sábado, 13 de junho de 2026

O destilador de névoas (Nebulium)(O olhos que Herdaram a Noite)


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Quem dera à escuridão olhos para ver e à luz pálpebras para descansar, talvez descubra que a tarefa última do universo não é criar estrelas ou deuses, mas dar a cada centelha escondida -- seja anjo ,demônio, ou uma simples' aparição' -- a sua única e irrepetível chance de acordar.

...De evoluir!


 By Santidarko 
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Chamo-me Elias Ramalho e, durante vinte e três anos, fui meteorologista do Instituto de Previsão de Curitiba. 
...Conheci a névoa da cidade como um filho conhece os humores da mãe. 

Ela, a névoa, desce a Serra do Mar em maio, espalha-se pelas ruas de paralelepípedos em junho e, em julho, engole o bairro inteiro do Batel sem pedir licença. 

Sempre acreditei que fosse apenas um fenômeno climático: condensação, umidade relativa, partículas em suspensão.

...MAS DESCOBRI JUNTO COM ELA,OUTRA COISA!

Tudo começou com a Torre. 
Construí no telhado da velha estação meteorológica abandonada no Alto da Glória, uma estrutura de alumínio e vidro temperado, com dez metros de altura, equipada com coletores de aerossóis que eu mesmo desenhei. Ninguém visitava o lugar. Os vizinhos pensavam que eu era um excêntrico, talvez um viúvo amargurado -- e estavam certos...em parte. 
Mariana morrera três anos antes, num acidente de carro na BR-116, num dia de neblina tão densa ,que ela não viu o caminhão. 

A névoa levou minha esposa. Eu queria entendê-la. 

Dissecá-la. 
Vingar-me dela.

O processo de captura era simples na teoria. A Torre sugava o ar nebuloso através de filtros concêntricos, resfriava-o até a liquefação e centrifugava o produto em camadas -- mais ou menos, como quem separa o plasma do sangue. 

A primeira camada era água pura, levemente ácida, com traços de fuligem e dióxido de enxofre. A segunda camada continha hidrocarbonetos, resquícios industriais do CIC, pólen de araucárias. 

...Mas havia uma terceira camada, mínima, quase imperceptível, que não se comportava como matéria física. 
Ela não era medida em mililitros, mas em... impressões.

Chamei essa fração de : Empático-Nebulosa. 

Era um fluido opalescente, mais denso que a água, menos que o mercúrio, e apresentava uma propriedade desconcertante: quando exposto a um campo elétrico de baixa frequência, vibrava. Não no sentido mecânico, mas numa frequência que parecia ressoar com algo dentro do meu próprio crânio.

A primeira vez que o destilei, foi por acidente. Um tubo rompeu-se, o vapor encheu o laboratório e eu aspirei uma quantidade ínfima. O mundo dissolveu-se.

Eu não estava mais no Alto da Glória. 
...Estava dentro de um Palio preto, ano 1998, no quilômetro 67 da BR-116. 

O velocímetro marcava cento e vinte. 
Faróis de neblina cortavam a escuridão como bisturis amarelos. E eu sentia um medo que não era meu, um pavor primal, a certeza de que a morte vinha no acostamento. 

...Então o impacto. 
O vidro estilhaçando. O gosto de sangue. E o rosto de Mariana, não como esposa, mas como a motorista que eu acabara de matar.

Acordei no chão, chorando. O efeito durara quarenta segundos. A claridade mental que se seguiu era uma euforia impossível de descrever — o alívio de devolver uma vida que não me pertencia. Meu coração disparava. Minhas mãos tremiam. 

Eu queria mais!

Compreendi o que tinha em mãos. A névoa de Curitiba, ao passar pela cidade, não carregava apenas partículas. Ela absorvia e carregava consigo, os medos exalados pela cidade...!

...Não o medo banal : o medo do boleto vencido ou da entrevista de emprego. 

Ela capturava o medo puro, o terror biológico, a adrenalina de quem enfrenta a morte num cruzamento, de quem salta de um prédio em chamas com uma criança nos braços, de quem se esconde de um agressor na própria casa. Esses momentos de pânico absoluto deixavam um rastro químico no ar, e a névoa o recolhia como uma esponja.

O composto que destilei --, chamei-o de Nebulium -- era literalmente adrenalina empática. 

Medo destilado!

Durante dois meses, fui um cientista metódico. Catalogava as amostras por local de coleta. A névoa do Centro Cívico continha pânico de políticos em escândalos. A do Jardim Botânico trazia o medo bucólico de noivas abandonadas no altar. 

A do bairro do Parolin, essa sim!, era a mais potente: medo de tiroteio, medo de abordagem policial, medo de perder um filho para o tráfico. Cada amostra era uma experiência diferente. Uma viagem! Uma violação da alma alheia que eu justificava como pesquisa.

A primeira venda aconteceu sem planejamento. Um antigo colega da universidade, professor de física, visitou-me na Torre. 

...Viu os frascos. 
...Perguntou! 

Eu, ainda inebriado pela última dose, contei-lhe a verdade. Ele insistiu em provar. 
...Cedeu-me duzentos reais. E, após quarenta segundos no chão do meu laboratório, emergiu com os olhos arregalados e uma fome que eu reconhecia.

— Elias ,sussurrara ele —, isso é melhor que a morte!

'Em três meses, eu era um traficante do medo'.

O Nebulium era vendido em frascos de vidro âmbar, trinta mililitros, concentração variável. Criei uma escala de potência. O Nebulium Grau 1 era extraído da névoa dos bairros nobres: medo de falência, medo de traição conjugal, medo de envelhecer. 

Um barato leve, reflexivo, quase filosófico.

...ISSO!, FILOSÓFICO!

 Os usuários diziam que os ajudava a 'sentir algo' em suas vidas anestesiadas de shopping center.

O Nebulium Grau 3 vinha da névoa do centro, das imediações dos terminais de ônibus. Medo de assalto, medo de atropelamento, medo de perder o emprego. Era o preferido dos artistas, que acreditavam ampliar sua empatia criativa.

E havia o Nebulium Grau 7, a especialidade da casa. Extraído exclusivamente da névoa que se formava nas madrugadas de domingo no bairro do Uberaba, próximo ao hospital de trauma. Aquela névoa continha o medo de pacientes que aguardavam notícias na sala de espera.

Mães. 
Pais. 

...Gente que sabia que um telefone ia tocar e destruir seu mundo. Quarenta segundos com o Grau 7 e você emergia com a alma em carne viva. Era o produto mais caro. 

...E o mais viciante!

Meus clientes formavam uma confraria silenciosa. Políticos, advogados, médicos, professores universitários. Gente que sorria em público e, em particular, procurava o traficante da Torre do Alto da Glória para comprar o medo que lhes faltava. 

Eu me tornei rico. Não um milionário espalhafatoso, mas alguém com dinheiro suficiente para parar de me preocupar. Parei de trabalhar no Instituto. 

Vivia para a Torre. 

...A Torre vivia para mim.

A decadência começou, como sempre, pelo excesso.

Passei a consumir o Grau 7 diariamente. Já não me contentava com as experiências catalogadas. Queria medos específicos. Medo de afogamento, colhido da névoa que subia do rio Belém nas noites de chuva. Medo de altura, extraído da névoa que se agarrava aos andaimes dos prédios em construção. Medo de incêndio, capturado nas semanas que seguiam a um grande sinistro.

Cada dose era uma violação. Eu sabia! 
A adrenalina que eu bebia pertencia a pessoas reais, a sofrimentos reais. O homem que se afogara no rio Belém...deixara um filho. 

A mulher que caíra do vigésimo andar deixara uma carta que ninguém leu. Eu sentia o medo deles, mas não a história. A história eu ignorava.

Certa noite de agosto, um rapaz de vinte e poucos anos apareceu na Torre. Não era um cliente comum. Tinha os olhos fundos de quem não dorme. Pediu o Nebulium Grau 7. 

...Eu, já entorpecido pela minha própria dose, entreguei-lhe o frasco sem perguntas. Ele pagou em dinheiro vivo, notas amassadas.

Na manhã seguinte, a notícia do jornal: 'Um jovem de vinte e três anos cometera suicídio no Parque Barigui'. 
Deixara um bilhete curto: 'Já senti o pior. Agora posso descansar.'

O rosto na foto do jornal era o mesmo da noite anterior.

Algo se partiu dentro de mim. Não era culpa -- a culpa é um sentimento que o Nebulium anestesia. Era uma curiosidade mórbida. 

...Por que aquele rapaz me procurara? 
...Qual medo ele queria sentir antes de morrer?

 Investiguei por conta própria. Descobri que ele era irmão de uma vítima de latrocínio ocorrido três meses antes no Uberaba, justamente nas madrugadas em que eu coletava a névoa para o Grau 7. 

O medo que eu vendera a ele era, provavelmente, o medo que o irmão sentira ao levar o tiro.

Comprei o medo do morto. Vendi o medo do morto ao irmão do morto. O irmão bebeu o terror do próprio sangue, achou que aquilo era o fundo do poço, e decidiu que a vida não valia a pena.

Essa compreensão não me parou.
...Alimentou-me.

Comecei a colecionar não apenas medos, mas tragédias. Mapeava as notícias policiais como um gourmet estuda um cardápio. 

...Incêndio na Cidade Industrial? 

...Eu estava lá na manhã seguinte, com os coletores portáteis, sugando a névoa antes que ela se dissipasse.
... Acidente na Linha Verde? 
...Eu chegava antes da perícia. A névoa de Curitiba tornara-se minha plantação, e eu, seu fazendeiro macabro.

O que eu não percebia -- o que eu recusava a perceber --é que a névoa também me coletava.

Os sonhos foram o primeiro sinal. Sonhos que não me pertenciam. Eu me via em corpos estranhos, vivendo os momentos exatos das mortes que destilara. Já não era uma viagem de quarenta segundos sob meu controle. Era uma possessão noturna, involuntária. 

Acordava com os lençóis encharcados, gritando nomes que não conhecia. As mãos tremiam constantemente. Um halo prateado começou a formar-se ao redor das luzes da rua, como se a névoa estivesse permanentemente instalada atrás das minhas retinas.

Meus clientes também mudaram. Os antigos -- políticos, profissionais liberais -- sumiram. Em seu lugar vieram figuras mais sombrias. Um homem de terno cinza que nunca piscava. Uma mulher com cicatrizes de queimadura que ria sem motivo. 

Um adolescente que comprava Nebulium Grau 7 para a avó, dizendo que 'ela queria sentir o que o avô sentiu no leito de morte'. Curitiba estava a transformar-se numa cidade de viciados em medo, e eu era o traficante. Mas quem era o farmacêutico? Quem realmente produzia a droga?

A resposta veio numa madrugada de setembro, quando a névoa estava tão densa, que a Torre desaparecia dentro de si mesma. Eu preparava um lote especial de Nebulium -- o primeiro Grau 9, extraído diretamente da névoa da Serra do Mar, onde, diziam, os tropeiros antigos se perdiam e jamais voltavam.

O frasco explodiu.

O vapor não entrou pelos meus pulmões. Ele me engoliu. E, pela primeira vez, a viagem não durou quarenta segundos. 

...Durou uma eternidade comprimida num instante!!

...uma eternidade comprimida num instante!!

Eu estava dentro da névoa. Não como visitante. Como parte dela. E percebi que a névoa era consciente. Não inteligente no sentido humano, mas viva! Ela era um organismo distribuído, uma colônia de memórias dissolvidas, um ser composto de exalações humanas. E eu, ao destilá-la, ao bebê-la, ao vendê-la, estava a alimentar-me dela e a alimentá-la de mim. 

Uma simbiose.

...SIMPLES ASSIM!

A névoa não era passiva. Ela não apenas carregava o medo -- ela o cultivava. Ela pairava sobre Curitiba como uma rede, uma teia de araucárias espectrais, recolhendo as emoções humanas mais intensas. E agora, graças ao meu Nebulium, ela tinha um novo tipo de sustento: o vício.

Cada frasco que eu vendia criava um novo coletor. Cada usuário tornava-se um emissor de medo amplificado. A droga não apenas transmitia o pânico alheio -- ela o multiplicava, e a névoa o reabsorvia, mais forte, mais puro, num ciclo que eu iniciara sem saber.

A névoa não me queria como traficante. Queria-me como filho. Como parte de sua anatomia. Como sinapse de um cérebro meteorológico que se estendia de Curitiba até Paranaguá.

Acordei no chão do laboratório, com a boca cheia de água -- ou algo parecido com água. ...Minha língua sabia a ferrugem e a lágrimas. Sentei-me, tossindo, e vi que todos os frascos de Nebulium estavam vazios. Não quebrados.

 Vazios!
...Como se algo os tivesse bebido.

Foi quando a névoa falou comigo.

Não com palavras. Com uma sucessão de imagens, impressas diretamente na minha química cerebral. A névoa mostrou-me o futuro que eu estava a construir. Mostrou-me uma Curitiba coberta permanentemente por um manto cinzento, sem estações, sem sol. 

Mostrou-me os meus clientes transformados em faróis de medo, emitindo ondas de pânico que a névoa recolhia e reinvestia em novos usuários. Mostrou-me a Torre multiplicada por mil, chaminés de destilação erguendo-se em cada bairro. Mostrou-me a mim mesmo, não mais Elias Ramalho, mas um homem de névoa, um ser de contornos imprecisos, eterno, flutuando sobre a cidade como um deus ,ou um demônio meteorológico.

E mostrou-me Mariana!

Não a Mariana real, mas a emulsão que a névoa fizera dela. O medo que ela sentira no momento do acidente --aquele medo original que eu tanto procurara, a primeira dose que eu inconscientemente desejava -- estava ali, armazenado na névoa da BR-116, preservado como um fóssil em âmbar.

A névoa ofereceu-me um acordo. Ela me daria o medo de Mariana, a experiência definitiva, o Grau 10 que eu jamais ousara destilar. 

...Em troca, eu me entregaria completamente. Deixaria de ser humano. Tornar-me-ia o Destilador-Mor, o arquiteto da nova ordem nebulosa.

Recusei!

Não por virtude. 
Por covardia!

A névoa não se ofendeu. A névoa não se ofende. Ela simplesmente retirou-se, deixando-me no chão frio do laboratório, com os frascos vazios e um vazio ainda maior dentro de mim.

Faz três semanas que não produzo Nebulium. Os clientes batem à porta da Torre e, eu não abro!Deixei a barba crescer. Alimento-me de bolachas e água da torneira. À noite, deito-me no telhado da estação e vejo a névoa descer a serra, lenta, espessa, paciente. Ela me observa. Eu a observo. Somos dois predadores avaliando-se.

Hoje de manhã, encontrei um frasco cheio sobre minha mesa. Não fui eu quem o encheu. O líquido é opalescente, mais denso que a água, menos que o mercúrio, e vibra numa frequência que ressoa com algo dentro do meu crânio. 

...É o Grau 10. É o medo de Mariana. A névoa deixou-o aqui como uma oferenda, um convite, uma tentação.

O frasco está diante de mim agora, enquanto escrevo estas palavras. A Torre range com o vento da serra. Curitiba dorme sob seu manto de névoa, e milhares de medos estão sendo exalados neste exato momento, subindo, misturando-se, esperando para serem colhidos.

Se eu beber, saberei finalmente o que Mariana sentiu. Terei a resposta que procuro há três anos.

Mas se eu beber, sei que jamais voltarei. 
A névoa me terá completamente. 

...E o Destilador-Mor surgirá!

O frasco está frio. Minhas mãos estão quentes. A noite avança.

E eu ainda não decidi.

...Mas o frasco está aberto!



Fim.



By Santidarko 

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