A Origem da Dor
Ulryk tinha nove anos quando o Incêndio de Myrken consumiu sua vila natal.
...Não foi um incêndio comum!
Começou no meio da noite, sem aviso, sem raio, sem fogueira virada. As chamas eram azuis -- da cor do céu no crepúsculo --e se espalhavam contra o vento, como se tivessem vontade própria.
Os anciãos sussurraram depois que era fogo de estrela, um castigo dos céus.
...Mas Ulryk nunca acreditou nisso!
Naquela noite, sua mãe, Seryn, o acordou com urgência. Ela era uma mulher de mãos calejadas e olhar sereno, que conhecia as ervas da floresta e os nomes de todas as constelações.
Foi ela quem o ensinou a encontrar o norte pelas estrelas.
— Corre, Ulryk. Não olhes para trás, disse ela, envolvendo-o num cobertor grosso.
— Vem comigo! , gritou o menino.
— Vou buscar teu pai. Encontra-me no rio Kald, onde as pedras formam um arco. Lembra-te do caminho?
...Ele lembrava!
Tinha percorrido aquele caminho dezenas de vezes com ela.
Mas quando Ulryk chegou ao arco de pedras, ensanguentado e com os pés feridos, ela não estava lá!
Ele esperou três dias.
...Depois mais três!
Depois semanas. O pai também não veio.
A fome o expulsou do esconderijo. Quando finalmente teve coragem de voltar à vila, encontrou apenas cinzas.
Cinzas frias.
...E nenhum corpo.
Nem de sua mãe, nem de seu pai, nem de ninguém!
Myrken tinha desaparecido do mapa --e junto com ela, Seryn.
O Pedido à Estrela
Ulryk vagou durante um ano.
Sobreviveu como pôde: dormiu em celeiros, comeu frutas silvestres, fugiu de cães selvagens e de homens piores que cães.
A cada noite, olhava para o céu e repetia o nome da mãe em sussurro, como uma oração.
Numa noite particularmente fria, no alto de uma colina solitária, ele viu uma estrela cadente rasgar o firmamento.
Lembrou-se do que Seryn dizia:
'Quando uma estrela cai, o universo abre um ouvido. Mas cuidado com o que pedes, meu filho. As estrelas não entendem a língua dos homens. Elas entendem apenas a verdade do coração.'
O menino fechou os olhos com força.
Não pediu riqueza.
Não pediu vingança.
Não pediu poder.
Pediu apenas:
'Dá-me alguém que me ajude a encontrá-la.
Alguém que não me abandone.
Alguém que caminhe comigo até o fim.'
Quando abriu os olhos, a estrela cadente mudou de direção.
Ela não caiu no horizonte distante.
Caiu a poucos metros dele, no vale abaixo, com um trovão silencioso que fez a terra tremer.
O Nascimento de Alkarys
No local do impacto, não havia fogo.
...Havia um brilho!
Uma poça de matéria estelar pulsava no chão, como se respirasse. Era feita de uma substância que as estrelas desejam -- uma essência rara que se desprende apenas quando uma estrela morre e renasce.
Poeira de Núcleo -- o coração de uma estrela derretido em luz líquida.
Ulryk se aproximou, hipnotizado.
O calor não queimava; acariciava.
O brilho não cegava; confortava!
Então, a poça começou a se moldar.
Primeiro, patas longas e elegantes.
Depois, um corpo esguio, coberto por um pelo que cintilava como céu noturno.
Uma cauda que soltava faíscas minúsculas ao se mover.
...E olhos!
Dois sóis pequenos, dourados, que fitaram Ulryk com uma inteligência ancestral.
O lobo tinha o tamanho de um filhote de seis meses. Mas não era um filhote.
Era algo muito mais antigo.
— Alkarys, sussurrou Ulryk, sem saber de onde vinha a palavra. Talvez do próprio brilho.
...Talvez do fundo de sua alma!
O lobo inclinou a cabeça, como se reconhecesse o nome.
E naquela noite, sob um céu cheio de estrelas que agora pareciam observar com interesse, a jornada começou de verdade.
O Vínculo
Alkarys não é um lobo comum. Ele é feito da mesma matéria das estrelas .
Alguns dizem que as estrelas são seres vivos, e que a Poeira de Núcleo é o seu sangue. Outros dizem que é o contrário: as estrelas são poeira morta, e a Poeira de Núcleo é o que resta do seu último suspiro.
O que Ulryk sabe é o seguinte:
●Alkarys brilha no escuro — quanto mais escura a noite, mais forte o brilho.
●Alkarys sente o perigo — seu pelo se eriça e emite faíscas quando inimigos se aproximam.
●Alkarys pode mudar de forma — de um filhote pequeno para um lobo do tamanho de um cavalo, dependendo da necessidade.
·
●Alkarys não come, não bebe e não dorme. Ele se alimenta da luz das estrelas.
●Alkarys não fala. Mas Ulryk o entende. Não com palavras -- com imagens, sentimentos, pressentimentos. Eles sonham juntos. E nos sonhos, Alkarys é uma voz profunda e antiga, que chama Ulryk de 'Irmão de Poeira'.
A Jornada
Agora, Ulryk tem doze anos. Já percorreu vales, montanhas, desertos e florestas. Procura pistas sobre a mãe: uma palavra aqui, um boato ali, um símbolo desenhado numa parede abandonada --o mesmo símbolo que viu nas chamas azuis de Myrken.
Ele não sabe se a mãe está viva.
Não sabe se o pai sobreviveu.
Não sabe o que causou o incêndio.
Não sabe por que as estrelas desejam a substância de Alkarys.
...Mas sabe de uma coisa:
Enquanto Alkarys estiver ao seu lado, ele não está sozinho.
E enquanto houver estrelas no céu, haverá um caminho para seguir.
...
'Caçadores de Estrelas',Homens que descobriram...que Alkarys existe!
...E farão de tudo para tê-lo!
By Santidarko
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