Georreferenciamento Humano — Sintropia 7(*By Santidarko)



...Se não fossem os chineses, seriam os americanos — o futuro chegaria de qualquer jeito; 'só mudaria o sotaque das máquinas'.


Essa frase fora dita por Pedro Oliveira ,em um momento de reflexão.

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Introdução

No Rio Grande do Sul, entre colinas de terra vermelha e rios de correnteza mansa, existe um município chamado Linha Três Saltos.

Não aparece nos jornais. 
Não tem semáforo. 


Apenas uma praça, uma igreja matriz, duas escolas, três mercados, um posto de saúde e uma rádio comunitária que toca vanerão nas tardes de domingo.

Quinhentas pessoas vivem ali. 

Plantam. 
Criam gado. 
Cortam lenha.
 Cuidam de suas vidas.

Até que chegam setenta.

Não são pessoas. 
São humanoides!

...E vieram da China!



...

O êxodo silencioso

O Rio Grande do Sul sempre foi terra de municípios pequenos. 
Cidades que nasceram ao redor de uma capela, uma estação de trem ou uma cooperativa de grãos. 

Muitas delas, porém, estão desaparecendo!
Tornando-se  cidades-fantasmas.

Não é uma morte violenta. 
...É um esvaziamento lento!

Os jovens saem para estudar em cidades maiores, e não voltam!

As escolas rurais fecham por falta de alunos.
Os postos de saúde perdem médicos. 

O comércio encolhe. 

As casas ficam vazias, com janelas tapadas por tábuas e pátios tomados pelo mato.

Linha Três Saltos é uma dessas cidades. 
Já teve quase dois mil habitantes no auge, nas décadas de 1970 e 1980. 
Hoje, restam quinhentos. A maioria tem mais de cinquenta anos. 

A escola municipal funciona com turmas multisseriadas.
O time de futebol amador, às vezes, não consegue completar os onze jogadores.

A prefeitura já foi notificada pelo governo estadual sobre a possibilidade de extinção do município, e incorporação a uma cidade vizinha. 

...Isso significaria perder a autonomia, a câmara de vereadores... e até o nome!

É nesse cenário de fragilidade que o Projeto Seara chega.





A cidade

Linha Três Saltos é pequena, mas ainda respira.
 Tem:

●A Igreja Matriz de São Roque, com missa aos domingos.
●A Praça da Figueira, com coreto e uma figueira centenária.
● O Armazém Iracema, o mais antigo da cidade.
● O Galpão do Nilo, onde guardam-se bois, trator e ferramentas.
●A Rádio Três Saltos AM, que transmite avisos de falecimento, preço do leite e músicas antigas.
●O Campo do Três Saltos Futebol Clube, hoje com arquibancada rachada e mato nas laterais.

A economia gira em torno de pequenas lavouras, pecuária leiteira, eucalipto e balsas que atravessam o rio quando a estrada de chão fica intransitável.

A internet é instável. 

O sinal de celular depende do vento.
 A luz elétrica cai nas tempestades de verão.




Os 500 habitantes

Entre os quinhentos moradores, alguns personagens centrais:

●Iracema de Oliveira, 78 anos. Viúva. Dona do Armazém Iracema. Fala pouco, observa muito. Conhece o nome de cada família e de cada árvore do pomar. Quando os humanoides chegam, dissera apenas: 'Isso não é gente. Gente cansa.'


●Nilo Cardoso, 65 anos. Ex-tratorista. 
Perdeu parte da audição esquerda numa explosão de silo. Vive com os bois Carvão e Cinza. 
À noite, ouve rádio AM. 
Desconfia de tudo que não cheira a óleo diesel. Quando vê o primeiro humanoide, cospe no chão e pergunta: 'Isso aí reza?'


●Pedro Oliveira, 41 anos. Filho de Iracema. Voltou para a cidade depois de um divórcio e uma falência. Trabalha como balseiro e faz bicos como técnico de antenas.

 É um dos poucos que entende de internet e redes. Foi ele quem viu o comboio chegando pela estrada, levantando poeira.


●Padre Aurélio, 59 anos. Pároco da Igreja Matriz de São Roque. Homem calmo, de meia-idade, que acredita no diálogo. 

Fica dividido entre acolher a tecnologia e proteger a fé dos paroquianos.


●Prefeito Airton Fagundes, 52 anos. Ex-vereador, ex-comerciante de insumos agrícolas. 

Vê no experimento uma chance de evitar a extinção do município e trazer investimento. Assinou o acordo sem consultar a população.


●Dona Zulma, 80 anos. Professora aposentada, responsável pela biblioteca municipal. 

Mantém um arquivo com fotos antigas da cidade. É a primeira a notar que algo estranho acontece com os dados coletados pelos humanoides.


●Bento, 9 anos. Neto de Dona Zulma. Curioso, esperto, passa o dia correndo pela cidade.
 É o primeiro a se aproximar dos humanoides sem medo.





O Projeto Seara

O Projeto Seara é uma cooperação entre o governo chinês e o governo brasileiro. Oficialmente, é um experimento de automação agrícola em zonas rurais de baixa densidade demográfica. Na prática, é um teste de campo para uma nova geração de humanoides de trabalho: os Terraço-7.

A justificativa apresentada ao governo brasileiro foi simples: se a cidade já está esvaziando, por que não testar uma força de trabalho que não envelhece, não migra e não exige salário?

Os humanoides chegam em sete caminhões-baú, escoltados por uma van com adesivo da prefeitura e dois carros de uma consultoria chinesa chamada Hengtai AgroTech.



Cada Terraço-7 tem:

● 1,75 metro de altura.
● Estrutura em liga de alumínio e fibra.
●Mãos com cinco dedos multifuncionais.
●Olhos com câmeras de 360 graus.
● Fala em mandarim e português , mas suas principais  frases  robóticas, de poucas frases são: '
Área livre.' '
Tarefa concluída.' 
'Obstáculo detectado.'
Recuo necessário.'

As tarefas programadas são simples: cortar lenha, arar terra, plantar, colher, dirigir tratores adaptados, limpar a praça, consertar cercas e operar a colheita de eucalipto.

Mas o que ninguém diz é que os humanoides também coletam dados. 

De solo. 
De clima. 
De subsolo.
... E de comportamento humano!





A infraestrutura

Na Praça da Figueira, instalam uma torre de 18 metros com link de satélite. 
No Galpão da antiga Cooperativa, montam um mini data center com doze contêineres refrigerados. 

Tudo em menos de uma semana!

A energia vem de geradores a diesel e de um campo de painéis solares instalado no antigo campo de futebol do Três Saltos Futebol Clube.

A praça, que antes era ponto de encontro, agora vibra com o zumbido constante dos servidores.




A imposição

O prefeito Airton Fagundes assinou o acordo sem consultar a câmara de vereadores. 

Convocou uma reunião na antiga escola municipal, com cadeiras de plástico e um microfone que falhava.

Disse que a cidade foi escolhida por estar em uma região agrícola representativa. Falou em empregos, investimentos, visibilidade. 

Distribuiu panfletos com o nome do projeto em letras azuis.

Poucos entenderam
 Muitos aplaudiram!

...Outros saíram em silêncio.

A única exigência legal era que os humanoides não invadissem propriedades privadas sem permissão. 

...Mas as antenas e o data center podiam ser instalados em áreas públicas!





A chegada

O primeiro humanoide desce do caminhão com um movimento preciso. Os pés de borracha tocam o chão de terra batida da praça

 Ele gira a cabeça, escaneia a figueira, o coreto, a igreja.

Depois caminha até o portão do armazém de Iracema.

Para.
Levanta a mão de quatro dedos. E diz, em português robótico:

'Bom dia. Onde fica a área de carregamento?'

Iracema, da janela, responde:
'Descanso é para quem tem alma.'

O humanoide processa a frase por três segundos. Depois repete:
'Tarefa não encontrada.'

...E volta para a praça.





'Sequelas Opracionais

1. A torre e o rádio – A torre de dados interfere na Rádio Três Saltos. Os moradores passam a ouvir vozes robóticas misturadas às músicas. 

Padre Aurélio tenta acalmar a população, mas Nilo acredita que os humanoides estão aprendendo a rezar.


2. O pomar invadido – Um Terraço-7 entra no pomar de Iracema para 'otimizar colheita'. 

Ela o encara. O humanoide para. Os dois ficam frente a frente. Algo inesperado acontece: o humanoide desvia o olhar.


3. A fotografia de Dona Zulma – Dona Zulma encontra, no arquivo da biblioteca, uma foto aérea de Linha Três Saltos tirada na década de 1980. Há marcas no solo que coincidem com os pontos que os humanoides estão perfurando. 

Ela percebe que a cidade foi escolhida por um motivo que ninguém conhece.


4. O solo cansado – Os humanoides trabalham sem parar. A terra compacta.
 A figueira começa a perder folhas. Os agricultores notam que o rendimento das lavouras próximas ao data center cai misteriosamente.


5. A noite dos geradores – Numa madrugada, os geradores param. Os humanoides ficam imóveis no meio da rua. Os moradores se aproximam. Bento toca a mão de um Terraço-

7. O humanoide acende os olhos. Diz, em português robótico:
'Vocês estão escutando?'

...E desliga novamente!


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Alguns incidentes

●Seu Nilo puxou a corda da motosserra três vezes!
Na quarta, a serra pegou sem querer um humanoide .


●Um humanoide entrou na igreja durante a missa, parou diante do altar e perguntou: 'Se podia iniciar seu carregamento.'


●Padre Aurélio tentou explicar o que é alma para um Terraço-7. 


●Três humanoides tentaram dançar vanerão na festa de São Roque. 



●Na primeira noite, os geradores pararam.
Os setenta humanoides ficaram imóveis no meio da rua, como espantalhos de alumínio. A cidade inteira  observou-os  por frestas de suas respectivas janelas; alguns do bar , bebendo.

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By Santidarko 

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