The Dreamunders : Todo pesadelo tem um porão — não desça as escadas!
...Há um porão sob todos os sonhos,
E nele, os velhos medos estão empilhados,
Uns sobre os outros,
Como sacos de estopa encharcados,
Como corpos que ninguém reclamou,
Como as cartas que nunca foram enviadas,
Apodrecendo em silêncio,
Cada um exalando seu próprio cheiro forte,
Cada um se dissolvendo no outro,
Até que não haja mais medos separados,
Mas uma única massa,
Viva,
Respirando,
Esperando.
Não é o cheiro da terra,
Não é o cheiro do mofo.
É o cheiro de tudo o que você temeu
...E esqueceu que temeu!
É o cheiro daquela porta entreaberta
Que você não abriu quando criança.
É o cheiro da voz que chamou seu nome
E que você fingiu não ouvir.
É o cheiro do escuro que você apagou
Com a pressa de quem acende a luz
Antes de o escuro perceber que você está lá!
E os medos estão empilhados,
Apodrecendo uns sobre os outros,
Os mais antigos esmagados pelos mais novos,
Os mais novos se alimentando dos mais velhos,
E todos juntos soltando um vapor
Que sobe pelas frestas do sono
E entra pelas narinas de quem dorme,
Não como um pesadelo,
Mas como uma lembrança.
Uma lembrança de que o medo nunca morre.
Ele apenas desce.
Para o porão.
Para a pilha.
Para apodrecer com os outros.
...E você, que agora está descendo,
Sente o cheiro antes de ver qualquer coisa.
Um cheiro forte, doce e podre ao mesmo tempo,
Como fruta esquecida no fundo de uma gaveta,
Como pano de chão que nunca secou,
Como o interior de uma boca fechada há anos.
É o cheiro dos seus medos.
Não daqueles que você conhece,
Mas daqueles que você enterrou tão fundo
Que esqueceu que eram seus.
E agora eles estão ali,
Amontoados,
Misturados,
Apodrecendo juntos,
E reconhecem o seu cheiro!
Eles se mexem.
Não como quem acorda,
Mas como quem se ajeita
Para abrir espaço.
Para você.
Porque a pilha sempre espera mais um.
E o cheiro forte que sobe dela
Não é apenas o fedor do que apodreceu.
É o chamado.
O convite.
O hálito da pilha
Que sabe o seu nome
E quer prová-lo de novo.
Não tape o nariz.
Não adiantaria!
O cheiro não está no ar.
Está em você.
Sempre estivera!
Cada medo que você empurrou para baixo
Foi parar aqui.
Cada pavor que você sufocou
Desceu as escadas sozinho.
E se juntou aos outros.
E apodreceu com eles.
E agora a pilha é você,
E você é a pilha,
E o cheiro forte que sobe do porão
É o cheiro da sua própria alma,
Guardada no escuro,
Esperando que você desça
Para finalmente reconhecê-la.
Quando você acordar,
O cheiro estará na sua pele,
No seu cabelo,
Na sua boca.
E por mais que lave,
Não sairá.
Porque o cheiro não veio do porão.
O porão apenas o devolveu.
Ele sempre foi seu.
E agora, finalmente,
Você sabe de onde ele vem.
E sabe que um dia,
Quando o último medo apodrecer,
E a pilha crescer o suficiente,
Ela subirá as escadas sozinha.
E não haverá despertar que a detenha.
By Santidarko
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