sexta-feira, 10 de julho de 2026

New Darkening (Quielum, Arden & Nictah),personagens by Santidarko



Estação Solene

Antes do terremoto, a Estação de metrô Solene era o orgulho de Valenévoa, uma cidade portuária incrustada entre morros e mar, conhecida por suas névoas matinais, seus casarões coloniais e sua vida noturna pulsante. 

Fundada no século XVIII por navegadores que diziam ter encontrado ali o pôr do sol mais bonito do mundo, Valenévoa cresceu como um porto de passagem, um lugar onde tudo chega e nada fica -- exceto a névoa, exceto os segredos, exceto as coisas que se escondem sob as ruas de paralelepípedo.

A Estação Solene foi inaugurada em 1921, desenhada por um arquiteto obcecado por catedrais góticas. Seus azulejos eram azul-profundo como vitrais. 

Seus lustres de bronze pendiam como incensários. Seu relógio central tinha ponteiros dourados e uma inscrição em latim: 'Omnia nox revelat'-- a noite tudo revela. 

Os moradores de Valenévoa tinham orgulho da estação. 

...Turistas tiravam fotos!
Casais se beijavam na plataforma. 

...A cidade parecia eterna!

O terremoto de 1987 não foi eterno!



Durou quarenta e dois segundos e quebrou Valenévoa como um biscoito. A Zona Velha foi a mais atingida: casarões ruíram, igrejas racharam, e a Estação Solene afundou parcialmente, o teto desabando sobre os trilhos, as paredes cedendo como costelas partidas. 

Os engenheiros desceram, avaliaram, e deram o veredito: o solo sob a estação era uma colcha de retalhos de falhas geológicas.

...Reparos eram impossíveis!

A prefeitura lacrou as entradas com concreto, removeu Solene dos mapas, e desviou os trens para uma estação nova, feia, funcional, sem alma!

...Os anos passaram!A névoa de Valenévoa continuou subindo do mar toda noite. 

Os casarões foram reconstruídos. A vida noturna voltou a pulsar. E ninguém se lembrou mais da Estação Solene --exceto os três.



Os Três

Eles não são londrinos. Não são aristocratas europeus. São filhos de Valenévoa --cada um transformado numa noite diferente da cidade, cada um carregando o sotaque local, a gíria local, o jeito local de ser vampiro. 

Não dormem em caixões. Não usam capas. Não fogem de alho nem de cruz. 

...São jovens, famintos, lindos e perigosos -- e Solene é a casa deles!


--------------------------
Quielum, o Punk do Porto

Quielum tem vinte e nove anos para sempre!

Foi transformado numa noite , atrás de um show de punk rock no Beco das Marés, onde bandas underground tocavam para plateias de trinta pessoas suadas. 

Ele tinha ido ver o show com uma jaqueta de couro que ele mesmo customizara com  briches e tinta spray. 


Saiu de lá com uma jaqueta manchada de sangue e uma fome que nunca mais passou.

Seu visual é punk de rua, não de boutique! Jaqueta de couro preta coberta de patches de bandas que só existiram em porões de São Crepúsculo: Restos de Quinta, Mofo Urbano, Hóstia Podre. 

Por baixo, uma camiseta cinza com um desenho tosco .

 As calças são pretas, rasgadas nos joelhos, presas por um cinto de fivela de caveira. 

As botas são coturnos surrados que pisam com força nos paralelepípedos, como se a cidade lhe devesse algo. 

...Na orelha esquerda, um crucifixo de prata que ele usa como brinco -- não por blasfêmia, mas porque acha irônico. 
'As tias da igreja' rezam pra isso. Eu uso de enfeite!'.

Quielum fala rápido, com o sotaque arrastado de quem cresceu nos bairros do porto. Usa gírias que saíram de moda há quarenta anos e não se importa. Chama os outros vampiros de 'mano'.

 Chama as vítimas de 'lanche'.

 Chama o New Darkening de 'a parada'.

Ele não lidera por ser o mais velho - Arden é mais velho. 

...Lidera porque é o mais barulhento, o mais raivoso, o que age antes de pensar e pensa enquanto morde. Sua filosofia é simples: o mundo é uma piada de mau gosto, a sociedade é uma mentira, e ser vampiro é a única forma honesta de existir!

'A gente não finge, mano. A gente tem fome e come. Os humanos têm fome e vão no mercado. Qual a diferença?'

Seu canto em Solene é a antiga cabine do chefe da estação. Ele arrancou os painéis de controle e pendurou pôsteres de bandas que ninguém mais lembra. 

...Há uma guitarra elétrica sem cordas num canto--ele sempre diz que vai aprender a tocar. Há uma pilha de discos de vinil arranhados que ele roubou de um sebo falido. Há uma rede estendida entre duas colunas de ferro, onde ele dorme de dia embalado pelo silêncio dos túneis.

Quando caça, Quielum vai para o Centro Velho, onde as ruas são estreitas e os bares fecham tarde. 

...Ele não seduz. 

'Ele provoca'!

Escolhe vítimas que se acham duronas: o filhinho de papai, o segurança de boate, o motoqueiro barulhento. Encosta na parede do beco, acende um cigarro que não vai fumar, e sorri.

— 'Tá perdido, irmão? Quer companhia?'

A vítima olha para ele. Vê um moleque de jaqueta de couro, magro demais, pálido demais, sorridente demais. 
...Ri!
Acha que está no controle.

...Nunca está!

--------------------------


Arden, o Rockstar da Zona Velha

Arden tem vinte e cinco anos e a aparência de quem acabou de sair do palco de um festival que nunca existiu.

 Foi transformado nos anos 70, durante o Festival de Verão de Valenévoa, um evento que entrou para a história porque a banda principal nunca chegou a tocar -- o vocalista foi encontrado sem sangue no camarim, e Arden desapareceu na mesma noite.

... Ele não conta o que aconteceu!

 Quando perguntam, ele apenas sorri e aumenta o volume do som.

Seu estilo é rock 'n' roll com poeira de estrada e um toque de glam noturno. 
Usa uma jaqueta de veludo preto com bordados prateados nos ombros, que ele jura ter pertencido a um guitarrista famoso. 

A camiseta é preta, com o logo dos The Doors em letras desbotadas. As calças são pretas e justas. As botas são de couro com fivelas laterais que tilintam quando ele anda pelos túneis de Solene. Nos dedos, anéis de prata com pedras negras. No pescoço, um lenço vermelho desbotado que ele usa como bandana, como gravata, como máscara -- depende do humor.

O cabelo é escuro e ondulado, caindo sobre os olhos. Ele está sempre empurrando os fios para trás com a mão esquerda, um gesto automático que as vítimas acham hipnotizante.

 Os olhos são castanhos com pintas douradas, como se tivessem capturado um pedaço da iluminação de um show. 
...Seu sorriso é torto, de lado, como se ele soubesse de uma piada que você ainda não entendeu.

Arden fala com calma, voz de DJ de madrugada. Ele é o sedutor do trio, o que entra nos bares, pede um uísque, senta ao piano, e em quinze minutos tem uma plateia de estranhos apaixonados.

 Ele não os mata!

... Não sempre!


Às vezes, apenas prova!
...Um gole. Uma cicatriz minúscula. E some pela porta dos fundos, deixando a vítima tonta, viva, perguntando se aquilo foi sonho.

Seu canto em Solene é a antiga plataforma de embarque. Ele arrastou poltronas de um cinema abandonado, montou um bar com garrafas vazias e coloridas, e instalou um toca-discos que funciona com um gerador roubado. 

Há vinis do Led Zeppelin, Janis Joplin, Jimi Hendrix. 

...Há um violão acústico que ele toca à noite, dedilhando blues tristes enquanto os ratos assistem. Arden é o menos faminto dos três, mas o mais perigoso -- porque ele não caça por fome. Caça por esporte. Por arte. Porque a caça, para ele, é música!


---------------------------

Nictah, a Gótica do Silêncio

Nictah tem vinte e quatro anos e parece ter saído de um filme expressionista alemão que foi filmado em Valenévoa por engano. 

Foi transformada em 1998, numa noite de chuva, no Cemitério da Colina -- o mais antigo da cidade, onde as lápides têm anjos decapitados e as sepulturas são cobertas de hera negra. 

Ela não conta quem a transformou.

.. .Ela não conta quase nada.!

Mas Arden uma vez a viu passar os dedos sobre um nome gasto numa lápide e sussurrar 'desculpa'.

... Ele nunca perguntou por quê!

Seu estilo é gótico romântico com um toque de funeral vitoriano e outro de rebeldia moderna. Usa um vestido preto longo, de renda e cetim, com mangas que cobrem as mãos e uma saia que se arrasta pelo chão dos túneis como uma sombra líquida. 

O corpete é apertado, com fitas de veludo cruzadas nas costas. Nos pés, coturnos pretos de plataforma -- a única concessão ao conforto. Nos pulsos, pulseiras de ônix e prata. No pescoço, um camafeu com o retrato de uma mulher que não é ela --ou talvez seja, de outra época.

O cabelo é preto-azulado, liso, longo ,, cortado reto como uma lâmina. Ela o usa solto na maioria das noites, mas às vezes o prende com duas agulhas de prata que, dizem, são finas o suficiente para furar uma artéria. 

A pele é branca como porcelana, e ela a maquia com pó translúcido para que pareça ainda mais fria.!

Os lábios são pintados de vinho escuro, quase preto. Os olhos são delineados com kohl, e a sombra é roxa, profunda como hematoma.

...Nictah não fala muito!

Quando fala, a voz é baixa, quase um sussurro, e as palavras são escolhidas como quem escolhe pedras para um mosaico. 

..Ela é o silêncio de Solene. 

...Enquanto Quielum grita e Arden toca violão, ela observa. Senta-se no banco mais escuro da plataforma. Desaparece nas sombras -- às vezes literalmente, porque ela tem o dom de se fundir com a escuridão como se fosse feita dela.

Seu canto em Solene é a antiga sala de espera VIP, que ela transformou em algo entre uma capela e um gabinete de curiosidades. 

...Há crucifixos nas paredes --dezenas deles --de todos os tamanhos e materiais. 

...Nenhum está quebrado!
...Nenhum está invertido!

 Estão pendurados como uma coleção de borboletas noturnas. Cada um pertenceu a alguém que morreu rezando. Ela os toca, às vezes. E sussurra:

— 'Ele não respondeu, respondeu?'

Os crucifixos não respondem. Ela sorri -- um sorriso mínimo, quase invisível, a primeira sílaba do próprio nome.

'Nictah não caça'.

 ...'Ela os colhe!'

Escolhe vítimas solitárias: o poeta que bebe sozinho no bar da praça, a velha que acende velas na praça, o turista perdido na Zona Velha. 

Ela não os seduz!

...Não os provoca!

Simplesmente aparece diante deles, silenciosa, linda, triste. E a vítima sente, pela primeira vez na vida, que alguém a compreende. Estende a mão. Nictah segura a mão.

... E a escuridão faz o resto!

------------------------

Os Três em Conjunto

...Eles não são uma família!

Não são um clã!

'São três acidentes noturnos' que a cidade de São Crepúsculo juntou nos túneis. 

...Mas há um entendimento entre eles!

 Quielum traz a raiva. Arden traz a arte. 
...Nictah traz o silêncio!

Nas noites de inverno, quando a névoa do porto desce pelos dutos de ventilação e invade Solene como um visitante, eles se reúnem na plataforma principal. 

Arden põe um disco no toca-discos. 
Quielum abre uma cerveja que roubou de um bar. Nictah se senta no banco mais escuro. Eles conversam pouco, mas escutam música juntos. 

...Às vezes, Quielum grita a letra, errando as palavras. Às vezes, Arden dedilha o violão.
... Às vezes, Nictah fecha os olhos e mexe os lábios, cantando baixinho algo que ninguém mais ouve.

...

Eles sabem. Sentem no ar, na névoa, no gosto do sangue. Algo está se adensando no mundo --uma mancha, uma presença, uma fome maior que a deles. 

Quielum chama de 'a parada'.
Arden chama de 'o grande show'. 
Nictah chama de Sanguithra, e quando ela diz essa palavra, até os ratos param de se mover.



By Santidarko 
Personagens by Santidarko 


Nenhum comentário: