sexta-feira, 24 de julho de 2026

Sua sombra já se mudou para um outro lugar


...Quando a cidade te engole, mas você insiste em permanecer -- ainda vivo, ainda consciente, ainda absurdamente lúcido --, há um pedido mudo por uma digestão definitiva, um ser triturado... de uma vez por todas!

Porque o lento dissolver é uma crueldade... que ninguém te contou que existia.

...No entanto, os pés continuam caminhando por ruas onde as luzes amarelas agonizam em sua transição para o branco frio. 

Elas piscam como pálpebras cansadas de velar os mortos. Cada lâmpada que se apaga no amarelo é uma pequena morte de um mundo que te reconhecia; cada acender branco é um nascimento de um mundo que jamais saberá teu nome.

É um novo existir que se infiltra no antigo como água em pulmões, e você está exatamente na margem: nem mais pertencente ao que foi -- porque o passado já te exilou de suas fotografias --, nem ainda vestido pelo que virá -- porque o futuro se veste com corpos mais jovens, mais inteiros, menos assombrados.

Nessa fronteira suspensa, a existência se revela como um rascunho que ninguém passará a limpo. 

Um rascunho que o próprio autor abandonou sobre a mesa, e o vento das horas vai levando as folhas, uma a uma, para debaixo dos móveis, para dentro dos bueiros, para o esquecimento do esquecimento.

A cidade digere símbolos, afetos, memórias; mas você, estranhamente, resta -- resto não digerido, matéria que o organismo urbano não sabe se absorve ou expele. 

...E esse resto dói!

Dói como dói uma pedra no rim do mundo. Você é a indigestão da metrópole, o que emperra sua maquinaria de esquecimento. 

...E ninguém agradece por isso. 

Nem você!


...Porque a digestão total seria o desaparecimento, e você descobre que já não quer desaparecer -- mas também já não sabe mais o que quer!

Você quer o assombro de habitar a transição, mas descobre tarde demais que habitar a transição é habitar casa nenhuma. É fazer morada no vão entre duas estações de metrô. É escutar o eco dos seus próprios passos e não saber se está chegando ou partindo, se ainda é passo ou já é despedida.

As luzes brancas são a promessa de um mundo mais nítido, mais eficiente, mais desperto! ;--gritam os cartazes, os aplicativos, os sorrisos plastificados!

Mas nelas também mora uma assepsia que apaga as sombras onde a alma se escondia. 

Câmeras em todo os lugares!

...A cidade não esquece, quem você fingi ou declara ser, porém, ela não está nem aí para sua existência!

A menos, que você a insulte!

...E uma alma sem esconderijo é uma alma desabrigada, uma alma que treme sob a luz como um inseto exposto quando se levanta a pedra. Sob o amarelo antigo, a cidade ainda permitia o mistério -- o erro, a demora, o beijo mal dado, a tristeza sem pressa. 

Sob o branco, tudo é exposto, e a exposição total é vizinha da solidão absoluta. 

Uma solidão que não é ausência de gente, mas ausência de possibilidade de ser encontrado.

Você caminha entre esses dois espectros como quem caminha entre duas eras de si mesmo: o eu que ainda espera ser salvo pelo acaso -- ingênuo, ridículo, doce -- e o eu que já sabe que o acaso é só um nome para o que ainda não foi nomeado, e que o não nomeado talvez nunca chegue, porque quem nomeia já esqueceu a língua, já perdeu o fôlego, já desistiu de falar!

...E então surge a ideia verdadeiramente desconcertante: talvez a cidade nunca tenha tentado te engolir!

... Talvez, ela apenas respire, indiferente, e a sensação de ser tragado seja a maneira desajeitada que a consciência encontra de perceber sua própria vastidão -- uma vastidão que não é grandeza, mas eco oco, salão vazio onde sua voz repica e ninguém responde. 

Você não foi devorado. 

Você foi só... ignorado!

E a indiferença é uma forma de fome que mastiga sem tocar. É ser digerido sem nunca ter passado pela boca.

Existir à margem do existir não é estar fora, mas estar tão dentro que as bordas se dissolvem -- e quando as bordas se dissolvem, você já não sabe onde termina seu corpo e começa o abandono. 

É ser a rua que ninguém fotografa e ainda assim sustentar o trânsito inteiro das horas, as chuvas, os cuspes, as bitucas, os passos que vão e nunca voltam.

 É ser, enfim, o intervalo -- entre o amarelo que já morreu e o branco que nunca chega a aquecer, entre a digestão que não se completa e a fome que não cessa, entre o nome que te deram e o nome que você ainda não ousou pronunciar!

 Um nome que talvez se perdeu na transição das luzes. Um nome que, se dito agora, soaria como um idioma extinto. 

...Um nome que já não serve para ser chamado, porque ninguém mais está ouvindo!




By Santidarko 

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