No sótão mais alto da casa torta, onde o pó dançava como neve ao contrário, morava a Menina Umbral.(*Lucília Sombralina, seu verdadeiro nome)
Sua pele era aparentava ser de papel vegetal, e por baixo, pareciam veias de tinta escura...que escreviam palavras tristes sempre que seu coração batia mais forte.
Todas as tardes, quando o sol se cansava e se deitava atrás das chaminés, ela se sentava no peitoral da janela empoeirada e chamava:
— Verme Licor, já acordou?
E de dentro de um vidro de compota cheio de calda escura e estrelinhas de anis, surgia uma criatura minúscula.
.. Era um verme gordinho, cor de caramelo queimado, com olhinhos miúdos que brilhavam como duas gotas de groselha. Ele cheirava levemente a anis estrelado e dizia sempre a mesma coisa:
— Estava sonhando com açúcar queimado!
—Você tem um cheiro de saudade hoje, menina!
A Menina Umbral sorria, um sorriso que não iluminava o rosto, mas deixava tudo mais suave. Ela pegava o amigo imaginário na palma da mão (Verme Licor era imaginário, mas seus dentinhos mínimos faziam cócegas de verdade) e o colocava sobre o ombro.
— Vamos visitar o Lampíride Fosco , dissera ela.
— Ele está muito quieto ultimamente!
O Lampíride Fosco vivia numa gaiola sem portas, pendurada no canto mais escuro do sótão. Era um vagalume idoso, cujo abdômen luminoso há muito deixara de acender.
...Sua luz se apagara de tanta tristeza por ter visto coisas demais --amores que não se realizaram, promessas sussurradas em noites de verão que nunca foram cumpridas. Agora ele só conseguia emitir um pálido brilho fosco, como o de uma brasa quase morta, que mal iluminava seus próprios olhinhos cansados.
A menina se aproximou e sussurrou, pois sabia que sons altos doíam nos élitros dele:
— Lampíride, trouxe um pedacinho de luar em conserva!
Ela abriu um potinho que continha um líquido prateado -- luar colhido em noites de lua minguante, que Madame Pluviosa uma vez lhe dera em troca de um segredo sazonal.
O velho vagalume aproximou as antenas trêmulas e bebeu um gole minúsculo. Por um instante, seu abdômen piscou, não com luz, mas com a memória da luz, e projetou nas paredes sombras em forma de estrelas.
Verme Licor bateu palminhas (que eram apenas dobrinhas de sua pele gorducha) e exclamou:
— Olha! Ele fez estrelas!
Mas o brilho durou pouco. O Lampíride Fosco suspirou, um suspiro que cheirava a poeira de asas, e disse com voz de papel amassado:
— Obrigado, menina. Mas não é mais a luz que me falta. É a escuridão que a luz iluminava!
A Menina Umbral entendeu.!
...Ela também sentia falta de sua sombra -- não da sombra em si, mas do contraste que ela fazia com sua pele clara, da dança que as duas faziam juntas quando a vela balançava.
— Eu sei , respondera ela, os olhos de papel vegetal ficando levemente úmidos, fazendo a tinta de suas veias borrar um pouco.
— Às vezes, o que nos faz falta não é a coisa perdida, mas a sensação de sermos dois!
Verme Licor, que era pequeno, mas nunca tolo, enroscou-se no dedo mindinho dela e perguntou:
— E se vocês três fossem uma coisa nova? Uma sombra que já foi luz, uma luz que já foi sombra, e um verme que nunca foi nada além de um verme... mas que lambe lágrimas com gosto de anis!
...A Menina Umbral riu baixinho, e sua risada fez desenharem-se no chão do sótão os mapas de um lugar que não existia: uma ilha onde as sombras brilhavam e os vagalumes faziam cócegas nos pés das crianças perdidas.
O Lampíride Fosco, pela primeira vez em muitos outonos, bateu as asinhas empoeiradas. Não para voar -- ele já não conseguia -- mas para sentir o ar se mexer, como um carinho!
— Menina Umbral , ele disse, com sua voz de estrela apagada , 'se um dia sua sombra voltar', não se esqueça de nós!
Ela abaixou a cabeça, e uma lágrima escorreu de seus olhos de tinta, uma gota preta que caiu no chão e virou a letra 'S' de saudade.
— Nunca! , sussurrou.
— Vocês são a sombra que eu escolhi ter!
...E assim, no sótão da casa torta, os três permaneceram em silêncio, enquanto a noite lá fora acendia suas próprias luzes.
Verme Licor adormeceu no ombro da menina, roncando bolhinhas de calda.
O Lampíride Fosco apagou-se por completo, mas pela primeira vez não se sentiu vazio!
... E a Menina Umbral desenhou no ar, com o dedo, uma porta invisível.
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À Estrela que não se Nomeia
Há solidão nas coisas que persistem:
No musgo que abraça a pedra sem ser visto,
Na última folha que o outono insiste
Em não deixar cair sobre o asfalto frio.
...Há solidão no som que a chuva faz
Quando ninguém a escuta do outro lado --
E, mais profunda, a solidão que jaz
No peito de quem ama sem ser amado.
Contudo, a Esperança -- pálida e esquiva --
Não cessa de bater na porta em ruínas;
Não canta, não promete a curva ativa,
Mas sopra em nossas mãos cinzas divinas.
Ela mora no instante suspenso e breve
Entre o adeus e o primeiro movimento:
Chama que não aquece, mas se atreve
A transformar silêncio em pensamento.
Ó, minha alma, que a noite te desnude
Como o vento desnuda o arbusto triste --
Pois cada perda é uma nova atitude
De ver o céu que em ti mesmo existe.
Se o sol fugiu além da serra escura
E a lua esfriou teu leito transitório,
Lembra que o mar, na sua imensa lonjura,
Guarda também o azul como oratório.
A solidão é a casa onde a Esperança
Entra descalça para não fazer ruído,
E, como um gato que na sombra avança,
Faz do vazio um súbito sentido.
Não brilha, não -- a Esperança verdadeira
É a que tremula quase apagada,
Como a estrela mais tímida e rasteira
Que alguém nomeou sem querer nada.
E, quem sabe, ao fim da madrugada,
Quando a tristeza já não dói mais tanto,
Descobriremos que não falta nada:
Que a Esperança era apenas nosso pranto
A secar devagar na face erguida,
Aceitando que a noite é necessária —
Pois só na escuridão é concebida
A aurora que dispensa qualquer lâmpada.
Assim, sozinho, em comunhão profunda
Com o silêncio e a perda que nomeio,
Sinto que a vida, em sua dança muda,
Não me enche o peito -- mas também não me apeio.
E, se a tristeza me tombar ao chão,
Que eu tombe como a sombra de uma flor:
Leve, sem ruído, como a solidão
Que se fez Esperança por amor!
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Ah, o 'luar em conserva' que a Menina Umbral ofereceu ao velho Lampíride Fosco.
...Vamos desdobrar essa iguaria fantasmagórica com a delicadeza que ela merece --- pois nada nesse mundo sombrio é cozinhado sem ritual!
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Doce de Luar em Conserva
(ou Doce de Lua, como o chama Verme Licor)
Aparência
Dentro de um pequeno frasco de vidro grosso, daqueles de rolha de cortiça e lacre de cera pálida, repousa um líquido que não se decide entre o prateado e o transparente.
... À luz do dia, parece água dormida; mas na penumbra, emite uma luminescência tímida, como a de um olho de gato refletindo uma vela distante.
Quando agitado de leve, o líquido se encrespa em espirais lentas, e pequeninos pontos brilhantes -- minúsculas esferas de luz solidificada -- rodopiam antes de voltar ao repouso. São as 'pérolas de lua', que se formam apenas quando o luar é colhido em noites de quarto minguante.
Aroma
Ao abrir o frasco, o primeiro cheiro é de ausência: um vazio frio e metálico, como o ar depois que o trovão já passou mas a chuva ainda não chegou. Em seguida, revela-se um perfume doce e distante, que lembra gardênias noturnas, leite morno com uma gota de anis, e o cheiro da pele de quem acabou de sonhar.
Sabor
Na boca, o gosto é o de uma tristeza que aquece -- ou de uma esperança que esfria, conforme a temperatura de quem o bebe. O primeiro toque na língua é de um doce quase gasoso, evanescente, como morder uma nuvem de açúcar que se desfaz antes de existir.
...Depois, vem um fundo levemente salgado: é a lágrima que a lua derramou ao ver-se refletida no mar pela primeira vez.
As pérolas de lua estalam entre os dentes com um som mínimo, como o de um grão de areia caindo sobre veludo, e liberam um breve lampejo de luz na boca -- quem as morde sente os lábios brilharem por um instante, como se tivessem beijado um vaga-lume.
Textura
Não é exatamente líquido, nem gel.
...Tem a consistência de um suspiro frio -- escorre na colher como mel muito ralo, mas ao tocar a língua parece evaporar e condensar-se ao mesmo tempo, deixando uma película aveludada, como a de um creme que não é deste mundo.
Como se faz (segundo Madame Pluviosa)
Colhe-se o luar apenas em noites de lua minguante, quando a luz está 'madura, mas prestes a partir'.
Estende-se um lençol de seda negra sobre um campo silencioso, de preferência onde cresçam flores noturnas (dama-da-noite, trombeta-de-anjo).
O luar deposita-se sobre o tecido como um orvalho invisível.
Antes do amanhecer, torce-se o lençol sobre uma tigela de estanho, e o que escorre é uma água pálida que ainda não é doce -- é apenas 'lágrima de lua crua'.
Essa água é misturada com:
● Uma pitada de pólen de estrelas (colhido por mariposas treinadas),
●Três gotas de leite de amendoeira fantasma (árvore que só dá frutos em sonhos),
●E um fio de mel de abelhas que polinizaram flores de túmulo.
A mistura é selada no frasco e deixada para decantar durante um ciclo lunar completo. Ao final, as pérolas de lua terão se formado no fundo, e o líquido estará pronto: é o Luar em Conserva.
Efeitos em quem consome
1. Uma colher pequena: faz sonhar com lugares que nunca visitou, mas que doem de saudade.
2. Duas colheres: os olhos brilham fracamente no escuro por uma noite inteira.
3. Três colheres: a pessoa esquece o próprio nome por algumas horas e passa a atender por qualquer palavra gentil.
4. O frasco inteiro: nunca se soube -- quem o fez nunca mais foi encontrado, embora às vezes se veja, em noites muito escuras, uma figura dançando no reflexo da lua sobre um lago, como se já não pertencesse a este mundo.
Uma variação: Doce de Lua Sólido
Há quem reduza o luar em conserva em fogo de vela preta até formar uma pasta espessa, que depois é cortada em cubinhos e enrolada em açúcar de ossos (açúcar refinado com um toque de cinza de carta queimada). São os Torrões de Luar, que estalam na boca e libertam memórias emprestadas -- lampejos de noites que pertenceram a outras pessoas.
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Quem sabe, outra hora...
...uma receita de outro doce desse mundo -- como as Balas de Naftalina do Menino Traça(*amigo real e verdadeiro da Menina Umbral)
Personagens by Santidarko
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