Introdução: O Incêndio e a Vida(Alamanda e Magnólia)
A Fábrica de Marionetes Avalon ardia em silêncio sob a lua cheia.
As chamas nasciam das caldeiras de verniz e lambiam as estantes de madeira antiga com uma fome paciente e dourada. Em meio à fumaça que dançava como cortinas de um teatro macabro, centenas de bonecos pendiam imóveis, seus fios balançando lentamente com o calor, como se já soubessem o que estava por vir!
Numa prateleira baixa, quase escondida pela sombra de um biombo em chamas, duas marionetes femininas descansavam lado a lado.
...Eram imperfeitas, rejeitadas pelo artesão: uma tinha a pintura do rosto levemente borrada na chuva de um dia de entrega; a outra, uma rachadura fina no ombro esquerdo, feito um rio seco na porcelana.
Não possuíam nome.
Não possuíam história!
...Eram apenas madeira, pano e tinta -- até o momento em que o primeiro estalo do fogo alcançou seus pés.
Foi um instante inexplicável!
Sem mágica visível, sem sopro divino, sem testemunhas além do próprio fogo!
...No exato segundo em que a madeira começava a estalar sob o calor, algo despertou dentro delas.
Um pulso!
Um arrepio!
Uma consciência súbita e aterrorizada de que o calor podia doer, de que a fumaça podia sufocar, de que a destruição era real -- e de que elas, agora, eram reais também.
A marionete da rachadura no ombro abriu os olhos primeiro. Viu o laranja voraz aproximando-se!
Viu a companheira ao lado ainda imóvel, com a face borrada virada para o teto em chamas. Sem pensar -- porque pensar era um luxo recém-adquirido e ainda estranho --, sua mão de madeira moveu-se sozinha e segurou a mão da outra boneca. Foi um toque frágil, mas carregado de um instinto que não se aprende: o de proteger.
No mesmo instante, a segunda marionete abriu os olhos. Olhou para a mão que segurava a sua, depois para o fogo, depois para os olhos pintados que agora viam de verdade.
...Nenhuma palavra foi dita !;--- não sabiam ainda como falar. Mas a linguagem daquele aperto era clara: corre comigo.
Saltaram da prateleira com pernas que nunca haviam andado, com pés que nunca haviam tocado o chão. Tropeçaram, arrastaram fios soltos pelas tábuas quentes, desviaram de vigas que desabavam como cenários esquecidos. O fogo lambia suas costas, mas elas corriam com o ímpeto de quem acabara de descobrir' que a vida dói '---e que, talvez por isso mesmo, valha a pena ser vivida!
Atravessaram a porta dos fundos no exato momento em que o telhado desabou atrás delas, engolindo a Fábrica Avalon e todos os seus segredos. Lá fora, a noite as recebeu com um silêncio úmido e um céu estrelado que nenhuma das duas jamais havia visto.
...Estavam vivas!
Estavam livres!
... E estavam de mãos dadas, como se a união entre elas fosse a única certeza num mundo que acabara de nascer em chamas.
O Perseguidor(O Marionetário)
O homem que testemunhou o 'milagre proibido' chama-se Mestre Constantin d’Ombre, o último herdeiro da dinastia de marionetistas que um dia governou os teatros de sombras da velha cidade.
Ele estava nos portões da fábrica em chamas não por acaso, mas para recolher antiguidades esquecidas quando viu, com seus próprios olhos, duas bonecas rejeitadas cruzarem a porta em chamas -- movendo-se não por fios, mas por vontade própria!
...Naquele instante, a cobiça acendeu nele uma febre mais quente que o incêndio!
Sabe que criaturas animadas sem magia conhecida... valem fortunas incalculáveis.
Planeja caçá-las, capturá-las e exibi-las como a Oitava Maravilha do Mundo das Sombras, tornando-se o homem mais rico e poderoso entre todos os manipuladores de 'almas de madeira'.
By Santidarko
Personagens by Santidarko
Nenhum comentário:
Postar um comentário