Helena Macedo de Almeida tinha trinta e seis anos, um apartamento espaçoso demais em São Paulo, e um único amor na vida!
Esse amor se chamava Teodoro, mas ela o tratava por Téo, Teozinho, ou simplesmente, 'meu filho'!
Era um Golden Retriever de pelo dourado, orelhas macias como veludo e um talento especial para derrubar vasos com a cauda. Helena o adotara ainda filhote, numa feira de adoção na Vila Madalena, num sábado de sol em que ela saíra de casa jurando que só ia 'olhar'.
Voltou com uma bolinha de pelos dormindo em seu colo e a sensação absurda de que sua vida tinha acabado de ganhar propósito.
Durante oito anos, Téo foi a família que Helena escolheu!
Festa de aniversário com bolo de cenoura e cenourinha. Sessões de cinema no sofá com a cabeça dele apoiada em seu colo, os olhos castanhos acompanhando a tela como se entendesse o enredo. Perfil no Instagram onde ela postava fotos dele dormindo de barriga para cima, a língua para fora, as patas recolhidas -- @teoogolden, doze mil seguidores, uma legião de desconhecidos que acompanhavam a rotina daquele cachorro como quem acompanha uma novela.
...Quando alguém lhe perguntava se tinha filhos, Helena respondia com o queixo erguido:
— Tenho! Peludo, mas tenho!
Ninguém entendia aquilo. A mãe de Helena, dona Sônia, dizia que ela precisava 'assentar a cabeça','arrumar um homem de verdade', parar de tratar bicho como gente.
Os colegas do escritório de arquitetura trocavam olhares condescendentes quando ela saía mais cedo para levar Téo ao veterinário. Os namorados que passaram por sua vida --nenhum durou mais que seis meses -- cedo ou tarde soltavam a mesma frase: ''Você ama mais esse cachorro do que a mim.'
...Era verdade!
...E Helena não se desculpava por isso!
Téo foi testemunha das suas crises de choro, companheiro das noites de insônia, o único ser vivo que a recebia na porta como se ela fosse o próprio sol entrando em casa. Quando ela chegava exausta do trabalho, ele largava o brinquedo, abanava a cauda com tanta força que parecia desequilibrar o corpo e a lambia até arrancar uma risada. Em noites de tempestade, deitava-se aos pés da cama, atento, como um guardião silencioso.
Nos dias tristes, apoiava o focinho em seu joelho e ficava ali, imóvel, respirando junto.
Quando Téo morreu, o mundo de Helena desabou sem fazer barulho.
...Foi um câncer silencioso!
Hemangiossarcoma, disse o veterinário, com a voz grave de quem já deu essa notícia muitas vezes. Em quarenta e oito horas, Téo passou de cachorro feliz -- ainda abanou a cauda ao vê-la na manhã de quinta -- a corpo frio na mesa de aço da clínica.
Helena segurou a pata dele até o último instante, sentindo a almofadinha que tantas vezes apertara de brincadeira. Quando o coração parou, ela não chorou. Só ficou ali, imóvel, como se o mundo tivesse perdido o som.
Ninguém no escritório entendeu sua dor. Dona Sônia, ao telefone, soltou um suspiro que Helena conhecia bem:
— Pelo menos agora você pode viajar, filha. Aproveitar a vida!
Os amigos enviaram mensagens protocolares: 'Meus sentimentos.'
Depois, silêncio!
... Ninguém apareceu com uma lasanha. Ninguém perguntou se ela queria companhia. Ninguém a abraçou enquanto ela chorava. Porque, afinal, 'era só um cachorro'.
Helena guardou a guia vermelha na gaveta da mesa de cabeceira. Guardou a coleira com plaquinha de prata -- 'Teodoro — contato: Helena' -- no fundo da bolsa, como um amuleto. E passou três dias deitada no chão da sala, exatamente onde ficava a cama dele. O apartamento inteiro cheirava a ausência. Os pelos dourados ainda grudados no sofá, o pote de ração intocado na cozinha, a mancha de baba no vidro da varanda.
Na quarta noite, ela enfiou a cara no tapete onde ele dormia, tentando encontrar o cheiro que já estava desaparecendo, e então, enfim, chorou!
A proposta de emprego veio como uma tábua de salvação, embora Helena soubesse que era apenas uma fuga disfarçada de oportunidade.
Coordenar a restauração de um teatro histórico em Curitiba. O Cine Teatro Ópera, uma joia art déco dos anos quarenta que seria transformada em centro cultural.
O salário era bom!
O prazo era longo. E Curitiba era fria, organizada, o oposto de São Paulo -- o oposto de tudo que ela conhecia.
Partiu sem se despedir de ninguém. Colocou a coleira de Téo no bolso do casaco, sentiu o peso da plaquinha de prata contra o peito e tomou o voo para o sul numa terça-feira chuvosa de abril.
Curitiba a recebeu com seu céu cinza e suas ruas de pedra. Ela alugou um apartamento térreo no bairro Juvevê, com um pequeno quintal que dava para um jardim de inverno. Tinha espaço para plantar hortelã. Tinha uma jabuticabeira no canto. Tinha um pedaço de grama que seria perfeito para um cachorro.
...Seria!
Nos primeiros dias, Helena se ocupou com o trabalho. O teatro era uma ruína gloriosa, cheio de camarins abandonados, poltronas de veludo carcomido, um palco que cheirava a madeira antiga e histórias esquecidas. Ela mergulhou nos projetos, nas medições, nas reuniões com fornecedores. Mas à noite, quando voltava para o apartamento vazio, o silêncio era... insuportável!
E então, numa tarde de maio, enquanto caminhava pelo centro da cidade tentando decorar os nomes das ruas, ela viu o cartaz.
Era uma folha simples, afixada no mural da Biblioteca Pública do Paraná. Letras pretas sobre fundo branco, uma impressão caseira, quase amadora. Dizia:
'Grupo de Apoio para Pais Enlutados -- Toda quarta-feira, 19h, no porão da Catedral Basílica. Não é preciso falar. Basta estar.'
Helena ficou parada diante do cartaz por um tempo que não soube medir.
...Pais enlutados!
...Ela não era mãe de ninguém!
Não tinha carregado um filho no ventre, não tinha velado um corpo pequeno num caixão branco, não tinha fotos de uma criança na carteira. Mas tinha velado um corpo coberto por um lençol azul numa clínica veterinária, com as mãos trêmulas e uma dor tão grande que parecia ocupar todo o espaço entre suas costelas.
O que a levou até lá não foi coragem.
...Foi desespero!
Fome de ser compreendida.
A necessidade insuportável de falar sobre Téo sem que alguém respondesse 'era só um cachorro'.
Na quarta-feira seguinte, Helena atravessou a praça em frente à Catedral Basílica, sentiu o cheiro de incenso e cera que saía pela porta principal, e contornou o prédio até a entrada lateral. Uma escada de pedra conduzia ao porão. Seus sapatos faziam eco nos degraus.
Lá embaixo, a sala era modesta. Paredes de tijolos aparentes, iluminadas por uma luz amarela que deixava tudo com aparência de fotografia antiga. Cadeiras de madeira dispostas em círculo. Uma garrafa térmica com café. Uma caixa de lenços de papel no centro da roda. E oito pessoas.
Oito pessoas com olheiras profundas e ombros caídos.
Oito pessoas que carregavam no peito o peso mais insuportável que existe!
Helena sentou-se na cadeira mais afastada, perto da porta, pronta para fugir se precisasse.
Uma senhora de cabelos grisalhos e voz mansa -- dona Glória, ex-professora primária -- coordenava o grupo.
Havia ali uma jovem de vinte e poucos anos que perdera um bebê de colo.
Havia um casal de meia-idade cujo filho adolescente batera o carro numa madrugada.
Havia uma mulher que não dizia nada, apenas chorava em silêncio, abraçada a um ursinho de pelúcia gasto.
...E havia ele!
Sentado perto da janela, um homem de ombros largos e mãos que pareciam esculpidas em madeira. Usava um avental manchado de verniz, como se tivesse saído direto do trabalho. Os cabelos castanhos começavam a ficar grisalhos nas têmporas. Os olhos eram escuros e demoravam a piscar, como se tivessem esquecido o ritmo do mundo.
Ele não falou durante toda a reunião. Apenas ouviu. E seus olhos estavam sempre marejados, como se prestes a transbordar sem nunca cair.
Quando chegou sua vez de falar, Helena sentiu a boca seca. As palavras emperradas na garganta. Sabia que não podia dizer a verdade -- 'meu cachorro morreu'.!
Já imaginava os olhares de incredulidade, a indignação muda, talvez um pedido para que se retirasse. Aquele não era lugar para ela.
...Então mentiu!
Quase sem querer. Como quem tropeça.
— Meu nome é Helena. Meu filho... ele se chamava Téo.
E Téo renasceu ali: não mais como um Golden Retriever de pelo dourado e cauda de vassoura, mas como um menino humano. Um menino que nunca existiu, mas que agora precisava ganhar rosto, história, brinquedo favorito, comida preferida.
As semanas seguintes foram um exercício de construção.
A cada reunião, uma nova mentira.
Na segunda reunião, dona Glória perguntou de que Téo tinha morrido. Helena pensou rápido.
..Leucemia, respondeu!
Leucemia aos seis anos. E assim Téo ganhou idade e uma doença, longa, cruel, cheia de internações e falsas esperanças.
Ela descreveu corredores de hospital, noites em claro ao lado da cama, a quimioterapia que parecia funcionar até que não funcionou mais. Não eram memórias reais, mas eram tão vívidas que às vezes ela mesma quase acreditava!
Na terceira reunião, dona Glória sugeriu que cada pai trouxesse um objeto do filho. Algo para compartilhar com o grupo. Helena entrou em pânico.
O que levaria?
A coleira de Téo?
A bolinha de borracha que ele adorava?
Passou uma tarde inteira vasculhando lojas de antiguidades no centro de Curitiba. Encontrou um coelhinho de pelúcia numa vitrine empoeirada da Rua Riachuelo. Era marrom, gasto, com uma orelha rasgada e um olho torto. Parecia ter sido amado por alguém. Helena comprou na hora.
Na reunião seguinte, segurou o coelhinho no colo e disse, com a voz embargada:
— Ele dormia com este coelho todas as noites. Se chamava Pipoca.
Uma das mães enlutadas sorriu entre as lágrimas. Outra perguntou se Téo tinha outros brinquedos. Helena começou a inventar: um caminhão de bombeiro vermelho, uma espada de plástico, uma coleção de gibis da Turma da Mônica que ele guardava embaixo do travesseiro.
O homem perto da janela ergueu os olhos e encontrou os dela.
Depois da reunião, ele se aproximou. E Helena sentiu o cheiro de serragem e verniz que emanava de sua roupa, um perfume áspero e doce ao mesmo tempo.
— Meu filho também tinha um bicho , dissera ele, com a voz grave e pausada, como se cada palavra custasse.
— Um macaco de pelúcia. Chamava Bananinha. Até hoje guardo!
Era a primeira vez que ele falava. Seu nome era Lucas.
Lucas Novaes Resende. Quarenta e um anos. Marceneiro e restaurador de imagens sacras. Tinha perdido a esposa e o filho num mesmo dia, um ano e quatro meses atrás, nas águas barrentas do Rio das Velhas, durante um passeio que deveria ser feliz. O menino se chamava João. Sete anos. Sabia nadar, mas a correnteza era mais forte.
Lucas contou isso tudo num café depois da quarta reunião, quando convidou Helena para tomar um chocolate quente na padaria em frente à Catedral. A noite estava fria, e o vapor das xícaras subia como pequenos fantasmas entre eles.
— Faz um ano e quatro meses , contara ele, mexendo o chocolate com a colher.
— ...E ainda tem dias... que eu acordo achando que vou ouvir a risada dele na sala.
Helena sentiu o coração apertar. Queria contar a verdade. Queria dizer que entendia aquela dor, mas que seu filho tinha quatro patas e um rabo que abanava. Queria confessar que também acordava esperando ouvir passos que não viriam mais -- patas no chão de taco, unhas arranhando a porta, um latido abafado.
...Mas não conseguiu!
Em vez disso, começou a inventar
...Eduardo.
— Meu marido... ele não aguentou , dissera ela, com os olhos fixos na xícara.
— Depois que o Téo morreu, ele foi embora. Não conseguiu ficar na casa, olhar para mim, para os brinquedos... Disse que cada canto lembrava o menino. Um dia eu cheguei do trabalho e ele tinha sumido. Só deixou um bilhete.
Lucas a olhou com uma compaixão tão profunda, que Helena quase se afogou nela.
—...Sinto muito! , confortada ele.
Ela assentiu, incapaz de responder, porque a mentira pesava agora como chumbo no estômago.
Nas semanas seguintes, a história de Téo cresceu em detalhes.
Ela contou que ele gostava de desenhar nuvens. Que tinha medo de trovão.
Que o prato preferido era macarrão com salsicha, mas só se a salsicha fosse cortada em rodelinhas, nunca em pedaços grandes.
Que ele ria com a boca toda aberta, mostrando uma falha nos dentes da frente.
Que no último Natal, pediu uma bicicleta azul, mas nunca aprendeu a andar sem rodinhas.
...Eram mentiras!
Mas eram mentiras que doíam como verdades.
Porque, no fundo, Helena falava de Téo.
Do verdadeiro Téo. O Golden Retriever que tinha medo de trovão e se escondia atrás do sofá. Que comia macarrão escondido quando ela não estava olhando. Que a recebia com tanta alegria, que parecia rir com a boca toda aberta, a língua para fora.
...Que no último Natal ganhou uma caminha nova e passou a noite inteira abanando a cauda.
Ela criou uma pasta no celular. 'Téo -- Fotos'.
Mas as imagens que guardava ali não eram do cachorro. Eram fotos aleatórias de crianças desconhecidas, baixadas da internet: uma nuca loira, uma mão pequena segurando giz de cera, uma silhueta contra o pôr do sol.
Para Lucas, ela mostrava apenas a nuca do suposto menino. Dizia que não conseguia olhar para o rosto dele ainda.
...Que doía demais!
Lucas nunca insistiu.
Ele entendia. Ele também tinha fotos que não conseguia olhar.
O problema, Helena descobriu tarde demais, é que mentiras criam raízes.
... E raízes, se não forem arrancadas a tempo, viram árvores.
Dois meses depois da primeira reunião, ela e Lucas já não eram apenas dois estranhos que dividiam um café.
Eram quase amigos.
Quase confidentes.
Quase alguma coisa que ela não ousava nomear.
Ele a levou para conhecer sua oficina, um galpão nos arredores do bairro São Francisco, cheio de santos mutilados e anjos sem asas. Mostrou a ela como restaurava as imagens barrocas que chegavam das igrejas históricas do interior. Havia uma Nossa Senhora das Dores sem mãos. Um São Miguel Arcanjo sem espada. Um Menino Jesus cujo rosto tinha sido carcomido pelo tempo.
— Meu trabalho é consertar o que parece irreparável , dissera Lucas, lixando com cuidado a borda de um altar.
— É nisso que eu acredito!
Helena olhou para ele -- as mãos firmes, os olhos concentrados, a serragem nos cabelos -- e sentiu um aperto no peito que era ao mesmo tempo ternura e pavor.
— E quando não tem conserto!? , perguntara.
Lucas parou de lixar. Ergueu os olhos para ela.
— Sempre tem. A gente só não sabe ainda como.
Foi nesse instante que Helena se apaixonou. Não com fogos de artifício ou borboletas no estômago, mas com a gravidade silenciosa de quem escorrega num barranco e já não pode mais voltar.
...E foi também nesse instante que ela percebeu que estava perdida.
Porque Lucas amava uma mulher que não existia. Uma mãe enlutada que chorava por um menino de seis anos, não por um Golden Retriever. Uma viúva abandonada por um marido que nunca existiu. Uma sobrevivente que carregava uma dor que não era a sua.
A dor de Helena era real. Mas o filho, não!
Na última quarta-feira de agosto, dona Glória fez um anúncio que congelou o sangue de Helena.
— No Dia de Finados, vamos fazer uma homenagem coletiva , disse raa velha senhora, com a voz serena.
— Cada um vai ao túmulo do seu filho, acende uma vela e traz uma flor para compartilhar na reunião seguinte.
Helena sentiu o chão se abrir.
Os outros pais assentiram. Alguns já sabiam o que levariam: rosas brancas, margaridas, girassóis. Lucas disse que plantaria um manacá no jardim da oficina, porque era a flor que João mais gostava.
— E você, Helena? , perguntou dona Glória. — Que flor vai levar para o Téo?
— Crisântemo , respondera ela, porque era a primeira flor que lhe veio à mente.
Naquela noite, Helena voltou para o apartamento do Juvevê e vomitou!
Ela não tinha um túmulo para visitar.
Téo, o verdadeiro Téo, tinha sido cremado. Suas cinzas estavam num vaso de cerâmica azul na estante da sala, ao lado de uma foto sua correndo na praia e da coleira vermelha. Mas não havia túmulo. Não havia lápide com nome e data.
Não havia um lugar no cemitério onde ela pudesse acender uma vela e fingir que era mãe de uma criança morta.
A não ser que...
A ideia surgiu como um verme. Repugnante e inevitável.
Ela poderia ir a qualquer cemitério de Curitiba. Escolher um túmulo ao acaso. Uma criança enterrada ali há anos, esquecida por todos. E fingir que era o seu filho.
Passou a noite em claro, revirando a ideia na cabeça.
Era loucura!
Era obsceno.!
...Era a única saída que lhe restava!
Na manhã seguinte, um sábado nublado, Helena tomou um ônibus até o Cemitério Municipal São Francisco de Paula.
As alamedas estavam desertas. Os ciprestes balançavam ao vento frio.
Ela caminhou entre os túmulos como uma ladra, procurando lápides de crianças.
Encontrou várias. Algumas recentes, com flores ainda frescas e brinquedos sobre a pedra. Outras antigas, cobertas de limo, abandonadas há décadas.
E então, numa alameda lateral, sob a sombra de um ipê sem flores, ela viu!
Um túmulo simples, de mármore gasto. A inscrição dizia: 'Mateus Oliveira. 2012-2018. Saudades eternas de seus pais.'
Mateus. Seis anos. A mesma idade que Helena inventara para Téo.
Ela ficou parada diante da lápide por muito tempo. Depois se ajoelhou, arrancou as ervas daninhas que cresciam ao redor, limpou a pedra com as mãos nuas.
— Me perdoa, Mateus , sussurrara
— Eu sei que você não é meu filho. Mas eu preciso de um lugar para chorar!
E chorou. Ali, de joelhos sobre a terra fria, chorou por Téo, o cachorro que ninguém considerava digno de luto. Chorou por Lucas, que a amava sem saber quem ela realmente era. Chorou por si mesma, pela solidão insuportável de carregar uma dor que o mundo inteiro julgava ridícula.
Quando se levantou, as calças estavam sujas de terra e os olhos inchados.
...Mas sentia-se estranhamente leve.
Foi então que ouviu uma voz atrás de si.
— Helena?
Ela se virou.
Lucas estava ali, parado na alameda, segurando um buquê de flores. Visitava o túmulo do filho, que ficava algumas quadras adiante. Seus olhos iam de Helena à lápide, da lápide a Helena.
— É aqui? , perguntara ele, com a voz incerta.
— O túmulo do Téo?
Helena quis dizer a verdade. Todas as palavras se acumularam na garganta: 'Não, Lucas, Téo não está aqui, Téo está num vaso azul na minha estante, Téo era um cachorro, Téo tinha quatro patas e um rabo que abanava, e eu menti para você, eu menti para todos, me perdoa, me perdoa, me perdoa.'
Mas o que saiu foi:
— É....Aqui!
Lucas se aproximou. Depositou uma flor de manacá sobre a lápide de Mateus.
... E depois, com uma naturalidade que desarmou Helena por completo, passou o braço ao redor dos seus ombros.
— É bonito o nome dele , dissera
Ela não respondeu. Apenas encostou a cabeça no ombro de Lucas e fechou os olhos, deixando que a mentira a envolvesse como um abraço.
O retorno para casa foi silencioso. Lucas dirigiu seu carro velho pelas ruas de Curitiba, as mãos firmes no volante, os olhos fixos na estrada. Helena ia ao seu lado, olhando pela janela, vendo as luzes da cidade passarem como fantasmas.
— Posso te fazer uma pergunta? , dissera Lucas, de repente.
— Pode.
— Como ele era? O Téo. De verdade.
Helena fechou os olhos. E então, sem planejar, começou a falar.
Não sobre o menino inventado. Mas sobre o cachorro.
— Ele era dourado! —,dissera ela.
— Tinha os olhos cor de mel. As orelhas macias, muito macias. Quando ficava feliz, abanava a cauda com tanta força que derrubava tudo ao redor. Ele dormia no meu quarto, aos pés da cama. De manhã, me acordava lambendo meu rosto. Ele gostava de correr na praia, de deitar no sol, de comer cenoura. Tinha medo de trovão. E eu... eu amava ele. Amava mais que tudo.
...Mais que a mim mesma!
Lucas ficou em silêncio por um momento.
— Você está falando de um cachorro? , perguntara, por fim.
O coração de Helena parou.
O carro entrou na Rua das Flores. As luzes dos postes passavam em intervalos regulares, iluminando o rosto de Lucas em lampejos. Ele não parecia zangado. Apenas... curioso.
— Sim , confessara Helena.
— Um Golden Retriever.
Silêncio.
— Ele era o meu filho , continuara ela, com a voz embargada.
— Eu sei que não é a mesma coisa. Eu sei que as pessoas acham ridículo. Mas eu não tinha mais ninguém no mundo, Lucas. Só ele. E quando ele morreu, ninguém me abraçou. Ninguém me disse que ia ficar tudo bem. Ninguém me levou uma flor.
O carro parou em frente ao apartamento de Helena. Lucas desligou o motor e ficou olhando para o volante, como se buscasse ali as palavras certas.
— Eu não sei o que é perder um cachorro — dissera ele, por fim.
— Mas eu sei o que é perder quem você ama. E a dor não tem hierarquia, Helena. A dor é só dor!
Ela sentiu as lágrimas escorrerem.
— Você está com raiva de mim?
Lucas virou-se para ela. Seus olhos escuros estavam marejados, como sempre, mas agora havia algo diferente ali. Uma espécie de compreensão triste.
— Não estou com raiva , respondera
— Só estou pensando numa coisa.
— O quê?
— Que o túmulo que a gente visitou não era do seu filho. E que a gente vai precisar de um lugar de verdade para acender a vela no Dia de Finados.
Helena piscou, sem entender.
— Como assim?
Lucas pegou a mão dela. As mãos ásperas de marceneiro envolveram seus dedos frios.
— Você tem as cinzas dele, não tem? Do Téo.
— Tenho.
— Então a gente vai plantar uma árvore. Uma jabuticabeira, que nem aquela do seu quintal. E a gente vai colocar as cinzas na terra. E ela vai crescer, e dar frutos, e você vai ter um lugar para visitar. Um lugar de verdade!
Helena olhou para ele por um longo tempo. Depois sorriu -- um sorriso frágil, ainda molhado de lágrimas.
— Você faria isso por mim?
— Faria , afirmara Lucas.
— Mas você vai ter que fazer uma coisa por mim também.
— O quê?
— Da próxima vez que a gente for ao grupo, você vai contar a verdade. Sobre o Téo. Sobre tudo.
O sorriso de Helena vacilou.
— Eles vão me odiar.
— Talvez. Mas a dona Glória sempre diz que o grupo é para quem quer sarar. E você não vai sarar se continuar carregando essa mentira.
— E você? , perguntara ela, com a voz pequena.
— Vai continuar... comigo?
Lucas apertou sua mão.
— Helena, eu passei o último ano e meio consertando santos quebrados. Devolvendo asas a anjos que tinham perdido tudo. Você acha mesmo que eu vou desistir de você por causa de um cachorro?
Ela riu, e o riso se misturou ao choro, e as duas coisas juntas pareceram, pela primeira vez em muitos meses, com esperança.
Na quarta-feira seguinte, Helena desceu as escadas de pedra da Catedral Basílica pela última vez. Não levava o coelhinho de pelúcia. Levava apenas a coleira vermelha de Téo no bolso do casaco.
Sentou-se no círculo. Olhou para dona Glória, para os pais enlutados, para Lucas, que lhe devolveu um aceno quase imperceptível, como quem diz: estou aqui.
E então, com a voz trêmula mas as palavras firmes, disse:
— Meu nome é Helena. E eu quero contar a vocês sobre o meu filho. O meu filho de verdade.
No bolso, seus dedos se fecharam em torno da coleira.
A plaquinha de prata estava fria contra sua pele.
Mas seu coração, pela primeira vez desde a morte de Téo, estava quente!
FIM.
By Santidarko
Nenhum comentário:
Postar um comentário