segunda-feira, 22 de junho de 2026

Corisbelle e a cidade de Lacrimosel (*Personagem by Santidarko)


Corisbelle  é uma menina de doze anos que parece ter nascido já despedaçada. 
...Sua pele tem a palidez leitosa de quem nunca recebeu sol suficiente, e seus longos cabelos negros caem em mechas irregulares, como se ela mesma os cortasse com uma tesoura enferrujada. 

Seus olhos são de um castanho tão escuro ,que beiram o preto, e têm a profundidade de poços abandonados: olham para dentro antes de olhar para fora. Veste sempre o mesmo vestido de veludo cinzento, puído nas mangas, com uma gola de renda que sua falecida avó começou a bordar ...e nunca terminou !--- os fios soltos dançam quando ela se move.

Corisbelle fala pouco, mas quando o faz, suas palavras são escolhidas como quem apanha cacos de vidro. Ela tem o hábito de colecionar objetos minúsculos que ninguém mais valoriza: um botão sem par, uma chave que não abre nada, um selo de carta que nunca chegou.

 Esses objetos vivem num pote de vidro que ela chama de Museu das Coisas Órfãs

.... Sua única alegria verdadeira era Sombra, um labrador de pelo negro como tinta fresca, com olhos castanhos profundos ...que pareciam compreender tudo o que ela não dizia. 

Corisbelle conversava com ele em sussurros, abraçando seu corpo morno e macio nas noites frias, e Sombra dormia aos pés de sua cama, um vulto escuro que aquecia seus pés gelados e afastava os pesadelos.

O padrasto, um homem seco e amargo chamado Cipriano Desalma, sempre a considerou uma presença incômoda -- uma testemunha indesejada de um casamento anterior que ele preferiria apagar. A mãe de Corisbelle, Dona Isaura, está doente dos pulmões... e passa os dias tossindo junto à janela, envolta em xales, dizendo 'sim' a tudo que o marido decide. 

Quando Cipriano deu Sombra a uma família de outra cidade, Corisbelle sentiu que a última brasa do seu peito estava sendo pisoteada!

...Naquela noite, não chorou. Apenas encheu os bolsos do vestido com os objetos do Museu das Coisas Órfãs, pegou uma lanterna cuja luz era amarela e trêmula como uma vela, e saiu pela porta dos fundos. 

Não deixou bilhete. 

...Deixou apenas a ausência!

...

O cachorro chamava-se Sombra -- porque, desde filhote, acompanhava Corisbelle como uma segunda silhueta, um vulto preto e fiel colado aos seus calcanhares. Ela o chamava com a voz mais doce que possuía, e ele respondia com um abanar de cauda que fazia seu corpo inteiro oscilar, uma mancha de tinta viva contra o chão gasto da casa.

...

A cidade para onde o padrasto enviou Sombra chama-se Lacrimosel, um vilarejo encravado entre montanhas de carvão e um mar que não brilha!

O nome deriva de lacrimosa —'cheia de lágrimas' -- e diz a lenda que a cidade foi fundada por uma mulher que chorou um rio de pranto até que suas lágrimas formassem o único lago do lugar, o Lago Suspiro, cujas águas são paradas e cinzentas como mercúrio. 

Em Lacrimosel, 'chove trezentos dias por ano', e os habitantes usam sombrinhas de renda preta e caminham devagar, como se carregassem pesos invisíveis nos ombros.
 

As casas são estreitas e altas, com janelas que mais parecem pálpebras cerradas!



Corisbelle seguiu o caminho de terra batida que seu padrasto percorrera dois dias antes, quando voltou sem Sombra e sem explicação!

 ...Ela sabia que a família destinatária se chamava Os Penedos,  que moravam numa casa com telhado de ardósia azul-escura, a única da rua com uma figueira seca na frente.

Chegou a Lacrimosel ao cair da noite, quando a garoa fina como agulhas começou a cair. 

As ruas estavam desertas, e os lampiões a gás lançavam uma luz alaranjada e doentia sobre os paralelepípedos molhados. 

...Em cada esquina, estátuas de crianças de pedra seguravam vasos de onde brotavam flores negras. Corisbelle sentiu que aquelas estátuas a observavam com olhos de musgo.

Ao encontrar a casa dos Penedos, bateu à porta com os nós dos dedos, três pancadas secas. Quem atendeu foi uma mulher de vestido cor de ameixa e rosto alongado, a Senhora Eulália Penedo, que a examinou sem surpresa, como se já a esperasse há muito tempo.

—... Então, és tu a dona do cão negro , disse Eulália, com uma voz doce e oca. 
— Entra, menina. Sombra está no quintal dos fundos, brincando com as outras crianças.

Corisbelle atravessou o corredor da casa, onde as paredes eram cobertas por retratos ovalados de pessoas que pareciam tristes e pálidas. 

No quintal, havia um jardim cinzento, com grama alta e descolorida como cabelos de velhos, e lá estavam quatro crianças, todas de olhos muito abertos e roupas antiquadas, sentadas em círculo ao redor de Sombra. 

...O labrador estava imóvel, os olhos fixos, como se dormisse de olhos abertos. 
...Seu pelo negro não tinha o brilho de sempre; estava opaco e frio como pedra de rio. Corisbelle correu para ele e o tomou nos braços. Sombra não respirava.

— Ele é nosso agora! , dissera uma das crianças, uma menina com tranças loiras e um sorriso que não alcançava os olhos. 
— Nós também fomos dados à Senhora Eulália. Nossos pais nos deram, como o teu padrasto dera o cão!

Corisbelle compreendeu, com um arrepio que lhe subiu pela espinha como uma centopeia de gelo:' aquelas crianças não estavam vivas!'.

...'Eram espectros', memórias de crianças que foram rejeitadas, entregues ou esquecidas, e que agora viviam naquela casa como bonecas de um tempo parado

A Senhora Eulália alimentava-se não de carne, mas de devoção -- o amor que as crianças sentiam por algo ou alguém era transformado em sustento para mantê-las ali, num estado de eterna brincadeira triste. Sombra fora levado porque o amor de Corisbelle por ele era tão puro e intenso ,que brilhava como uma chama no escuro, e a Senhora Eulália precisava dessa chama para aquecer seu reino de penumbra.

Corisbelle sentiu o coração afundar no peito, ...mas não fugiu!

... Em vez disso, sentou-se no chão úmido do jardim e colocou a cabeça de Sombra em seu colo, alisando suas orelhas macias e frias. Das crianças espectrais, a que mais se aproximou foi um menino de suspensórios e olheiras profundas, que se apresentou como Salviano.

—. ..Se quiser que ele volte ,a ser como antes, terá que ceder algo , explicara Salviano, com uma voz que parecia o eco de um sino distante. 
— A Senhora Eulália  gosta de coisas caras!

A memória mais feliz de Corisbelle. Ela revirou o Museu das Coisas Órfãs dentro de si mesma e encontrou-a: a tarde em que Sombra, ainda filhote, uma bolinha de pelo escuro e patas desajeitadas, adormeceu sobre seus pés e ela sentiu, pela primeira vez, que alguém no mundo a amava sem condições!

O calor daquele pequeno corpo negro, o suspiro canino, a confiança absoluta. Aquela memória era uma brasa que a aquecia nas noites em que o padrasto gritava, ou a mãe tossia sangue.

Corisbelle fechou os olhos e pensou. 

...Não havia garantias!

A Senhora Eulália era uma criatura de barganhas, não de justiça!
 ...Mas Corisbelle era, acima de tudo, uma colecionadora de coisas órfãs, 'arqueóloga ' de cousas perdidas pelas pessoas--e Sombra era a mais órfã e substancial de todas, naquele momento!


Eulália marcou de se encontrar com Corisbelle em uma igreja abandonada ali perto de sua casa , para lhe propor uma barganha, ao longe dos atentos ouvidos  de seu marido e das curiosas crianças!


Na noite seguinte....

...Subiu a colina até a Capela dos Sinos Ocos, uma construção de pedra negra cujo campanário não abrigava sinos, mas sim,  buracos vazios por onde o vento assobiava melodias de luto. 


...Lá dentro, a escuridão era espessa como veludo molhado. Os bancos de madeira carcomida alinhavam-se em fileiras tortas, e o altar, que outrora sustentara imagens sagradas, agora exibia apenas uma pedra nua e rachada, de onde brotava uma luz pálida e pulsante, como um coração subterrâneo. 

O vento atravessava os buracos do campanário e produzia um som que não era bem um assobio, mas um lamento prolongado, uma nota contínua que parecia a respiração de algo muito antigo e muito cansado.

A Senhora Eulália Penedo já estava lá, sentada no primeiro banco, as mãos cruzadas sobre o colo como uma santa de cemitério. Seu vestido cor de ameixa arrastava-se pelo chão de pedra, e seu rosto alongado estava iluminado pela luz bruxuleante de sete velas negras dispostas em círculo aos seus pés.

— Fizeste bem em vir, menina! ,dissera Eulália, sem se virar. 
— A maioria chora, esperneia, chama pela mãe. Tu não. Tu vieste. Isso é raro!

Corisbelle avançou pelo corredor central, sentindo o frio das lajes subir pelos seus pés. Parou diante do altar, e disse:
— Quero o meu cão de volta !

 Corisbelle. Sua voz não tremia, embora suas mãos sim.

— E eu quero algo em troca , respondera Eulália, virando-se finalmente. Seus olhos eram de um verde desbotado, como folhas que apodrecem no outono. 
— Não me contento com pouco, menina!O  smor a um animal amado é uma iguaria rara. Não o troco por bagatelas!

— O que quer?

Eulália sorriu. Seus dentes eram pequenos e numerosos, como os de um peixe abissal.

— Há uma casa em Lacrimosel, na Rua dos Chorões, número treze. Lá vive uma mulher chamada Dona Filomena das Dores. Ela possui uma joia que me pertence por direito, embora ela não o saiba. Chama-se Lágrima de Heliotrópio, um broche de prata escura com uma pedra cor de sangue seco. Quero que a tragas para mim.

— Por que não a  pega ....Você mesma?
, perguntara Corisbelle, com a desconfiança de quem já aprendera a não confiar em adultos.

— Porque não posso entrar naquela casa!, admitiu Eulália, e pela primeira vez sua voz perdeu a doçura. 
— Filomena é uma mulher que nunca amou nada, nem ninguém. Não há devoção em seu coração, apenas posse! Minha fome não encontra porta em corações assim. Ela me repele como o alho repele os vampiros das histórias antigas. Mas tu... tu és uma menina viva, com um coração que ainda bate. Tu poderás entrar!

Corisbelle pensou em Sombra, imóvel no jardim cinzento, seu pelo negro sem brilho. Pensou na língua morna que lambia suas mãos, na cauda que batia como um tambor feliz.

— Se eu trouxer o broche, devolve o Sombra?

— Palavra de Eulália Penedo , dissera a sombria  mulher, levando a mão ao peito num gesto teatral. 
—... E a minha palavra é a única moeda que jamais desvaloriza nesta cidade!

Corisbelle não acreditou totalmente, mas não tinha alternativa. Como um farol em busca de algo na escuridão ,deixou a capela, descendo a colina rumo à Rua dos Chorões.

---

A casa número treze era uma construção estreita de três andares, com sacadas de ferro forjado que pareciam gaiolas vazias. As janelas estavam todas fechadas, exceto uma, no último andar, de onde escapava uma luz trêmula de lamparina. Uma trepadeira seca subia pela fachada como veias petrificadas.

Corisbelle bateu à porta!

...O som ecoou por dentro como se a casa estivesse oca. Depois de um longo silêncio, passos arrastados aproximaram-se, e a porta abriu-se numa fresta, revelando metade de um rosto enrugado e um olho cinzento que a examinou de cima a baixo.

— O que quer uma criança, a esta hora da noite? , perguntou a mulher, Dona Filomena, com uma voz áspera como lixa.

— Sou viajante ,mentira Corisbelle.
 — Perdi-me no caminho e vi a luz. Poderia dar-me um copo de água?

Filomena hesitou. Seu olho cinzento vasculhou a rua deserta atrás da menina, como se procurasse cúmplices ou armadilhas. Finalmente, abriu a porta o suficiente para que Corisbelle entrasse.

O interior da casa era um museu de coisas acumuladas. Pelas paredes, pendiam tapeçarias mofadas; sobre mesas e cadeiras, amontoavam-se bibelôs de porcelana rachada, relógios parados, candelabros sem velas, livros com as lombadas desfeitas. 

...Tudo cheirava a naftalina e a tempo estagnado. Mas o que chamou a atenção de Corisbelle foi uma vitrine de vidro, no centro da sala principal, iluminada por uma única lâmpada. Dentro dela, sobre uma almofada de veludo desbotado, repousava o broche: uma lágrima de prata escura, com uma pedra cor de sangue seco incrustada no centro, que absorvia a luz e não a devolvia.

— Bebe , dissera Filomena, estendendo um copo de água turva.

Corisbelle bebeu um gole por educação, sem desviar os olhos da vitrine.

— É bonito, afirmara, apontando para o broche.

— Não é para meninas ,'ensinara' Filomena, fechando a cara. 
— Foi presente do meu falecido marido, Ezequiel das Dores, no dia do nosso casamento. Ele disse que a pedra era uma lágrima de anjo. Tolice!Anjos não choram!

— Choram, sim — afirmara Corisbelle, baixinho.
 — Eu sei que choram!

Filomena olhou-a com um estranhamento súbito, como se visse algo na menina que não estava lá antes.

— Tu não és uma criança comum! , murmurou.

— Sou apenas uma colecionadora! , dissera Corisbelle, e pela primeira vez usou a palavra com orgulho. 
— Guardo coisas que ninguém quer. O seu broche... a senhora ainda o ama?

Filomena piscou, confusa.

— Amar? O que tem o amor a ver com isso? Aquilo é meu. É uma posse. Uma recordação. Um objeto.

— Então não o ama — concluira Corisbelle@ ...Apenas o guarda!

E, num gesto rápido, meteu a mão no bolso do vestido e retirou um dos objetos do seu Museu das Coisas Órfãs: um selo de carta que nunca foi enviada, amarelado pelo tempo, com a imagem de uma garça em relevo.

— Troco este selo pelo broche , ofertara!

Filomena riu, um riso seco e desagradável.

— Um selo velho por uma joia? Estás louca?

— Este selo pertenceu a um homem que escreveu uma carta de amor e nunca a enviou!Ele morreu antes de ter coragem. A carta perdeu-se, mas o selo ficou. Carrega a história de um amor que nunca foi dito. O seu broche carrega a história de um amor que a senhora já esqueceu. Qual vale mais!?

Dona Filomena fitou o selo. Algo no seu rosto enrugado vacilou.

— Como sabes a história deste selo?

— Não sei , admitira Corisbelle. 
— Inventei-a agora. Mas podia ser verdade. E se for, este selo é mais raro do que o seu broche. Porque o broche foi dado. O selo, não. O selo é uma coisa órfã. E coisas órfãs têm mais valor do que coisas possuídas.

A velha ficou em silêncio por um longo momento. Depois, com as mãos trêmulas, abriu a vitrine, retirou o broche e colocou-o na palma da mão de Corisbelle. Em troca, tomou o selo e examinou-o à luz da lamparina.

— Some daqui , dissera, com a voz embargada. 
— Suma, antes que me arrependa!

Corisbelle não esperou que o dissesse...duas vezes!

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Quando retornou à Capela dos Sinos Ocos, a aurora começava a despontar sobre Lacrimosel, uma aurora cinzenta e pálida como leite aguado. Eulália ainda estava lá, imóvel como uma estátua de cera.

— Conseguiste ,perguntara com uma ansiedade  faminta!
— ...A velha Filomena nunca cedeu nada a ninguém!

Corisbelle estendeu o broche. Eulália tomou-o com avidez e prendeu-o no peito do seu vestido cor de ameixa. A pedra cor de sangue seco brilhou por um instante, como se reconhecesse a sua verdadeira dona.

— O Sombra!,exigira Corisbelle.

Eulália suspirou, contrariada, mas cumpriu a promessa. 

— Leva-o. Mas lembra-te: deste-me algo teu. Não a joia; a astúcia. Aprendeste a barganhar como uma das minhas. Isso também tem preço!

Corisbelle não respondeu. Desceu a colina correndo, com os pés apressados nos paralelepípedos molhados, e irrompeu no jardim cinzento da casa dos Penedo. 

'As crianças espectrais' ainda estavam lá, sentadas em círculo, como se o tempo não passasse. Sombra continuava imóvel, mas quando Corisbelle o beijou... junto ao seu focinho , o labrador estremeceu. Seus olhos recuperaram o brilho castanho, seu peito encheu-se de ar, e ele lançou um latido curto e grave, como um trovão abafado.

— Vá! , disse Salviano, o menino de suspensórios e olheiras profundas, com um sorriso triste. 
— Vá antes que ela mude de ideia. Mas volta um dia. Nós gostamos de ti!

Corisbelle abraçou Sombra com força, sentindo o calor do seu corpo negro, o bater do seu coração fiel. Depois ergueu-se, chamou-o com um assobio baixo, e juntos deixaram Lacrimosel para trás, enquanto a chuva recomeçava a cair, fina e persistente como a memória.

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Epílogo: O que ficou

Meses depois, quando Dona Isaura finalmente sucumbiu à doença dos pulmões e Cipriano Desalma partiu sem deixar rastro, Corisbelle encontrou, no fundo de uma gaveta da escrivaninha do padrasto, um documento assinado com tinta vermelha. Era um pacto: Cipriano prometera não apenas Sombra, mas a própria Corisbelle à Senhora Eulália Penedo, em troca de uma prosperidade que nunca chegora!

 A menina estava destinada a tornar-se a quinta criança espectral do jardim cinzento.

...Mas escapara! 

Ao barganhar com Eulália de igual para igual, ao oferecer sua astúcia em vez de sua memória mais feliz, Corisbelle quebrara o pacto sem o saber. A Senhora Eulália não podia tomar quem já havia negociado como uma igual.

Corisbelle guardou o documento no Museu das Coisas Órfãs, ao lado do selo que não entregara a Filomena (pois, no último instante, substituíra-o por um  outro ,sem par, e a velha não percebera!). 

....O verdadeiro selo ainda estava consigo!

À noite, deitada na cama onde Sombra dormia a seus pés, um vulto negro e morno, Corisbelle às vezes sonhava com Salviano e as outras crianças espectrais.

 Sonhava que voltava a Lacrimosel com uma mala cheia de coisas órfãs, e que as trocava por fragmentos de histórias, por memórias esquecidas, por sopros de amor que ninguém mais queria. Sonhava que se tornava, ela própria, uma Senhora de um tipo diferente -- não uma colecionadora de devoção alheia, mas uma guardiã de coisas perdidas.

...E numa noite de outono, quando a chuva batia na janela como dedos de espectro, Corisbelle encontrou, costurado no forro do seu vestido de veludo cinzento, um fio de cabelo loiro, que não era seu!


... Pertencia à menina de tranças do jardim, a que sorria sem alcançar os olhos. Corisbelle guardou-o no pote de vidro, ao lado do selo, do botão e da chave que não abria nada.

O Museu das Coisas Órfãs ganhara mais uma peça.

E Sombra, o labrador preto, gania baixinho enquanto dormia. Porque os cães sonham, e no sonho de Sombra havia um jardim cinzento, quatro crianças que o chamavam para brincar, e uma menina de suspensórios e olheiras profundas que lhe coçava atrás da orelha e sussurrava:

— Volta sempre. Nós também somos coisas órfãs. E um dia alguém nos há de nós guardar e amar,!



Fim.




By Santidarko 

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