Penélope – Garota com cabelo de penas de corvo. Enterra pássaros mortos que brotam como flores .
Pólen – Menino com olhos de abelha , e que coleciona pétalas raras de flores.
Helício -Menino com uma concha nas costas. Ele sonha em tirar a concha das costas e ter uma namorada.
Personagens by Santidarko
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...Era uma vez, num vale onde o sol nascia atrasado e as sombras tinham pressa,' três crianças que não cabiam no mundo'a
Penélope tinha cabelos de penas de corvo --negros, brilhantes, macios como noite tocável.
...Cada ave que ela encontrara morta na estrada, que ela enterrava com as próprias mãos, cantando baixinho canções que ninguém ensinou. E das covinhas rasas, onde os pássaros descansavam, brotavam flores de cores que nunca se viram -- azuis tão fundos ,que pareciam afogar, vermelhos tão quentes ,que pareciam queimar!
Penélope não sabia se era milagre ou maldição!
Pólen tinha olhos de abelha. Não olhos comuns -- eram hexagonais, facetados; pareciam feitos de mil pequenos espelhos que refratavam o mundo em padrões geométricos. Ele via o vento como favos invisíveis, via a tristeza das pessoas como manchas escuras no ar. E colecionava pétalas.
.... Ele não falava muito. Preferia zumbir baixinho, um som que fazia as flores se inclinarem para ele, como se pedissem segredo.
Helício tinha uma concha nas costas.
Não era uma concha qualquer. Era grande, espiralada, com estrias que 'contavam dias que ele não viveu!'.
..Ela pesava!
Não só nas costas -- pesava na alma!
Helício nunca podia correr, nunca podia se deitar de costas, nunca podia abraçar alguém por inteiro, sem que a concha machucasse o outro. As crianças riam dele. Os adultos desviavam o olhar. E ele, todas as noites, encostava a concha em uma árvore e sussurrava:
— Se eu pudesse tirar você, eu seria normal.
—Eu teria uma namorada!
Ele nunca viu uma namorada de perto.
Sabia apenas que elas existiam nos livros, nas canções, nos sonhos dos outros.
... E Helício sonhava --sonhava com mãos que tocassem seu rosto sem bater na concha, com uma voz que dissesse : 'venha' sem acrescentar :'mas devagar!'
Ele sonhava com o peso da ausência.
Com o vazio que seria ter as costas livres, leves, prontas para um abraço!
Certo outono, os três se encontraram no jardim de Penélope.
Ela estava enterrando um corvo. O maior corvo que já vira. Preto como uma noite sem lua, com as asas abertas como quem pede colo. Penélope chorava !
Pequenas plumas caíam de seus cabelos enquanto ela cavava a terra.
Pólen chegou primeiro. Sentou-se ao lado dela, sem falar, e colocou uma pétala vermelha sobre o peito do corvo. Seus olhos hexagonais capturavam a cena em mil ângulos: a curva do bico, o brilho morto dos olhos, o tremor das mãos de Penélope.
Ele zumbiu uma nota grave, como um lamento de abelha-órfã!
Helício chegou por último. Carregando a concha, ofegante, com as pernas trêmulas. Quando viu o corvo, sua primeira vontade foi fugir -- porque a morte lhe lembrava que ele também carregava algo que não escolheu.
...Mas ele ficou!
Com esforço, ajoelhou-se, e com um dedo tocou suavemente a cabeça do pássaro.
— Ele tinha nome? , perguntou Helício.
Penélope balançou a cabeça.
— Nunca tive tempo de perguntar!
Pólen pegou a mão dela. Helício, com a outra mão, tocou os dedos de Pólen.
Nenhum dos três disse :'vamos ficar juntos' ...Mas ficaram!
Naquela noite, Penélope enterrou o corvo no centro do jardim. Pólen colocou sobre a cova todas as pétalas que guardava -- as azuis, as vermelhas, as douradas, as que pareciam chamas congeladas. E Helício, com a concha rangendo a cada movimento, desenhou um círculo ao redor da sepultura com o dedo, traçando uma espiral como a de suas costas.
— É para proteger !,dissera ele.
— Minha concha me pesa, mas também me guarda. Talvez seu corvo também precise de uma guarda.
Penélope olhou para ele. Seus olhos, avermelhados de tanto chorar, encontraram os de Helício. Pela primeira vez, ela não viu a concha. Viu um menino que queria amar ,e não sabia como!
— Você quer uma namorada? , ela perguntou, com a voz rouca de plumas.
Helício congelou.
— Sim!, respondeu, quase sem som.
Penélope então tirou uma pena de seu cabelo. A mais bonita. A mais negra. Colocou-a na mão de Helício.
— Então esta pena é sua. Enquanto você a tiver, terá uma amiga!
Pólen, que observava tudo, zumbiu uma melodia doce. De seus olhos hexagonais escorreu uma gota -- não lágrima, mas mel. Ele a ofereceu a Helício, que provou e sentiu um gosto que não era açúcar. Era promessa!
...Na primavera seguinte, o corvo floresceu.
Do centro do jardim brotou uma árvore. Não uma árvore comum -- seus galhos eram penas, suas folhas, pétalas, e seus frutos, pequenas conchas vazias, leves como ar. Penélope, Pólen e Helício sentaram-se sob ela.
Helício ainda tinha a concha nas costas.
Mas, naquela tarde, ele não se importou. Porque Penélope estava ao seu lado, com a mão apoiada sobre sua concha, e Pólen estava em frente, com seus olhos que viam favos de luz em cada gesto.
— Você acha que um dia eu vou conseguir tirá-la? , perguntara Helício.
Penélope sorriu -- um sorriso que parecia voar.
— Talvez não!
— Mas talvez você não precise. Porque quem gosta de você já aprendeu a abraçar a concha junto.
Pólen assentiu, e seus olhos brilharam em harmonia.
Então, o vento soprou. As penas da árvore dançaram, e uma delas caiu sobre o cabelo de Penélope, como se o corvo agradecesse. Pólen guardou a pena no frasco de pétalas mais raro. E Helício, com a mão ainda sobre a concha, sentiu pela primeira vez que seu peso não era castigo.
...Era lar!
Fim.
By Santidarko
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