domingo, 7 de junho de 2026

Sombral, o homem que sempre vivera sob um céu de um azul aguado.(*A voz de uma navalha no escuro que dilacera assombrações de mentiras e mistérios)


A Rua dos Inválidos, no bairro da Gamboa, jamais viu o sol como as outras ruas. Mesmo sob o meio-dia mais impiedoso do verão carioca, a luz ali parece chegar filtrada por uma gaze antiga, como se os próprios sobrados coloniais tivessem feito um pacto com a penumbra. No número 187, um casarão neoclássico de dois andares exibe sua fachada cinza-escuro com frisos brancos descascados, uma placa de bronze em tipografia art déco anunciando: Funerária Sombral -- Serviços de Passagem e Zeladoria Pessoal.

As cortinas de veludo roxo que se entreveem pelas janelas do andar térreo jamais se abriam completamente. Quem passa pela calçada oposta sente um leve cheiro de alfazema misturado à cera de assoalho, e se tiver um ouvido muito atento, poderá captar o som abafado de um piano tocando uma valsa lenta, sempre a mesma, como um disco riscado na memória da casa.

A funerária funciona em horário comercial: das oito da manhã às seis da tarde. 

É quando os vivos encomendam coroas de flores, escolhem ataúdes e choram suas perdas no escritório principal, sob o olhar impassível de um crucifixo de marfim e de um retrato a óleo de um ancestral da família 

Sombral(*Álvaro de Castro Sombral,
Alcunha social: 'Doutor Alvim')(como é conhecido pelos vivos que frequentam sua funerária),de barba cerrada e olhos que parecem seguir o visitante. 

Quem atende ao balcão é uma mulher de meia-idade, óculos de aro fino, coque grisalho e uma educação que beira o monástico: fala pouco, ouve muito, e anota tudo numa caligrafia de freira. É Dona Eulália, a secretária. Mas a alma da casa --se é que uma funerária pode ter alma -- não está no andar térreo. Está dois lances abaixo, no subsolo, atrás de uma porta falsa disfarçada de armário de produtos embalsamadores.

Lá, entre vidros de formol, estantes de madeira abarrotadas de livros de medicina legal, ocultismo e códigos penais, trabalha o dono do lugar. 

SOMBRAL!

Quando a noite cai e a Gamboa se esvazia, as luzes do casarão se apagam, exceto uma: a lanterna âmbar giratória de uma Chevrolet Veraneio 1971 preto-fosca que todos no bairro chamam de' A Carruagem'. 

...Estacionada na garagem dos fundos, ela exibe nas portas dianteiras o emblema da casa: uma ampulheta alada com asas de mariposa-da-morte, atravessada por um galho de cipreste e um estilete de prata, sob a inscrição : Dum vigilo, finis non est. 

Enquanto a cidade dorme, o motor da Carruagem ronca baixo, e seu condutor parte para o segundo expediente.

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Miniconto: O  caso  do viúvo que não chorava

Álvaro de Castro Sombral tinha quarenta e três anos, embora aparentasse cinquenta e cinco. Não era velho, mas também já não era jovem; sua juventude fora gasta nos corredores da Polícia Civil, e depois, nos anos de um luto que jamais cicatrizou. 
...De estatura mediana, ombros ligeiramente curvados pelo hábito de se debruçar sobre corpos, usava sempre um terno preto de corte impecável, camisa branca de colarinho alto e uma gravata de seda cor de vinho --' a mesma cor da forração interna dos caixões que ele mesmo escolhia para seus clientes mais distintos. 

Os cabelos eram lisos, negros, repartidos à esquerda e já salpicados de fios brancos nas têmporas. O rosto era anguloso, de maçãs salientes e olheiras perpétuas, mas os olhos -- castanho-escuros -- mantinham um brilho de inteligência inquieta. Não usava bigode nem barba, e sua pele tinha a palidez de quem raramente vê o sol direto. Quando falava, sua voz era um murmúrio controlado, como se estivesse sempre respeitando o silêncio de um velório.

Ele saíra da polícia em 1968, não por bravata ideológica, mas por um cansaço irremediável da burocracia da morte oficial. Na polícia, um cadáver era um número, um inquérito, uma papelada. 

Para Sombral, era uma história interrompida. Pediu exoneração, comprou o casarão da Gamboa com a herança do pai -- também agente funerário -- e pendurou na porta uma placa adicional, menor, quase invisível sob a placa principal: Álvaro Sombral — Investigações Particulares. A partir dali, passou a viver em dois mundos: das oito às dezoito horas, era o Doutor Alvim, o discreto diretor da funerária que recebia viúvas e órfãos; das vinte horas até o primeiro raiar do sol, era Sombral, o investigador que aceitava casos que a polícia arquivava com pressa demais. Os dois ofícios se complementavam: muitos clientes da funerária tornavam-se clientes da agência investigativa, e vice-versa. 

--Afinal, a morte e o crime são primos-irmãos.--

Naquela terça-feira de maio de 1974, o expediente diurno estava tranquilo. Dona Eulália, sentada à sua escrivaninha de mogno, datilografava orçamentos de coroas fúnebres. Era uma mulher de cinquenta e oito anos, viúva de um oficial da Marinha, que encontrara na funerária uma segunda viuvez — mais serena. 

Usava sempre um vestido cinza, um broche de camafeu no peito e um par de óculos de leitura presos por uma corrente de ouro. Jamais se assustava com nada, nem mesmo com os gemidos que de vez em quando vinham do subsolo. Sabia que era o gato.

O gato era uma criatura à parte. Chamava-se Osíris, um gato preto de pelo curto, olhos amarelos como duas moedas antigas e uma única mancha branca no peito, em formato de lua crescente. Vivia na funerária desde filhote, quando Sombral o encontrara dormindo dentro de um caixão de exposição. Osíris circulava entre os andares como um 'fantasma educado'; jamais derrubava nada, jamais miava para os clientes. Durante o dia, dormia sobre o livro de registros de óbitos, no escritório do subsolo. À noite, saltava para o banco do passageiro da Carruagem e acompanhava Sombral em suas rondas. 

Havia quem dissesse no bairro, que o gato era o verdadeiro dono do lugar, e que Sombral era apenas seu representante legal. Dona Eulália, com seu humor seco, confirmava: '-O gato não mia, doutor. -Ele 'emite pareceres', dizia ela ,sempre olhando por cima de seus óculos de aros finos.

...Foi quando o sino da porta tilintou!

O homem que entrou era alto, grisalho, vestia um sobretudo escuro inadequado para o calor carioca e carregava uma pasta de couro gasta. Seus olhos estavam vermelhos, mas não de choro — de insônia. Apresentou-se como Heitor Coutinho, viúvo. A esposa, Isaura, falecera, havia três dias, vítima de uma queda na escada de casa, em Laranjeiras. 

A polícia concluíra acidente. O caso fora arquivado. Ele, porém, não chorava. Não porque não sentisse a perda, explicou com a voz trêmula, mas porque sentia que havia algo errado. 
-Minha esposa tinha pavor de escadas, doutor Sombral. -Pavor!
-Jamais desceria aquela escada sozinha à noite.

Sombral ouviu em silêncio, as mãos cruzadas sobre o tampo da mesa. Ao lado, Osíris abriu os olhos, observou o visitante por um instante, e tornou a fechá-los. Dona Eulália, sem que ninguém pedisse, trouxe uma xícara de chá de cidreira para o viúvo. O investigador anotou o endereço, cobrou um adiantamento simbólico :-para custear a 'Carruagem', disse, embora o valor mal cobrisse a gasolina -- e prometeu visitar o local do acidente naquela mesma noite.

Às vinte e três horas, a Gamboa estava deserta. Sombral vestiu o sobretudo preto que o protegia da garoa fina e dirigiu-se à garagem. A Carruagem o esperava com sua lataria fosca, os pneus de faixa branca impecáveis, o símbolo da ampulheta brilhando sob a luz amarela da lanterna. Osíris saltou para o banco do passageiro e acomodou-se sobre uma almofada de veludo roxo. O motor roncou, e o veículo deslizou pelas ruas de paralelepípedo como um catafalco sobre rodas.

Chegando à casa de Laranjeiras, Sombral estacionou a uma quadra de distância. Não queria chamar a atenção de vizinhos curiosos. Caminhou até o sobrado, abriu o portão com a chave fornecida pelo viúvo e entrou. A casa estava vazia e escura. A escada de madeira ficava no fundo do corredor, iluminada apenas pela luz da rua que entrava por uma janela alta. O investigador parou diante do primeiro degrau e fechou os olhos.

Sombral não tinha apenas faro investigativo: ele tinha o que Dona Eulália chamava de 'vista'. Desde a morte do filho, desenvolvera uma sensibilidade para captar resquícios de emoções violentas em objetos e lugares. Encostou a palma da mão no corrimão da escada. Por um instante, nada. Depois, um flash: uma mão empurrando as costas de uma mulher de camisola branca. A mão usava um anel de formatura, -- um rubi. A mulher gritava, mas o grito era abafado por um trovão. Naquela noite, houvera tempestade. A queda não fora acidente: Isaura fora empurrada.

Abriu os olhos. Respirou fundo. 'A vista' sempre lhe custava um pouco de vitalidade. Tossiu, levou um lenço à boca e guardou-o sem olhar --, sabia que havia um pequeno ponto de sangue, como sempre. Osíris, que o seguira, roçou-se em suas pernas, miando baixinho. Era um alerta: havia alguém na casa.

Sombral subiu a escada com passos silenciosos. No andar de cima, uma porta estava entreaberta -- o quarto do casal. Lá dentro, um homem revirava as gavetas da escrivaninha. Era baixo, atarracado, usava um anel de rubi no dedo mínimo. O investigador reconheceu-o imediatamente: o irmão mais novo de Heitor Coutinho, Renato, que na funerária se mostrara tão solícito, tão solidário com a cunhada morta.

— O senhor está procurando o testamento, doutor Augusto? --A voz de Sombral soou como uma navalha no escuro.

...COMO SEMPRE!

O homem se virou, assustado. O anel brilhou sob a luz fraca. Ele gaguejou uma desculpa, disse que estava ali para recolher pertences da família, mas o investigador não precisava de confissão: já tinha o que vira. No dia seguinte, com um telefonema anônimo, a polícia receberia uma denúncia de que o irmão da vítima frequentava uma casa de apostas ilegais e devia dinheiro a agiotas — motivos para desejar a herança. Junto com a denúncia, um envelope com a descrição precisa do anel, encontrado num penhor na Praça da Bandeira. O caso seria reaberto. A justiça, talvez, chegasse.

Às quatro da manhã, a Carruagem retornou à Rua dos Inválidos. Sombral guardou o veículo, alimentou Osíris com um pedaço de peixe fresco e desceu ao subsolo. Acendeu um cigarro e ficou olhando para o símbolo da ampulheta na parede. Acima, no térreo, ouvia Dona Eulália chegando para o primeiro turno do dia, arrumando as flores, abrindo as cortinas. O sol ainda não nascera, mas os primeiros raios já tingiam o céu de um azul aguado.

Ele apagou o cigarro, ajeitou a gravata e subiu. Às oito em ponto, quando os primeiros clientes da funerária chegassem, encontrariam o Doutor Alvim de sempre: pálido, sereno, com seu terno preto e sua voz de velório. E ninguém imaginaria que aquele homem, antes de o galo cantar, havia sido os olhos de uma morta, vingando-a em silêncio.

No canto do escritório, Osíris dormia sobre o livro de óbitos, e Dona Eulália, sem olhar para trás, disse apenas:

- O café está pronto, doutor. A viúva do enterro das nove quer flores brancas. E o delegado telefonou. Disse que quer falar com o senhor sobre o caso Coutinho. Parece que reabriram.

Sombral assentiu, pegou a xícara e sentou-se à mesa. A funerária abria suas portas. O investigador fechava as suas, até o próximo crepúsculo.

Fim.


By Santidarko 

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