Scavenger : Squelch (*Personagem by Santidarko)




PRÓLOGO


O Fogo e o Silêncio

...Antes do silêncio, houve o fogo.

Não foi um deus. Não foi um vírus. Não foi um acidente. Foram mãos humanas, apertando botões que outras mãos humanas haviam projetado, décadas antes, para um dia como aquele. 

O céu se abriu em luz branca. Cidades viraram poeira. O som do mundo — o som de motores, de vozes, de risos, de brigas, de música nos corredores — foi engolido por um estrondo que ninguém sobreviveu para descrever direito.

Chamaram de A Guerra Final. 

...Não porque foi a última!

 Mas porque muitos  não sobreviveriam  para começar outra.

O fogo queimou as cidades. 
Mas foi o silêncio que quebrou o mundo!

Sem comunicação, o medo virou lei. Sem notícias, o boato virou verdade. Sem voz, ninguém confiava em ninguém. As pessoas esqueceram como ouvir umas às outras — e, quando esqueceram, esqueceram também como serem humanas.

Décadas se passaram!

O céu voltou a ser azul em alguns lugares. 
A chuva voltou a cair limpa em outros. 
Mas o silêncio ficou. 
...Enraizado!

Como uma ferida que cicatriza torta!

...E, no meio do silêncio, havia frequências.

Sinais perdidos. Ecos de um mundo que morreu. Vozes presas no ar, repetindo as últimas palavras que alguém disse antes de tudo acabar. Ninguém mais escutava. Ninguém mais tinha aparelhos. 

Ninguém mais tinha paciência.

...Mas o silêncio nunca é total!

Sempre há uma frequência. Sempre há algo transmitindo.

E onde há sinal, há alguém disposto a ouvir.






Squel, A Garota que Ouvia(*Quem é Squel?)



O mundo pós-guerra não era um deserto. 
Não era um inferno de fogo e cinzas. Era pior: era um mundo que tinha esquecido como fazer barulho.

As cidades continuavam de pé, muitas delas, mas ocas. Os prédios eram esqueletos de concreto, com janelas quebradas e corredores silenciosos. 

As estradas ainda existiam, rachadas e tomadas por ervas daninhas, mas ninguém mais as percorria. Os carros estavam lá, enferrujados, portas abertas, como se os donos tivessem saído correndo e nunca voltado.

Havia sobreviventes. 
Espalhados. 
Escondidos. 

...Desconfiados!


Viviam em pequenos grupos, em porões, em ruínas adaptadas, em acampamentos improvisados. 

Não confiavam uns nos outros. 
Não trocavam informações. 
Não se aproximavam.

...Porque, quando o mundo perdeu a voz, cada pessoa passou a ser uma ilha.

...E as ilhas não se falam!

Mas o silêncio nunca é total. 
Sempre há uma frequência!

Ela não sabia disso quando criança. Sabia apenas que ouvia coisas que ninguém mais ouvia. 

Vozes. 
Sussurros. 
Ecos.

...No começo, achou que fosse imaginação. Depois, achou que fosse loucura. 
Depois, entendeu!

Não era loucura. Era o mundo. Falando sozinho. E ela era a única que ainda escutava.

...

Ela não tinha nome de família. Não tinha sobrenome. Não tinha registro.

Nascera depois da guerra, num abrigo subterrâneo, filha de pais que morreram antes que ela aprendesse a falar direito. 

Cresceu sozinha, entre ruínas, aprendendo a sobreviver do jeito que dava: catando comida, catando água, catando abrigo.

Mas o que ela realmente catava era outra coisa.

Sinais.







Capítulo 2

 

Aos oito anos, encontrou um gatinho.

Estava preso embaixo de uma viga, numa casa desabada, miando baixinho. 

Ela tirou o bicho de lá com cuidado, limpou o pelo sujo, dividiu com ele a última lata de comida que tinha. 

O gatinho ficou. 
Não tinha para onde ir. 

...Ela também não!

Viraram companhia um do outro.

O gatinho tinha orelhas grandes, atentas, que giravam ao menor som. Tinha um rabo fino, comprido, que se enrolava e se estendia conforme a vontade. Ela passava horas olhando aquilo. O rabo do gato parecia uma antena.

 As orelhas pareciam fones.

...Foi ali ,que a ideia nasceu!

Ela queria ouvir o mundo. 

...Sempre quisera!

Mas não tinha equipamento, não tinha rádio, não tinha nada. 
...Só tinha sucata!

Só tinha o gatinho. E, num mundo que tinha esquecido como fazer barulho, quem não ouve, morre.

Ela começou a catar metal. 
Fios. 
Parafusos. 
Anéis de alumínio. 

Espuma acústica de fones quebrados. Alto-falantes minúsculos de celulares mortos. Peças de rádio antigo. Tudo que encontrava, ela guardava. Tudo que guardava, ela estudava. Tudo que estudava, ela tentava montar.

Levara anos!

Primeiro, o rabo. Ela construiu uma estrutura retrátil, feita de anéis metálicos que deslizavam uns sobre os outros, como a cauda de um animal que se enrola


Fixou tudo na base da coluna, adaptando um suporte de mochila que achou num acampamento abandonado. 

Fios passavam por dentro dos anéis, conectando a antena a um pequeno receptor preso na cintura. 

Quando ela queria discrição, o rabo se enrolava ao redor do corpo, fino como um cinto. Quando queria alcance, ele se estendia, quase um metro, apontando para o horizonte como uma haste de rádio.

Depois, as orelhas. Ela construiu duas próteses em formato de orelhas de gato, com espuma acústica por dentro e pequenos alto-falantes nas pontas.


...Fixou tudo na cabeça com uma tiara metálica disfarçada no cabelo. Cada orelha captava o som de forma independente, binaural, permitindo que ela localizasse a origem exata de qualquer transmissão — direção, distância, profundidade. 

Quando ela sintonizava, as orelhas tremiam levemente, e um brilho ciano pulsava na borda interna, cortesia de um LED que ela roubou de um painel de carro.

O gatinho morreu antes que ela terminasse.

Não foi culpa dela!

Foi o mundo. 
Foi a fome. 
Foi a guerra que nunca acabou de verdade. 

...Mas ela terminara o projeto. 

Por ele!

Pelo bicho que lhe deu a ideia. Pelo único amigo que teve.

Quando colocou tudo pela primeira vez — o rabo, as orelhas, o receptor — e ouviu o mundo pela primeira vez, entendeu que aquilo não era só equipamento. 

Era extensão dela. 

Era o que ela sempre deveria ter sido!

Ela não escolheu ser assim. Fez-se assim. Com sucata, teimosia e memória.

...E, no mundo pós-guerra, isso era sobrevivência!







Capítulo 3

Ela escolheu o próprio nome quando tinha treze anos.

Encontrou, num prédio abandonado, um manual técnico de rádio. Páginas amareladas, capa rasgada, mas legível. Foi ali que aprendeu o que era squelch. 

O circuito que silencia o ruído. O filtro entre o som e o silêncio. 

O mecanismo que decide o que é som e o que é ruído. O que importa e o que não importa.

Ela leu aquilo e entendeu.

Era isso que ela fazia. Era isso que ela era.

Squelch.

O nome ficou.








Capítulo 4

O mundo pós-guerra era um mosaico de zonas.

Havia as Zonas Mortas — silêncio absoluto. Nenhum sinal, nenhum eco, nenhuma voz. Lugares onde a guerra tinha queimado tudo, inclusive o ar.

Ninguém entrava. 
Ninguém saía!

Havia as Zonas Quentes — ainda havia transmissão. Frequências vivas, teimosas, pulsando no meio do caos. Perigosas, mas vivas. Era onde os sobreviventes se reuniam, onde as trocas aconteciam, onde a vida ainda insistia.

E havia as Zonas Fantasma — sinais gravados. Loops infinitos de mensagens antigas, repetindo-se para sempre. 

Vozes de pessoas que morreram décadas antes, presas no ar, falando sozinhas. 

Quem escutava muito... enlouquecia!

Squelch(*Sequel viajava entre as três. 

Sozinha!

... Catando sinais como outros catavam comida.


Ela não tinha casa.
Não tinha destino. 
Não tinha facção. 

Tinha apenas o rabo, as orelhas, e a capacidade de ouvir o que ninguém mais ouvia.









Capítulo 5

O que ela procurava, ninguém sabia ao certo!

...Alguns diziam que ela buscava uma frequência específica — uma voz que ela ouviu uma vez, quando criança, no dia da guerra. 

Uma voz que falou com ela.

 Uma voz que prometera voltar!

...Outros diziam que ela buscava a Frequência Mãe — o último sinal verdadeiro, aquele que, se encontrado, poderia religar o mundo. 

A transmissão original. 
A voz que nunca morreu!

Outros ainda diziam que ela não buscava nada. 
Que só caminhava. 

Que só ouvia!
...Que só existia!

Squelch não confirmava ,nem negava.

Ela só ajustava o rabo. Erguia as orelhas. Fechava os olhos.

...E ouvia!

Porque alguém precisava ouvir.

E, no mundo pós-guerra, ninguém mais queria.







Capítulo 6

Ela não sabia o que ia encontrar. Não sabia se era amigo ou inimigo. Não sabia se a voz era de alguém que precisava de ajuda ou de alguém que queria machucá-la.

...Mas ela ia!

Porque era isso que ela fazia. 
...Era isso que ela era!

Ela ouvia o mundo. O mundo não sabia que ela existia.

Ainda.










By Santidarko 
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