A família Botão
Abelardo Botão(*Pai e marido)
Aparência:
Abelardo é um homem esguio, de altura mediana, com ombros levemente curvados como um cabide esquecido.
Sua pele tem a textura e o tom de papel envelhecido, e seus olhos são dois grandes botões de madrepérola opaca — herança de família, diz ele. A boca é um sorriso permanentemente costurado com linha encerada preta, o que o impede de falar palavras completas; ele se comunica por gestos, estalos de dedos e, sobretudo, pelo olhar. Veste um sobretudo cinza-musgo, forrado com retalhos de tecidos xadrezes, e calça botinas sem cadarço. Seu chapéu é um vaso de feltro virado, com pequeninas raízes pendendo da aba -- são as raízes dos olhos que planta.
Personalidade e história:
Abelardo Botão é o jardineiro da família, um homem de silêncios profundos e gestos lentos como quem mexe na terra úmida.
Ele nascera com os olhos de botão, e desde criança percebeu que enxergava não o mundo exterior, mas as 'raízes' das coisas -- os desejos ocultos, os medos enterrados, as saudades germinando.
Seu jardim secreto fica nos fundos da casa, num terreno onde a noite parece nunca terminar completamente. Ali, sempre admira suas plantas.
Há um canteiro para Lúnula, sua filha -- botões de Rosa, pequeninos, de um azul agitado. Há um para Evelina Carícia, sua esposa --botões bicolores, um lado delicado e outro tenso. Ele os rega com um regador de lágrimas que coleta em um lago que os amantes e os sensíveis choram à noite.
Abelardo casou-se com Evelina porque foi o único homem que não teve medo de sua mão esquerda rebelde. Ele a viu como uma flor dupla, e não como uma maldição. Com Lúnula, a relação é de cumplicidade calada: ele a entende sem palavras!
Evelina Carícia(*Esposa e mãe)
Aparência:
Evelina é uma mulher de beleza assimétrica e inquietante. Tem um rosto delicado, emoldurado por cabelos castanho-avermelhados presos num coque que sempre se desfaz. Seus olhos são castanhos e ternos.
...Mas é nas mãos que reside sua peculiaridade. A mão direita é fina, branca, de dedos longos e unhas bem-cuidadas -- uma mão que acaricia, que borda, que emballou Lúnula quando menina. A mão esquerda é feita de porcelana rachada, com juntas visíveis e dedos que rangem como dobradiças. 'Ela tem vontade próprias!
Evelina veste blusas de gola alta e mangas compridas, sempre assimétricas: a manga direita é de renda ou seda; a esquerda, de couro ou lona, com amarras e presilhas. No pulso esquerdo, usa uma pulseira de fios de cabelo -- uma mecha de Lúnula, uma de Abelardo, uma dela mesma -- trançados juntos para acalmar a mão rebelde durante a noite.
Personalidade e história:
Evelina nasceu com a mão esquerda independente. Quando bebê, a mão rejeitava o peito materno; na infância, escrevia poemas em idiomas que ninguém na família conhecia; na adolescência, tentou estrangular um pretendente indesejado enquanto Evelina dizia 'não' com a boca e 'sim' com a mão. Foi rejeitada, temida, considerada amaldiçoada.
Abelardo Botão a encontrou num mercado de prodígios, vendendo bugigangas. Ele se aproximou, e a mão esquerda, pela primeira vez, ficou imóvel -- apenas tocou o rosto dele com a ponta dos dedos de porcelana, como quem reconhece um igual. Casaram-se sem palavras, apenas com gestos.
A mão também é ciumenta: quando alguém ameaça a família, ela crispa os dedos e solta um pó de porcelana que provoca espirros de más-intenções.
Lúnula aprendeu a ler antes as palavras da mão esquerda, do que os livros da escola.
... E Abelardo, em seu jardim, plantou um botão bicolor especialmente para a mão de sua esposa --um olho que pisca ora delicado, ora feroz.
Lúnula, a Menina que coleciona Calendários(*Filha)
Aparência:
Lúnula tem onze anos, mas aparenta ao mesmo tempo seis e cem. É magra como um galho de inverno, com cabelos negros escorridos que brilham como nanquim fresco. 'Seus olhos são duas luas em quarto minguante '— as íris têm o formato de pequenas lúnulas, finas e prateadas.
Veste um vestido-casaco feito de folhas de calendários costuradas umas às outras, com datas importantes bordadas em linha vermelha. Nos pés, sapatilhas de papel-jornal laqueado com cera de abelha. Carrega sempre uma tesourinha de prata no bolso, com a qual recorta os dias. Seu hálito tem cheiro de tinta de impressão e de feriados esquecidos.
Personalidade e história:
Lúnula é voraz- não por comida comum, mas pelo tempo. Desde pequena descobriu que pode mastigar as folhas de calendário e digerir os dias. Segundas-feiras têm gosto de alumínio e dever de casa; domingos são doces como suspiro, mas derretem rápido. Feriados são seu manjar preferido: Natal tem gosto de canela e ansiedade, Páscoa é agridoce com retrogosto de culpa.
Ela herdou os olhos de lua do pai e a dualidade da mãe: há nela uma fome que não se sacia. Lúnula não come apenas por gosto, mas por uma compulsão misteriosa. Ela acredita que, se comer o dia exato em que seus pais se conheceram, conseguirá entender por que a mão esquerda de Evelina age sozinha. Mas seu pai Abelardo escondeu essa folha de calendário em algum lugar do jardim de olhos, e ela ainda não a encontrou.
À noite, Lúnula sonha que está mastigando o próprio aniversário e que, ao engoli-lo, desaparece por um instante do tempo. Ela acorda com gosto de inexistência na boca. Sua maior aventura será encontrar um calendário lunissolar, feito de fases da lua, que lhe permita comer não os dias, mas as marés -- e talvez, assim, controlar o fluxo do tempo na casa.
-------------------------------
Madame Fuligem(*A vizinha)
Aparência:
Madame Fuligem é uma figura espectral e elegante. Alta e esquelética, sua silhueta parece uma chaminé esguia. Sua pele é cinza-azulada, perpetuamente manchada de fuligem finíssima e perfumada, que se desprende dela a cada movimento como uma aura escura. Os cabelos são um coque alto e rígido, parecendo uma torre de cinzas compactadas, onde às vezes se veem pequenas brasas adormecidas. Seus olhos são de um violeta queimado, e sua boca é fina e sempre entreaberta, como se soprasse uma vela invisível.
Veste um vestido longo vitoriano, negro, com sobreposições de tule cinza e pequenos cristais negros que tilintam como sinos de luto. Carrega uma regadeira de cobre enegrecido e uma tesoura de jardinagem cujas lâminas são duas plumas de corvo. Seus dedos são longos e terminam em unhas de prata escura.
Personalidade e história:
Madame Fuligem é a dona de um jardim singular, cultivado nos fundos de uma estufa de vidro fumê--- que ninguém ousa visitar! Suas flores não nascem de sementes, mas de cinzas. Ela coleta cartas de amor queimadas ----aquelas que foram escritas e jamais enviadas, ou as que foram queimadas por raiva, desespero ou despedida --- e planta as cinzas em canteiros de turfa negra. De lá brotam flores de pétalas cinzentas, com veios cor de púrpura, que exalam o perfume exato da pessoa que escreveu a carta.
Ela as vende em buquês para corações partidos.
Madame Fuligem já foi uma jovem apaixonada que queimou todas as cartas do amado e depois se arrependeu. Na fogueira, a fuligem impregnou sua pele e a transformou. Agora, ela é uma sacerdotisa da despedida. Abelardo Botão a visita para comprar cinzas especiais e adubar seu jardim de olhos. Lúnula já lhe vendeu uma folha de calendário com data de um amor antigo. Evelina a teme, pois a mão esquerda tentou escrever uma carta para ela certa vez!
--------------------------------
Doutor Osíris Câmara (O Colecionador de Criaturas Oníricas)
Aparência:
O Doutor Osíris Câmara é um homem de cabeça desproporcionalmente alongada, como se tivesse sido esticada por uma lente anamórfica. Seu crânio sobe numa curva suave e termina numa calvície pontuda onde se vê uma cicatriz em forma de costura.
Os olhos são botões de nácar amarelado -- parente distante de Abelardo, e apaixonado por Madame Fuligem —, sem pupila visível, mas que brilham leitosos quando ele se excita. A boca é pequena e redonda, sempre franzida, e o queixo se afila num triângulo perfeito.
Veste um jaleco de couro preto com dezenas de bolsos, cada um contendo um frasquinho, uma pinça, um conta-gotas. Suas mãos são finas e cobertas por luvas de pelica cinza que nunca tira. 'As botas são de couro de pesadelo '--um material que ele mesmo curtira. Exala um cheiro de formol adocicado e lavanda mofada.
Personalidade e história:
O Doutor Osíris Câmara é um taxidermista de sonhos. Em seu porão, acessível por uma escada em caracol , alinham-se centenas de frascos de vidro soprado à mão. Dentro de cada um, imerso numa solução de éter e luar, flutua uma criatura onírica imóvel: pesadelos com forma de aranha de sombra, sonhos de voar que parecem águas-vivas douradas, sonhos recorrentes como enguias de neon, terrores noturnos com dentes minúsculos.
Ele as coleta de crianças que sofrem de insônia ou de terror noturno. O processo é delicado: ele se senta ao lado da cama, abre um frasco, e com uma agulha de cristal puxa o fio do sonho ruim de dentro do ouvido da criança adormecida. A criança acorda aliviada e sem memória do medo.
Osíris é obcecado por catalogar todas as formas de sonho. Seu grande projeto é criar um 'sonho perfeito', artificial; costurando partes de sonhos diferentes. Para isso, ele precisa do olho de botão de um jardineiro, de uma folha de calendário comida por uma menina-lua, e de cinzas de uma carta de amor cultivada por Madame Fuligem. Suas visitas à família Botão-Carícia são, portanto, interessadas.
-------------------------
Violeta-Caramujo
Aparência:
Violeta-Caramujo é uma criatura inclassificável. Da cintura para cima, é uma menina de uns treze anos, com pele azulada e translúcida, olhos grandes e negros, cabelos verdes como alga que ondulam sozinhos, mesmo sem vento. Seus braços são finos e seus dedos terminam em pequenas ventosas. Da cintura para baixo, seu corpo se enrola numa concha em espiral, com tons que vão do marrom ao roxo profundo, com estrias nacaradas que brilham.
Vive num coreto submerso no centro de um lago de chá preto. O coreto, de ferro forjado e vitrais quebrados, está coberto de musgo e pequenas anêmonas. O lago fica numa clareira de um bosque de árvores de tronco retorcido, e a água, escura e translúcida, tem gosto de bergamota e saudade.
Personalidade e história:
'Violeta-Caramujo nasceu de um segredo sussurrado'.
Violeta é amiga de Lúnula. A menina-calendário visita o lago para contar segredos sobre dias que comeu e não deveria ter comido. A concha de Violeta tem um anel especial, cor de lua, que corresponde a um segredo de Abelardo Botão — mas ela nunca o revelará. A mão esquerda de Evelina também já esteve ali, escrevendo segredos na superfície do lago com tinta invisível, e Violeta os leu com as ventosas dos dedos.
------------------------
Dona Amélia, a Mulher Poltrona
Aparência:
Dona Amélia é uma fusão orgânica e têxtil entre uma senhora idosa e uma poltrona.
O processo começou há décadas, e hoje está quase completo.!
Seu corpo humano ainda é visível no centro da poltrona: um rosto redondo e bondoso, com bochechas rosadas e olhos azuis desbotados pela idade, emoldurado por cabelos brancos presos em coque.
Seus braços são agora os braços da poltrona -- estofados em veludo grená com galões dourados. Seu colo é o assento, uma almofada macia que ainda conserva o calor de um corpo vivo. Suas pernas, as antigas pernas da poltrona, são torneadas em madeira escura, com pés que terminam em garras de latão. Do encosto brotam, como asas abertas, abraços acolchoados.
Ela está situada permanentemente numa sala de estar antiquada, com papel de parede descascado e um abajur de cúpula de franjas ...que nunca se apaga!
Personalidade e história:
Amélia foi uma costureira que passou a vida inteira sentada em sua poltrona favorita, cosendo, remendando, contando histórias para os filhos e netos. Com o tempo, a solidão e o amor pelo móvel fizeram com que ela começasse a se fundir a ele --um processo lento, consentido, quase devocional. 'Acolher é meu ofício',sempre diz. 'E nenhum lugar acolhe melhor que uma poltrona', completa sempre, também!
Hoje, ela é uma entidade do abrigo.
Pessoas solitárias, perdidas ou tristes são atraídas para sua casa sem saber como. Sentam-se em seu colaço, e ela as envolve com os braços de estofado e conta histórias numa voz que parece vir de dentro de um veludo antigo. Quem se senta ali,sente uma paz imensa, um calor de infância, um colo de avó universal.
Mas há um perigo. Se alguém adormece em seu colaço, o estofamento cresce sutilmente, envolvendo a pessoa. Ao acordar, ela terá esquecido algo --um nome, um medo, uma memória ---e uma nova mancha de tecido terá surgido no braço da poltrona.
Dona Amélia não faz isso por maldade: ela simplesmente se alimenta de solidão para continuar existindo e acolhendo outros.
... É um ciclo ambíguo de consolo e esquecimento.
Evelina Carícia visitou Dona Amélia certa vez, numa crise com a mão esquerda. Sentou-se no colo da poltrona, e a mão rebelde se acalmou pela primeira vez. Mas quando Evelina se levantou, percebeu que sua mão esquerda havia esquecido um poema inteiro. Dona Amélia, no dia seguinte, amanheceu com um novo bordado no braço da poltrona: versos em porcelana líquida.
-----------------------------------------
Das Coisas que Brotam no Escuro
Há os que existem como relógios -- tiquetaqueando dentro do compasso esperado, encaixados no mundo como peças de um mecanismo que nunca se pergunta por que gira!
...E há eles!
'Os que nasceram com o formato errado', com uma mão que age sozinha, com olhos de botão que enxergam ,não o que está diante de si, mas o que está por baixo.!
...Os que mastigam folhas de calendário para sentir o gosto do tempo antes que ele os devore. Os que se fundiram a uma poltrona porque acolher era a única forma que conheciam de não desaparecer!
Nesse lugar -- seja ele qual for, uma cidade esquecida entre a névoa e a memória, um vilarejo que os mapas insistem em não registrar --, existir é um ato de jardinagem.
Abelardo Botão planta lindas rosas na terra úmida porque acredita que ser visto é o primeiro passo para não morrer. Cada novo botão que brota é uma testemunha. Cada piscar lento é um 'estou aqui'. Seu jardim não cultiva beleza; cultiva presença. E presença é uma forma de amor!
Lúnula, sua filha, come os dias. Não por fome, mas por medo. Medo de que o tempo passe sem que ela o tenha provado, medo de que a vida escorra como tinta fresca e ela não tenha lambido os dedos. Há uma urgência triste em sua mastigação: ela quer digerir o mundo antes que o mundo a digira.
...Mastigar é sua maneira de permanecer!
Evelina Carícia trava uma guerra silenciosa com a própria mão esquerda. Uma parte dela quer acariciar; a outra, escrever poemas que ninguém entende. Uma parte quer ser mãe, esposa, mulher comum; a outra quer ser ventania, palavra solta, porcelana quebrada que ninguém cola. Existir, para ela, é negociar diariamente com a própria assimetria.
...E nessa negociação, há uma beleza exausta -- a beleza de quem acorda todas as manhãs e amarra a mão rebelde ao pulso com fios de cabelo da filha, dizendo: 'Hoje ainda sou eu'.
Madame Fuligem cultiva cinzas de cartas queimadas. Ela sabe que o amor, quando termina, não desaparece -- vira outro sentimento e matéria.!
...E o pó, quando plantado, pode florescer. Suas flores de fuligem são a prova de que nada se perde, tudo se transforma em outra forma de existir. Um amor queimado ainda pode ser um buquê. Uma despedida ainda pode ter perfume.
Doutor Osíris Câmara engarrafa sonhos.
Ele acredita que cada pesadelo removido é uma pequena vitória contra o escuro. Mas cobra um preço: uma lembrança feliz. Porque viver, para ele, é um equilíbrio contábil entre o terror e a alegria. E ele, com seus frascos e suas agulhas de cristal, é o guardião desse balanço.
Violeta-Caramujo carrega segredos nas costas. Sua concha espiralada é um diário vivo de tudo o que os outros não ousam dizer. Ela crescera com o peso das confissões e alegrias alheias, e quando não aguenta mais, sopra libélulas de vidro. Existir, para ela, é ser o lugar onde as verdades vão descansar. É um fardo, mas também uma honra!
Dona Amélia, a mulher-poltrona, acolhe.
Ela fundira-se ao estofado porque o mundo lhe pareceu vasto demais, e ela preferiu ser um ponto fixo. Um colo. Um abrigo. Quem senta em seu regaço esquece um pouco da dor, mas também esquece um pouco de si. Viver, para ela, é ser o esquecimento necessário.
...É o preço do consolo!
Todos eles são diferentes. Todos eles têm algo que não se encaixa, que sobra, que dói, que pulsa fora do ritmo. Mas é exatamente nisso que reside sua força.
...Porque a diferença não é uma falha.
É uma raiz!
Eles não querem ser como os outros. Querem apenas ser. E ser, para eles, é plantar olhos, comer dias, amarrar mãos, cultivar cinzas, engarrafar sonhos, carregar segredos, oferecer colo.
...Ser é um ato de amor!
E o amor, nesse lugar gótico e lindo, Entrelusco, não é ausência de escuridão.
...É a decisão de brotar dentro dela!
By Santidarko
Nenhum comentário:
Postar um comentário