Xenopsilina: O Veneno das Estrelas(Um meteorito, uma toxina e uma cidade mergulhada no delírio) (by Santidarko)



Introdução 

...Há cerca de 4,5 bilhões de anos, nos confins do cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter, um corpo parental rico em gelo e compostos orgânicos foi fragmentado por uma colisão. 


Um de seus pedaços — um condrito carbonáceo do tipo CM2, com veios de minerais hidratados e bolsões de aminoácidos primordiais — vagou pelo Sistema Solar por eras, carregando em sua matriz molecular os ingredientes brutos da vida.

Em 2026, esse fragmento, com aproximadamente 80 centímetros de diâmetro, entrou na atmosfera terrestre em um ângulo raso sobre o Brasil. 

A fricção incandescente removeu sua crosta externa, mas o núcleo sobreviveu!

Ele caiu em uma madrugada silenciosa na cidade  de Águas da Serra, no interior de Minas Gerais, atingindo o reservatório municipal que abastecia 12 mil habitantes.

O impacto não foi catastrófico — apenas um estrondo surdo...e uma coluna de vapor. 


Mas sob a superfície da água, algo raro aconteceu: o calor extremo do choque, combinado com os minerais do meteorito e os sedimentos orgânicos do fundo do reservatório, desencadeou uma síntese química espontânea.


 Em poucos minutos, formou-se um composto até então desconhecido na Terra: a xenopsilina, uma triptamina alucinógena de origem extraterrestre, estável em água fria e incrivelmente potente em microdoses.

Os cientistas só a identificariam semanas depois.


 Para os moradores, o que começou como um gosto metálico na água da torneira ,logo se transformou em visões, pânico e a sensação de que a realidade havia sido rasgada.






Capítulo 1 — O Gosto da Água

A primeira coisa que dona Marta notou foi o cheiro.

Não era exatamente ruim — apenas estranho, como se alguém tivesse fervido moedas velhas na panela de arroz. 

Ela abriu a torneira da cozinha, deixou a água escorrer por alguns segundos e encheu um copo. O líquido parecia normal, transparente, mas o leve amargor que ficou na língua a fez franzir a testa.

— Deve ser obra da prefeitura , afirmara, sem saber,despejando o resto na pia. 
— Água de poço artesiano, dizem!

Ela não sabia que, naquela mesma manhã, outras doze pessoas em Águas da Serra haviam reclamado do mesmo sabor. 

Nem que, a três quilômetros dali, no reservatório municipal coberto por uma névoa fina, um objeto escuro do tamanho de uma bola de futebol repousava no fundo lamacento, cercado por uma auréola de água levemente turva.

...Três dias depois, o primeiro caso apareceu!

Foi o seu Alcides, o padeiro. 

Ele estava abrindo a padaria às cinco da manhã quando viu as paredes da cozinha se curvarem como se fossem feitas de borracha. 

As formas de pão se contorceram em espirais, e por um instante ele jurou que a imagem de São Sebastião no calendário da parede piscou para ele. 

Alcides gritou, derrubou uma assadeira e correu para a rua de avental, descalço, apontando para o céu.

— Estão chovendo cores! , berrou, para ninguém.

A vizinhança achou que ele havia bebido!

 Mas ao meio-dia, a professora da escola municipal interrompeu a aula de matemática, sentou-se no chão e começou a desenhar com giz padrões geométricos que ela dizia 'ver flutuando no ar. 

À tarde, três crianças foram levadas ao posto de saúde com pupilas dilatadas, chorando e dizendo que 'as sombras tinham olhos'.

O médico da cidade, doutor  Nogueira, inicialmente diagnosticou um surto de intoxicação alimentar. 

...Depois pensara em histeria coletiva!

Mas quando ele mesmo sentiu um gosto amargo ao escovar os dentes e, minutos depois, viu o azulejo do banheiro pulsar como um coração, percebeu que algo muito errado estava acontecendo.





Capítulo 2 — A Queda da Ordem

Nas horas seguintes, Águas da Serra deixou de ser uma cidade e se tornou um cenário de delírio coletivo.

O Sanatório São Benedito, nos limites do município, foi o primeiro a ruir. 

A instituição abrigava quarenta e dois pacientes psiquiátricos, muitos em estado frágil, medicados com antipsicóticos que, por ironia, atenuavam os efeitos da xenopsilina em alguns. 


...Mas a equipe de enfermagem não teve a mesma sorte!

Duas enfermeiras e um auxiliar beberam café feito com a água contaminada durante o plantão noturno. 

Às três da manhã, uma delas, em surto, abriu todas as portas do pavilhão masculino gritando que 'os anjos estavam invadindo o prédio'. 


Os pacientes, confusos e aterrorizados, seguiram-na em debandada, misturando-se aos funcionários que também alucinavam. 

Em menos de uma hora, o pátio do sanatório fervilhava de pessoas arrancando as próprias roupas, conversando com árvores e tentando escalar o muro para fugir de criaturas invisíveis.

Um grupo de dez internos conseguiu atravessar o portão principal — trancado, mas arrombado por um homem de noventa quilos que via 'chamas azuis subindo pelas paredes'. 

Eles se espalharam pela estrada de terra que levava ao centro, desaparecendo na escuridão.

 Muitos nunca seriam encontrados!

...O presídio regional, a oito quilômetros dali, entrou em colapso quase simultaneamente!

A água do presídio vinha do mesmo reservatório municipal. 

Durante a contagem da manhã, três detentos começaram a gritar que as paredes das celas estavam 'derretendo como cera'.

 Em minutos, o pavilhão C virou um pandemônio: presos se atirando contra as grades, agentes penitenciários atordoados, alguns abrindo celas por engano, outros tentando conter rebeliões que não existiam. 

Um agente, vendo o próprio reflexo no vidro blindado, atirou contra o que julgou ser um 'demônio de duas cabeças'. 

O tiro atravessou a vidraça e atingiu um colega no ombro. A confusão generalizou-se: fugas, incêndios em colchões, corpos pisoteados. 

Quando a tropa de choque chegou, encontrou o portão principal aberto e dezenas de presos desaparecidos no mato.

Os animais também sucumbiram!

Cães domésticos latiam para o nada, corriam em círculos no quintal e mordiam os próprios donos. 

Gatos se escondiam em cima de telhados, uivando como se estivessem em trabalho de parto


Pássaros desorientados chocavam-se contra janelas e fios de eletricidade, caindo mortos nas calçadas.

...Nas fazendas ao redor, vacas andavam em zigue-zague, mugindo de forma descompassada; cavalos galopavam em pânico dentro dos currais, esmagando cercas. 

Até os peixes do rio que cortava a cidade apareceram boiando na superfície, as guelras abrindo e fechando em espasmos — a toxina se infiltrava no ecossistema com uma eficiência assustadora.

Doutor Nogueira do posto de saúde, tentava manter a lucidez enquanto o mundo desmoronava.

 Ele havia trancado a mulher e as duas filhas no porão de casa, com água mineral e comida enlatada, e saíra para ajudar


... Mas a cidade estava irreconhecível! 

Carros abandonados no meio da rua, com portas abertas.

 Lojas saqueadas por pessoas que riam histericamente. 

Um homem de terno e gravata dançava valsa com um poste na praça central. 

Uma mulher grávida, sentada na sarjeta, conversava com uma 'entidade de luz',que só ela via!

...E o céu, que ao amanhecer estava limpo, começou a mudar!

Nuvens escuras e espessas se acumularam a oeste, como uma muralha de chumbo avançando sobre os morros.

 O ar ficara pesado, carregado de eletricidade.

 Os primeiros relâmpagos riscaram o horizonte, seguidos de trovões que pareciam rugidos de um animal colossal. 

O vento levantou poeira e folhas secas, fazendo as placas de trânsito balançarem como se fossem arrancadas. 
Uma tempestade — daquelas que só acontecem uma vez por década — estava prestes a desabar sobre Águas da Serra.

Nogueira parou na esquina da rua principal, olhando para o céu escuro. 

Sentiu o cheiro de chuva misturado ao odor metálico ,que agora impregnava tudo!


...Compreendeu, com um frio na espinha, que a tempestade não era apenas mais um elemento do caos. 

Ela poderia lavar as ruas, diluir a toxina na enxurrada e espalhá-la ainda mais depressa pelos rios, pelas plantações, pelos lençóis freáticos.

Ou pior: a chuva poderia carregar a xenopsilina para outras cidades.

Ele respirou fundo, apertando o celular descarregado no bolso. 

Não havia mais sinal de rede. 

As linhas fixas estavam mudas!

A única estrada de acesso à cidade estava bloqueada por um caminhão tombado. Águas da Serra estava isolada do mundo — e agora, prestes a ser engolida por um temporal que ninguém podia prever.

— Meu Deus , dissera Nogueira para si mesmo,enquanto as primeiras gotas grossas começavam a cair, estourando contra o asfalto como balas de vidro. 
— Isso está só começando!





By Santidarko 

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