Na penumbra das fundições abandonadas, onde o aço chora ferrugem e o concreto respira mofo, existe uma lenda urbana que os trabalhadores da noite murmuram entre os dentes.
...Chamam-no de Gholnin, o ronin caído!
Mas antes de ser mito, antes de ser monstro, ele é professor.
Seu nome é Kenzai Haze.
Kenzai leciona Engenharia de Materiais Compósitos e Fratura na Universidade de Politécnica de Grafelato; uma instituição gótica-industrial cujas torres de cobre verde-escuro e vitrais de equações de tensão se erguem sobre um penhasco de basalto, varrido por ventos que carregam o cheiro de ozônio das forjas subterrâneas ---dessa cidade com inúmeras operações construtivas.
Grafelato não forma engenheiros comuns: 'forma ourives da matéria', 'alquimistas da estrutura atômica'.
...De lá saíram as ligas que sustentam 'pontes impossíveis' e as cerâmicas que revestem naves.
Kenzai é um dos mais brilhantes.
Especialista em fraturas, ironicamente.
Ele estuda o ponto exato em que um material se quebra.
...O momento preciso em que a estrutura íntima colapsa.
Diz aos seus alunos, com uma voz calma que carrega um peso estranho: 'Tudo se rompe!'.
'A questão não é se, mas onde, quando e como.
Encontrem a linha de clivagem e vocês encontrarão a verdade de qualquer coisa.'
Ninguém sabia que ele já havia encontrado a sua própria linha de clivagem --- e a ultrapassado!
Fora da universidade, longe das lousas de cristal líquido e dos laboratórios de espectroscopia, Kenzai vaga pelas entranhas de Chuva Negra-- uma cidade-distrito que se aninha no delta de um rio industrial, onde as marés noturnas trazem uma névoa espessa e oleosa que engole a luz.
É uma cidade de docas enferrujadas, mercados de entulho biônico, templos abandonados engolidos por arranha-céus de vidro negro e clínicas clandestinas que trocam membros de liga barata por almas.
Quem entra em Chuva Negra, se adapta à escuridão---e se torna parte de 'algo pegajoso'.
Gholnin, O ronin Fantama caído.
Um samurai sem mestre num mundo onde os mestres são corporações, algoritmos e dívidas.
Ele não veste armadura tradicional: veste uma de fibra de carbono com ligas de um material que Kenzai descobrira bem seu laboratório.
Ele não luta por honra: luta porque a fome que carrega -- uma fome que não é só física, é existencial --não o deixa parar.
Durante o dia, Kenzai Haze ensina a jovens engenheiros como a estrutura cristalina de um metal prevê sua morte.
Durante a noite, Gholnin aplica essa mesma ciência nos corpos daqueles que ousam ameaçar os poucos inocentes que restam nas vielas afogadas em névoa.
Ele conhece o ponto de ruptura de cada osso. Ele sabe exatamente onde um crânio cede, onde uma costela lasca, onde uma alma quebra.
By Santidarko
Personagem by Santidarko
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