terça-feira, 2 de junho de 2026

Um sopro no vazio estrelado

O cosmos é melancólico porque ele é a medida exata da nossa irrelevância, mas uma irrelevância que se sente a si mesma, e nisso reside a confusão. Não somos ignorados; somos, antes, desproporcionais. 

A escala do que existe nos dissolve sem violência, como o horizonte dissolve um nome sussurrado. E o que dói não é o vazio -- o vazio seria um alívio, uma resposta --, mas a presença indiferente de tudo o que brilha. Cada estrela é uma promessa que não nos foi feita; cada galáxia, um movimento que não nos inclui.

Olhamos para cima e procuramos, por instinto, um rosto, uma intenção, um sinal. Mas o céu é liso. As luzes que nos alcançam são fantasmas de explosões que já morreram há milhões de anos. 

A beleza do firmamento é póstuma: vemos o que deixou de existir. E mesmo assim, aquilo nos atravessa com uma estranheza íntima, como se a vastidão nos dissesse algo na língua de um sonho esquecido. 

...É o sentimento de uma correspondência perdida, de uma carta universal que não conseguimos abrir.

A solidão cósmica não é estarmos sós no espaço; é estarmos acompanhados por uma imensidão que não dialoga. 

...É perceber que o universo se expande em silêncio, e que nossa consciência é esse breve espasmo de significado num continuum que não precisa de significado algum. 


O amor pela beleza distante é também a consciência de sua inatingibilidade. O cosmos nos faz sentir solitários porque nos confronta com a nossa condição de intérpretes sem autor, de narradores de uma história que não começa nem termina em nós.

E ficamos confusos porque, ao mesmo tempo, amamos essa melancolia. Há um êxtase estranho em se perder. Há um conforto amargo em saber que nossos dramas são fagulhas mínimas sob uma abóbada que não julga. A confusão vem daí: do desejo de ser notado pelo infinito e do alívio de que ele jamais nos note. O cosmos é melancólico porque nos dá, ao mesmo tempo, o esmagamento e a fuga, o medo e a reverência, a lucidez e o desamparo -- e nenhuma palavra que unifique isso tudo.



Poema :

O pulso das estrelas é um adeus contínuo,
uma queima energética que nunca nos pertence.
Cada luz é um soluço de séculos exaustos,
um gesto que se apaga antes de ser visto.

O céu --esse teto sem deuses --
não cobre: apenas afunda devagar
sobre os ombros de quem ousa olhar.
E o silêncio entre os astros
não é paz, é esquecimento em trânsito.

Sob o arco da noite
nós somos o instante que treme,
a pergunta que a vastidão dissolve,
a boca que nomeia o vazio
e ao nomeá-lo sente a própria ausência.

Quem dera o infinito fosse o colo
de uma antiga e esquecida mãe.
Mas ele é somente um olho sem pálpebra,
uma pupila fixa e fria
que nos vê sem nos refletir.



By Santidarko