Introdução:
Sanatório Sereníssim, Bairro do Portão, Curitiba--entre araucárias e nevoeiros que descem da Serra do Mar como suspiros gelados--Violeta Umbra é uma das enfermeiras do turno da noite.
A névoa entrava pelas frestas das janelas do Sanatório Sereníssimo 'como se o próprio ar estivesse doente'.
Violeta Umbra conhecia cada corredor mesmo na mais fechada escuridão-- e preferia assim.
A luz, dizia, não revelava nada que a sombra já não tivesse confessado primeiro.
Eram três e dezessete da madrugada quando o quarto 14 voltou a sussurrar.
Não era a primeira vez. Havia três semanas que o paciente ali internado, um homem sem nome que dera entrada com as pálpebras costuradas por ele próprio -- para não ver o que já tinha visto -- murmurava sequências de palavras em 'latim macarrónico', que ninguém lhe ensinara. Violeta registava tudo num bloco de folhas beges. Letra miúda.
Sem emoção!
— Dona Violeta...! ,chamou a voz de dentro do quarto.
Ela parou. A porta estava trancada. A boca do paciente, ela sabia, estava cerrada havia dois dias por uma catalepsia histérica que o dr. Falkenburg classificara como :' Estupor de Cremera'.
...Mas a voz não vinha da cama. Vinha do espelho.
Violeta olhou para a superfície baça e viu os seus próprios lábios moverem-se sem a sua vontade.
A doença:
O dr. Edmundo Falkenburg, diretor-clínico do Sereníssimo, diagnosticara em Violeta, três meses antes, uma condição que ele próprio batizara: 'Síndrome de Hemera'.
Descritas em seus cadernos ,de Edmundo Falkenburg ,como uma dissociação cronopsíquica, em que o paciente transfere progressivamente a sua identidade para os doentes de quem cuida durante o turno noturno, num processo osmótico de contágio emocional invertido.
Na prática: Violeta começava a confundir-se com os internos. Sentia as suas dores. Sonhava os seus pesadelos. Por vezes, ao espelho, jurava que o seu rosto mudava de feições conforme passava em frente a cada porta.
A síndrome -- coerente dentro da ficção do Sereníssimo -- baseava-se numa falha rara nos núcleos supraquiasmáticos do hipotálamo, região que regula o relógio biológico. A privação continuada de luz solar, somada ao contato prolongado com doentes psiquiátricos em fase crepuscular, provocava uma porosidade empática: a enfermeira tornava-se um vaso-comunicante, e as mentes alheias entornavam-se para dentro da sua.
Aparentemente, sem cura conhecida.
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O episódio da sala de hidroterapia
Na quinta noite após o diagnóstico, Violeta foi chamada à ala abandonada.
A sala de hidroterapia, desativada desde 1995, tinha as banheiras cheias. Água parada. Perfeitamente imóvel.
E dentro de cada banheira, um reflexo.
'Todos eles eram de Violeta'.
Mas cada reflexo vestia o uniforme de uma década diferente: 1920, 1930, 1940... como se outras versões suas tivessem trabalhado ali antes de ela nascer.
Uma delas ergueu a mão fora da água e estendeu-lhe um objeto metálico: uma chave com o número zero gravado.
Quando Violeta a tocou, o corredor inteiro apagou-se ,e ela acordou na sua cama, no quarto das enfermeiras, com as mãos molhadas e um cheiro a sais de magnésio nos cabelos.
A chave estava no seu bolso.
Fria.
Real.
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O quarto que não existia
O Sereníssimo tinha três pisos, e todos os funcionários sabiam que o subsolo estava condenado desde um incêndio--que levara a óbito, sete pacientes e uma madre-enfermeira.
...Mas a chave que Violeta recebera, abria uma porta no final do corredor do segundo andar -- porta que nunca estivera ali antes.
Ela entrou.
O quarto zero era circular. Nas paredes, prateleiras com frascos de vidro cheios de uma substância âmbar. Dentro de cada frasco, um pedaço de papel com uma letra. Centenas de frascos. Milhares de letras.
Violeta compreendeu, com a clareza aterradora dos insones, que aqueles frascos continham as palavras que os pacientes tinham esquecido. Os nomes que já não lembravam. Os verbos que tinham deixado de conjugar. Os pronomes que já não designavam ninguém.
E sobre uma mesa, um frasco maior, vazio, com uma etiqueta:
V.I.O.L.E.T.A.
Ela não sabia se o frasco estava à espera do seu nome — ou se o seu nome já tinha estado ali dentro e agora andava solto, sem dona, pelos corredores do sanatório.
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O colapso
Na semana seguinte, Violeta deixou de se apresentar como enfermeira. Circulava pelos quartos com um frasco na mão, recolhendo letras que os doentes deixavam cair da boca durante o sono. Sentava-se no refeitório vazio às quatro da manhã e ordenava as letras sobre a mesa, tentando compor o seu próprio nome.
Mas a síndrome de Hemera avançara.
Agora, quando passava em frente ao espelho do quarto 14, já não era o seu rosto que via — era o do paciente sem nome, com as pálpebras ainda costuradas, mas com os lábios finalmente abertos. E os lábios diziam:
-Violeta. O seu turno acabou.
-Agora és tu que estás na cama 14.
-Agora és tu que sonhas o que eu sonhei.
O dr. Falkenburg encontrou-a nessa manhã, deitada na cama 14, com os olhos abertos e as mãos cruzadas sobre o peito, um frasco vazio entre os dedos. Parecia dormir.
Mas quando lhe tocaram o ombro, ela não acordou --apenas os lábios se moveram, sem som.
No seu bloco bege, a última anotação dizia:
(*Já não sei ,se sou a enfermeira que cuida dos doentes, ou a doente que as enfermeiras fingem cuidar. O sanatório não trata ninguém. O sanatório recolhe aquilo que sobra quando a identidade se cansa de ser uma só. Hoje vi o meu nome num frasco. Mas o frasco estava vazio. E eu também.)
O Sanatório Sereníssimo continua em funcionamento. O quarto 14 tem agora uma nova paciente. E o turno da noite procura uma enfermeira substituta.
Fim
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Designações especialmente criadas para este miniconto
1. Psiconoctia
Designa o estado de profunda escuridão interior em que a consciência se perde, um território psíquico onde a luz da razão não penetra. Pode nomear também o estudo das manifestações mentais que emergem apenas na 'noite da psique'.
2. Caligopsia
Refere‑se a uma forma de percepção distorcida, em que tudo o que é visto pela mente é envolto em sombras densas, como se um nevoeiro psíquico cobrisse cada pensamento. Clinicamente, poderia descrever um sintoma psiquiátrico de obscurecimento perceptivo.
3. Umbratria
Uma hipotética vertente terapêutica que trabalha não para eliminar a escuridão mental, mas para curar através da imersão controlada nas sombras do inconsciente.
4. Escotopsiquismo
O conjunto de processos mentais que ocorrem exclusivamente nas camadas mais obscuras da mente, onde se ocultam impulsos, medos primordiais e arquétipos sombrios. Também poderia denominar uma doutrina psiquiátrica centrada no poder estruturante das trevas interiores.
5. Onirósseo
Imagem mental que surge nos sonhos ou delírios e que parece 'ossificar'o medo, transformando emoções obscuras em estruturas rígidas e inquebrantáveis dentro do psiquismo. Um termo para aquelas visões sombrias que se tornam permanentes.
6. Psicomácula
A mancha psíquica que se alastra na mente como uma nódoa de escuridão, associada a traumas profundos ou culpas que mancham a lucidez. Em psiquiatria, poderia nomear uma lesão invisível que escurece progressivamente a clareza mental.
7. Sombramental
Aquilo que pertence ao território fronteiriço entre o pensamento claro e a escuridão absoluta da inconsciência; uma qualidade de ideação que já não é luminosa, mas ainda não totalmente submersa no esquecimento.
8. Nictofrenia
Estado de espírito em que a mente é governada pela lógica noturna, fria e sem estrelas, onde as emoções são substituídas por uma lucidez obscura e desprovida de calor humano.
9. Tenebrolalia
Discurso que brota das profundezas sombrias da psique, carregado de símbolos obscuros, muitas vezes incompreensível para quem está 'fora'. Poderia ser um termo para a fala delirante de estrutura lógica interna, mas mergulhada em trevas semânticas.
10. Obumbramento
Processo pelo qual uma parte sã da mente é subitamente coberta por uma sombra psíquica intensa, podendo designar um mecanismo de defesa em que conteúdos insuportáveis são imediatamente obscurecidos antes de alcançar a consciência plena.
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By Santidarko
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