segunda-feira, 6 de julho de 2026

Quen Trell, Dreno(*Personagem by Santidarko )



A cidade de Vilipétala não respira, ela exala!

 Exala o perfume nauseante das flores de estufa que entopem os jardins suspensos, exala o óleo rançoso das máquinas de fiar que nunca param e, acima de tudo, exala o medo. 


...Um medo doce e pegajoso, como o néctar de uma planta carnívora.

E no centro desse pântano de veludo e aço, caminha Quen Trell.

Para os cidadãos de Vilipétala, ele é o Dreno. 

Não um herói, não um vigilante, mas um sintoma!

Uma febre que a cidade contraiu e não consegue curar. Eles o chamam de Dreno porque ele suga a alegria das ruas, porque seus olhos fundos e cinzentos parecem esvaziar a cor dos murais de porcelana.

 ...Porque, onde ele passa, o silêncio se instala, pesado e úmido como o ar antes da tempestade.

Trell é um justiceiro, sim, mas sua justiça é doentia, filha de uma paranóia que cresceu com as raízes tortas da própria cidade.

 Ele não vê apenas criminosos; ele vê sombras. 

Cada sorriso escondido atrás de um leque de seda é uma conspiração. Cada sussurro entre os mercadores de especiarias é um código. 

Cada pétala caída no chão de paralelepípedos é um sinal de um plano maior para envenenar os reservatórios de água.

Há cinco anos, ele estava certo. 

...Apenas uma vez! 

Uma noite em que o grão-duque foi assassinado e os Venenos Fluviais infestaram os canais. Trell, então um simples arquivista da Câmara dos Odores, foi o único a prever o ataque, lendo nos livros de contabilidade um padrão nas compras de estanho. 

Ele salvou o distrito industrial, mas viu sua esposa, Lyra, ser arrastada pelas águas negras enquanto tentava avisar os outros.

Desde então, a lógica de Trell se quebrou como um espelho. Ele não apenas prevê o perigo; ele o invoca na mente.

 Sua depressão é a lama que o prende ao passado; sua paranoia, a bússola quebrada que o guia. Ele patrulha os telhados de ardósia não para proteger, mas para punir a cidade por não ter ouvido Lyra, por ter deixado a água subir.

O que a cidade odeia em Trell não é sua violência -- ele raramente mata. 

...É sua certeza!

 Ele encara um burguês que jogou lixo no canal e vê nele o fantasma de um assassino em massa. 

Ele acusa, com lágrimas nos olhos, uma costureira de esconder agulhas envenenadas nas bainhas dos vestidos de gala. 

Ele tem razão?

...Não importa!

Para Vilipétala, a verdade de Trell é um tumor. Ele lembra a todos que, sob a beleza pútrida da cidade, há algo podre. 

...E que esse algo podre talvez seja eles mesmos.

A lenda diz que, se você vir o Dreno, deve desviar o olhar. 

Não por medo de sua lâmina curva, mas por medo de que ele veja em seus olhos a mesma culpa que ele carrega. 

Culpa por sobreviver!

 Culpa por ainda respirar o ar doce de Vilipétala.

Quen Trell não quer salvar a cidade. 

...Ele quer que ela confesse!

E enquanto ela se recusa, ele drenará cada gota de sua paz, uma pétala de cada vez.



By Santidarko 
Personagem by Santidarko 

Nenhum comentário: