segunda-feira, 22 de junho de 2026

...Da Visigótica Necrópole de Sulze(À Carmim dos Telhados (À caligrafia de vosso andar)



À Carmim dos Telhados (À caligrafia de
 vosso andar)



...Pela vossa centelha de sublime estranheza, onde a elegância e o garbo se casam com o segredo das coisas que respiram nas frestas, eu vos vedere!

...Não como quem clama por um deus de olhos abertos, mas como quem desfolha, uma a uma, as pétalas negras de um crepúsculo íntimo. 

Há, nesse gesto de vos chamar, a liturgia silenciosa dos que aprenderam a amar o que a luz profana não toca -- o avesso do tempo, a beleza que se alimenta da própria sombra e floresce em plena ausência de sol.

...Porque a vossa elegância, ah, essa não é da ordem desta noite!

Não se mede pelo corte de um fraque impecável ,nem pelo lustre de um cetim à meia-noite, embora ambos vos caiam como uma segunda epiderme!
A vossa elegância é a da criatura que atravessou séculos carregando o próprio ocaso nos ombros, sem pressa, como quem ostenta uma capa forrada de silêncios. 

Ela está na vossa maneira de pousar o olhar sobre as coisas, demorando-vos nelas com a sofisticação cruel de quem sabe que tudo é efémero --exceto vós!


... E, contudo, não há arrogância nesse gesto!

 Há apenas a certeza polida de quem já ceou com os séculos e aprendeu que a verdadeira distinção reside numa certa forma de deslizar entre as horas, de as trincar com vagar e gratidão. 

Sois bela assim; de uma beleza que constrange e inebria, como um vitral antigo que verte luar em vez de sol, como um verso maldito que, murmurado à hora incerta, tem o dom de despertar um arrepio e uma melodia esquecida na medula dos ossos.

...E o vosso garbo! 
...Esse não está apenas na linha do porte, na altivez da nuca ou no gesto contido da mão que jamais se apressa. Está na economia dos movimentos, na caligrafia do vosso andar sobre o mármore gasto das velhas escadarias -- onde cada passo é uma sílaba de um poema há muito emudecido!

...Está no modo como franqueais o pescoço, não num desafio, mas numa oferenda recíproca: ofereceis o mesmo mistério que ides colher. O vosso garbo é o da chama que dança no castiçal sem temer o sopro, porque sabe que a sua coreografia hipnotiza até o vento. 

Ele é a medida exata ...entre a ferocidade e a cortesia, a tensão entre o arrebatamento e a contenção, como se cada gesto vosso fosse uma nota musical que jamais se toca -- apenas se sugere!

...AH,APENAS SE SUGERE!

E nesse casamento entre o segredo das frestas e a vossa figura, habita o terceiro vértice da trindade noturna: a sublime estranheza. 

...Porque não sois apenas o que a noite esconde; sois o que a noite revela a quem ousa entreabrir as portas erradas. Trazeis na íris dilatada ,a memória de um mundo que não está nos mapas, mas lateja nos interstícios da realidade -- no vão entre o tique e o taque do relógio, no intervalo entre a respiração e o suspiro, na poeira que dança no raio de lua e que ninguém, senão vós, sabe decifrar. 

Sois feito da matéria das perguntas sem resposta, da sedução pelo enigma, do amor ao detalhe que destoa. E é justamente aí, nesse desconcerto delicioso que causais, que o mundo readquire o seu encanto primitivo. ...Por um instante, sob o vosso fascínio, as coisas banais lembram-se de que já foram mitos!

Aceitai, pois, esta ode como quem aceita um cálice. Bebei-lhe as palavras como se fossem as estações que vistes murchar e renascer. 

...Porque falar de vós é falar do que em nós também anseia por uma noite sem fim, por um amor que não se extinga com o cantar do galo, por uma sede que não se mate com água benta, mas com o negro vinho de um beijo dado nas bordas do abismo. 

...E se, ao terminar esta invocação, a madrugada ousar pintar o céu de um rubor suspeito, saberei que não foi o sol que me tocou a face -- fora o reflexo longínquo da vossa centelha, a mesma que agora me arde na ponta dos dedos enquanto vos escrevo, como um réquiem ao contrário, como uma alcova que se ilumina só para provar que a sombra é a verdadeira forma da ternura.



By Santidarko 




Ps:

 ....tal como uma borboleta noturna, sem ruído, mas com todo o peso da sombra.

...A vós, que dais ao medo, a forma de uma elegância,
e à fome ,a paciência de uma prece!

...A vós, que  alimenta-se do silêncio, e o nutri com garbo- gratidão!


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