terça-feira, 23 de junho de 2026

A ausência do ladrido


Helena Macedo de Almeida tinha trinta e seis anos, um apartamento espaçoso demais em São Paulo, e um único amor na vida!

Esse amor se chamava Teodoro, mas ela o tratava por Téo, Teozinho, ou simplesmente, 'meu filho'!

 Era um Golden Retriever de pelo dourado, orelhas macias como veludo e um talento especial para derrubar vasos com a cauda. Helena o adotara ainda filhote, numa feira de adoção na Vila Madalena, num sábado de sol em que ela saíra de casa jurando que só ia 'olhar'. 

Voltou com uma bolinha de pelos dormindo em seu colo e a sensação absurda de que sua vida tinha acabado de ganhar propósito.

Durante oito anos, Téo foi a família que Helena escolheu!
 Festa de aniversário com bolo de cenoura e cenourinha. Sessões de cinema no sofá com a cabeça dele apoiada em seu colo, os olhos castanhos acompanhando a tela como se entendesse o enredo. Perfil no Instagram onde ela postava fotos dele dormindo de barriga para cima, a língua para fora, as patas recolhidas -- @teoogolden, doze mil seguidores, uma legião de desconhecidos que acompanhavam a rotina daquele cachorro como quem acompanha uma novela.

...Quando alguém lhe perguntava se tinha filhos, Helena respondia com o queixo erguido:

— Tenho! Peludo, mas tenho!

Ninguém entendia aquilo. A mãe de Helena, dona Sônia, dizia que ela precisava 'assentar a cabeça','arrumar um homem de verdade', parar de tratar bicho como gente.
 Os colegas do escritório de arquitetura trocavam olhares condescendentes quando ela saía mais cedo para levar Téo ao veterinário. Os namorados que passaram por sua vida --nenhum durou mais que seis meses -- cedo ou tarde soltavam a mesma frase: ''Você ama mais esse cachorro do que a mim.'

...Era verdade!
...E Helena não se desculpava por isso!

Téo foi testemunha das suas crises de choro, companheiro das noites de insônia, o único ser vivo que a recebia na porta como se ela fosse o próprio sol entrando em casa. Quando ela chegava exausta do trabalho, ele largava o brinquedo, abanava a cauda com tanta força que parecia desequilibrar o corpo e a lambia até arrancar uma risada. Em noites de tempestade, deitava-se aos pés da cama, atento, como um guardião silencioso. 

Nos dias tristes, apoiava o focinho em seu joelho e ficava ali, imóvel, respirando junto.

Quando Téo morreu, o mundo de Helena desabou sem fazer barulho.

...Foi um câncer silencioso!

 Hemangiossarcoma, disse o veterinário, com a voz grave de quem já deu essa notícia muitas vezes. Em quarenta e oito horas, Téo passou de cachorro feliz -- ainda abanou a cauda ao vê-la na manhã de quinta -- a corpo frio na mesa de aço da clínica. 

Helena segurou a pata dele até o último instante, sentindo a almofadinha que tantas vezes apertara de brincadeira. Quando o coração parou, ela não chorou. Só ficou ali, imóvel, como se o mundo tivesse perdido o som.

Ninguém no escritório entendeu sua dor. Dona Sônia, ao telefone, soltou um suspiro que Helena conhecia bem:

— Pelo menos agora você pode viajar, filha. Aproveitar a vida!

Os amigos enviaram mensagens protocolares: 'Meus sentimentos.'
Depois, silêncio!

... Ninguém apareceu com uma lasanha. Ninguém perguntou se ela queria companhia. Ninguém a abraçou enquanto ela chorava. Porque, afinal, 'era só um cachorro'.

Helena guardou a guia vermelha na gaveta da mesa de cabeceira. Guardou a coleira com plaquinha de prata -- 'Teodoro — contato: Helena' -- no fundo da bolsa, como um amuleto. E passou três dias deitada no chão da sala, exatamente onde ficava a cama dele. O apartamento inteiro cheirava a ausência. Os pelos dourados ainda grudados no sofá, o pote de ração intocado na cozinha, a mancha de baba no vidro da varanda.

Na quarta noite, ela enfiou a cara no tapete onde ele dormia, tentando encontrar o cheiro que já estava desaparecendo, e então, enfim, chorou!

A proposta de emprego veio como uma tábua de salvação, embora Helena soubesse que era apenas uma fuga disfarçada de oportunidade. 

Coordenar a restauração de um teatro histórico em Curitiba. O Cine Teatro Ópera, uma joia art déco dos anos quarenta que seria transformada em centro cultural. 

O salário era bom!

O prazo era longo. E Curitiba era fria, organizada, o oposto de São Paulo -- o oposto de tudo que ela conhecia.

Partiu sem se despedir de ninguém. Colocou a coleira de Téo no bolso do casaco, sentiu o peso da plaquinha de prata contra o peito e tomou o voo para o sul numa terça-feira chuvosa de abril.

Curitiba a recebeu com seu céu cinza e suas ruas de pedra. Ela alugou um apartamento térreo no bairro Juvevê, com um pequeno quintal que dava para um jardim de inverno. Tinha espaço para plantar hortelã. Tinha uma jabuticabeira no canto. Tinha um pedaço de grama que seria perfeito para um cachorro.

...Seria!

Nos primeiros dias, Helena se ocupou com o trabalho. O teatro era uma ruína gloriosa, cheio de camarins abandonados, poltronas de veludo carcomido, um palco que cheirava a madeira antiga e histórias esquecidas. Ela mergulhou nos projetos, nas medições, nas reuniões com fornecedores. Mas à noite, quando voltava para o apartamento vazio, o silêncio era... insuportável!

E então, numa tarde de maio, enquanto caminhava pelo centro da cidade tentando decorar os nomes das ruas, ela viu o cartaz.

Era uma folha simples, afixada no mural da Biblioteca Pública do Paraná. Letras pretas sobre fundo branco, uma impressão caseira, quase amadora. Dizia:

'Grupo de Apoio para Pais Enlutados -- Toda quarta-feira, 19h, no porão da Catedral Basílica. Não é preciso falar. Basta estar.'

Helena ficou parada diante do cartaz por um tempo que não soube medir.

...Pais enlutados!

...Ela não era mãe de ninguém!

Não tinha carregado um filho no ventre, não tinha velado um corpo pequeno num caixão branco, não tinha fotos de uma criança na carteira. Mas tinha velado um corpo coberto por um lençol azul numa clínica veterinária, com as mãos trêmulas e uma dor tão grande que parecia ocupar todo o espaço entre suas costelas.

O que a levou até lá não foi coragem. 

...Foi desespero!

Fome de ser compreendida.
A necessidade insuportável de falar sobre Téo sem que alguém respondesse 'era só um cachorro'.

Na quarta-feira seguinte, Helena atravessou a praça em frente à Catedral Basílica, sentiu o cheiro de incenso e cera que saía pela porta principal, e contornou o prédio até a entrada lateral. Uma escada de pedra conduzia ao porão. Seus sapatos faziam eco nos degraus.

Lá embaixo, a sala era modesta. Paredes de tijolos aparentes, iluminadas por uma luz amarela que deixava tudo com aparência de fotografia antiga. Cadeiras de madeira dispostas em círculo. Uma garrafa térmica com café. Uma caixa de lenços de papel no centro da roda. E oito pessoas.

Oito pessoas com olheiras profundas e ombros caídos.

Oito pessoas que carregavam no peito o peso mais insuportável que existe!

Helena sentou-se na cadeira mais afastada, perto da porta, pronta para fugir se precisasse.

 Uma senhora de cabelos grisalhos e voz mansa -- dona Glória, ex-professora primária -- coordenava o grupo.

 Havia ali uma jovem de vinte e poucos anos que perdera um bebê de colo. 

Havia um casal de meia-idade cujo filho adolescente batera o carro numa madrugada. 

Havia uma mulher que não dizia nada, apenas chorava em silêncio, abraçada a um ursinho de pelúcia gasto.

...E havia ele!

Sentado perto da janela, um homem de ombros largos e mãos que pareciam esculpidas em madeira. Usava um avental manchado de verniz, como se tivesse saído direto do trabalho. Os cabelos castanhos começavam a ficar grisalhos nas têmporas. Os olhos eram escuros e demoravam a piscar, como se tivessem esquecido o ritmo do mundo.

Ele não falou durante toda a reunião. Apenas ouviu. E seus olhos estavam sempre marejados, como se prestes a transbordar sem nunca cair.

Quando chegou sua vez de falar, Helena sentiu a boca seca. As palavras emperradas na garganta. Sabia que não podia dizer a verdade -- 'meu cachorro morreu'.!

Já imaginava os olhares de incredulidade, a indignação muda, talvez um pedido para que se retirasse. Aquele não era lugar para ela.

...Então mentiu!

Quase sem querer. Como quem tropeça.

— Meu nome é Helena. Meu filho... ele se chamava Téo.

E Téo renasceu ali: não mais como um Golden Retriever de pelo dourado e cauda de vassoura, mas como um menino humano. Um menino que nunca existiu, mas que agora precisava ganhar rosto, história, brinquedo favorito, comida preferida.

As semanas seguintes foram um exercício de construção. 

A cada reunião, uma nova mentira.

Na segunda reunião, dona Glória perguntou de que Téo tinha morrido. Helena pensou rápido. 

..Leucemia, respondeu!

Leucemia aos seis anos. E assim Téo ganhou idade e uma doença, longa, cruel, cheia de internações e falsas esperanças.

Ela descreveu corredores de hospital, noites em claro ao lado da cama, a quimioterapia que parecia funcionar até que não funcionou mais. Não eram memórias reais, mas eram tão vívidas que às vezes ela mesma quase acreditava!

Na terceira reunião, dona Glória sugeriu que cada pai trouxesse um objeto do filho. Algo para compartilhar com o grupo. Helena entrou em pânico. 

O que levaria? 
A coleira de Téo? 
A bolinha de borracha que ele adorava?

Passou uma tarde inteira vasculhando lojas de antiguidades no centro de Curitiba. Encontrou um coelhinho de pelúcia numa vitrine empoeirada da Rua Riachuelo. Era marrom, gasto, com uma orelha rasgada e um olho torto. Parecia ter sido amado por alguém. Helena comprou na hora.

Na reunião seguinte, segurou o coelhinho no colo e disse, com a voz embargada:

— Ele dormia com este coelho todas as noites. Se chamava Pipoca.

Uma das mães enlutadas sorriu entre as lágrimas. Outra perguntou se Téo tinha outros brinquedos. Helena começou a inventar: um caminhão de bombeiro vermelho, uma espada de plástico, uma coleção de gibis da Turma da Mônica que ele guardava embaixo do travesseiro.

O homem perto da janela ergueu os olhos e encontrou os dela.

Depois da reunião, ele se aproximou. E Helena sentiu o cheiro de serragem e verniz que emanava de sua roupa, um perfume áspero e doce ao mesmo tempo.

— Meu filho também tinha um bicho , dissera  ele, com a voz grave e pausada, como se cada palavra custasse. 
— Um macaco de pelúcia. Chamava Bananinha. Até hoje guardo!

Era a primeira vez que ele falava. Seu nome era Lucas.

Lucas Novaes Resende. Quarenta e um anos. Marceneiro e restaurador de imagens sacras. Tinha perdido a esposa e o filho num mesmo dia, um ano e quatro meses atrás, nas águas barrentas do Rio das Velhas, durante um passeio que deveria ser feliz. O menino se chamava João. Sete anos. Sabia nadar, mas a correnteza era mais forte.

Lucas contou isso tudo num café depois da quarta reunião, quando convidou Helena para tomar um chocolate quente na padaria em frente à Catedral. A noite estava fria, e o vapor das xícaras subia como pequenos fantasmas entre eles.

— Faz um ano e quatro meses , contara ele, mexendo o chocolate com a colher. 
— ...E ainda tem dias... que eu acordo achando que vou ouvir a risada dele na sala.

Helena sentiu o coração apertar. Queria contar a verdade. Queria dizer que entendia aquela dor, mas que seu filho tinha quatro patas e um rabo que abanava. Queria confessar que também acordava esperando ouvir passos que não viriam mais -- patas no chão de taco, unhas arranhando a porta, um latido abafado.

...Mas não conseguiu!

Em vez disso, começou a inventar
 
...Eduardo.

— Meu marido... ele não aguentou , dissera ela, com os olhos fixos na xícara. 
— Depois que o Téo morreu, ele foi embora. Não conseguiu ficar na casa, olhar para mim, para os brinquedos... Disse que cada canto lembrava o menino. Um dia eu cheguei do trabalho e ele tinha sumido. Só deixou um bilhete.

Lucas a olhou com uma compaixão tão profunda, que Helena quase se afogou nela.

—...Sinto muito! , confortada  ele.

Ela assentiu, incapaz de responder, porque a mentira pesava agora como chumbo no estômago.

Nas semanas seguintes, a história de Téo cresceu em detalhes.

Ela contou que ele gostava de desenhar nuvens. Que tinha medo de trovão. 
Que o prato preferido era macarrão com salsicha, mas só se a salsicha fosse cortada em rodelinhas, nunca em pedaços grandes. 

Que ele ria com a boca toda aberta, mostrando uma falha nos dentes da frente. 

Que no último Natal, pediu uma bicicleta azul, mas nunca aprendeu a andar sem rodinhas.

...Eram mentiras!

Mas eram mentiras que doíam como verdades.

Porque, no fundo, Helena falava de Téo.
 Do verdadeiro Téo. O Golden Retriever que tinha medo de trovão e se escondia atrás do sofá. Que comia macarrão escondido quando ela não estava olhando. Que a recebia com tanta alegria, que parecia rir com a boca toda aberta, a língua para fora. 

...Que no último Natal ganhou uma caminha nova e passou a noite inteira abanando a cauda.

Ela criou uma pasta no celular. 'Téo -- Fotos'.
Mas as imagens que guardava ali não eram do cachorro. Eram fotos aleatórias de crianças desconhecidas, baixadas da internet: uma nuca loira, uma mão pequena segurando giz de cera, uma silhueta contra o pôr do sol. 

Para Lucas, ela mostrava apenas a nuca do suposto menino. Dizia que não conseguia olhar para o rosto dele ainda. 
...Que doía demais!

Lucas nunca insistiu.

Ele entendia. Ele também tinha fotos que não conseguia olhar.

O problema, Helena descobriu tarde demais, é que mentiras criam raízes.
... E raízes, se não forem arrancadas a tempo, viram árvores.

Dois meses depois da primeira reunião, ela e Lucas já não eram apenas dois estranhos que dividiam um café.
 Eram quase amigos. 
Quase confidentes. 
Quase alguma coisa que ela não ousava nomear.

Ele a levou para conhecer sua oficina, um galpão nos arredores do bairro São Francisco, cheio de santos mutilados e anjos sem asas. Mostrou a ela como restaurava as imagens barrocas que chegavam das igrejas históricas do interior. Havia uma Nossa Senhora das Dores sem mãos. Um São Miguel Arcanjo sem espada. Um Menino Jesus cujo rosto tinha sido carcomido pelo tempo.

— Meu trabalho é consertar o que parece irreparável , dissera Lucas, lixando com cuidado a borda de um altar.
 — É nisso que eu acredito!

Helena olhou para ele -- as mãos firmes, os olhos concentrados, a serragem nos cabelos -- e sentiu um aperto no peito que era ao mesmo tempo ternura e pavor.

— E quando não tem conserto!? , perguntara.

Lucas parou de lixar. Ergueu os olhos para ela.

— Sempre tem. A gente só não sabe ainda como.

Foi nesse instante que Helena se apaixonou. Não com fogos de artifício ou borboletas no estômago, mas com a gravidade silenciosa de quem escorrega num barranco e já não pode mais voltar.

...E foi também nesse instante que ela percebeu que estava perdida.

Porque Lucas amava uma mulher que não existia. Uma mãe enlutada que chorava por um menino de seis anos, não por um Golden Retriever. Uma viúva abandonada por um marido que nunca existiu. Uma sobrevivente que carregava uma dor que não era a sua.

A dor de Helena era real. Mas o filho, não!

Na última quarta-feira de agosto, dona Glória fez um anúncio que congelou o sangue de Helena.

— No Dia de Finados, vamos fazer uma homenagem coletiva , disse raa velha senhora, com a voz serena.
 — Cada um vai ao túmulo do seu filho, acende uma vela e traz uma flor para compartilhar na reunião seguinte.

Helena sentiu o chão se abrir.

Os outros pais assentiram. Alguns já sabiam o que levariam: rosas brancas, margaridas, girassóis. Lucas disse que plantaria um manacá no jardim da oficina, porque era a flor que João mais gostava.

— E você, Helena? , perguntou dona Glória. — Que flor vai levar para o Téo?

— Crisântemo , respondera ela, porque era a primeira flor que lhe veio à mente.

Naquela noite, Helena voltou para o apartamento do Juvevê e vomitou!

Ela não tinha um túmulo para visitar. 
Téo, o verdadeiro Téo, tinha sido cremado. Suas cinzas estavam num vaso de cerâmica azul na estante da sala, ao lado de uma foto sua correndo na praia e da coleira vermelha. Mas não havia túmulo. Não havia lápide com nome e data.

 Não havia um lugar no cemitério onde ela pudesse acender uma vela e fingir que era mãe de uma criança morta.

A não ser que...

A ideia surgiu como um verme. Repugnante e inevitável.

Ela poderia ir a qualquer cemitério de Curitiba. Escolher um túmulo ao acaso. Uma criança enterrada ali há anos, esquecida por todos. E fingir que era o seu filho.

Passou a noite em claro, revirando a ideia na cabeça. 

Era loucura! 
Era obsceno.!

...Era a única saída que lhe restava!

Na manhã seguinte, um sábado nublado, Helena tomou um ônibus até o Cemitério Municipal São Francisco de Paula. 

As alamedas estavam desertas. Os ciprestes balançavam ao vento frio. 
Ela caminhou entre os túmulos como uma ladra, procurando lápides de crianças.

Encontrou várias. Algumas recentes, com flores ainda frescas e brinquedos sobre a pedra. Outras antigas, cobertas de limo, abandonadas há décadas.

E então, numa alameda lateral, sob a sombra de um ipê sem flores, ela viu!

Um túmulo simples, de mármore gasto. A inscrição dizia: 'Mateus Oliveira. 2012-2018. Saudades eternas de seus pais.'

Mateus. Seis anos. A mesma idade que Helena inventara para Téo.

Ela ficou parada diante da lápide por muito tempo. Depois se ajoelhou, arrancou as ervas daninhas que cresciam ao redor, limpou a pedra com as mãos nuas.

— Me perdoa, Mateus , sussurrara 
— Eu sei que você não é meu filho. Mas eu preciso de um lugar para chorar!

E chorou. Ali, de joelhos sobre a terra fria, chorou por Téo, o cachorro que ninguém considerava digno de luto. Chorou por Lucas, que a amava sem saber quem ela realmente era. Chorou por si mesma, pela solidão insuportável de carregar uma dor que o mundo inteiro julgava ridícula.

Quando se levantou, as calças estavam sujas de terra e os olhos inchados. 

...Mas sentia-se estranhamente leve.

Foi então que ouviu uma voz atrás de si.

— Helena?

Ela se virou.

Lucas estava ali, parado na alameda, segurando um buquê de flores. Visitava o túmulo do filho, que ficava algumas quadras adiante. Seus olhos iam de Helena à lápide, da lápide a Helena.

— É aqui? , perguntara ele, com a voz incerta. 
— O túmulo do Téo?

Helena quis dizer a verdade. Todas as palavras se acumularam na garganta: 'Não, Lucas, Téo não está aqui, Téo está num vaso azul na minha estante, Téo era um cachorro, Téo tinha quatro patas e um rabo que abanava, e eu menti para você, eu menti para todos, me perdoa, me perdoa, me perdoa.'

Mas o que saiu foi:

— É....Aqui!

Lucas se aproximou. Depositou uma flor de manacá sobre a lápide de Mateus.
... E depois, com uma naturalidade que desarmou Helena por completo, passou o braço ao redor dos seus ombros.

— É bonito o nome dele , dissera

Ela não respondeu. Apenas encostou a cabeça no ombro de Lucas e fechou os olhos, deixando que a mentira a envolvesse como um abraço.

O retorno para casa foi silencioso. Lucas dirigiu seu carro velho pelas ruas de Curitiba, as mãos firmes no volante, os olhos fixos na estrada. Helena ia ao seu lado, olhando pela janela, vendo as luzes da cidade passarem como fantasmas.

— Posso te fazer uma pergunta? , dissera Lucas, de repente.

— Pode.

— Como ele era? O Téo. De verdade.

Helena fechou os olhos. E então, sem planejar, começou a falar.

Não sobre o menino inventado. Mas sobre o cachorro.

— Ele era dourado! —,dissera ela.
— Tinha os olhos cor de mel. As orelhas macias, muito macias. Quando ficava feliz, abanava a cauda com tanta força que derrubava tudo ao redor. Ele dormia no meu quarto, aos pés da cama. De manhã, me acordava lambendo meu rosto. Ele gostava de correr na praia, de deitar no sol, de comer cenoura. Tinha medo de trovão. E eu... eu amava ele. Amava mais que tudo. 

...Mais que a mim mesma!

Lucas ficou em silêncio por um momento.

— Você está falando de um cachorro? , perguntara, por fim.

O coração de Helena parou.

O carro entrou na Rua das Flores. As luzes dos postes passavam em intervalos regulares, iluminando o rosto de Lucas em lampejos. Ele não parecia zangado. Apenas... curioso.

— Sim , confessara Helena. 
— Um Golden Retriever.

Silêncio.

— Ele era o meu filho , continuara ela, com a voz embargada. 
— Eu sei que não é a mesma coisa. Eu sei que as pessoas acham ridículo. Mas eu não tinha mais ninguém no mundo, Lucas. Só ele. E quando ele morreu, ninguém me abraçou. Ninguém me disse que ia ficar tudo bem. Ninguém me levou uma flor.

O carro parou em frente ao apartamento de Helena. Lucas desligou o motor e ficou olhando para o volante, como se buscasse ali as palavras certas.

— Eu não sei o que é perder um cachorro — dissera ele, por fim. 
— Mas eu sei o que é perder quem você ama. E a dor não tem hierarquia, Helena. A dor é só dor!

Ela sentiu as lágrimas escorrerem.

— Você está com raiva de mim?

Lucas virou-se para ela. Seus olhos escuros estavam marejados, como sempre, mas agora havia algo diferente ali. Uma espécie de compreensão triste.

— Não estou com raiva , respondera 
— Só estou pensando numa coisa.

— O quê?

— Que o túmulo que a gente visitou não era do seu filho. E que a gente vai precisar de um lugar de verdade para acender a vela no Dia de Finados.

Helena piscou, sem entender.

— Como assim?

Lucas pegou a mão dela. As mãos ásperas de marceneiro envolveram seus dedos frios.

— Você tem as cinzas dele, não tem? Do Téo.

— Tenho.

— Então a gente vai plantar uma árvore. Uma jabuticabeira, que nem aquela do seu quintal. E a gente vai colocar as cinzas na terra. E ela vai crescer, e dar frutos, e você vai ter um lugar para visitar. Um lugar de verdade!

Helena olhou para ele por um longo tempo. Depois sorriu -- um sorriso frágil, ainda molhado de lágrimas.

— Você faria isso por mim?

— Faria , afirmara  Lucas. 
— Mas você vai ter que fazer uma coisa por mim também.

— O quê?

— Da próxima vez que a gente for ao grupo, você vai contar a verdade. Sobre o Téo. Sobre tudo.

O sorriso de Helena vacilou.

— Eles vão me odiar.

— Talvez. Mas a dona Glória sempre diz que o grupo é para quem quer sarar. E você não vai sarar se continuar carregando essa mentira.

— E você? , perguntara ela, com a voz pequena. 
— Vai continuar... comigo?

Lucas apertou sua mão.

— Helena, eu passei o último ano e meio consertando santos quebrados. Devolvendo asas a anjos que tinham perdido tudo. Você acha mesmo que eu vou desistir de você por causa de um cachorro?

Ela riu, e o riso se misturou ao choro, e as duas coisas juntas pareceram, pela primeira vez em muitos meses, com esperança.

Na quarta-feira seguinte, Helena desceu as escadas de pedra da Catedral Basílica pela última vez. Não levava o coelhinho de pelúcia. Levava apenas a coleira vermelha de Téo no bolso do casaco.

Sentou-se no círculo. Olhou para dona Glória, para os pais enlutados, para Lucas, que lhe devolveu um aceno quase imperceptível, como quem diz: estou aqui.

E então, com a voz trêmula mas as palavras firmes, disse:

— Meu nome é Helena. E eu quero contar a vocês sobre o meu filho. O meu filho de verdade.

No bolso, seus dedos se fecharam em torno da coleira.

A plaquinha de prata estava fria contra sua pele.

Mas seu coração, pela primeira vez desde a morte de Téo, estava quente!



FIM.



By Santidarko 


Cárnite Sambênito(*Anti-herói ,CÁRNEO) by Santidarko




Introdução  a CÁRNEO(* Dorian Morbanno)   e ao Rancúlmine

Antes de ser o justiceiro que caminha entre as sombras, ele era apenas um homem quebrado!

Um soldado que viu sua família ser consumida pelo fogo cruzado de uma guerra urbana que não era a sua. 
No momento da morte -- seu corpo estendido sobre o asfalto molhado, o peito aberto por estilhaços -- ele não clamou a Deus. 

Ele clamou por vingança. 

...E algo nas profundezas respondeu!

...Não era um demônio!
 Era algo mais antigo e mais trágico: um anjo caído, exilado do Paraíso,não por rebelião, mas por se recusar a brandir a espada contra seus irmãos. Um ser que compreendia a dor da injustiça e o peso da desobediência justa.
 
Esse anjo, cansado de observar o sofrimento dos inocentes, arrancou  sua penúltima  de sua asa -- uma pena que carregava os  últimos resquício de sua graça celestial, corrompida pela queda, mas ainda poderosa!

Ele a entregou a Cárneo ...com um pacto silencioso. Não exigiu sua alma, não pediu adoração. O preço foi outro.
Cárneo confeccionou um medalhão e pôs a pena dentro desse medalhão, que carrega em  seu peito.




O anjo caído, Gratiaal  ,não quer almas!

...Ele quer memória!
 Em troca da pena, Cárneo carrega o peso de jamais ser lembrado como herói, jamais ter seu nome escrito em luz, jamais encontrar paz na morte. Cada vida que salva, cada inocente que protege, cada culpado que pune -- tudo será atribuído ao acaso, ao medo, à lenda urbana.

 Cárneo é um espectro que caminha sem glória, um salvador anônimo !


O anjo caído, por sua vez, deseja que suas próprias memórias do Paraíso -- as cores, os sons, a luz -- sejam preservadas dentro da consciência de Cárneo. 

...Assim, enquanto Cárneo vive, o anjo não esquece o que perdeu. E Cárneo, ao carregar essas visões celestiais que jamais poderá alcançar, sofre a cada noite com sonhos de um céu que o rejeita. É o preço da pena: lembrar o divino para sempre, mas jamais tocá-lo.

------
Rancúlmine : O traje de Carne

Sob o sobretudo negro de kevlar, Cárneo(*Dorian Morbanno) veste Rancúlmine -- um organismo simbionte que é ao mesmo tempo armadura, músculo e confissão.

 Ele não veste o traje; o traje o habita!

Quando o medalhão com a pena do anjo caído toca seu peito, a graça corrompida desperta Rancúlmine. O tecido emerge dos poros como uma segunda epiderme: vermelho escuro, textura de fibras musculares estriadas, úmido como carne recém-exposta. Em repouso, parece um uniforme tático de combate justo ao corpo, com placas orgânicas que imitam blindagem balística -- mas que pulsam, respiram, reagem.

Quando ferido, Rancúlmine se regenera diante dos olhos. As fibras se retorcem, buscam umas às outras como vermes famintos, costuram-se sozinhas!

 Se Cárneo cai de grandes alturas, o traje absorve o impacto expandindo-se em uma rede de tendões que dissipam a energia cinética. Se recebe disparos, os filamentos endurecem instantaneamente em placas ósseas.

Mas o preço é constante: Rancúlmine se alimenta do rancor de Cárneo. Cada injustiça que ele testemunha, cada culpado que escapa, cada memória do céu que ele carrega -- tudo vira combustível. O traje não o deixa esquecer. Ele mantém Cárneo em estado perpétuo de indignação controlada, uma fúria fria que o torna implacável, mas jamais irracional.



As Tendrilhas de Sístole

Das mangas de Rancúlmine, sob o casaco, emergem os microfilamentos braçais -- tentáculos finos como fios de cobre, mas resistentes como aço. 

Eles se movem com vontade semiautônoma, reagindo ao instinto de combate de Cárneo antes mesmo que ele ordene.

Quando um inimigo se aproxima pelas costas, os filamentos se eriçam como pêlos de animal acuado. Quando Cárneo precisa escalar, eles se projetam contra superfícies e criam âncoras microscópicas. Em combate corpo a corpo, chicoteiam o ar, desarmam adversários, estrangulam, perfuram. 

Eles são a extensão física do rancor que Cárneo carrega -- visíveis, palpáveis, letais.

----------------------------



A cidade de Vergasta



Vergasta nunca fora uma cidade para os puros. .
...Sob catedrais de fuligem e vitrais manchados de pecado, ergue-se uma metrópole gótica-industrial onde a luz não se compra -- aluga-se em prestações de culpa!

... Dizem que até os anjos pagam para entrar, mas ajoelham-se antes de cruzar os portões. 

Porque Vergasta não é apenas corrupta: é Ajoelhada. Curvou-se por vontade própria ao crime, e no seu coração gangrenado dois clãs disputam o direito de podridão.

O primeiro, conhecido como Clã do  Sarcófago, entoam obediência  ao' Salmista de Sangue'.

(*O Salmista de Sangue)

Não matam somente  por dinheiro -- matam por versículo. Cada execução é um salmo entoado, cada cadáver uma estrofe numa liturgia macabra que só eles compreendem. Vestem-se com estolas de pele humana e entoam ladainhas enquanto cometem crime.

...Para os Sarcófagos, o crime é sacramento!



Abaixo deles, rasteja o Linho Mortuário ; escória devota que serve o clã...como cães famintos!

Devem  devoção ao 'Máscara de Ossos';
Um louco com  máscara de caveira esculpida com ossos .

Acredita-que ele era um juiz ou empresário antes de assumir ' o seu trono'.

(*O máscara de Ossos)




--------------------------


Malena Vundo, a Auditriz


O que fazia antes?

Malena Vundo era uma física teórica especializada em acústica quântica -- o estudo de como o som se comporta em estados anómalos da matéria. Trabalhava para a Universidade de Vergasta (setor de Indústria Bélica) até perceber que as suas pesquisas sobre frequências de anulação estavam a ser desviadas para uso desconhecido. 

Pediu transferência para o Ministério Público como perita forense. Tornou-se promotora -- oficialmente, para combater o crime com provas científicas.

... Mas a verdade é outra!



Por que a Promotoria? (A mentira da justiça)

Malena Vundo nunca quis ser promotora por vocação. Ela veste a toga como quem veste uma Máscara :para se camuflar entre os inimigos do seu verdadeiro alvo.

A sua estratégia é simples e monstruosa:

Quanto mais implacável parece contra o crime, mais perto chega de Cárneo.

Ela constrói uma reputação férrea. 
...Acusa bandidos com provas irrefutáveis. 

Ganha manchetes como 'A Auditriz '--a promotora que ouve o que ninguém ouve!

Torna-se a cara da justiça em Vergasta. Mas cada processo que move contra capangas menores do Linho Mortuário serve um único propósito: forçar Cárneo a notá-la.

Ela quer que ele a veja nos tribunais. 
...Quer que ele leia as suas alegações finais como quem lê cartas de amor codificadas em linguagem jurídica. 

Quer que ele perceba que ela não está apenas a  destruir o crime -- está a podá-lo, removendo ervas daninhas para que 'a flor negra' do Salmista de Sangue floresça menos ainda!

Ela mente ser justa ...porque a justiça é a única linguagem que Cárneo respeita.

 Ele não se impressionaria com uma groupie. 

...NO COMEÇO!

...Mas uma ajudante ...brilhante? 


Malena quer ser a única voz que ele não consegue silenciar -- e, para isso, precisa de chegar o mais perto possível.
 A promotoria lhe dá acesso aos autos, às provas, aos interrogatórios, aos corpos. 
...É a posição mais íntima que se pode ter com um criminoso sem lhe tocar.



Como se ganha poderes além do dinheiro?

Ela quer, uma única resposta :como se ganha poderes além do dinheiro?

Como  Cárneo tem poderes?


--------------






By Santidarko 

Personagens  by Santidarko 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Corisbelle e a cidade de Lacrimosel (*Personagem by Santidarko)


Corisbelle  é uma menina de doze anos que parece ter nascido já despedaçada. 
...Sua pele tem a palidez leitosa de quem nunca recebeu sol suficiente, e seus longos cabelos negros caem em mechas irregulares, como se ela mesma os cortasse com uma tesoura enferrujada. 

Seus olhos são de um castanho tão escuro ,que beiram o preto, e têm a profundidade de poços abandonados: olham para dentro antes de olhar para fora. Veste sempre o mesmo vestido de veludo cinzento, puído nas mangas, com uma gola de renda que sua falecida avó começou a bordar ...e nunca terminou !--- os fios soltos dançam quando ela se move.

Corisbelle fala pouco, mas quando o faz, suas palavras são escolhidas como quem apanha cacos de vidro. Ela tem o hábito de colecionar objetos minúsculos que ninguém mais valoriza: um botão sem par, uma chave que não abre nada, um selo de carta que nunca chegou.

 Esses objetos vivem num pote de vidro que ela chama de Museu das Coisas Órfãs

.... Sua única alegria verdadeira era Sombra, um labrador de pelo negro como tinta fresca, com olhos castanhos profundos ...que pareciam compreender tudo o que ela não dizia. 

Corisbelle conversava com ele em sussurros, abraçando seu corpo morno e macio nas noites frias, e Sombra dormia aos pés de sua cama, um vulto escuro que aquecia seus pés gelados e afastava os pesadelos.

O padrasto, um homem seco e amargo chamado Cipriano Desalma, sempre a considerou uma presença incômoda -- uma testemunha indesejada de um casamento anterior que ele preferiria apagar. A mãe de Corisbelle, Dona Isaura, está doente dos pulmões... e passa os dias tossindo junto à janela, envolta em xales, dizendo 'sim' a tudo que o marido decide. 

Quando Cipriano deu Sombra a uma família de outra cidade, Corisbelle sentiu que a última brasa do seu peito estava sendo pisoteada!

...Naquela noite, não chorou. Apenas encheu os bolsos do vestido com os objetos do Museu das Coisas Órfãs, pegou uma lanterna cuja luz era amarela e trêmula como uma vela, e saiu pela porta dos fundos. 

Não deixou bilhete. 

...Deixou apenas a ausência!

...

O cachorro chamava-se Sombra -- porque, desde filhote, acompanhava Corisbelle como uma segunda silhueta, um vulto preto e fiel colado aos seus calcanhares. Ela o chamava com a voz mais doce que possuía, e ele respondia com um abanar de cauda que fazia seu corpo inteiro oscilar, uma mancha de tinta viva contra o chão gasto da casa.

...

A cidade para onde o padrasto enviou Sombra chama-se Lacrimosel, um vilarejo encravado entre montanhas de carvão e um mar que não brilha!

O nome deriva de lacrimosa —'cheia de lágrimas' -- e diz a lenda que a cidade foi fundada por uma mulher que chorou um rio de pranto até que suas lágrimas formassem o único lago do lugar, o Lago Suspiro, cujas águas são paradas e cinzentas como mercúrio. 

Em Lacrimosel, 'chove trezentos dias por ano', e os habitantes usam sombrinhas de renda preta e caminham devagar, como se carregassem pesos invisíveis nos ombros.
 

As casas são estreitas e altas, com janelas que mais parecem pálpebras cerradas!



Corisbelle seguiu o caminho de terra batida que seu padrasto percorrera dois dias antes, quando voltou sem Sombra e sem explicação!

 ...Ela sabia que a família destinatária se chamava Os Penedos,  que moravam numa casa com telhado de ardósia azul-escura, a única da rua com uma figueira seca na frente.

Chegou a Lacrimosel ao cair da noite, quando a garoa fina como agulhas começou a cair. 

As ruas estavam desertas, e os lampiões a gás lançavam uma luz alaranjada e doentia sobre os paralelepípedos molhados. 

...Em cada esquina, estátuas de crianças de pedra seguravam vasos de onde brotavam flores negras. Corisbelle sentiu que aquelas estátuas a observavam com olhos de musgo.

Ao encontrar a casa dos Penedos, bateu à porta com os nós dos dedos, três pancadas secas. Quem atendeu foi uma mulher de vestido cor de ameixa e rosto alongado, a Senhora Eulália Penedo, que a examinou sem surpresa, como se já a esperasse há muito tempo.

—... Então, és tu a dona do cão negro , disse Eulália, com uma voz doce e oca. 
— Entra, menina. Sombra está no quintal dos fundos, brincando com as outras crianças.

Corisbelle atravessou o corredor da casa, onde as paredes eram cobertas por retratos ovalados de pessoas que pareciam tristes e pálidas. 

No quintal, havia um jardim cinzento, com grama alta e descolorida como cabelos de velhos, e lá estavam quatro crianças, todas de olhos muito abertos e roupas antiquadas, sentadas em círculo ao redor de Sombra. 

...O labrador estava imóvel, os olhos fixos, como se dormisse de olhos abertos. 
...Seu pelo negro não tinha o brilho de sempre; estava opaco e frio como pedra de rio. Corisbelle correu para ele e o tomou nos braços. Sombra não respirava.

— Ele é nosso agora! , dissera uma das crianças, uma menina com tranças loiras e um sorriso que não alcançava os olhos. 
— Nós também fomos dados à Senhora Eulália. Nossos pais nos deram, como o teu padrasto dera o cão!

Corisbelle compreendeu, com um arrepio que lhe subiu pela espinha como uma centopeia de gelo:' aquelas crianças não estavam vivas!'.

...'Eram espectros', memórias de crianças que foram rejeitadas, entregues ou esquecidas, e que agora viviam naquela casa como bonecas de um tempo parado

A Senhora Eulália alimentava-se não de carne, mas de devoção -- o amor que as crianças sentiam por algo ou alguém era transformado em sustento para mantê-las ali, num estado de eterna brincadeira triste. Sombra fora levado porque o amor de Corisbelle por ele era tão puro e intenso ,que brilhava como uma chama no escuro, e a Senhora Eulália precisava dessa chama para aquecer seu reino de penumbra.

Corisbelle sentiu o coração afundar no peito, ...mas não fugiu!

... Em vez disso, sentou-se no chão úmido do jardim e colocou a cabeça de Sombra em seu colo, alisando suas orelhas macias e frias. Das crianças espectrais, a que mais se aproximou foi um menino de suspensórios e olheiras profundas, que se apresentou como Salviano.

—. ..Se quiser que ele volte ,a ser como antes, terá que ceder algo , explicara Salviano, com uma voz que parecia o eco de um sino distante. 
— A Senhora Eulália  gosta de coisas caras!

A memória mais feliz de Corisbelle. Ela revirou o Museu das Coisas Órfãs dentro de si mesma e encontrou-a: a tarde em que Sombra, ainda filhote, uma bolinha de pelo escuro e patas desajeitadas, adormeceu sobre seus pés e ela sentiu, pela primeira vez, que alguém no mundo a amava sem condições!

O calor daquele pequeno corpo negro, o suspiro canino, a confiança absoluta. Aquela memória era uma brasa que a aquecia nas noites em que o padrasto gritava, ou a mãe tossia sangue.

Corisbelle fechou os olhos e pensou. 

...Não havia garantias!

A Senhora Eulália era uma criatura de barganhas, não de justiça!
 ...Mas Corisbelle era, acima de tudo, uma colecionadora de coisas órfãs, 'arqueóloga ' de cousas perdidas pelas pessoas--e Sombra era a mais órfã e substancial de todas, naquele momento!


Eulália marcou de se encontrar com Corisbelle em uma igreja abandonada ali perto de sua casa , para lhe propor uma barganha, ao longe dos atentos ouvidos  de seu marido e das curiosas crianças!


Na noite seguinte....

...Subiu a colina até a Capela dos Sinos Ocos, uma construção de pedra negra cujo campanário não abrigava sinos, mas sim,  buracos vazios por onde o vento assobiava melodias de luto. 


...Lá dentro, a escuridão era espessa como veludo molhado. Os bancos de madeira carcomida alinhavam-se em fileiras tortas, e o altar, que outrora sustentara imagens sagradas, agora exibia apenas uma pedra nua e rachada, de onde brotava uma luz pálida e pulsante, como um coração subterrâneo. 

O vento atravessava os buracos do campanário e produzia um som que não era bem um assobio, mas um lamento prolongado, uma nota contínua que parecia a respiração de algo muito antigo e muito cansado.

A Senhora Eulália Penedo já estava lá, sentada no primeiro banco, as mãos cruzadas sobre o colo como uma santa de cemitério. Seu vestido cor de ameixa arrastava-se pelo chão de pedra, e seu rosto alongado estava iluminado pela luz bruxuleante de sete velas negras dispostas em círculo aos seus pés.

— Fizeste bem em vir, menina! ,dissera Eulália, sem se virar. 
— A maioria chora, esperneia, chama pela mãe. Tu não. Tu vieste. Isso é raro!

Corisbelle avançou pelo corredor central, sentindo o frio das lajes subir pelos seus pés. Parou diante do altar, e disse:
— Quero o meu cão de volta !

 Corisbelle. Sua voz não tremia, embora suas mãos sim.

— E eu quero algo em troca , respondera Eulália, virando-se finalmente. Seus olhos eram de um verde desbotado, como folhas que apodrecem no outono. 
— Não me contento com pouco, menina!O  smor a um animal amado é uma iguaria rara. Não o troco por bagatelas!

— O que quer?

Eulália sorriu. Seus dentes eram pequenos e numerosos, como os de um peixe abissal.

— Há uma casa em Lacrimosel, na Rua dos Chorões, número treze. Lá vive uma mulher chamada Dona Filomena das Dores. Ela possui uma joia que me pertence por direito, embora ela não o saiba. Chama-se Lágrima de Heliotrópio, um broche de prata escura com uma pedra cor de sangue seco. Quero que a tragas para mim.

— Por que não a  pega ....Você mesma?
, perguntara Corisbelle, com a desconfiança de quem já aprendera a não confiar em adultos.

— Porque não posso entrar naquela casa!, admitiu Eulália, e pela primeira vez sua voz perdeu a doçura. 
— Filomena é uma mulher que nunca amou nada, nem ninguém. Não há devoção em seu coração, apenas posse! Minha fome não encontra porta em corações assim. Ela me repele como o alho repele os vampiros das histórias antigas. Mas tu... tu és uma menina viva, com um coração que ainda bate. Tu poderás entrar!

Corisbelle pensou em Sombra, imóvel no jardim cinzento, seu pelo negro sem brilho. Pensou na língua morna que lambia suas mãos, na cauda que batia como um tambor feliz.

— Se eu trouxer o broche, devolve o Sombra?

— Palavra de Eulália Penedo , dissera a sombria  mulher, levando a mão ao peito num gesto teatral. 
—... E a minha palavra é a única moeda que jamais desvaloriza nesta cidade!

Corisbelle não acreditou totalmente, mas não tinha alternativa. Como um farol em busca de algo na escuridão ,deixou a capela, descendo a colina rumo à Rua dos Chorões.

---

A casa número treze era uma construção estreita de três andares, com sacadas de ferro forjado que pareciam gaiolas vazias. As janelas estavam todas fechadas, exceto uma, no último andar, de onde escapava uma luz trêmula de lamparina. Uma trepadeira seca subia pela fachada como veias petrificadas.

Corisbelle bateu à porta!

...O som ecoou por dentro como se a casa estivesse oca. Depois de um longo silêncio, passos arrastados aproximaram-se, e a porta abriu-se numa fresta, revelando metade de um rosto enrugado e um olho cinzento que a examinou de cima a baixo.

— O que quer uma criança, a esta hora da noite? , perguntou a mulher, Dona Filomena, com uma voz áspera como lixa.

— Sou viajante ,mentira Corisbelle.
 — Perdi-me no caminho e vi a luz. Poderia dar-me um copo de água?

Filomena hesitou. Seu olho cinzento vasculhou a rua deserta atrás da menina, como se procurasse cúmplices ou armadilhas. Finalmente, abriu a porta o suficiente para que Corisbelle entrasse.

O interior da casa era um museu de coisas acumuladas. Pelas paredes, pendiam tapeçarias mofadas; sobre mesas e cadeiras, amontoavam-se bibelôs de porcelana rachada, relógios parados, candelabros sem velas, livros com as lombadas desfeitas. 

...Tudo cheirava a naftalina e a tempo estagnado. Mas o que chamou a atenção de Corisbelle foi uma vitrine de vidro, no centro da sala principal, iluminada por uma única lâmpada. Dentro dela, sobre uma almofada de veludo desbotado, repousava o broche: uma lágrima de prata escura, com uma pedra cor de sangue seco incrustada no centro, que absorvia a luz e não a devolvia.

— Bebe , dissera Filomena, estendendo um copo de água turva.

Corisbelle bebeu um gole por educação, sem desviar os olhos da vitrine.

— É bonito, afirmara, apontando para o broche.

— Não é para meninas ,'ensinara' Filomena, fechando a cara. 
— Foi presente do meu falecido marido, Ezequiel das Dores, no dia do nosso casamento. Ele disse que a pedra era uma lágrima de anjo. Tolice!Anjos não choram!

— Choram, sim — afirmara Corisbelle, baixinho.
 — Eu sei que choram!

Filomena olhou-a com um estranhamento súbito, como se visse algo na menina que não estava lá antes.

— Tu não és uma criança comum! , murmurou.

— Sou apenas uma colecionadora! , dissera Corisbelle, e pela primeira vez usou a palavra com orgulho. 
— Guardo coisas que ninguém quer. O seu broche... a senhora ainda o ama?

Filomena piscou, confusa.

— Amar? O que tem o amor a ver com isso? Aquilo é meu. É uma posse. Uma recordação. Um objeto.

— Então não o ama — concluira Corisbelle@ ...Apenas o guarda!

E, num gesto rápido, meteu a mão no bolso do vestido e retirou um dos objetos do seu Museu das Coisas Órfãs: um selo de carta que nunca foi enviada, amarelado pelo tempo, com a imagem de uma garça em relevo.

— Troco este selo pelo broche , ofertara!

Filomena riu, um riso seco e desagradável.

— Um selo velho por uma joia? Estás louca?

— Este selo pertenceu a um homem que escreveu uma carta de amor e nunca a enviou!Ele morreu antes de ter coragem. A carta perdeu-se, mas o selo ficou. Carrega a história de um amor que nunca foi dito. O seu broche carrega a história de um amor que a senhora já esqueceu. Qual vale mais!?

Dona Filomena fitou o selo. Algo no seu rosto enrugado vacilou.

— Como sabes a história deste selo?

— Não sei , admitira Corisbelle. 
— Inventei-a agora. Mas podia ser verdade. E se for, este selo é mais raro do que o seu broche. Porque o broche foi dado. O selo, não. O selo é uma coisa órfã. E coisas órfãs têm mais valor do que coisas possuídas.

A velha ficou em silêncio por um longo momento. Depois, com as mãos trêmulas, abriu a vitrine, retirou o broche e colocou-o na palma da mão de Corisbelle. Em troca, tomou o selo e examinou-o à luz da lamparina.

— Some daqui , dissera, com a voz embargada. 
— Suma, antes que me arrependa!

Corisbelle não esperou que o dissesse...duas vezes!

---

Quando retornou à Capela dos Sinos Ocos, a aurora começava a despontar sobre Lacrimosel, uma aurora cinzenta e pálida como leite aguado. Eulália ainda estava lá, imóvel como uma estátua de cera.

— Conseguiste ,perguntara com uma ansiedade  faminta!
— ...A velha Filomena nunca cedeu nada a ninguém!

Corisbelle estendeu o broche. Eulália tomou-o com avidez e prendeu-o no peito do seu vestido cor de ameixa. A pedra cor de sangue seco brilhou por um instante, como se reconhecesse a sua verdadeira dona.

— O Sombra!,exigira Corisbelle.

Eulália suspirou, contrariada, mas cumpriu a promessa. 

— Leva-o. Mas lembra-te: deste-me algo teu. Não a joia; a astúcia. Aprendeste a barganhar como uma das minhas. Isso também tem preço!

Corisbelle não respondeu. Desceu a colina correndo, com os pés apressados nos paralelepípedos molhados, e irrompeu no jardim cinzento da casa dos Penedo. 

'As crianças espectrais' ainda estavam lá, sentadas em círculo, como se o tempo não passasse. Sombra continuava imóvel, mas quando Corisbelle o beijou... junto ao seu focinho , o labrador estremeceu. Seus olhos recuperaram o brilho castanho, seu peito encheu-se de ar, e ele lançou um latido curto e grave, como um trovão abafado.

— Vá! , disse Salviano, o menino de suspensórios e olheiras profundas, com um sorriso triste. 
— Vá antes que ela mude de ideia. Mas volta um dia. Nós gostamos de ti!

Corisbelle abraçou Sombra com força, sentindo o calor do seu corpo negro, o bater do seu coração fiel. Depois ergueu-se, chamou-o com um assobio baixo, e juntos deixaram Lacrimosel para trás, enquanto a chuva recomeçava a cair, fina e persistente como a memória.

---

Epílogo: O que ficou

Meses depois, quando Dona Isaura finalmente sucumbiu à doença dos pulmões e Cipriano Desalma partiu sem deixar rastro, Corisbelle encontrou, no fundo de uma gaveta da escrivaninha do padrasto, um documento assinado com tinta vermelha. Era um pacto: Cipriano prometera não apenas Sombra, mas a própria Corisbelle à Senhora Eulália Penedo, em troca de uma prosperidade que nunca chegora!

 A menina estava destinada a tornar-se a quinta criança espectral do jardim cinzento.

...Mas escapara! 

Ao barganhar com Eulália de igual para igual, ao oferecer sua astúcia em vez de sua memória mais feliz, Corisbelle quebrara o pacto sem o saber. A Senhora Eulália não podia tomar quem já havia negociado como uma igual.

Corisbelle guardou o documento no Museu das Coisas Órfãs, ao lado do selo que não entregara a Filomena (pois, no último instante, substituíra-o por um  outro ,sem par, e a velha não percebera!). 

....O verdadeiro selo ainda estava consigo!

À noite, deitada na cama onde Sombra dormia a seus pés, um vulto negro e morno, Corisbelle às vezes sonhava com Salviano e as outras crianças espectrais.

 Sonhava que voltava a Lacrimosel com uma mala cheia de coisas órfãs, e que as trocava por fragmentos de histórias, por memórias esquecidas, por sopros de amor que ninguém mais queria. Sonhava que se tornava, ela própria, uma Senhora de um tipo diferente -- não uma colecionadora de devoção alheia, mas uma guardiã de coisas perdidas.

...E numa noite de outono, quando a chuva batia na janela como dedos de espectro, Corisbelle encontrou, costurado no forro do seu vestido de veludo cinzento, um fio de cabelo loiro, que não era seu!


... Pertencia à menina de tranças do jardim, a que sorria sem alcançar os olhos. Corisbelle guardou-o no pote de vidro, ao lado do selo, do botão e da chave que não abria nada.

O Museu das Coisas Órfãs ganhara mais uma peça.

E Sombra, o labrador preto, gania baixinho enquanto dormia. Porque os cães sonham, e no sonho de Sombra havia um jardim cinzento, quatro crianças que o chamavam para brincar, e uma menina de suspensórios e olheiras profundas que lhe coçava atrás da orelha e sussurrava:

— Volta sempre. Nós também somos coisas órfãs. E um dia alguém nos há de nós guardar e amar,!



Fim.




By Santidarko 

...Da Visigótica Necrópole de Sulze(À Carmim dos Telhados )(À caligrafia de vosso andar)



À Carmim dos Telhados (À caligrafia de
 vosso andar)



...Pela vossa centelha de sublime estranheza, onde a elegância e o garbo se casam com o segredo das coisas que respiram nas frestas, eu vos vedere!

...Não como quem clama por um deus de olhos abertos, mas como quem desfolha, uma a uma, as pétalas negras de um crepúsculo íntimo. 

Há, nesse gesto de vos chamar, a liturgia silenciosa dos que aprenderam a amar o que a luz profana não toca -- o avesso do tempo, a beleza que se alimenta da própria sombra e floresce em plena ausência de sol.

...Porque a vossa elegância, ah, essa não é da ordem desta noite!

Não se mede pelo corte de um fraque impecável ,nem pelo lustre de um cetim à meia-noite, embora ambos vos caiam como uma segunda epiderme!
A vossa elegância é a da criatura que atravessou séculos carregando o próprio ocaso nos ombros, sem pressa, como quem ostenta uma capa forrada de silêncios. 

Ela está na vossa maneira de pousar o olhar sobre as coisas, demorando-vos nelas com a sofisticação cruel de quem sabe que tudo é efémero --exceto vós!


... E, contudo, não há arrogância nesse gesto!

 Há apenas a certeza polida de quem já ceou com os séculos e aprendeu que a verdadeira distinção reside numa certa forma de deslizar entre as horas, de as trincar com vagar e gratidão. 

Sois bela assim; de uma beleza que constrange e inebria, como um vitral antigo que verte luar em vez de sol, como um verso maldito que, murmurado à hora incerta, tem o dom de despertar um arrepio e uma melodia esquecida na medula dos ossos.

...E o vosso garbo! 
...Esse não está apenas na linha do porte, na altivez da nuca ou no gesto contido da mão que jamais se apressa. Está na economia dos movimentos, na caligrafia do vosso andar sobre o mármore gasto das velhas escadarias -- onde cada passo é uma sílaba de um poema há muito emudecido!

...Está no modo como franqueais o pescoço, não num desafio, mas numa oferenda recíproca: ofereceis o mesmo mistério que ides colher. O vosso garbo é o da chama que dança no castiçal sem temer o sopro, porque sabe que a sua coreografia hipnotiza até o vento. 

Ele é a medida exata ...entre a ferocidade e a cortesia, a tensão entre o arrebatamento e a contenção, como se cada gesto vosso fosse uma nota musical que jamais se toca -- apenas se sugere!

...AH,APENAS SE SUGERE!

E nesse casamento entre o segredo das frestas e a vossa figura, habita o terceiro vértice da trindade noturna: a sublime estranheza. 

...Porque não sois apenas o que a noite esconde; sois o que a noite revela a quem ousa entreabrir as portas erradas. Trazeis na íris dilatada ,a memória de um mundo que não está nos mapas, mas lateja nos interstícios da realidade -- no vão entre o tique e o taque do relógio, no intervalo entre a respiração e o suspiro, na poeira que dança no raio de lua e que ninguém, senão vós, sabe decifrar. 

Sois feito da matéria das perguntas sem resposta, da sedução pelo enigma, do amor ao detalhe que destoa. E é justamente aí, nesse desconcerto delicioso que causais, que o mundo readquire o seu encanto primitivo. ...Por um instante, sob o vosso fascínio, as coisas banais lembram-se de que já foram mitos!

Aceitai, pois, esta ode como quem aceita um cálice. Bebei-lhe as palavras como se fossem as estações que vistes murchar e renascer. 

...Porque falar de vós é falar do que em nós também anseia por uma noite sem fim, por um amor que não se extinga com o cantar do galo, por uma sede que não se mate com água benta, mas com o negro vinho de um beijo dado nas bordas do abismo. 

...E se, ao terminar esta invocação, a madrugada ousar pintar o céu de um rubor suspeito, saberei que não foi o sol que me tocou a face -- fora o reflexo longínquo da vossa centelha, a mesma que agora me arde na ponta dos dedos enquanto vos escrevo, como um réquiem ao contrário, como uma alcova que se ilumina só para provar que a sombra é a verdadeira forma da ternura.



By Santidarko 




Ps:

 ....tal como uma borboleta noturna, sem ruído, mas com todo o peso da sombra.

...A vós, que dais ao medo, a forma de uma elegância,
e à fome ,a paciência de uma prece!

...A vós, que  alimenta-se do silêncio, e o nutri com garbo- gratidão!


A Menina Umbral e seus amigos imaginários: Verme Licor e Lampíride Fosco( Doce de luar em conserva)(*Personagem by Santidarko)



No sótão mais alto da casa torta, onde o pó dançava como neve ao contrário, morava a Menina Umbral.(*Lucília Sombralina, seu  verdadeiro nome)

Sua pele era aparentava ser  de papel vegetal, e por baixo, pareciam veias de tinta escura...que escreviam palavras tristes sempre que seu coração batia mais forte. 
Todas as tardes, quando o sol se cansava e se deitava atrás das chaminés, ela se sentava no peitoral da janela empoeirada e chamava:

— Verme Licor, já acordou?

E de dentro de um vidro de compota cheio de calda escura e estrelinhas de anis, surgia uma criatura minúscula.

.. Era um verme gordinho, cor de caramelo queimado, com olhinhos miúdos que brilhavam como duas gotas de groselha. Ele cheirava levemente a anis estrelado e dizia sempre a mesma coisa:

— Estava sonhando com açúcar queimado! 
—Você tem um cheiro de saudade hoje, menina!

A Menina Umbral sorria, um sorriso que não iluminava o rosto, mas deixava tudo mais suave. Ela pegava o amigo imaginário na palma da mão (Verme Licor era imaginário, mas seus dentinhos mínimos faziam cócegas de verdade) e o colocava sobre o ombro.

— Vamos visitar o Lampíride Fosco , dissera ela. 
— Ele está muito quieto ultimamente!

O Lampíride Fosco vivia numa gaiola sem portas, pendurada no canto mais escuro do sótão. Era um vagalume idoso, cujo abdômen luminoso há muito deixara de acender. 

...Sua luz se apagara de tanta tristeza por ter visto coisas demais --amores que não se realizaram, promessas sussurradas em noites de verão que nunca foram cumpridas. Agora ele só conseguia emitir um pálido brilho fosco, como o de uma brasa quase morta, que mal iluminava seus próprios olhinhos cansados.

A menina se aproximou e sussurrou, pois sabia que sons altos doíam nos élitros dele:

— Lampíride, trouxe um pedacinho de luar em conserva!

Ela abriu um potinho que continha um líquido prateado -- luar colhido em noites de lua minguante, que Madame Pluviosa uma vez lhe dera em troca de um segredo sazonal. 

O velho vagalume aproximou as antenas trêmulas e bebeu um gole minúsculo. Por um instante, seu abdômen piscou, não com luz, mas com a memória da luz, e projetou nas paredes sombras em forma de estrelas.

Verme Licor bateu palminhas (que eram apenas dobrinhas de sua pele gorducha) e exclamou:

— Olha! Ele fez estrelas!

Mas o brilho durou pouco. O Lampíride Fosco suspirou, um suspiro que cheirava a poeira de asas, e disse com voz de papel amassado:

— Obrigado, menina. Mas não é mais a luz que me falta. É a escuridão que a luz iluminava!

A Menina Umbral entendeu.!
...Ela também sentia falta de sua sombra -- não da sombra em si, mas do contraste que ela fazia com sua pele clara, da dança que as duas faziam juntas quando a vela balançava.

— Eu sei , respondera ela, os olhos de papel vegetal ficando levemente úmidos, fazendo a tinta de suas veias borrar um pouco. 
— Às vezes, o que nos faz falta não é a coisa perdida, mas a sensação de sermos dois!

Verme Licor, que era pequeno, mas nunca tolo, enroscou-se no dedo mindinho dela e perguntou:

— E se vocês três fossem uma coisa nova? Uma sombra que já foi luz, uma luz que já foi sombra, e um verme que nunca foi nada além de um verme... mas que lambe lágrimas com gosto de anis!

...A Menina Umbral riu baixinho, e sua risada fez desenharem-se no chão do sótão os mapas de um lugar que não existia: uma ilha onde as sombras brilhavam e os vagalumes faziam cócegas nos pés das crianças perdidas.

O Lampíride Fosco, pela primeira vez em muitos outonos, bateu as asinhas empoeiradas. Não para voar -- ele já não conseguia -- mas para sentir o ar se mexer, como um carinho!

— Menina Umbral , ele disse, com sua voz de estrela apagada , 'se um dia sua sombra voltar', não se esqueça de nós!

Ela abaixou a cabeça, e uma lágrima escorreu de seus olhos de tinta, uma gota preta que caiu no chão e virou a letra 'S' de saudade.

— Nunca! , sussurrou. 
— Vocês são a sombra que eu escolhi ter!

...E assim, no sótão da casa torta, os três permaneceram em silêncio, enquanto a noite lá fora acendia suas próprias luzes.
 Verme Licor adormeceu no ombro da menina, roncando bolhinhas de calda. 

O Lampíride Fosco apagou-se por completo, mas pela primeira vez não se sentiu vazio!
... E a Menina Umbral desenhou no ar, com o dedo, uma porta invisível.


---------


À Estrela que não se Nomeia

Há solidão nas coisas que persistem:
No musgo que abraça a pedra sem ser visto,
Na última folha que o outono insiste
Em não deixar cair sobre o asfalto frio.
...Há solidão no som que a chuva faz
Quando ninguém a escuta do outro lado --
E, mais profunda, a solidão que jaz
No peito de quem ama sem ser amado.

Contudo, a Esperança -- pálida e esquiva --
Não cessa de bater na porta em ruínas;
Não canta, não promete a curva ativa,
Mas sopra em nossas mãos cinzas divinas.
Ela mora no instante suspenso e breve
Entre o adeus e o primeiro movimento:
Chama que não aquece, mas se atreve
A transformar silêncio em pensamento.

Ó, minha alma, que a noite te desnude
Como o vento desnuda o arbusto triste --
Pois cada perda é uma nova atitude
De ver o céu que em ti mesmo existe.
Se o sol fugiu além da serra escura
E a lua esfriou teu leito transitório,
Lembra que o mar, na sua imensa lonjura,
Guarda também o azul como oratório.

A solidão é a casa onde a Esperança
Entra descalça para não fazer ruído,
E, como um gato que na sombra avança,
Faz do vazio um súbito sentido.
Não brilha, não -- a Esperança verdadeira
É a que tremula quase apagada,
Como a estrela mais tímida e rasteira
Que alguém nomeou sem querer nada.

E, quem sabe, ao fim da madrugada,
Quando a tristeza já não dói mais tanto,
Descobriremos que não falta nada:
Que a Esperança era apenas nosso pranto
A secar devagar na face erguida,
Aceitando que a noite é necessária —
Pois só na escuridão é concebida
A aurora que dispensa qualquer lâmpada.

Assim, sozinho, em comunhão profunda
Com o silêncio e a perda que nomeio,
Sinto que a vida, em sua dança muda,
Não me enche o peito -- mas também não me apeio.
E, se a tristeza me tombar ao chão,
Que eu tombe como a sombra de uma flor:
Leve, sem ruído, como a solidão
Que se fez Esperança por amor!




----------------------


Ah, o 'luar em conserva' que a Menina Umbral ofereceu ao velho Lampíride Fosco. 
...Vamos desdobrar essa iguaria fantasmagórica com a delicadeza que ela merece --- pois nada nesse mundo sombrio é cozinhado sem ritual!

---

Doce de Luar em Conserva

(ou Doce de Lua, como o chama Verme Licor)


Aparência

Dentro de um pequeno frasco de vidro grosso, daqueles de rolha de cortiça e lacre de cera pálida, repousa um líquido que não se decide entre o prateado e o transparente.

... À luz do dia, parece água dormida; mas na penumbra, emite uma luminescência tímida, como a de um olho de gato refletindo uma vela distante.

Quando agitado de leve, o líquido se encrespa em espirais lentas, e pequeninos pontos brilhantes -- minúsculas esferas de luz solidificada -- rodopiam antes de voltar ao repouso. São as 'pérolas de lua', que se formam apenas quando o luar é colhido em noites de quarto minguante.



Aroma

Ao abrir o frasco, o primeiro cheiro é de ausência: um vazio frio e metálico, como o ar depois que o trovão já passou mas a chuva ainda não chegou. Em seguida, revela-se um perfume doce e distante, que lembra gardênias noturnas, leite morno com uma gota de anis, e o cheiro da pele de quem acabou de sonhar.



Sabor

Na boca, o gosto é o de uma tristeza que aquece -- ou de uma esperança que esfria, conforme a temperatura de quem o bebe. O primeiro toque na língua é de um doce quase gasoso, evanescente, como morder uma nuvem de açúcar que se desfaz antes de existir. 

...Depois, vem um fundo levemente salgado: é a lágrima que a lua derramou ao ver-se refletida no mar pela primeira vez.

As pérolas de lua estalam entre os dentes com um som mínimo, como o de um grão de areia caindo sobre veludo, e liberam um breve lampejo de luz na boca -- quem as morde sente os lábios brilharem por um instante, como se tivessem beijado um vaga-lume.



Textura

Não é exatamente líquido, nem gel. 
...Tem a consistência de um suspiro frio -- escorre na colher como mel muito ralo, mas ao tocar a língua parece evaporar e condensar-se ao mesmo tempo, deixando uma película aveludada, como a de um creme que não é deste mundo.


Como se faz (segundo Madame Pluviosa)

Colhe-se o luar apenas em noites de lua minguante, quando a luz está 'madura, mas prestes a partir'.

Estende-se um lençol de seda negra sobre um campo silencioso, de preferência onde cresçam flores noturnas (dama-da-noite, trombeta-de-anjo). 

O luar deposita-se sobre o tecido como um orvalho invisível.

Antes do amanhecer, torce-se o lençol sobre uma tigela de estanho, e o que escorre é uma água pálida que ainda não é doce -- é apenas 'lágrima de lua crua'.

 Essa água é misturada com:

● Uma pitada de pólen de estrelas (colhido por mariposas treinadas),

●Três gotas de leite de amendoeira fantasma (árvore que só dá frutos em sonhos),

●E um fio de mel de abelhas que polinizaram flores de túmulo.

A mistura é selada no frasco e deixada para decantar durante um ciclo lunar completo. Ao final, as pérolas de lua terão se formado no fundo, e o líquido estará pronto: é o Luar em Conserva.



Efeitos em quem consome

1. Uma colher pequena: faz sonhar com lugares que nunca visitou, mas que doem de saudade.
2. Duas colheres: os olhos brilham fracamente no escuro por uma noite inteira.
3. Três colheres: a pessoa esquece o próprio nome por algumas horas e passa a atender por qualquer palavra gentil.
4. O frasco inteiro: nunca se soube -- quem o fez nunca mais foi encontrado, embora às vezes se veja, em noites muito escuras, uma figura dançando no reflexo da lua sobre um lago, como se já não pertencesse a este mundo.



Uma variação: Doce de Lua Sólido

Há quem reduza o luar em conserva em fogo de vela preta até formar uma pasta espessa, que depois é cortada em cubinhos e enrolada em açúcar de ossos (açúcar refinado com um toque de cinza de carta queimada). São os Torrões de Luar, que estalam na boca e libertam memórias emprestadas -- lampejos de noites que pertenceram a outras pessoas.

---

Quem sabe, outra hora...
...uma receita de outro doce desse mundo -- como as Balas de Naftalina do Menino  Traça(*amigo real e verdadeiro da Menina Umbral)






Personagens  by Santidarko 

domingo, 21 de junho de 2026

Paradoxo de Eskridge ou o Paradoxo do Futuro Órfão, por Santidarko


Imagine que você está diante de uma fogueira, olhando as chamas. 
...O fogo começa numa pilha de gravetos secos e, a partir dali, se espalha. 

Agora, tente conceber que uma das labaredas, em vez de subir, resolva queimar para trás no tempo e acender um galho que ainda nem caiu da árvore.
 Essa imagem simples contém a essência da questão que a Dra. Amy Eskridge levanta: se os alienígenas são viajantes do futuro, então a linha temporal deles brotou de um ponto de ignição, que é nosso próprio presente ou passado!

...Mas, se a humanidade veio depois dos dinossauros -- ou seja, se nossa linha do tempo é uma sequência causal que vai do Mesozoico até aqui --, como poderia uma segunda linha, a 'do futuro' ,ter se formado antes de nós? 

Não seria necessário que a centelha inicial fosse a mesma? Duas linhas temporais distintas, com esse grau de parentesco, soam como dois rios que nascem de uma única fonte, mas um deles corre montanha acima.

O paradoxo, no fundo, está na suposição de que o 'futuro'é um lugar que já existe!

 ...Se os tais alienígenas são do futuro, então o futuro deles depende do nosso presente. 

...Mas eles aparecem aqui, interferem, nos observam. Se eles vêm de um futuro que decorre da nossa linha evolutiva pós-dinossauros, então não são exatamente 'outra linha': são um galho da mesma árvore!

A pergunta incômoda é: como esse galho se destaca a ponto de se tornar uma civilização viajante antes de nós mesmos atingirmos esse estágio? 

A Dra. Eskridge parece sugerir que o contato alienígena não é com outro planeta, mas com outra temporalidade.

 Só que temporalidades não brotam do nada --precisam de um ponto de ignição comum. 

Se nós surgimos depois da extinção dos dinossauros, qualquer futuro que nos contenha como ancestrais deveria ser posterior a esse evento. A menos que o tal ponto de ignição não seja linear, mas uma espécie de chama que acende múltiplas mechas em direções cronológicas opostas.

---

Tópico contra: por que duas linhas temporais não fariam sentido a partir de um mesmo ponto de ignição

Vamos endurecer o argumento. Uma linha temporal é, por definição, um encadeamento de causas e efeitos. 

Se você tem um único ponto de ignição -- digamos, o surgimento do Homo sapiens --, então toda a história que decorre dali é uma só. Mesmo que você imagine desvios, realidades alternativas, cada desvio é um galho da mesma árvore. E uma árvore não gera um galho que já nasce com frutos maduros enquanto o tronco ainda é broto.

Se os alienígenas do futuro dependem da humanidade para existir, então a linha temporal deles está subordinada à nossa!

 Eles não podem surgir como uma linha independente antes que a nossa atinja o ponto tecnológico que os possibilita. Seria como uma pessoa do ano 3000 bater à sua porta: essa pessoa existe porque houve um ano 2500, que por sua vez veio do ano 2000. 

...Se você está no ano 2000 e recebe essa visita, a linha do futuro não é uma linha paralela; é uma extensão da sua. Logo, não há duas linhas; há uma só, com um loop. 

O problema é que loops temporais têm uma fragilidade filosófica imensa: se o futuro volta e altera o passado, ele pode apagar a si mesmo. Se ele não altera, então por que chamar de 'futuro distinto'? 

A hipótese de duas linhas autônomas nascendo do mesmo ponto de ignição sofre de um defeito de origem: ignição é singularidade, e singularidades, por natureza, não se bifurcam sem perder a coerência causal.

---

Tópico a favor: como seria possível conceber duas linhas temporais a partir da mesma centelha

Agora, vamos dar à hipótese o benefício da imaginação. O que chamamos de 'ponto de ignição' pode não ser um evento único no tempo, mas uma condição que dispara múltiplas flechas temporais. 

...Pense num prisma: um raio de luz branca entra e se desdobra em várias cores. O raio é um só, mas as cores já estavam ali como potencial. 

Da mesma forma, a emergência da humanidade após os dinossauros poderia ser esse prisma -- e uma das 'cores' seria uma linha temporal acelerada, onde a evolução tecnológica e biológica ocorre numa velocidade tão vertiginosa que, do nosso ponto de vista, parece pertencer ao futuro.

 Esses 'alienígenas' não seriam viajantes no sentido clássico; eles seriam habitantes de uma dobra temporal adjacente, que compartilha o mesmo Big Bang evolutivo, mas queimou etapas de forma diferente.

Outra possibilidade é que o tal ponto de ignição não seja o surgimento da humanidade, mas o fim dos dinossauros!

A grande extinção foi uma porta que se abriu para os mamíferos, mas poderia ter sido uma porta giratória: ao mesmo tempo em que nossa linhagem começou a engatinhar, uma fresta dimensional pode ter permitido que uma versão futura dessa mesma linhagem vasse para trás, criando um circuito. 

...Nesse modelo, a linha deles e a nossa formam uma fita de Möbius temporal. 

...Não são duas linhas separadas, mas uma superfície única que parece ter dois lados quando, na verdade, tem um só. 

A Dra. Eskridge talvez estivesse tocando nisso: os alienígenas não vêm do futuro linear, mas de um futuro que é a continuação torcida do nosso próprio passado profundo.



By Santidarko 

Estilo : Gótico-alquímico :'O Doutor das coisas'(*Personagem e desenvolvimento do Gótico-alquímico por Santidarko)



O Doutor das coisas(*Personagem by Santidarko)

---------------------
'O que é um homem, senão um conjunto de coisas que o tempo insiste em desarrumar!'.

-O Doutor das coisas(* Benjamin  Falkengrimm)

---------------------------

O que é o gótico-alquímico 

Gótico-Alquímico é uma corrente estética, filosófica e espiritual que funde dois universos aparentemente distantes: o Gótico (a celebração da sombra, da ruína, do macabro e do sublime noturno) e a Alquimia (a ciência hermética da transmutação da matéria e da alma). 

...Não se trata de uma simples justaposição, mas de uma fusão química...onde um elemento transforma o outro!

Enquanto o Gótico tradicional se contenta em contemplar a morte, a decadência e o mistério, o Gótico-Alquímico busca operar sobre eles. 

Ele não apenas habita a ruína --- ele a destila.

 Não apenas teme o cadáver ---ele o lê como um texto sagrado.

 Não apenas admira a escuridão --ele a trata como matéria-prima para a Grande Obra.

Frase-síntese: 'É necessário transmutar a morte em outra coisa.'


O Gótico-Alquímico sustenta-se  sobre três conceitos interligados, que chamarei de Tríade Nigredo:


Pilar I: A Putrefação como Método (Nigredo)

Na Alquimia clássica, a Nigredo é a primeira etapa da Grande Obra: a decomposição, a morte iniciática da matéria, o apodrecimento necessário. O Gótico-Alquímico abraça a Nigredo não como fim, mas como disciplina. O criador gótico-alquímico não evita a decomposição -- ele a provoca, a observa, a cataloga. Ele entende que toda criação verdadeira exige primeiro a morte de algo.


Pilar II: A Costura como Linguagem (Coniunctio)

A Alquimia busca a união dos opostos (Sol/Lua, Enxofre/Mercúrio, Rei/Rainha). 
O Gótico-Alquímico traduz essa união como costura literal e simbólica. Toda obra gótico-alquímica é uma costura de elementos díspares: o vivo e o morto, o sagrado e o profano, o humano e o animal, o mecânico e o orgânico. A agulha e a linha são os instrumentos sagrados dessa estética.

·

Pilar III: A Luz Negra como Iluminação (Rubedo com Sombra)

Na Alquimia, o Rubedo é o rubor, a iluminação final, a Pedra Filosofal vermelha. O Gótico-Alquímico, porém, atinge uma iluminação escura -- uma sabedoria que não é dourada, mas âmbar-escura, como mel queimado ou sangue coagulado.

... É a compreensão de que a luz plena cega, e que a verdade só é visível na penumbra.

● Máxima: 'A luz total é o vazio. A sombra profunda é que revela as formas.'


-----------

A paleta do Gótico-Alquímico 

Toda estética tem suas cores. As do Gótico-Alquímico são extraídas de laboratório e cemitério:


Cor, Nome ,Conceitual, Significado :

Âmbar Negro, Luz Petrificada:
Sabedoria  antiga, tempo congelado, seiva de alma.


Púrpura, Férrea ,Sangue Oxidado :
Vida que passou e deixou marca no metal
Verde-Cripta ,Clorofila-Morta,O musgo sobre lápides, o crescimento sobre a ruína


Cinza Viva ,Fênix Incompleta :
Potência de renascimento que ainda não ocorreu.


Dourado ,Pútrido Ouro do Ocaso :
A última luz antes da noite eterna.


Azul Hematoma, Céu Ferido:
 O divino que sofreu uma pancada;
Branco-Osso ,Pureza Mineral ,O branco que não é de anjo, mas de cálcio.


---------------

O Gótico-Alquímico elege materiais específicos como portadores de significado. Não são meros objetos -- são ingredientes de uma receita cósmica:

1. Linha de Seda Podre: A seda que já foi luxo e agora é fragilidade. Usada para costurar peles que não se tocam.

2. Vidro Fumê: Nem transparente, nem opaco. Permite ver sem revelar totalmente. O material das almas.

3. Cobre Oxidado: O metal que muda de cor com o tempo, como a memória. Verde-azulado, como veias sob pele pálida.

4. Cera de Vela Negra: Cera que ardeu sobre segredos. Guarda a memória da chama que a consumiu.

5. Osso de Ave Canora: Leveza e canto petrificados. O que foi música e agora é estrutura.

6. Dente de Leite Humano: O que caiu para dar lugar ao permanente. Símbolo da infância perdida e do potencial não vivido.

7. Água de Chuva de Cemitério: Água que beijou lápides. Carrega o luto diluído.

---------------

Alguns possíveis arquétipos do Gótico-Alquímico 

Personagens que encarnam esta estética seguem padrões recorrentes, mas sempre únicos:

1. O Relojoeiro de Almas: Aquele que entende o tique-taque do espírito e sabe onde colocar a chave de corda. (Ex.: Doutor das Coisas)(*Personagem criado por Santidarko).


2. A Costureira de Mortalhas: A que veste os mortos e, com cada ponto, prende ou liberta memórias.

3. O Colecionador de Horas: O que captura instantes em frascos e os usa como combustível para o impossível.

4. O Destilador de Lágrimas: O que recolhe o choro alheio e o transforma em elixir de visão -- beber uma lágrima é ver o que o dono dela viu.

5. O Enxertador de Sombras: O que corta a sombra de alguém e a costura em outro corpo, criando criaturas duplas.


--------------

Característica Gótico Clássico e  Steampunk Gótico-Alquímico

Relação com a morte.
Contemplação e terror; Evitada ou mecânica.

 Transmutação e leitura.

Tecnologia Velas e espelhos .
Engrenagens e vapor Agulhas, linha, vidro soprado, fogo brando.

Objetivo Estremecimento estético .
Aventura e crítica social .
A Grande Obra em sombra.

Corpo humano Vítima ou assombração. Aumentado por próteses .
Lido como texto e costurado como tecido.

Tempo Passado que assombra Futuro alternativo.

Presente suspenso, tempo destilado.

Sagrado Deus ausente ou punitivo.
 Substituído pela ciência ,Presente na matéria;nos ossos, nas cicatrizes

-----------


O Gótico-Alquímico no Brasil

O Gótico-Alquímico brasileiro -- que poderíamos chamar de Gótico-Alquímico Tropical -- possui características próprias, pois opera sobre uma geografia e uma História específicas:

●A matéria-prima é colonial: 
Os ossos são de senzalas, de quilombos, de igrejas barrocas. A costura é feita com linha de ouro de paramentos roubados.

● O clima é de mofo e umidade: 
Não há o seco das criptas europeias. Aqui, a Nigredo é acelerada pelo calor. A decomposição é exuberante, vegetal.

●A espiritualidade é sincrética: 
Não se trata apenas da alquimia europeia, mas da fusão com os terreiros, as benzedeiras, as rezas de parteira. O sagrado é mestiço.

●A estética é barroca:
 O excesso, o dourado sobre o podre, o anjo com asa de cupim.

Exemplo: O Doutor das Coisas, com seu fraque de velório, sua oficina em Curitiba ,sua linha de ouro de igreja, seu coração de violeiro -- ele é a encarnação perfeita do Gótico-Alquímico Tropical.

--------

(Aforismos por Santidarko)

'Cada corpo é um laboratório. Cada cicatriz, uma fórmula ensaiada ou revelada.'

'A escuridão não é ausência de luz. É uma luz de outra cor'.


'A agulha não fere. Ela une o que o tempo separou'.

'A ruína é a matéria-prima. A memória, o catalisador. A saudade, o solvente universal.'

'Não há ouro sem chumbo. Não há vida sem o que já morreu.'.


'O maior segredo da alquimia? 
A Pedra Filosofal não é uma pedra. É um ponto de costura e de transformação ".

----------

Síntese:

Se a Alquimia clássica buscava transformar chumbo em ouro, o Gótico-Alquímico busca transformar a morte em memória habitável. ...Não quer vencer a morte -- quer torná-la um lugar onde se possa morar, caminhar, conversar.

Sua Grande Obra não é a imortalidade. 
É a cicatriz luminosa -- a ferida que fechou, mas ainda brilha!




By Santidarko 
Desenvolvimento e criação estética proposta: by Santidarko 

sábado, 20 de junho de 2026

Brumarismo (*Distopia Vitoriana Brasileira (1840–1900)


Principaia acontecimentos:

A Sinhá-Máquina,A Epidemia da Melancolia (1888),O Carnaval Estatal



Premissa histórica divergente: 

O Brasil Império, após um golpe tecnocrático silencioso, abandona a monarquia rural e abraça um projeto de industrialização forçada e distorcida. A Corte, aliada aos barões do café e a inventores renegados, transforma o país num vasto laboratório de progresso brutal.

 O vapor, o aço e o chicote fundem-se numa única engrenagem de opressão elegantemente perversa. 
...O Rio de Janeiro torna-se uma cidade-Estado murada, e o resto do país, um território de extração de corpos e recursos.



Introdução: 


Em 1840, o Brasil Império ainda era uma monarquia rural. As fazendas de café escravistas dominavam a economia. O Rio de Janeiro era uma capital de sobrados coloniais e ruas de terra. 
A Corte portuguesa, instalada desde 1808, mantinha a pompa europeia, mas o país era uma colônia disfarçada de reino.

...Foi quando surgiram eles!

Não foram muitos!

Talvez uma dúzia. Eram inventores renegados, expulsos das academias europeias por heresias científicas ou simplesmente ignorados por um mundo que não estava pronto para suas máquinas. Chegaram ao Brasil com plantas de engenhocas impossíveis e a certeza de que, num país atrasado, encontrariam a liberdade que a Europa lhes negara.

Enganaram-se, ou foram eles que enganaram!

O primeiro foi um químico prussiano, expulso de Berlim por propor que a energia vital humana podia ser medida, extraída e convertida em força motriz. Chamava-se Alarico von Trake -- nome que a Corte abrasileirou para Alarico Caldeira. 

Ele apresentou ao Imperador uma invenção que chamou de Caldeira Anímica: um tonel de cobre e ferro que, segundo ele, fervia água não com carvão, mas com o calor do Sol.

O Imperador riu!

...Mas os barões do café, não!

O segundo foi uma engenheira francesa que se fazia passar por viúva de um conde inexistente. Chamava-se a si mesma de Condessa de Bruma, e sua invenção era um sistema de tubos acústicos que capturava os passos dos cidadãos nas praças,  e convertia em energia para alimentar teares. 

A Corte, que sempre precisou de mão de obra para as fábricas ,que começavam a surgir, viu na ideia uma solução elegante.

O terceiro foi um médico português que estudara na Índia e voltara com teorias sobre a substância física -- algo que podia ser coletado, armazenado, destilado e até mesmo vendido. Ele propôs :'Proponho, portanto, a criação de Casas de Transfusão. Estabelecimentos onde escravos selecionados -- de preferência mães  que produzem o fluido em maior pureza --sejam conectados aos pacientes por meio de cânulas de prata. O processo é lento, indolor para o receptor, e o resultado é a transferência completa de energia vital!



Um por um, os inventores foram chegando. 
...E um por um, foram apoiados!

A Corte percebeu o que aquelas mentes ofereciam: não apenas máquinas, mas um novo sistema de poder. 
As invenções permitiam extrair riquezas, não mais apenas da terra ou do trabalho escravo tradicional, mas da própria vida humana -- suas emoções, seus fluidos, seus suspiros. 
A escravidão, que já era brutal, tornou-se científica!

Em 1850, o golpe tecnocrático estava completo. O Imperador não foi deposto; fora redesenhado. Tornou-se o primeiro monarca-calibrador, símbolo da fusão entre a Coroa e a nova ordem industrial.

 Os inventores ganharam títulos de nobreza, laboratórios, recursos ilimitados. O país foi dividido: o Rio de Janeiro tornou-se uma cidade murada, vitrine do progresso, onde a aristocracia mecânica desfilava suas próteses de bronze e consumia elixires de outros humanos poucos representados por leis de proteção ao indivíduo,  ou à vida por direito. 

...O resto do território virou zona de extração --de café, de borracha, de corpos!

O vapor move as máquinas. 
...Mas o que move o vapor?

O desespero de um país inteiro.

-------


O relógio do Largo do Paço marcava trezentos e doze anos para a Abolição. 
Fora projetado pelo inventor-mor Alarico Caldeira e presenteado ao Imperador como símbolo do progresso. Seus ponteiros eram de bronze; seu mostrador, de osso humano moído e prensado -- ossos de escravos, como tudo no Império.
 
A contagem regressiva era uma piada cruel: a cada ano que passava, um decreto imperial resetava o mecanismo, adiando a libertação para um futuro que jamais chegaria.

...Dorian Fadário odiava aquele relógio!

Sua oficina ficava na Rua do Cano, a poucos quarteirões do Largo. Ele era relojoeiro -- o último relojoeiro  do Rio de Janeiro murado. Os outros tinham sido arruinados pelas invenções de Caldeira.

...Mas Dorian não consertava relógios comuns. 'Consertava destinos'. 
...Ou assim dizia a placa sobre sua porta, gravada em madeira queimada: Consertam-se sinas.

Poucos entendiam. 
...Menos ainda acreditavam!

Naquela tarde de fevereiro de 1888, alguém entrou e não perguntou o preço!

Ela veio com o ruído de saltos de ferro sobre o assoalho de tábuas. A Sinhá-Máquina -- nome que a Corte lhe dera ,e que ela própria adotara com orgulho. 

Não era um autômato; era uma mulher de carne e osso ,que voluntariamente se cobrira de próteses mecânicas. 
...Começara com uma mão, após um acidente na caldeira de seu engenho. Depois um braço inteiro, articulado com pistões e engrenagens. Depois as pernas, trocadas por estruturas de bronze que a faziam mais alta e mais lenta, como uma garça metálica. Seu rosto ainda era humano, mas coberto por uma máscara de porcelana pintada -- lábios rubros, olhos azuis, expressão doce e fixa.

...Por trás da máscara, ninguém sabia o que restava!

— Senhor Fadário ,dissera ela, e a voz ainda era de mulher, mas saía por uma pequena grade de cobre instalada na garganta, obra do médico-inventor português que estudara as glândulas lacrimais na Índia. 
— Preciso de um relógio!

— Todos precisam, Excelência!

—' Um relógio que me mostre quando serei feliz de novo'!

Dorian apoiou as mãos enrugadas sobre o balcão. Tinha cinquenta anos, mas parecia oitenta. O ar da cidade envelhecia os homens mais rápido que o tempo.

— A felicidade não se mede em horas!

— Mas a tristeza, sim., ela abriu a mão de bronze. Na palma, um frasco com um líquido escuro. 
 — Leite materno. Fermentado com a tristeza de uma escrava que perdeu o filho!Foi o que me venderam como elixir rejuvenescedor. Agora estou envenenada. Todas as damas da Corte estão!

-(*A Epidemia de Melancolia.)

...Dorian ouvira falar!
 Nas últimas semanas, senhoras da aristocracia vinham caindo em depressões profundas e súbitas. 
Algumas se matavam. Outras simplesmente paravam de falar, de comer, de existir. 
A origem era um segredo mal guardado: os cosméticos e elixires que o médico-inventor produzira estavam contaminados com o desespero das escravas das quais extraía as matérias-primas. A tristeza, ao contrário do que ele pregava, não era uma substância inerte que se podia refinar. 

Era viva!
...E agora devorava quem a consumia!

— Quero um relógio que me diga quando essa melancolia vai passar ,continuara ela.
 — Se é que vai!

— Vai custar caro!

—... O que o senhor quiser!

— Não quero dinheiro. Quero que a senhora me leve ao Carnaval Estatal.

A máscara de porcelana não podia mudar de expressão, mas a cabeça dela moveu-se bruscamente.

— O senhor? Um relojoeiro da Rua do Cano? No baile da Corte?

— Quero ver como os inventores comemoram suas vitórias.

-----


Antes de construir o relógio, Dorian precisava de matéria-prima. E para isso, foi ao cais.

A Baía de Guanabara era uma chaga escura sob a lua. As águas, que nos tempos do Brasil colônia eram azuis e cheias de peixes, agora tinham a cor de chumbo derretido. O cheiro era uma mistura de salmoura, óleo queimado e algo doce -- flores apodrecendo.

Caspian Turvo estava em seu barco. 
'Era pescador'!
Com um arpão de prata, recolhia na superfície oleosa da baía ,as  inúmeros restos de metal ou engrenagens.

O céu do Rio de Janeiro estava coberto por uma névoa perpétua desde que os inventores instalaram suas caldeiras anímicas --uma fumaça espessa que os óculos solares de magnésio, distribuídos pelo governo, tentavam em vão compensar.

— Caspian!

O pescador levantou-se. Era um homem magro, de pele escura como a noite sem estrelas. Fora escravo até os trinta anos, depois alforriado, depois preso por dívidas e forçado a trabalhar nos engenhos de alma de Alarico Caldeira. Fugira e agora vivia à margem, recolhendo restos de 'coisas desperdiçadas' para vender... a quisesse!

— Relojoeiro ,dissera ele. 
— O que quer?

— Uma metal bonito. Preciso de uma peça bonita  ou estranha!

— O que tenho são sobras de máquina ou de experimentos!

— Serve!

Caspian remexeu um cesto e tirou um frasco de vidro grosso. Dentro, uma minúscula luz azul pulsava como um coração agonizante.

—' É o reflexo da estrela-d'alva!'

— Quanto?

— Nada!
—...Mas me diga: para que serve?

— Para iluminar o destino de uma mulher que não sabe quem é!

Caspian cuspiu na água. O cuspe flutuou um segundo e depois foi engolido por algo que se moveu sob a superfície -- os peixes mutantes que o médico-inventor criara para se alimentarem dos corpos que a maré trazia.

— A Sinhá-Máquina. Ouvi falar. Ela veio até você?

— Veio!

— Então está mais doente do que pensam! Procurar um relojoeiro de sinas é o último ato antes do fim,, ele fez uma pausa!
— Sabe o que dizem dela? Que trocou as pernas para não sentir mais o chão onde pisava. Os braços para não precisar tocar em mais ninguém. A garganta de cobre para não ter que engolir as próprias palavras. E a máscara... a máscara para não ver o próprio rosto no espelho.

—... Talvez!

— Não talvez.!É o que acontece quando se bebe o leite da própria mãe morta e não se sabe.

Dorian guardou o frasco.

— Adeus, Caspian!

— 'Até o próximo funeral'!



------

A Biblioteca dos Nomes Perdidos ficava no subsolo do Largo do Pelourinho.
 Fora construída por ordem do Imperador em 1860, como parte do projeto de modernização do país. Não era uma biblioteca de livros, mas de identidades confiscadas.

Quando os navios negreiros chegavam -- pois o tráfico continuava, apesar das leis inglesas, apesar dos tratados, apesar de tudo --os nomes africanos dos cativos eram registrados em fichas e depois queimados em fornos simbólicos. 
As cinzas eram guardadas em frascos etiquetados. O que não queimava -- os sons, as memórias, as maldições -- ficava impregnado na poeira que cobria as estantes.

Valentim Vulto era o guardião dessa poeira.

Fora um dos inventores originais.
... Chegara ao Brasil em 1845, com uma teoria sobre a leitura tátil da matéria: a poeira, dizia, retinha as emoções de quem a produzira. Passando os dedos sobre uma superfície empoeirada, um homem treinado poderia sentir o que as pessoas que ali passaram sentiram. A Corte rira dele, mas o Imperador, curioso, dera-lhe um cargo: curador da Biblioteca dos Nomes Perdidos. 
Um cargo que era também uma prisão!

Valentim passara vinte anos respirando aquela poeira. Ficara cego, mas suas mãos liam o passado como ninguém.

— Relojoeiro , disse ele, sem se virar, quando Dorian desceu as escadas.
 — Você cheira a óleo de baleia, cinzas de estrelas e remorso. 
—O que quer?

— Um nome. E um diagnóstico!

— ...Para a Sinhá-Máquina!

— Como sabe?

— A poeira me conta tudo. Ela esteve aqui ontem, embora não tenha descido. Ficou parada na porta do Largo, olhando para o chão como se pudesse ver através da terra. Não teve coragem de entrar. Mandou você no lugar dela,Valentim passou os dedos sobre uma prateleira, tocando as camadas de pó. 
— ...O nome dela é Oyá Tundê!

— O nome da mãe?

— Não! 
—O nome dela. A mãe era Oyá Tundê também. Era assim que funcionava: o nome passava de mãe para filha. A mãe morreu num engenho de alma, ordenhada até a última gota de leite--e a última lágrima. 

A filha foi levada para a Casa Grande, batizada como Isadora, criada como dama. Casou-se com o filho do senhor. Virou sinhazinha. Depois, quando o marido morreu num acidente de caldeira, ela herdou tudo. 
...E para lidar com a culpa, começou a trocar as partes do corpo. Como se o bronze pudesse apagar o sangue.

— E o diagnóstico?

— Ela está bebendo a própria história. O leite materno que os cosméticos usam veio de uma escrava que era irmã de leite dela. Filha da mesma mãe, criada na senzala enquanto ela era criada na Casa Grande. A tristeza que a está matando não é uma doença. É uma herança. Um acerto de contas!

— Tem cura?

— Só se ela descer aqui e tocar a poeira com as próprias mãos. Mas ela não vai. É mais fácil usar máscara.

---


O Carnaval foi idealizado pelo inventor Alarico Caldeira em 1870. Sua teoria era simples: um povo completamente oprimido acumula uma pressão que, mais cedo ou mais tarde, explode!
... A solução era uma válvula de escape controlada. Uma vez por ano, o Império permitia três dias de festa. 

...Mas não uma festa qualquer!

As fantasias eram distribuídas gratuitamente pelo governo. Vinham embebidas numa solução química desenvolvida pela Condessa de Bruma, a engenheira francesa. Quando o calor do corpo ativava a substância, ela liberava um vapor que induzia euforia artificial. 

As pessoas dançavam sem saber por quê. Riam sem motivo. Gritavam palavras de ordem a favor do Imperador sem nunca as terem pensado.

O baile principal acontecia no Teatro Lírico dos Suplícios, um edifício de ferro e vidro construído sobre o antigo Pelourinho. 
A orquestra era composta por músicos escravos, treinados para tocar uma sinfonia de sons industriais: o ranger de engrenagens, o apito das caldeiras, o estalar de chicotes -- tudo coreografado como música.

Na noite de 12 de fevereiro de 1888, o teatro estava lotado!

Dorian Fadário entrou escoltado pela Sinhá-Máquina. Ela usava seu vestido mais luxuoso -- seda púrpura com fios de cobre bordados. Sua máscara de porcelana brilhava. Seus braços e pernas de bronze tilintavam a cada passo.

— Ainda não me entregou o relógio , questionara ela!

— Entregarei à meia-noite. Antes,... quero que a senhora veja uma coisa!

Ele apontou para o centro do salão.

Ali, numa jaula de vidro, estava Ondina Lacustre.

Ela não era uma invenção. Não era um autômato. Era uma mulher de verdade, mas de um tipo que o Império considerava mais valioso que qualquer máquina. 
'Tinha a pele translúcida', os cabelos como algas negras, os olhos como poços de água escura. 

...Diziam que viera dos lagos do Pantanal, onde seu povo vivia isolado havia séculos.
 A Condessa de Bruma a capturara e descobrira seu dom: 'Ondina podia sentir as lágrimas de qualquer pessoa num raio de quilômetros. Podia localizá-las, recolhê-las e, se quisesse, devolvê-las em forma de canto'.

Agora ela estava ali, engaiolada, servindo de atração para o Carnaval. 
Os convidados riam dela. Jogavam moedas. Alguns pediam que ela cantasse.

— Ela chora ,dissera Dorian.

— O quê?

— Chora lágrimas que não são dela. São de todos os que choraram nesta cidade e não foram ouvidos!

Os sinos começaram a badalar. 
...Onze horas!
Uma hora para a meia-noite.

— O relógio , insistira Sinhá-Máquina.

Dorian tirou-o do casaco. Era pequeno, de bronze escuro, com o mostrador de osso. Dentro, a estrela de Caspian pulsava.

— Antes de abri-lo, Excelência, quero que leia o que está neste frasco.

Ele entregou-lhe o frasco que Valentim lhe dera. O rótulo dizia: Oyá Tundê -- Confiscado em 1847.

...Ela leu!

Suas mãos de bronze tremeram. O frasco caiu no chão e se partiu. As cinzas do nome voaram como uma pequena nuvem escura.

— Este é o meu nome , sussurrara ela!

—... É!

— ...Mas...eu não sou escrava!

— Sua mãe era! 
—...E sua irmã de leite ainda é!
—O leite que a senhora bebeu, o elixir que a senhora passou no rosto, tudo veio dela. A tristeza que está matando a senhora é a tristeza da sua própria irmã, chorando a morte da mãe que a senhora nunca soube que tinha.

Os sinos bateram meia-noite!

Lá fora, uma explosão. 
...Depois outra. 
Gritos.!

Vidros quebrados!

O gás eufórico começou a se dissipar. As pessoas no salão pararam de dançar. Olharam umas para as outras, desorientadas, como sonâmbulos que acordam.

..E Ondina Lacustre levantou-se.

Seus olhos, antes apagados, agora ardiam com uma luz verde. Ela abriu a boca e canto!.

Era um lamento. Mas não um lamento triste. Era um lamento de fúria. Um som que vinha de antes do Brasil, de antes de Portugal, de antes da escravidão. Um som que carregava a dor de todos os nomes perdidos, de todas as lágrimas recolhidas, de todos os filhos arrancados.

...A Sinhá-Máquina caiu de joelhos!

Sua máscara de porcelana rachou. Primeiro uma linha fina, depois uma teia de fissuras. Pedaços começaram a cair, revelando a pele por baixo -- uma pele marcada por cicatrizes, queimaduras, anos de vergonha.

— Abra o relógio , dissera Dorian.

...Ela obedecera  com dedos trêmulos!

Dentro, os ponteiros não marcavam horas. Marcavam palavras, gravadas no osso:

A maior alegria: lembrar.
A maior tristeza: ter esquecido.

— A senhora perguntou quando seria feliz de novo. A resposta é: quando lembrar quem é. E acabar com isto!

— Com o quê?

— Com o Carnaval. Com os inventores. Com as caldeiras.
 —Com tudo!

...Lá fora, o povo invadia as ruas. Não era mais a euforia química do Carnaval Estatal. Era outra coisa. Algo que o gás não podia fabricar: raiva verdadeira.

Caspian Turvo liderava um grupo de pescadores e ex-escravos. Valentim Vulto, pela primeira vez em vinte anos, saíra da biblioteca subterrânea e caminhava pelas ruas, guiado pela poeira da revolta. Ondina Lacustre cantava, e seu canto derrubava as muralhas de vidro do Teatro.

A Sinhá-Máquina levantou-se!

Seu rosto estava nu agora. 
...Não era bonito!

...Mas era humano!

— O que eu faço? , perguntara  ela.

— A senhora sabe onde ficam os laboratórios dos inventores. Sabe onde Caldeira guarda suas caldeiras anímicas. Sabe onde a Condessa de Bruma mantém os tubos acústicos que capturam o choro das crianças.

—... Sei!

— Então escolha. Pode continuar sendo a Sinhá-Máquina, dançar até cair e morrer de melancolia como as outras damas. Ou pode ser Oyá Tundê e incendiar tudo!

Ela olhou para suas mãos de bronze. Para as próteses que escolhera usar. Para a máscara quebrada no chão.

— Preciso de fogo , dissera ela.

Dorian entregou-lhe uma caixa de fósforos.

— Eu sou apenas um relojoeiro. O fogo é com a senhora.

Oyá Tundê caminhou para fora do teatro. Seus passos de bronze ecoavam nas pedras. A multidão abriu caminho. Alguém gritou seu nome verdadeiro, e ela se virou. Caspian ergueu seu arpão de prata em saudação.

Ela foi ao laboratório de Alarico Caldeira.
... À torre de coleta de lágrimas da Condessa de Bruma. Aos engenhos de alma onde sua mãe morrera. E em cada um, riscou um fósforo.

...O Rio de Janeiro ardeu naquela noite!

Não a cidade inteira. Apenas as máquinas. As caldeiras. Os tubos. Os frascos de lágrimas engarrafadas. Os elixires envenenados. A Biblioteca dos Nomes Perdidos --o próprio Valentim ateou fogo às prateleiras, e as cinzas dos nomes voaram livres pela primeira vez.

Quando o sol nasceu, o céu ainda estava cinza. Mas era cinza de fumaça, não de fuligem perpétua.

... E a fumaça se dissiparia!

Dorian Fadário fechou sua oficina. Sobre a porta, pregou uma nova placa:

Não se consertam mais sinas.

...Fazem-se novas!



...Mas o poder, nunca deixará uma pequena comemoração estender por muito tempo!



FIM.




By Santidarko 


Conceito Brumarismo: desenvolvido por Santidarko. 
Bruma ou névoa: vinda da queima excessiva dos produtos químicos ou do' desenvolvimento ' imposto pelos' cientistas '.