domingo, 26 de julho de 2026

Ghooulo(*Personagem by Santidarko)


Ghooulo

Nenhum deus o fez. Nenhum demônio o reivindicou. 

Ele simplesmente... se formou!

No coração de pântano  antigo, onde a água é tão escura que reflete apenas a morte, onde as árvores morrem de pé e continuam crescendo para baixo, algo começou a juntar os pedaços. 


Não era um espírito. Não era um corpo. Era o próprio brejo cansado de ser apenas cenário, cansado de engolir vítimas e não ter boca para saboreá-las.

O primeiro pedaço foi um fêmur, cravado na lama como uma estaca esquecida. 
...Depois, uma costela, trazida pela enchente.

 Depois, uma mandíbula, com dentes ainda afiados. A madeira podre das árvores afogadas se ofereceu como tendões. 

O limbo -- aquele musgo cinzento que cresce entre a casca e a carne da árvore morta --se ofereceu como pele.

... E das bolhas de gás que estouram na superfície do charco, veio o primeiro suspiro.

Ghooulo não nasceu. 
Foi montado!

Ele emergiu da água negra como uma escultura viva de restos. Seu corpo é um mosaico de ossos anônimos e galhos retorcidos, unidos por limbo úmido e por algo mais profundo: a recusa de ser esquecido. 

Cada osso que o compõe pertenceu a alguém que morreu no pântano -- afogados, desaparecidos, suicidas, vítimas de crimes jamais resolvidos. 

Ghooulo não devorou esses corpos. 

Ele os herdou!

E com eles, herdou fragmentos de memória: um nome sussurrado, um rosto amado, um medo final.

Ele se lembra de todas as mortes que o formaram.

 Ghooulo é a coisa que permanece -- o que sobra quando o fim já aconteceu e ninguém veio reclamar os restos.

Ele não caça por maldade.

 Caça por uma fome que não é só de carne!



Os aldeões das redondezas conhecem sua existência, sem nunca tê-lo visto. 

Sabem que o pântano tem olhos!

 Sabem que os ossos que flutuam às vezes se movem contra a correnteza. 

Deixam oferendas na beira do charco: pão, moedas, fotos de entes queridos que querem ver de volta. Ghooulo aceita as oferendas, mas nunca devolve ninguém.

Ele não é cruel. É inevitável. É o luto que ganhou corpo. É a memória que apodrece, mas não desaparece.

No fundo do pântano, onde a lama é mais espessa e o silêncio é absoluto, Ghooulo construiu seu trono: uma árvore oca cujas raízes abraçam um cemitério de esquecidos. 

...Ali, ele se senta e escuta. Os ossos sussurram. O limbo estala. A madeira geme. E Ghooulo, o Filho do Brejo, o Guardião dos Restos, o Eco de Todas as Mortes, simplesmente espera!

Porque  muitas pessoas, um dia, visita um pântano. 





By Santidarko 
Personagem by Santidarko 

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