quarta-feira, 10 de junho de 2026

O ruído da escuridão e o barulho do nada se movendo


Pequena introdução

Esta é a história de uma mulher que foi ao encontro da escuridão para filmar a luz que seu pai viu antes de enlouquecer-- e descobrira, que certas coisas só são visíveis quando já não há nada para ver. Um conto sobre o que projetamos no vazio, sobre a memória que se recusa a apagar e sobre a fronteira tênue entre a cegueira dos olhos e a lucidez da alma.

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O rádio da Kombi chiou, perdeu a estação, e Renato Russo sumiu num estalo de estática. Helena girou o botão manual, mas as ondas do litoral sul não perdoavam. Só entrava chiado e o vento assobiando pelas borrachas ressecadas da porta. Ela desligou o aparelho e seguiu em silêncio pela estrada de terra que serpenteava entre coqueiros anões e restinga cinzenta. O relógio do painel marcava oito e quarenta da manhã, mas o céu estava tão fechado...que pareciam cinco da tarde. 

Agosto de 1996. Frio de rachar lábios. Uma garoa fina e insistente embaçava o para-brisa, e o cheiro de maresia entrava pelas frestas como um hóspede indesejado.

A Vila do Cabo Raso ficava a trinta quilômetros de Laguna, município do litoral catarinense,--que o mapa quase esquecia. 'Ali o asfalto morria'. Helena diminuiu a velocidade para desviar de um cachorro magro que atravessou a estrada sem pressa, como se o tempo ali pertencesse a outra jurisdição. 

No banco do carona, a Sony VX1000, sua filmadora nova, saltitava dentro da mochila acolchoada. Último presente que se dera antes do diagnóstico. 
(*Três meses, talvez quatro. A retina queimando devagar, fagocitando aos poucos as bordas do mundo. Quando o médico pronunciou : -retinose pigmentar atípica;ela não chorou! Sentiu raiva, depois 'um cansaço antigo'. (...E então lembrou do pai.)

Amaro Demarchi não a reconhecia mais. Passara vinte anos num pavilhão psiquiátrico em Florianópolis, os olhos fixos numa parede branca, repetindo a mesma frase como quem reza um rosário às avessas: -O farol não mostra o caminho — o farol mostra o que você escondeu!

...Morrera três meses antes do diagnóstico dela. Numa noite de 1986, ele e outros onze pescadores enlouqueceram juntos, em alto-mar, sob o feixe do Farol do Cabo Raso. Nunca houve explicação. Boatos falavam em toxinas nas marés, em gás de pântano, em maldição. Helena nunca acreditara em nada disso. Agora, prestes a perder a visão, precisava filmar aquele lugar. Entender. Ou talvez apenas registrar, para que sua fita fosse a última coisa que seus olhos vissem antes da escuridão definitiva.

A vila surgiu como uma miragem desbotada: meia dúzia de casas de pescador com telhados de zinco, uma capelinha fechada, um armazém onde um rádio tocava um samba antigo. O farol erguia-se na ponta de pedra escura, uns quinhentos metros adiante. Concreto bruto manchado de limo, uma escada externa de ferro carcomido, a cúpula no topo escura como uma órbita vazia. 

Estava apagado. Helena desligou o motor e o silêncio do lugar caiu sobre ela como uma segunda garoa.

O velho Nilo, único pescador que ainda morava ali o ano inteiro, fumava um cigarro de palha sentado num caixote, sob a marquise do armazém. Ela se aproximou com a educação de quem sabe invadir territórios alheios.

— O farol tá apagado há vinte anos, dona. Não tem nada lá pra filmar.

— Eu sei. Mesmo assim.

Nilo deu um trago demorado, soltou a fumaça pelo nariz e olhou para o mar, não para ela.

— Seu pai era o Amaro, né? Eu tava em alto-mar naquela noite. Voltei de manhã e eles tavam tudo na praia, os olhos arregalados, feito peixe fora d’água. 
 — ...Uns choravam, outros riam, outros falavam com gente que não tava ali. O seu pai olhou pra mim e disse: — Nilo, eu vi. E agora eu sei.
 Depois nunca mais disse coisa com coisa.

— O que ele viu?

— Isso ninguém sabe. E ninguém quer saber.

Helena agradeceu e caminhou em direção ao farol. A garoa engrossou. O vento fustigava as pedras escuras da restinga, e as ondas batiam com uma cadência pesada, como um coração subterrâneo. Ela tirou a filmadora da mochila e começou a gravar. O visor LCD mostrava tons acinzentados, a torre recortada contra um céu de chumbo. Sua voz, na narração, saiu mais trêmula do que gostaria:

— Farol do Cabo Raso. Desativado desde 1986. Meu pai esteve aqui. Hoje, 12 de agosto de 1996. Eu, Helena Demarchi, estou aqui também!

Desligou a câmera e encostou a testa na pedra fria da base. Quatro meses de visão. Talvez três. As bordas do campo visual já estavam se apagando, como uma fotografia que se queima pelas beiradas.

No dia seguinte, foi a Laguna, à antiga capitania dos portos. As atas de 1986 estavam num arquivo mofado, dentro de uma caixa que ninguém abrira em décadas. Ali descobriu o que a Marinha preferira esquecer: em 1979, um raio atingira o farol e trincara a lente de Fresnel, uma enorme peça francesa de vidro lapidado, fabricada em 1887. 

Sem verba para substituição, o faroleiro da época-- um certo Hermínio Cardoso, já falecido --polira a fissura com uma resina improvisada. O resultado, segundo um laudo técnico anexado discretamente ao processo, era 'anomalia óptica' com efeito estroboscópico de frequência infrassensível, potencialmente indutora de estados alterados de consciência... mediante exposição prolongada

Tradução: a luz do farol, ao atravessar aquela trinca mal remendada, pulsava numa frequência que o olho não percebia, mas o cérebro registrava. Uma luz que hipnotizava.

Helena voltou ao Cabo Raso no fim da tarde. O velho Nilo não estava mais no caixote. A vila parecia ainda mais deserta, como se a garoa tivesse diluído seus últimos habitantes. Ela empurrou a porta de ferro da base do farol -- cedeu com um gemido de dobradiças enferrujadas — e começou a subir. Cento e doze degraus de metal gasto, os sapatos escorregando no limo, a respiração condensando no ar gelado. A cada patamar, uma janelinha estreita emoldurava o mar cinzento, cada vez mais distante, cada vez mais voraz.

No topo, encontrou a lanterna. A grande lente de Fresnel ainda estava lá, coberta por uma lona rasgada que o vento fazia dançar. A trinca, visível como uma cicatriz no vidro, atravessava o prisma central de cima a baixo. Sobre a mesa do faroleiro, um caderno empoeirado. Na última página, uma única linha, escrita com pressa em tinta azul já desbotada: 'Não era loucura. Era a verdade que a gente se recusava a ver.' Hermínio Cardoso, 15 de agosto de 1982.

Helena posicionou a filmadora diante da lente trincada. Ligou sua lanterna de mão e apontou-a através do vidro, tentando simular o antigo feixe. No visor LCD, a imagem tremeu. Depois se estabilizou.

Ela viu!

Dentro do quadro minúsculo da tela, o interior escuro do farol se encheu de luz dourada. E no centro da luz, seu pai. O mesmo rosto das fotografias antigas, o mesmo sorriso miúdo, a mesma boina xadrez que ela lembrava desde a infância. Ele a olhava com ternura, sem a loucura nos olhos. Movia os lábios.  '— Você já está vendo, Helena.'

Ela abaixou a câmera. A imagem sumiu. A lanterna do topo continuava escura, a lente apagada. Levantou a câmera de novo e olhou pelo visor: lá estava ele outra vez, nítido como uma foto revelada na hora. 
...As mãos dela tremiam, mas a imagem na tela permanecia estável, imune ao frio, ao medo, ao tempo.

Filmou durante três dias. Três dias de inverno rigoroso, céu nublado, chuva intermitente. Conversou com o pai pelo visor, sem som, apenas lendo seus lábios, apenas capturando seus gestos. Viu pescadores que não conhecia, paisagens de um mar cor de cobalto que o litoral catarinense nunca tivera, vira sua própria mãe --morta há doze anos — acenando da areia. A cada fita que trocava, sentia que estava montando um quebra-cabeça cuja imagem final seria ela mesma inteira, pela primeira vez em décadas.

Na terceira noite, sentada na Kombi com uma caneca de chá frio, ligou a câmera ao pequeno monitor portátil que trouxera e apertou o play para rever as imagens. A tela acendeu.

Nada.

Estática preta. Chiado visual. Helena franziu a testa e rebobinou. Nada. As dez fitas, uma por uma, virgens de qualquer imagem, mudas de qualquer som. A filmadora nunca havia registrado coisa alguma.

O aparelho escorregou de seu colo e caiu no carpete da Kombi. Ela ficou parada, os olhos fixos na tela morta, enquanto a compreensão se abria como uma fissura no centro de tudo. As visões que tivera -- o pai, as paisagens, os rostos, a luz -- nunca estiveram no visor. Nunca estiveram diante de seus olhos. Estavam atrás deles. Dentro deles. Seu cérebro, já em processo acelerado de cegueira, começara a preencher o vazio com o que restava de memória visual e com o estímulo infrassônico produzido pelas ondas que batiam nas rochas do farol, uma vibração grave e constante que ela mesma anotara em suas pesquisas e ignorara por completo.

Desceu da Kombi sob a chuva e olhou para o farol. Ele estava apagado. Sempre estivera. A lâmpada não acendia desde 1986. As pessoas da vila não mentiam. 
...O velho Nilo não mentira. O farol estava morto.

Ela tocou a rocha fria da base com a mão direita. Os olhos abertos, mas já inúteis. Não sabia exatamente em que momento dos últimos dias a escuridão se tornara completa --talvez enquanto dormia, talvez enquanto filmava, talvez enquanto subia os degraus pela primeira vez. Agora já não importava. O pai não enlouquecera por algo que viu. Enlouquecera porque, naquela noite de tempestade, o farol se apagou de vez sobre o oceano revolto, e ele, no meio das ondas, perdeu toda referência de luz. O cérebro dele, assim como o dela, preenchera o breu com aquilo que mais temia ou mais amava. A loucura não fora uma intrusão do exterior. Fora um encontro solitário consigo mesmo, sem a luz do mundo para distraí-lo.

Naquela noite, sentada num caixote no mesmo lugar onde Nilo fumara seu cigarro, Helena ligou o rádio portátil. A estática reinava em quase todas as frequências, mas numa delas, fraca e distante, a voz de Renato Russo cantava 'Índios' 'Quem me dera ao menos uma vez / acreditar por um instante / em tudo que existe / e acreditar que o mundo é perfeito....
...Ela fechou os olhos --o gesto já não fazia diferença -- e sorriu. Pela primeira vez não precisava de câmera, de visor, de fitas. O pai dissera a frase durante vinte anos e ela nunca a entendera. Agora entendia: O farol não mostra o caminho --o farol mostra o que você escondeu. Ele nunca falara do farol. Falara dela. Falara de todos.

Dentro da Kombi, a filmadora permaneceu ligada, esquecida. Na tela de cristal líquido, por um instante, surgiu uma imagem impossível: o rosto de Helena, de olhos fechados e um sorriso suave, iluminado por uma lanterna que ninguém acendeu. A chuva batia no teto de zinco do farol, o mar engolia todos os outros sons, e a noite cobriu o Cabo Raso como um negativo fotográfico que jamais seria revelado.

A imagem congelou. A tela escureceu.


Fim.


By Santidarko 



Será só imaginação?
Será que nada vai acontecer?
Será que é tudo isso em vão?
Será que vamos conseguir vencer?
Uoh-oh-oh-oh-oh-oh
Nos perderemos entre monstros
Da nossa própria criação
Serão noites inteiras
Talvez por medo da escuridão
(*legião urbana)




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