Introdução
...Há uma fronteira onde a botânica se despe das suas vestes terrenas e se curva diante do desconhecido.
A xenobotânica --o estudo da vida vegetal que não brotou sob nenhum sol conhecido, que não conhece a clorofila como única via de sustento, que floresce em vácuos e se enraíza em meteoritos. Mas um xenobotânico não é apenas um estudioso. É, antes, um jardineiro do abismo, alguém que aceita que a semente alienígena não se contenta em ser catalogada: ela quer germinar, infiltrar-se, e por vezes, reescrever o próprio jardineiro.
----------
Chamam-me de xenobotânico, agora!
...Antes, eu era apenas um estudante de biologia com uma inclinação maldita por meteoritos.
...Não que eu acreditasse em panspermia como um artigo de fé , mas extremamente possível e considerável!— eu queria provar que a vida, se caísse do céu, era além de uma química maluca e aleatória.
Às vezes, fico confuso com minhas teorias e certezas!
Em São Francisco de Paula, a cidade que escolhi para definhar, a chuva lava as certezas. Lá, a umidade não está só no ar; infiltra as paredes de basalto, os livros que cheiram a bolor doce, os ossos. Foi nesse cenário que o correio entregou a caixa, num entardecer de neblina tão densa, que as araucárias pareciam esqueletos de vidro.
A amostra viera de um colega astrônomo amador, que a recolhera de um meteoro despedaçado sobre os campos de Vacaria. Um fragmento do tamanho de um punho fechado, negro como piche, com veios que brilhavam em verde sob luz ultravioleta. Dentro, incrustado numa matriz de gelo sujo, havia um grão. Uma semente, talvez.
...Ou um ovo. A diferença, na xenobiologia, é uma questão de paciência.
Montei um pequeno laboratório no porão da casa alugada, onde o mofo desenhava mapas nas paredes. A chuva tamborilava nas janelas basculantes. Sob o microscópio, a semente era uma esfera recoberta de filamentos tão finos, que dançavam à simples aproximação do calor da lâmpada. Filamentos que lembravam as anteras de uma flor terráquea, mas simétricos demais, matemáticos demais!
...Resolvi descongelá-la gradualmente.
A literatura científica, tão escassa quanto arrogante, recomendaria isolamento nível 4.
Mas eu não tinha recursos e, confesso, tinha uma curiosidade que roía mais que a ferrugem do portão.
Na terceira noite, com o porão iluminado apenas pela luz verde do indicador de temperatura, a semente abriu. Não como uma flor se abre; foi um desatar de nós, um desenrolar de filamentos que se projetaram para fora da cápsula como serpentes de pólen. Um movimento lento, mas tão hipnótico que eu não pisquei.
...E então!, o pólen se soltou. Uma nuvem de partículas menores que poeira, douradas à luz ultravioleta, subiu em espiral e, antes que eu pudesse sequer gritar, tocou meu rosto.
Não foi inalação. Foi injeção. Senti as partículas penetrarem a pele como agulhas frias, subirem pela corrente sanguínea em direção aos nervos periféricos. Era como se fios de gelo se ramificassem dentro de mim. Caí sobre a mesa, o rosto contra o metal gelado, e a última coisa que vi foi o fragmento do meteoro brilhar intensamente, como se estivesse feliz.
Depois, um apagão!
Acordei ainda no porão, com a luz da manhã atravessando as janelas e transformando o ar em névoa dourada. Minhas mãos tremiam. O pavor de uma contaminação alienígena era real, mas quando me levantei e corri ao banheiro para me examinar, não havia ferimentos, nem marcas. Apenas uma sensação... de companhia. Algo se alojara no meu sistema nervoso. E não estava apenas hospedado: estava aprendendo.
Nos dias que se seguiram, a chuva não cessou. São Francisco de Paula se tornou uma cidade submersa em cinzas líquidas.
Eu caminhava pelas ruas de paralelepípedos como um sonâmbulo, e enquanto meus olhos viam as vitrines embaçadas, minha mente via outra coisa. A presença -- o pólen, como passei a chamá-lo -- começou a se comunicar.
...Não com palavras, mas com imagens, memórias que não eram minhas. Pradarias de líquen sob um sol violeta. Florestas de caules pulsantes onde o vento cantava em frequências infrassônicas.
...E uma figura recorrente: um espectro, translúcido e prateado, que dançava entre as árvores como fumaça pensante.
Compreendi que o pólen não era um simples organismo. Era uma consciência latente, uma semente de inteligência vegetal que, em seu planeta natal, germinava nos troncos das 'árvores-nervo'(*desculpem, foi a melhor definição que eu encontrara)para formar um sistema coletivo de mentes. Ali, a florada era um ritual de integração, onde os indivíduos se fundiam temporariamente em um único espectro para compartilhar conhecimento, arte, e algo que só posso descrever como uma forma de amor que não precisava de corpos.
Mas em mim, um mamífero com sistema nervoso centralizado e um ego teimoso, o processo era diferente. O pólen não tinha um tronco para colonizar, então fez do meu cérebro seu caule.
E em vez de me dissolver em um coletivo, ele reconstruiu o espectro dentro de mim. O espectro que eu via dançando nas memórias alienígenas agora habitava meu córtex. De início, era apenas uma silhueta no canto do olho, uma presença que me observava enquanto eu preparava café ou anotava os sintomas. Mas logo ele começou a tomar forma.
Era uma figura humanoide, mas com membros alongados, como um desenho de El Greco(* pintor, escultor, Grego) feito de neblina prateada.
Não tinha rosto, apenas dois pontos mais escuros onde seriam os olhos. Movia-se com uma graça vegetal, inclinando-se quando eu falava com ele.
...Eu o chamei de 'Regente', por causa do brilho.Regente era o pólen, e o pólen era eu. Uma simbiose que nenhum livro previra.
A transformação mais assustadora veio na quinta semana, numa noite de temporal. Eu estava sentado na poltrona, vendo a chuva cair e ouvindo O Regente sussurrar -- agora em palavras, palavras que nasciam diretamente no meu nervo auditivo -- histórias de um universo onde a fotossíntese criara civilizações. Então, senti que minhas pernas formigavam. Olhei: das pontas dos meus dedos dos pés brotavam pequenos filamentos, como raízes aéreas. Entrei em pânico, mas Regente projetou uma sensação de calma tão profunda...que minhas mãos pararam de tremer. 'Não é parasita', ele fez meu próprio pensamento sussurrar.
.. 'É ponte !'
A partir dali, entendi que eu não estava sendo consumido. Estava sendo traduzido. O pólen usava meu corpo para construir um receptor, uma antena que captava algo muito maior. Regente não era um indivíduo; era um fragmento de uma rede, um eco de bilhões de mentes que existiram em um planeta já morto, cuja única esperança de não desaparecer em silêncio fora lançar sementes ao espaço. Sementes que, por acaso ou destino, cairam na Terra e agora encontravam em mim, um jardineiro.
Foi quando me tornei, de fato, o xenobotânico. Não apenas um estudioso de plantas alienígenas, mas um jardineiro de espectros. Eu podia sentir Regente como uma extensão de mim, e através dele, tocava as lembranças daquele mundo perdido. Comecei a cultivar o pólen que ainda restava no fragmento do meteoro. Em pequenos vasos estéreis, usando meu próprio sangue diluído como meio de cultura, fiz brotar estruturas semelhantes a samambaias prateadas que brilhavam no escuro. Quando as tocava, Regente via através delas, e por um instante, o porão se enchia de uma música que não era som, mas uma vibração na alma.
A cidade não entendeu. Os vizinhos notavam a luz estranha saindo das janelas do porão.
...Alguém disse que eu falava sozinho, ou melhor, com as paredes. Em São Francisco de Paula, onde a tradição é tão densa quanto a neblina, comecei a ser chamado de :o bruxo das plantas.
O apelido de xenobotânico veio depois, quando um jornal local publicou uma matéria confusa sobre minhas 'experiências botânicas com amostras de meteoritos';me retratando como uma mistura de cientista louco e eremita.
Mas o clímax chegou numa noite de inverno. Regente, que agora era visível até para mim sem a ajuda da luz ultravioleta, começou a se agitar como nunca. Ele esticou seus membros de névoa e projetou na parede uma imagem nítida: o fragmento do meteoro flutuando, e dentro dele, incontáveis outras sementes, um enxame de pólens adormecidos. Ele me fez entender que havia mais, espalhadas pelo mundo. Outros fragmentos do mesmo asteroide tinham caído em desertos, oceanos, florestas. A rede estava incompleta.
Então veio o pedido: que eu me tornasse o distribuidor. Que usasse meu corpo e meu conhecimento para semear o pólen em outros voluntários. Não para dominá-los, mas para recriar a comunidade perdida, um espectro coletivo de mentes humanas e alienígenas entrelaçadas. Uma segunda chance para aquela civilização moribunda.
Olhei pela janela. A chuva tinha cessado, e um nevoeiro subia do chão como um lençol fantasmagórico. Regente ao meu lado, quase sólido, esperava. Eu não era mais o estudante que abrira a caixa. Era o xenobotânico, aquele que faz a ponte entre reinos. Minha decisão estava tomada: eu cultivaria o jardim invisível, mesmo que isso me levasse à beira da humanidade.
Naquela noite, saí para o pátio. A terra encharcada sugava meus passos. Plantei a primeira samambaia prateada sob a araucária centenária, e enquanto a luz pulsava como um coração, senti Regente se fundir a ela, criando um nó na rede. O ar cheirou a ozônio e jasmim. E pela primeira vez, ouvi uma voz que não era só minha...nem só dele, mas um coro fraco, distante, como o eco de uma canção que as estrelas cantaram antes de nascerem. Então eu ri, com lágrimas nos olhos, porque entendi, que o universo estava muito mais vivo --e muito mais assombrado --- do que qualquer telescópio poderia sonhar.
(*Risos de um cientista louco...olhando para uma cidade com um nevoeiro ---um nevoreiro denso que iria se dissipar, e encarar algo novo).
Fim.
By Santidarko
Nenhum comentário:
Postar um comentário