A Escuridão que cheirava a Estrelas Mortas e a Vazio Descamado (*Personagens by Santidarko)
Introdução
...Havia algo de sagrado naquela altura!
O Mirante da Lua Negra ficava no topo de um desfiladeiro que se abria como uma ferida antiga na crosta da serra, a mais de novecentos metros do leito do rio que, lá embaixo, não passava de um fio prateado e silencioso.
Dali, o horizonte se estendia até onde os olhos podiam alcançar, e o céu parecia grande demais, pesado demais — como se estivesse prestes a desabar sobre o mundo.
Os três casais chegaram no fim da tarde, quando a luz já escorria para dentro do abismo e as primeiras estrelas começavam a furar o azul profundo.
Haviam planejado a viagem por meses: queriam ver o eclipse lunar total de um ponto onde a escuridão da Terra engoliria a lua por completo.
O nome do lugar — Mirante da Lua Negra — parecia ter sido criado exatamente para aquela noite.
Enquanto as barracas subiam e o fogo era aceso, 'os microrrobos despertaram'.
Eram seis pequenos drones, do tamanho de besouros grandes, cada um com uma hélice frontal quase invisível ,e sensores afinados para detectar a assinatura de voo de mosquitos e pernilongos.
Ligados por um app no celular de Caio, funcionavam em modo autônomo: pairavam em silêncio, zumbiam por segundos, e então mergulhavam no ar escuro.
De vez em quando, ouvia-se um estalo seco — o impacto de uma hélice contra um inseto — seguido por uma chuva minúscula de fragmentos que caíam na grama.
— É quase hipnótico , murmurara Marina, observando os pontos de luz azulada que os drones exibiam enquanto patrulhavam o acampamento.
— Precisão absoluta , respondera Tiago, o engenheiro do grupo, sem desviar os olhos da tela.
—... Eles caçam por vibração e calor. Não deixam nada passar!
Às oito e meia, o céu estava limpo.
A lua cheia surgiu no horizonte, branca e imensa, derramando uma claridade fria sobre as pedras do desfiladeiro. Os três casais se reuniram na borda, sobre uma laje de granito lisa como um altar.
O vento subia do abismo, trazendo um cheiro de terra úmida e plantas esmagadas.
Ninguém falou sobre o cheiro naquele momento!
O eclipse começou devagar, como uma mancha negra mordendo a borda da lua.
Os drones continuavam sua dança, indiferentes ao espetáculo celeste.
...E então, quando a sombra da Terra cobriu mais da metade do disco lunar, a escuridão ao redor deles começou a mudar.
Não era apenas a ausência de luz.
Era como se o próprio ar escurecesse, como se a noite ganhasse uma textura nova, úmida e antiga. Um cheiro subiu do desfiladeiro — não de mofo, mas de algo queimado e podre, algo queimado há bilhões de anos e esquecido entre as estrelas.
Os drones pararam no ar.
Todos os seis ao mesmo tempo.
E então, um por um, desligaram-se, caindo na grama como insetos mortos.
O eclipse engoliu a lua por completo, e no centro daquela negrura, a escuridão pareceu inspirar fundo, como se tivesse acordado.
...
...E então, no auge do eclipse, quando a lua já não passava de uma ausência negra engastada no firmamento, o céu se rompeu!
Não houve aviso!
Apenas um rasgo silencioso, como se uma faca invisível cortasse o tecido da noite de cima a baixo, e do centro daquela fenda jorrou uma luz fria, branco-esverdeada, que desceu em espiral, rápida e violenta, deixando um rastro de fagulhas que se apagavam antes de tocar o chão.
Por um instante, o desfiladeiro inteiro foi iluminado por aquele clarão doentio — as pedras, as barracas, os rostos paralisados dos três casais — e então a coisa mergulhou no abismo!
O impacto veio dois segundos depois.
Não foi o som de uma pedra caindo na água. Foi um estrondo metálico, seco e profundo, como se uma colossal chapa de aço tivesse sido dobrada por mãos invisíveis e arremessada contra o leito do rio.
O som subiu pelas paredes do desfiladeiro, quicou nas rochas e explodiu na borda onde eles estavam.
Todos levaram as mãos aos ouvidos!
A pressão foi imediata: um estampido abafado que entorpeceu os tímpanos, deixando um zumbido agudo que parecia vir de dentro do crânio — a mesma sensação de descer uma serra íngreme rápido demais, quando o ar foge e o mundo fica subitamente distante, encapsulado em algodão.
Marina foi a primeira a se levantar, ainda tonta, os olhos fixos no vazio abaixo.
— Vocês viram aquilo? , a voz dela soou estranha, como se viesse de longe.
Caio tentou responder, mas o zumbido abafava tudo. Tiago esfregava os ouvidos, os dentes cerrados.
Lúcia apontou para o rio, lá no fundo, onde a escuridão agora fervia.
...Havia algo brilhando!
Uma mancha de luz pulsante, verde-azulada, espalhada sobre a superfície da água, como se o rio tivesse engolido uma estrela e agora a digerisse lentamente.
O brilho não se apagava!
Pelo contrário, parecia crescer, ondulando entre as pedras submersas, lançando reflexos movediços nas paredes verticais do cânion.
O cheiro voltou.
Só que agora não era mais apenas queimado e podre. Era metálico, como cobre oxidado misturado a ozônio e algo doce, enjoativo, que lembrava flores apodrecendo em água parada.
E por baixo disso, aquele mesmo odor antigo, de estrelas mortas e vazio descamado, subia do abismo em ondas lentas, pesadas, como se o próprio ar tivesse começado a exalar.
— Os drones..., sussurrara 'Alfie', olhando para os seis aparelhos caídos na grama.
—... Por que eles desligaram?
...Ninguém respondera!
Um a um, os seis microrrobos piscaram as luzes azuis, fracas, erráticas, como insetos moribundos.
... E então, todos ao mesmo tempo, apagaram-se por completo.
No fundo do desfiladeiro, a mancha luminosa pulsou uma última vez, como um coração recém-despertado, e depois submergiu.
A escuridão fechou-se sobre o Mirante da Lua Negra como uma boca que finalmente decide engolir.
E o rio, lá embaixo, ficou em silêncio.
...
A decisão foi tomada em silêncio, sem votação, sem discussão!
O medo era grande demais para ser nomeado, e a ação parecia a única forma de afogá-lo.
Alfie e Caio já vestiam os mosquetões e os freios de rapel quando Tiago abriu a tampa traseira da caminhonete e prendeu as duas cordas no gancho de reboque, um nó reforçado com tanta tensão que o aço rangeu.
O veículo era pesado, ancorado sobre pedras e terra batida, mas ainda assim Tiago calçou as rodas traseiras com blocos de granito soltos.
— Isso aguenta o triplo do peso de vocês — dissera ele, sem muita convicção.
— Se a rocha ceder, a caminhonete não vai a lugar nenhum!
Marina e Helena ficaram perto da fogueira, abraçadas, os olhos fixos no horizonte engolido pela escuridão.
O eclipse ainda cobria a lua por completo, e a única luz que restava no mundo vinha das chamas alaranjadas e do brilho fantasmagórico que subia do rio, lá no fundo.
— Vocês não precisam descer , aconselhara Marina.
Alfie não respondera!
Terminou de prender o mosquetão, passou a corda pelo freio, e caminhou até a borda do penhasco. Caio o seguiu, dois passos atrás.
Os dois homens que desceriam pela trilha — Tiago e um dos amigos, que preferiu não olhar para trás — pegaram lanternas de mão e sumiram na direção da encosta leste, onde uma fenda estreita entre as rochas marcava o início do antigo caminho de pastores.
A trilha era íngreme, coberta de pedras soltas e vegetação rasteira, e descia em ziguezagues colados à parede do desfiladeiro, estreitos como uma cicatriz.
— Mantenham as lanternas acesas , gritara Tiago antes de desaparecer.
— E não olhem para o rio por muito tempo!
Alfie foi o primeiro a descer de rapel.
Ele se inclinou para trás, os pés plantados na rocha vertical, o corpo formando um ângulo reto com o abismo.
A corda esticou com um gemido curto.
...Aos poucos, ele começou a soltar o freio, descendo em saltos controlados, as solas das botas raspando contra a pedra fria. Caio desceu em seguida, poucos metros à direita, a respiração audível no silêncio absoluto.
Lá de cima, Marina e Helena observavam os dois vultos que encolhiam contra a parede do cânion. O brilho do rio pulsava abaixo deles, lento, como se meditasse sobre a chegada das visitas.
O ar ficou mais denso a cada metro.
O cheiro metálico e doce intensificava-se, infiltrando-se nas narinas mesmo com a boca fechada. A superfície da rocha, que deveria estar seca, escorregava sob as botas como se estivesse coberta por uma fina camada de limo úmido, embora a noite estivesse seca.
Caio parou por um instante, pendurado no vazio, e apontou a lanterna para baixo.
O rio não refletia a luz.
O feixe amarelo atingia a água e sumia, como se o líquido o engolisse sem devolver brilho algum!
A mancha luminosa, porém, continuava lá, espalhada entre as pedras da margem, pulsando como um tecido vivo que respirava.
— Está vendo isso? , observara Caio, a voz abafada pelo esforço.
Alfie assentiu, sem parar de descer.
Quando os dois estavam a pouco menos de trinta metros da água, ouviram o som.
Não era o rio.
Não era o vento.
Era um atrito metálico, lento e ritmado, como se algo enorme se arrastasse sobre pedras submersas, testando o peso de um corpo que não deveria existir.
...E então, a mancha luminosa se moveu!
Não como um reflexo, mas como uma criatura que abre os olhos pela primeira vez.
Na borda do desfiladeiro, Marina apertou o braço de Helena.
— O rio... ele está subindo!?
Helena olhou para baixo. A água, que antes corria como um fio distante, agora subia lentamente pela margem, contornando as rochas, engolindo a faixa de areia escura com uma avidez calma.
E no centro daquela escuridão líquida, algo começou a emergir, escorrendo um brilho verde-azulado que não iluminava nada ao redor — como se a luz não tivesse permissão para tocar o mundo.
By Santidarko
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