A Fantasia Degolada (*Poema by Santidarko)
Uma fantasia que a estridente realidade expulsa a coices...não desaparece; apodrece dentro do indivíduo.
...E o que germina disso é raiva. E a raiva, quando não tem para onde ir, abraça qualquer violência gratuita.
-Santidarko
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A Fantasia Degolada
Não morre a fantasia quando a Vida
a expulsa com cascos de ferro e fogo —
ela se arrasta ao fundo da ferida
e ali fermenta, lenta, como um rogo
que Deus não escutou. Não há saída:
o sonho recusado vira algo
que pulsa sob a pele, e na surdina,
transforma o coração em sua ruína.
Assim como o titã que Prometeu
trouxe o fogo e recebeu correntes,
a alma que sonhou também perdeu
seus deuses — e nas trevas inclementes
descobre que o que resta não morreu:
apodrece!E desse podre, entre serpentes
de rancor, nasce a Raiva — filha escura
da Esperança quebrada em pedra dura.
...E a Raiva, quando não encontra porta,
nem exército, nem causa, nem bandeira,
abraça a faca, o grito, a chama torta,
o punho contra o ar, a pedra ceira —
qualquer violência que o vazio importa,
qualquer ruína que a dor considera
um leito onde deitar. Pois quem perdeu
o sonho, encontra o inferno — e chama seu.
Ó Natureza, tu que viste o mundo
nascer do caos e erguer-se em esplendor,
sabes que o peito humano é tão fecundo
quanto um vulcão: o que não vira amor
transforma-se em lava. No profundo
silêncio da alma, o sonho degolado
não é cadáver — é semente de pecado.
...E assim caminha a humana criatura:
com fome de infinito, mas mordendo
o pão de pedra que a realidade dura
lhe atira. Vai os sonhos consumindo
no fogo que ela mesma inaugura —
e enquanto o céu lhe nega a sua estrela,
faz da própria agonia a sua tela.
By Santidarko
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