Ghooulo
Nenhum deus o fez. Nenhum demônio o reivindicou.
Ele simplesmente... se formou!
No coração de pântano antigo, onde a água é tão escura que reflete apenas a morte, onde as árvores morrem de pé e continuam crescendo para baixo, algo começou a juntar os pedaços.
Não era um espírito. Não era um corpo. Era o próprio brejo cansado de ser apenas cenário, cansado de engolir vítimas e não ter boca para saboreá-las.
O primeiro pedaço foi um fêmur, cravado na lama como uma estaca esquecida.
...Depois, uma costela, trazida pela enchente.
Depois, uma mandíbula, com dentes ainda afiados. A madeira podre das árvores afogadas se ofereceu como tendões.
O limbo -- aquele musgo cinzento que cresce entre a casca e a carne da árvore morta --se ofereceu como pele.
... E das bolhas de gás que estouram na superfície do charco, veio o primeiro suspiro.
Ghooulo não nasceu.
Foi montado!
Ele emergiu da água negra como uma escultura viva de restos. Seu corpo é um mosaico de ossos anônimos e galhos retorcidos, unidos por limbo úmido e por algo mais profundo: a recusa de ser esquecido.
Cada osso que o compõe pertenceu a alguém que morreu no pântano -- afogados, desaparecidos, suicidas, vítimas de crimes jamais resolvidos.
Ghooulo não devorou esses corpos.
Ele os herdou!
E com eles, herdou fragmentos de memória: um nome sussurrado, um rosto amado, um medo final.
Ele se lembra de todas as mortes que o formaram.
Ghooulo é a coisa que permanece -- o que sobra quando o fim já aconteceu e ninguém veio reclamar os restos.
Ele não caça por maldade.
Caça por uma fome que não é só de carne!
Os aldeões das redondezas conhecem sua existência, sem nunca tê-lo visto.
Sabem que o pântano tem olhos!
Sabem que os ossos que flutuam às vezes se movem contra a correnteza.
Deixam oferendas na beira do charco: pão, moedas, fotos de entes queridos que querem ver de volta. Ghooulo aceita as oferendas, mas nunca devolve ninguém.
Ele não é cruel. É inevitável. É o luto que ganhou corpo. É a memória que apodrece, mas não desaparece.
No fundo do pântano, onde a lama é mais espessa e o silêncio é absoluto, Ghooulo construiu seu trono: uma árvore oca cujas raízes abraçam um cemitério de esquecidos.
...Ali, ele se senta e escuta. Os ossos sussurram. O limbo estala. A madeira geme. E Ghooulo, o Filho do Brejo, o Guardião dos Restos, o Eco de Todas as Mortes, simplesmente espera!
Porque muitas pessoas, um dia, visita um pântano.
By Santidarko
Personagem by Santidarko
Nenhum comentário:
Postar um comentário