Ode à Margem Que Deixamos
A Melancolia da Mudança
Mesmo que enfim chegue a tão sonhada mudança — seja ela de coragem, de pensamento ou de lugar —, talvez haja uma melancolia escondida nesta nova conquista.
'Uma tristeza mansa', quase doce, que se instala sem pedir licença, como névoa que cobre a paisagem depois da chuva.
...Pois o que ficou para trás, na trilha que construímos em direção à mudança, era o nosso melhor!
Cada passo dado foi também um passo deixado; cada escolha, uma renúncia silenciosa.
Naquela estrada que abrimos com as próprias mãos, havia sonhos que já não cabem em nós, havia versões de nós mesmos que só existiam ali, naquele tempo, naquela luz.
...É como se deixássemos um nós mesmos pelo caminho — um eu que sabia menos, mas ousava mais; que tinha medo, mas ainda assim caminhava.
E nessa nova vida, espécie de reencarnação ainda em vida, carregamos a estranha sensação de habitar um corpo que é nosso e, ao mesmo tempo, não é!
Tudo é novo, e tudo, de algum modo, é ausência.
Aquilo que tivemos coragem de ser nos traz uma lembrança tão nostálgica...que chega a doer — não de dor que fere, mas daquela que aperta, que embala, que faz os olhos marejarem sem motivo aparente.
Olhamos para trás e vemos não apenas o que perdemos, mas o que fomos corajosos o bastante para viver!
E é justamente essa coragem que hoje nos faz falta, como se tivesse ficado guardada na curva da estrada, esperando, talvez, que um dia voltemos — ainda que só para agradecer.
Pois toda mudança é também um luto!
E todo luto, mesmo o mais luminoso, pede seu tempo de silêncio, sua dose de saudade, seu quinhão de melancolia.
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Ode à Margem Que Deixamos
Chega a mudança, enfim, como o vento oeste que anuncia a tempestade e a primavera, e traz consigo, oculta em seu cortejo, uma tristeza que nenhuma aurora espera.
Pois tudo o que sonhamos em voz baixa,
na trilha que ousamos abrir com as mãos,
era o melhor de nós — e ali se deita,
semente entregue a estranhos e distantes chãos.
Deixamos pelo caminho um eu mais antigo,que tinha medo e ainda assim partia;e agora, nesta vida que renasce,
somos espectros de uma antiga ousadia.
Ó tempo, que devoras e recrias,
que fazes do que fomos...cinza e flor,
por que nos dás a nova margem, e logo
nos cobras com a saudade do que ficou?
Como a nuvem que foge ao vento errante,
como a ruína que o vento faz cantar,
também nós somos o que resta e o que se vai,sombras que a própria luz fez despertar.
E se a coragem que tivemos jaz distante,
guardada na curva da estrada que passou,
que ao menos este canto a traga de volta —não para reter, mas para honrar o que se amou.
Pois toda mudança é um luto silencioso,
e todo luto, um hino ao que viveu;
e nós, errantes entre o novo e o perdido,
somos o vento — e o rastro que ele ergueu!
By Santidarko
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