Duda & Itty Boo (*Personagens by Santidarko)
Duda sempre achou que 'recomeçar' significava se perder!
...Mas foi no meio do mato, atrás do galinheiro da avó, que ela finalmente se encontrou — e encontrou ele!
Introdução
O Início: De Tóquio para o Interior
Duda (Dudami Morino, mas todos a chamam de Duda desde que chegou) tinha 14 anos quando sua vida virou de cabeça para baixo. Seus pais se separaram em Tóquio, e sua mãe, Akemi, decidiu que era hora de voltar para casa — para o Brasil.
Duda nunca tinha visitado o país da mãe, mas falava português fluentemente.
Akemi sempre fez questão disso!
'Um dia você vai entender por que isso importa',dizia a mãe, ensinando-a a cantar cantigas de roda e a pedir pão na chácara em português, mesmo no meio do inverno japonês.
E então, o 'um dia' chegou!
A Chegada: A Chácara da Vó Cida
A chácara ficava a vinte minutos da cidade mais próxima, no interior de Minas Gerais. Para Duda, era outro planeta.
●O ar cheirava a terra molhada e café torrado.
●As estrelas eram mais brilhantes do que qualquer coisa que ela já tinha visto.
● E o silêncio... era alto, quebrado apenas por galinhas, cigarras e o ranger da porteira.
A avó, Dona Cida, uma mulher baixinha, de cabelos brancos e mãos calejadas de plantar mandioca e colher goiaba, recebeu as duas com um abraço apertado e um prato de comida impossível de recusar.
— Bem-vinda, minha flor , dissera ela, segurando o rosto de Duda com carinho.
— Agora,essa é sua casa!
Duda sorriu, mas por dentro sentia um nó. Saudade do pai. Saudade de Tóquio.
...Saudade de tudo que ficou para trás!
O Mistério da Vó Cida
Nas primeiras semanas, Duda ajudava como podia: alimentava as galinhas, regava a horta, aprendia a diferença entre coentro e salsinha, e tentava não surtar com as aranhas do banheiro.
Foi numa noite que Dona Cida contou pela primeira vez sobre o 'bicho'.
— Tem uma criatura esquisita que aparece de vez em quando ,contara a avó, sem tirar os olhos do café.
— Vem roubar ovo, assusta as galinhas, derruba balde. Nunca machucou ninguém, mas é danado!
— Que tipo de criatura? , perguntara Duda, curiosa!
— O povo daqui chama de chupa-cabra , respondera a avó, séria.
— Mas eu acho, que é só um bicho perdido, procurando comida. Não fica andando por aí à toa, não!
Duda riu, nervosa. Chupa-cabra era lenda. Coisa de filme americano.
Não existia de verdade!
...Certo?
O Encontro
Foi num sábado, depois de uma chuva forte, que Duda ouviu um barulho estranho vindo do galinheiro.
Era fim de tarde.
O céu estava cor de laranja com roxo, e o ar cheirava a terra molhada e goiaba madura. Duda pegou uma lanterna e um cabo de vassoura (por precaução) e foi ver o que estava acontecendo.
Ela esperava encontrar um cachorro vadio, talvez uma raposa.
O que ela encontrou foi... ele!
Itty Boo
...Era pequeno!
Não maior que um gato gordo.
Tinha olhos enormes, amarelos e brilhantes como vaga-lumes.
A pele era acinzentada, meio escamosa, com espinhos curtos nas costas que tremiam quando ele se assustava.
As orelhas eram grandes demais para a cabeça, e as asas... as asas eram ridiculamente pequenas, inúteis para voar, mas que batiam rápido quando ele ficava animado.
Ele estava enroscado num canto do galinheiro, segurando um ovo com as patinhas finas, olhando para Duda com uma expressão de culpa absoluta.
— Você... é o tal do chupa-cabra? , 'perguntara',Duda.
...A criatura piscou.
Depois soltou um guincho baixinho, quase como um soluço, e escondeu o ovo atrás das costas, como se Duda não tivesse acabado de ver.
Duda abaixou a lanterna.
— Isso é... muito mais fofo do que eu esperava.
A criatura inclinou a cabeça, confusa.
— Você é pequeno , afirmara ela, aproximando-se devagar.
— Pequenininho. Itty bitty!
A criatura piscou de novo, e então, lentamente, soltou o ovo e deu um passo hesitante na direção dela.
— E você é meio bobo também , Duda riu, estendendo a mão.
— Vou te chamar de Itty Boo.
E pela primeira vez desde que chegou ao Brasil, Duda sentiu que algo ali fazia sentido.
A Avó e a Revelação
Quando Duda entrou em casa com Itty Boo nos braços (o bicho embrulhado numa toalha, roncando baixinho), Dona Cida quase derrubou a panela de feijão.
— Mas o que é isso, menina?!
— É o chupa-cabra, vó — respondera Duda, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
A avó olhou para a criatura. A criatura abriu um olho, bocejou, mostrando presinhas minúsculas, e voltou a dormir.
Dona Cida ficou em silêncio por um longo momento. Depois suspirou.
— Eu sabia que aquele bicho era diferente... mas nunca imaginei que fosse se apegar à minha neta.
Ela coçou a cabeça de Itty Boo, que ronronou (ou algo parecido com ronronar, um som entre um grilo e um motor velho).
— Ele fica ,declarou a avó, com um sorriso cansado.
— Mas se ele comer minhas galinhas, vira canja!
Itty Boo abriu os dois olhos, apavorado, e se encolheu no colo de Duda.
Duda riu.
O Começo de Tudo
A partir daquele dia, a vida de Duda nunca mais foi a mesma.
●De dia: Duda enfrentava os desafios de se adaptar à escola nova, fazer amigos, entender o sotaque mineiro e lidar com a saudade do pai.
●De noite (e às vezes de dia também): Itty Boo aprontava todas. Roubava goiabas, caçava grilos, se escondia em panelas, brigava com o espelho e fazia amizade com uma galinha específica (a Margarida) que, surpreendentemente, não tinha medo dele.
Itty Boo é desajeitado, medroso, comilão e estranhamente carinhoso.
... E, de alguma forma, ele ajudava Duda a perceber que recomeçar não era se perder — era criar raízes novas!
By Santidarko
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