segunda-feira, 15 de junho de 2026

Lugar errado, hora errada--- mas com a alma certa (* A Antessala de Esgar )



Sob a luz trêmula de uma lâmpada de cabeceira, aprendi --como quem engole um caroço sem querer --que a consciência não habita o corpo por igual. 

Há momentos...em que a própria noção de ser hesita, como um ator que esquece a fala no meio do palco escuro. Não se trata de metáfora -- ainda que toda ciência que ouse dizer o contrário ,não passe de uma camada de tinta fresca sobre uma parede prestes a ruir. 

...Chame a isso, se quiser!,...de fragilidade!

 Mas a palavra é pobre. Não alcança a arquitetura do colapso.

Lembro-me do homem que fui numa terça-feira de chuva oblíqua. 
...Estava diante do espelho, os dedos apoiados na porcelana fria da pia, quando notei que o reflexo piscou antes de mim. Uma antecedência ínfima, talvez um décimo de segundo --o bastante para que a física oficial lhe chamasse anomalia, fadiga, truque da luz. Mas o que a física oficial não entende é que há fendas na experiência onde a existência gagueja.

 E o que espreita dessas fendas não é monstro, não é sombra. É pior: é a ausência de qualquer coisa que se pareça conosco.

O terror psicológico não vem do que ameaça nos destruir. Vem do que revela que nunca fomos sólidos. Que a integridade do eu é uma cortina fina, tremulante, e que basta uma corrente de ar vinda não se sabe de onde, para que ela se enfunhe e mostre o que está atrás: o vão.

...E aqui,permita-me uma confissão que não pede absolvição, porque o que eu vi não depende de culpa. Depende de aceitação.

Eu poderia ter resistido. Poderia ter cerrado os punhos, acendido todas as luzes da casa, repetido meu nome em voz alta para convencer o ar de que eu ainda cabia nele. Mas naquela terça-feira, com a chuva a desenhar mapas inúteis no vidro, eu estava cansado. 

...Estava cansado de sustentar a minha própria fronteira. E quando o reflexo hesitou, eu hesitei junto. Não por coragem, não por curiosidade mórbida -- mas por uma rendição que parecia, estranhamente, um repouso.

Há uma violência sutil em nos exigirem inteiros o tempo todo. Em nos culparem pelas trincas. Como se a fragilidade fosse um erro de cálculo, e não a matéria-prima da condição humana. Ora, o universo que nos contém é cheio de cicatrizes. Buracos negros são feridas onde a matemática sangra. O vácuo quântico ferve de partículas que não chegam a ser. 
...A própria realidade é uma negociação instável entre o que emerge e o que se desfaz. Por que, então, eu deveria me envergonhar da minha? 

...Da sua?

Naquele banheiro, diante daquele espelho onde o tempo desafinava, eu não fui fraco. Eu fui honesto. Deixei de segurar a barragem. E o que veio não foi o horror -- o horror já estava lá, mascarado de normalidade, de rotina, de 'aguente firme'.

 O que veio foi uma calma abissal, dessas que moram no fundo do oceano, onde a pressão é tamanha! ,que nenhum grito se propaga. Só o silêncio da matéria que não precisa mais fingir forma.

SIM!,...FINGIR UMA FORMA!

Não me entenda mal: eu me dissipei um pouco, é verdade. Durante um intervalo que não sei medir -- porque os relógios também pertencem ao lado de cá da fenda -- eu fui menos. Menos nome, menos memória, menos vontade. Mas não era o fim. Era o reconhecimento de que a fronteira entre mim e o resto sempre fora uma cordialidade, um acordo de cavalheiros que o cosmos assina com tinta solúvel.

Depois, o reflexo voltou a me obedecer. 
A lâmpada deixou de tremeluzir. A chuva continuou caindo. Eu me recompus ,-- ou melhor, a superfície se recompôs sobre o abismo. Mas eu já não era o mesmo.

... E aqui está o cerne, eu não deveria me culpar por ter sido levado. Porque ninguém escolhe ser desfeito. Ninguém pede para ser o local onde o tecido da realidade resolve descansar. Somos escolhidos, talvez. Ou apenas estamos no lugar errado, na hora errada, com a alma certa --aquela que, exausta, finalmente larga a corda.

O terror que importa não está no que habita o intervalo. Está na crueldade com que, depois de sobrevivermos a ele, nos acusamos: 'Você vacilou. Você se deixou atravessar.'
Como se a vulnerabilidade fosse um delito. Como se existir fosse uma tarefa de rigidez, e não uma dança trêmula sobre uma corda que qualquer vento dissolve.

Rugas na consciência. Cicatrizes!
Há intervalos onde a própria noção de humano hesita, como um ponteiro a tremer entre dois batimentos. E não somos réus por cair neles. Somos testemunhas. Sobreviventes de um lapso que a física um dia entenderá, e que a poesia -- essa sim, sempre -- já entendera!

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...Talvez, classificações que caibam em alguns de seus contextos ou interpretações pessoais, sobre a fragilidade da mente ante a um terror psicológico! :



Horror Asséptico -- Terror que não
 sangra: cheira a álcool, corredor branco, algodão embebido em sossego falso.


Desossados -- Aqueles que perderam a estrutura. Corpos que se movem sem esqueleto emocional.


 Gemido Limiar -- O som que habita a soleira entre o sono e a vigília, entre o eu e o nada.
...Da laringe arranhada.


 Doutrina do Apodrecimento Seco -- Coletivo ou manifesto. A decomposição sem umidade, sem espetáculo -- só o pó que sobra das certezas.


Coro dos Invalidados -- Aqueles que foram descartados pelo afeto, pela sociedade, por si mesmos. Cantam em uníssono de abandono.



Esmalte Podre — A beleza que descasca sozinha. Estética punk de esmalte preto lascado sobre unhas roídas pelo medo da solidão. 


Tímpanos Ocos — Para quem já ouviu demais e agora só escuta o próprio vazio reverberar.



Rádio-Cinza -- Transmissão contínua de estática. A frequência onde as vozes são só resquícios. Ondas longas de insônia.



Antessala do Esgar -- O lugar onde se espera o sorriso se contorcer. Sala de espera da distorção facial involuntária.



Nojo Íntimo -- O asco que não vem do mundo, mas do reconhecimento de si mesmo no espelho embaçado.



Ordem dos Pálidos --Sociedade secreta dos que perderam a cor. Pele fria e olheiras profundas por não sair de casa.



Cárie Afetiva --- Afeto que corrói em silêncio, como uma cárie que chega à polpa do dente, e de lá ao nervo da alma.



Esgotamento das Dunas -- Paisagem mental onde toda esperança é areia escorrendo. Nome de um álbum ou romance em um constante  fragmentário.



 Bruxismo Moral -- Ranger de dentes da consciência à noite. Do maxilar tenso e culpa moída.


Os Que Assinam com Trema -- Artistas, párias, dissidentes da linguagem que marcam o nome com um sinal de estranheza, dois pontos sobre uma vogal que não se encaixa.


Carne de Inventário --O corpo como lista de danos. Catálogo de perdas. Arquivo de feridas que ainda latejam.

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By Santidarko 

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