como um trovão abafado.

— Vá! , disse Salviano, o menino de suspensórios e olheiras profundas, com um sorriso triste. 
— Vá antes que ela mude de ideia. Mas volta um dia. Nós gostamos de ti!

Corisbelle abraçou Sombra com força, sentindo o calor do seu corpo negro, o bater do seu coração fiel. Depois ergueu-se, chamou-o com um assobio baixo, e juntos deixaram Lacrimosel para trás, enquanto a chuva recomeçava a cair, fina e persistente como a memória.

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Epílogo: O que ficou

Meses depois, quando Dona Isaura finalmente sucumbiu à doença dos pulmões e Cipriano Desalma partiu sem deixar rastro, Corisbelle encontrou, no fundo de uma gaveta da escrivaninha do padrasto, um documento assinado com tinta vermelha. Era um pacto: Cipriano prometera não apenas Sombra, mas a própria Corisbelle à Senhora Eulália Penedo, em troca de uma prosperidade que nunca chegora!

 A menina estava destinada a tornar-se a quinta criança espectral do jardim cinzento.

...Mas escapara! 

Ao barganhar com Eulália de igual para igual, ao oferecer sua astúcia em vez de sua memória mais feliz, Corisbelle quebrara o pacto sem o saber. A Senhora Eulália não podia tomar quem já havia negociado como uma igual.

Corisbelle guardou o documento no Museu das Coisas Órfãs, ao lado do selo que não entregara a Filomena (pois, no último instante, substituíra-o por um  outro ,sem par, e a velha não percebera!). 

....O verdadeiro selo ainda estava consigo!

À noite, deitada na cama onde Sombra dormia a seus pés, um vulto negro e morno, Corisbelle às vezes sonhava com Salviano e as outras crianças espectrais.

 Sonhava que voltava a Lacrimosel com uma mala cheia de coisas órfãs, e que as trocava por fragmentos de histórias, por memórias esquecidas, por sopros de amor que ninguém mais queria. Sonhava que se tornava, ela própria, uma Senhora de um tipo diferente -- não uma colecionadora de devoção alheia, mas uma guardiã de coisas perdidas.

...E numa noite de outono, quando a chuva batia na janela como dedos de espectro, Corisbelle encontrou, costurado no forro do seu vestido de veludo cinzento, um fio de cabelo loiro, que não era seu!


... Pertencia à menina de tranças do jardim, a que sorria sem alcançar os olhos. Corisbelle guardou-o no pote de vidro, ao lado do selo, do botão e da chave que não abria nada.

O Museu das Coisas Órfãs ganhara mais uma peça.

E Sombra, o labrador preto, gania baixinho enquanto dormia. Porque os cães sonham, e no sonho de Sombra havia um jardim cinzento, quatro crianças que o chamavam para brincar, e uma menina de suspensórios e olheiras profundas que lhe coçava atrás da orelha e sussurrava:

— Volta sempre. Nós também somos coisas órfãs. E um dia alguém nos há de nós guardar e amar,!



Fim.




By Santidarko 

...Da Visigótica Necrópole de Sulze(À Carmim dos Telhados )(À caligrafia de vosso andar)



À Carmim dos Telhados (À caligrafia de
 vosso andar)



...Pela vossa centelha de sublime estranheza, onde a elegância e o garbo se casam com o segredo das coisas que respiram nas frestas, eu vos vedere!

...Não como quem clama por um deus de olhos abertos, mas como quem desfolha, uma a uma, as pétalas negras de um crepúsculo íntimo. 

Há, nesse gesto de vos chamar, a liturgia silenciosa dos que aprenderam a amar o que a luz profana não toca -- o avesso do tempo, a beleza que se alimenta da própria sombra e floresce em plena ausência de sol.

...Porque a vossa elegância, ah, essa não é da ordem desta noite!

Não se mede pelo corte de um fraque impecável ,nem pelo lustre de um cetim à meia-noite, embora ambos vos caiam como uma segunda epiderme!
A vossa elegância é a da criatura que atravessou séculos carregando o próprio ocaso nos ombros, sem pressa, como quem ostenta uma capa forrada de silêncios. 

Ela está na vossa maneira de pousar o olhar sobre as coisas, demorando-vos nelas com a sofisticação cruel de quem sabe que tudo é efémero --exceto vós!


... E, contudo, não há arrogância nesse gesto!

 Há apenas a certeza polida de quem já ceou com os séculos e aprendeu que a verdadeira distinção reside numa certa forma de deslizar entre as horas, de as trincar com vagar e gratidão. 

Sois bela assim; de uma beleza que constrange e inebria, como um vitral antigo que verte luar em vez de sol, como um verso maldito que, murmurado à hora incerta, tem o dom de despertar um arrepio e uma melodia esquecida na medula dos ossos.

...E o vosso garbo! 
...Esse não está apenas na linha do porte, na altivez da nuca ou no gesto contido da mão que jamais se apressa. Está na economia dos movimentos, na caligrafia do vosso andar sobre o mármore gasto das velhas escadarias -- onde cada passo é uma sílaba de um poema há muito emudecido!

...Está no modo como franqueais o pescoço, não num desafio, mas numa oferenda recíproca: ofereceis o mesmo mistério que ides colher. O vosso garbo é o da chama que dança no castiçal sem temer o sopro, porque sabe que a sua coreografia hipnotiza até o vento. 

Ele é a medida exata ...entre a ferocidade e a cortesia, a tensão entre o arrebatamento e a contenção, como se cada gesto vosso fosse uma nota musical que jamais se toca -- apenas se sugere!

...AH,APENAS SE SUGERE!

E nesse casamento entre o segredo das frestas e a vossa figura, habita o terceiro vértice da trindade noturna: a sublime estranheza. 

...Porque não sois apenas o que a noite esconde; sois o que a noite revela a quem ousa entreabrir as portas erradas. Trazeis na íris dilatada ,a memória de um mundo que não está nos mapas, mas lateja nos interstícios da realidade -- no vão entre o tique e o taque do relógio, no intervalo entre a respiração e o suspiro, na poeira que dança no raio de lua e que ninguém, senão vós, sabe decifrar. 

Sois feito da matéria das perguntas sem resposta, da sedução pelo enigma, do amor ao detalhe que destoa. E é justamente aí, nesse desconcerto delicioso que causais, que o mundo readquire o seu encanto primitivo. ...Por um instante, sob o vosso fascínio, as coisas banais lembram-se de que já foram mitos!

Aceitai, pois, esta ode como quem aceita um cálice. Bebei-lhe as palavras como se fossem as estações que vistes murchar e renascer. 

...Porque falar de vós é falar do que em nós também anseia por uma noite sem fim, por um amor que não se extinga com o cantar do galo, por uma sede que não se mate com água benta, mas com o negro vinho de um beijo dado nas bordas do abismo. 

...E se, ao terminar esta invocação, a madrugada ousar pintar o céu de um rubor suspeito, saberei que não foi o sol que me tocou a face -- fora o reflexo longínquo da vossa centelha, a mesma que agora me arde na ponta dos dedos enquanto vos escrevo, como um réquiem ao contrário, como uma alcova que se ilumina só para provar que a sombra é a verdadeira forma da ternura.



By Santidarko 




Ps:

 ....tal como uma borboleta noturna, sem ruído, mas com todo o peso da sombra.

...A vós, que dais ao medo, a forma de uma elegância,
e à fome ,a paciência de uma prece!

...A vós, que  alimenta-se do silêncio, e o nutri com garbo- gratidão!