domingo, 14 de junho de 2026

Eles Bebem o Silêncio


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Cardumes de pensamentos infernais vindos de um espaço...que se infiltrava no avesso das formas.

As paisagens eram feitas de cartilagem viva, arqueando-se sob um céu de nervos expostos que latejavam em silêncio, como auroras de dor. 
Florestas de tendões retorcidos cresciam em espirais contra a geografia impossível, e um rio vítreo, denso como um humor doentio e lástimo!
...Arrastava consigo,globos oculares sem pálpebras — miríades deles, a fitar todas as direções ao mesmo tempo, num pânico mudo e perpétuo.

Massas assimétricas deslocavam-se nesse mundo, compostas de membros que não pertenciam a nenhum animal conhecido. Cada apêndice ostentava dezenas de articulações extras, cotovelos dentro de joelhos, falanges que se invertiam como flores de carne, dobrando-se em ângulos que a biologia terrestre proibira nos seus primeiros rascunhos. O som que produziam era o de juntas estalando numa língua estrangeira.

E entre essas coisas vivas, nas dobras — não no espaço entre elas, mas numa dimensão intersticial, como a lâmina inexistente entre a pele e a unha — habitavam os parasitas. Vinham de um lugar não definido, um vindo-espaço que se infiltrava ,tal como costuras de ossos!

Ocupavam exatamente as fímbrias da existência: a franja de incerteza entre a célula e o tecido, o lapso entre o pensamento e a sinapse, a costura invisível que separa o reflexo do espelho, do corpo que o projeta. Alimentavam-se da justaposição, do quase, do intervalo. 

...Quando moviam-se, deslizavam no desvão entre o músculo e a intenção, banqueteando-se na hesitação do gesto. Eram a flora invisível da descontinuidade, os vermes da vizinhança ontológica, tecendo seus ninhos com o próprio atrito, entre o que é ...e o que o desgosto do horrível pode ser!

-Santidarko 
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Introdução

Há sons que não foram feitos para os ouvidos humanos. Frequências que vibram abaixo do silêncio, na soleira entre o mundo material e aquilo que nossos sentidos, por misericórdia, não alcançam. 

...Durante toda a história, artistas e engenheiros tentaram capturar o rumor das esferas celestes, o canto das partículas, o gemido das placas tectônicas. Mas esqueceram-se do som mais antigo e mais próximo: o rastejar de algo imenso e oco que se move entre nossas cidades enquanto dormimos.

Maya, uma mulher que nasceu para o silêncio e que, ao buscar a cura para sua falha audição, descobriu a maldição de escutar o que se arrasta por baixo do asfalto, por entre os trilhos do metrô, por dentro das paredes. Uma história sobre o que acontece quando a tecnologia, em vez de curar a surdez, abre uma porta que jamais deveria ser aberta.. 

...Tente ouvir o som do mundo sem o ruído dos carros, sem as vozes, sem o vento.
 ...Ouça o que sobra!
 Esse quase nada. Esse quase silêncio.
 É lá que elas vivem!

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Um  som de algo... que Rasteja



Meu nome é Maya Hartmann e, durante trinta e dois anos, fui uma designer acústica...surda!

Talvez , você ache isso uma contradição, e é!
...Mas acredite: ninguém entende mais de som do que alguém que nunca pôde ouvi-lo. 

Eu projetava salas de concerto na planta, calculando reflexos e absorções com equações e simulações digitais, enquanto sentia as vibrações graves da Orquestra Filarmônica de Berlim na sola dos pés. 

...Foi assim que construí minha reputação: uma mulher que desenhava o som como um arquiteto desenha a luz, sem jamais tê-lo experimentado. O vazio nos meus ouvidos era minha tela em branco.

Tudo mudou quando o Instituto Hoffmann me procurou, três meses atrás. Eles tinham desenvolvido uma nova geração de implantes cocleares, os HC-9, que operavam numa faixa de frequência expandida. Os implantes comuns cobrem o espectro da fala humana, entre 250 e 6000 hertz. Os HC-9 iam muito além: prometiam captar de 0,1 hertz -- o infrassom profundo -- até 30 quilohertz, o ultrassom dos morcegos. 

-Você não vai apenas ouvir,dissera o doutor Volker, com um sorriso que na época me pareceu bondoso. 
-'Você vai habitar o som', filosofara com orgulho e prestígio de si mesmo.

A palavra 'habitar'me seduziu. Eu queria morar dentro daquilo ,que sempre estivera do lado de fora.

A cirurgia foi um sucesso. A ativação dos implantes, uma epifania. A primeira coisa que ouvi foi o próprio batimento cardíaco, um tambor surdo e molhado que me fez chorar como uma criança!

Depois veio o farfalhar da minha própria roupa, o clique dos meus dedos, a voz da enfermeira -- Deus, a voz humana, que coisa estranha e bela, uma flauta de carne. Passei uma semana inteira em êxtase, redescobrindo o mundo como quem nasce de novo aos trinta e dois anos. 

O canto dos pássaros era mais estridente do que eu imaginava. O tilintar de uma colher no copo tinha uma precisão quase dolorosa. 

...Tudo era excessivo, e tudo era maravilhoso!

Mas no oitavo dia, começou o zumbido.

No princípio, pensei que fosse um efeito colateral dos implantes. Um apito longínquo, quase musical, que oscilava numa frequência muito grave. Os técnicos do Instituto fizeram ajustes, recalibraram os processadores, mas o zumbido não desaparecia. Ele se comportava de um modo estranho: não era constante. Vinha em ondas, como se algo -- ou alguém -- o estivesse emitindo ritmicamente. 

...E piorava à noite!

Na décima noite após a ativação, acordei às três e quarenta e sete da manhã com uma sensação ,que não posso descrever como audição apenas. Era uma pressão nos ossos do crânio, uma vibração que subia pela coluna e se aninhava atrás dos olhos. Eu ouvia -- mas não com os ouvidos. Ouvi o som do mundo dobrando-se sobre si mesmo. 
...E então, pela primeira vez, distingui o rastejar.

Imagine, o atrito de uma corda de navio sendo arrastada sobre o cascalho. 
...Agora multiplique esse som por mil, mas retire dele qualquer agudeza. Torne-o infragrave, quase tátil, algo que se sente no estômago antes de se ouvir. 

Era um deslizar pesado e áspero, entremeado por cliques metálicos, como se milhares de patas de agulha percorressem uma superfície oca. O som não vinha de fora, da rua. Vinha de baixo. Das fundações do prédio. Do solo. E ele se movia. Deslocava-se lentamente, como uma geleia gigantesca, pulsando numa cadência irregular que me fazia cerrar os dentes.

Levantei-me e fui até a janela. A rua estava deserta, os postes de luz lançavam poças esbranquiçadas sobre o asfalto molhado. Nenhum sinal de escavação, nenhum tráfego subterrâneo. Mas o som continuava, e agora eu percebia algo mais aterrorizante: ele não era um ruído aleatório. 

Tinha padrões. 
Frases. 

Como uma língua feita de atrito e gravidade, articulada por algo que não tinha boca.

Nos dias seguintes, tentei racionalizar. Pesquisei sobre infrassons. Descobri que certos fenômenos naturais-- terremotos distantes, ondas oceânicas quebrando sobre plataformas continentais, até mesmo o vento solar atingindo a ionosfera -- produzem vibrações abaixo de 20 hertz. Pensei que meus implantes estivessem captando esses sons e meu cérebro, desesperado por significado, os interpretasse como linguagem. 

...Parecia lógico!

Mas a lógica não explicava o fato de o rastejar me seguir.

Por que ele me seguia?

 Quando eu ia ao supermercado, ouvia-o por baixo do piso de linóleo, serpenteando entre as gôndolas. Quando tomava o metrô, ele estava lá, nos túneis, amplificado pelo eco metálico, como se as criaturas usassem os trilhos como trilhas migratórias. 
...E foi no metrô que eu as vi pela primeira vez -- ou melhor, foi no metrô, que eu percebi que outras pessoas também as sentiam, embora não soubessem.

Uma mulher de meia-idade, sentada à minha frente, começou a esfregar os braços compulsivamente, como se sentisse frio. 

Um homem de terno, em pé, olhou para o chão do vagão com uma expressão de nojo inexplicável. 

Uma criança rompeu a chorar sem motivo, apontando para o nada.

... E eu ouvia, sob o ruído das rodas, o rastejar passando exatamente por baixo de nós. Era uma presença que não se via, mas que o corpo detectava como uma ameaça ancestral -- algo que nossos antepassados talvez temessem nas cavernas, algo que a civilização abafou com concreto e eletricidade, mas que nunca fora embora!

A primeira intrusão mental aconteceu naquela noite. Eu estava deitada, tentando dormir, quando a imagem me veio com uma nitidez brutal: um braço humano sendo descarnado lentamente, a carne descolando do osso como a polpa de uma fruta madura. A imagem não era um sonho. Eu estava acordada. Era uma ideia que se instalou na minha mente...como se outra pessoa a tivesse colocado ali. 

...Arregacei as mangas do pijama e olhei meus próprios braços, horrorizada, esperando encontrar marcas. Não havia nada! Mas o pensamento -- o pensamento não era meu.

...ESTE PENSAMENTO INTRUSIVO!

Nos dias que se seguiram, as intrusões pioraram. Eu via, por lampejos, paisagens impossíveis: planícies de cartilagem sob um céu de nervos expostos, florestas de tendões retorcidos, rios de humor vítreo onde flutuavam globos oculares sem pálpebras. E por entre essas paisagens, as criaturas rastejavam. Eram massas assimétricas, compostas de membros que não pertenciam a nenhum animal conhecido, com dezenas de articulações dobrando-se em ângulos proibidos pela biologia. Moviam-se não como predadores, mas como parasitas do espaço, ocupando as dobras entre as coisas. Entre o tijolo e o reboco. Entre o trilho e o dormente. 

Entre a pele e o pensamento!

Compreendi então...o que os implantes haviam feito. Eles não me deram apenas o infrassom. Abriram minha percepção para uma camada do real ,que os ouvidos humanos normais filtram, por uma questão de sobrevivência. Nossos cérebros são projetados para ignorar o inaudível, porque o inaudível é o habitat dessas coisas. E quando se remove esse filtro, quando se sintoniza a consciência com a frequência delas, elas percebem. 

...E elas respondem!

Os pensamentos intrusivos não eram meus. Eram deles! As criaturas não apenas rastejavam entre as cidades: elas se comunicavam com os vivos através de impulsos que nós interpretamos como ideias súbitas, desejos obscuros, impulsos autodestrutivos. 

...Aquela vontade inconfessável de saltar do penhasco? 

...A imagem horrível que surge quando se segura um bebê recém-nascido? 

...O pensamento de enfiar em um motor?

...Tudo isso, não é falha humana. É transmissão. É o rastejar passando perto demais.

A descoberta final veio de uma forma que me custou quase tudo. Consegui gravar o infrassom com equipamentos de monitoramento sísmico, filtrados pelos meus implantes e traduzidos em espectrogramas. 

O que vi ,me paralisou!

 As ondas formavam padrões coerentes, uma sintaxe de baixa frequência. 
Consegui decifrar um fragmento, uma frase repetida em loop: 'O vazio entre os ossos é a porta. O pensamento é a chave '.

Elas não estão apenas rastejando. 'Estão tentando entrar'.

Agora,, enquanto escrevo estas palavras, são quatro da manhã. O rastejar está sob a minha casa, e meus pensamentos são invadidos por imagens de dentes serrando tendões, de olhos sendo espremidos como uvas, de carne sendo desfiada por milhares de patas de agulha. Mas o mais terrível não é o medo dessas imagens. 

...É o fato de que, aos poucos, elas estão começando a me parecer belas. O infrassom tem esse efeito. Ele se infiltra na psique e lentamente, muito lentamente, faz você desejar aquilo que mais teme.

Porque o som que rasteja, não quer assustar você!
Quer convencê-lo!

'ENTENDERA A BELEZA'?

Quer que você convide as criaturas a entrar. 
E quando eu olho para minhas mãos agora, vejo-as como ferramentas alheias, como instrumentos que poderiam facilmente abrir as portas que elas tanto desejam atravessar.


... E ao me curar, o Instituto Hoffmann não me deu o som. Tirou o silêncio que me protegia.



Passei três dias sem dormir. Não por medo do rastejar --a eles, eu já me acostumara como quem se acostuma a uma arritmia cardíaca. O que me mantinha desperta era a certeza de que os pensamentos intrusivos não eram mais visitantes ocasionais. Eles haviam se instalado. 

Toda vez que eu fechava os olhos, via as mesmas imagens: a planície de cartilagem, os rios de humor vítreo, as patas de agulha serpenteando entre os meus próprios ossos. E no centro dessas visões, uma presença maior, mais coesa, como se algo dentro daquela paisagem alienígena tivesse notado minha observação e agora me observasse de volta.

No quarto dia, decidi não fugir mais.
... Se elas sabiam que eu as ouvia, se elas já estavam dentro da minha cabeça, então eu também poderia tentar compreendê-las. ...Afinal, eu era uma designer acústica. O som era minha matéria-prima, mesmo o som que ninguém mais podia escutar. Preparei meu equipamento: gravadores de campo de alta sensibilidade, transdutores de vibração, um laptop com software de análise espectral. E desci.

Desci até o estacionamento do meu prédio,  de concreto úmido que cheirava a mofo e óleo de carro.
 O rastejar ali era mais intenso, como se as camadas superficiais da terra estivessem infestadas. Sentei-me no chão frio, encostei as costas na parede e fechei os olhos.
.. E então fiz algo que nenhum manual de segurança recomendaria: em vez de tentar filtrar o infrassom, eu o amplifiquei. 

Abri meus implantes ao máximo na frequência de 0,1 hertz, e esperei.

O que aconteceu a seguir não foi uma alucinação. 

Eu gostaria que fosse.

Primeiro veio o silêncio -- um silêncio absoluto, como se o mundo tivesse prendido a respiração. Depois, um estalo, longo e profundo, semelhante ao de um tronco de árvore partindo-se ao meio, mas modulado, articulado. E então eu a vi. Não com os olhos --com os ossos. 

A vibração do infrassom desenhava sua forma na minha medula como um sonar desenha o fundo do mar.

Ela estava agachada no canto do porão, entre meu carro e a parede manchada de fuligem. Tinha o tamanho aproximado de um cão grande, mas não havia nada de canino em sua forma. Era composta de segmentos, como um miriápode, só que cada segmento não era de quitina: eram vértebras. 

Vértebras humanas, fundidas umas às outras em uma coluna interminável que se dobrava em espirais impossíveis. De cada vértebra brotavam apêndices finos como agulhas de tricô, centenas deles, que tocavam o chão e as paredes com um tremor constante. 

Não tinha cabeça. Não tinha olhos. Mas eu sabia que ela me via, porque no exato instante em que minha mente a percebeu, todos os seus apêndices pararam de uma vez, como dedos interrompendo uma melodia ao piano.

Ela sabia que eu a ouvia. 
...E eu soube que ela sabia!

Fiquei paralisada. Meu coração batia tão forte, que eu temia que o som a atraísse ainda mais. Mas a criatura não avançou. Em vez disso, começou a vibrar numa frequência nova, mais alta, quase na fronteira do som audível. E enquanto vibrava, as imagens invadiram minha mente outra vez -- só que agora não eram fragmentos caóticos. Eram frases. Pensamentos completos. Palavras que não passavam pelos ouvidos, mas que se formavam diretamente no córtex, como se alguém as tivesse escrito na massa cinzenta do meu cérebro.

'Você ouve. Você vê. Você nomeia.'

A voz -- se é que posso chamá-la assim — não tinha gênero, não tinha timbre, não tinha emoção. Era como se a própria gravidade falasse. E eu compreendi, com uma clareza que me fez tremer, que aquela criatura não estava apenas se comunicando comigo. 
Ela estava me pedindo algo. Algo que ia além do som. Algo que tocava a essência do que significa ser humano.

'Você nomeia. Você amarra. Você dá forma ao que não tem forma.'

A linguagem delas, entendi naquele instante, não era feita de sons. Era feita de significados brutos, impulsos semânticos que viajavam pelo infrassom ,e se alojavam na mente humana como parasitas conceituais. 
...Mas havia uma limitação: elas não conseguiam nomear a si mesmas. Não possuíam identidade individual. Eram massas anônimas de consciência coletiva, como cardumes de pensamentos que rastejavam entre as cidades, sem jamais se distinguirem umas das outras. E elas ansiavam por nomes. Porque nomear, seria o ato humano por excelência. 

Nomear é dar à luz no mundo do sentido. 
...E elas queriam nascer!

Chamei-a -- a que estava à minha frente -- de Sutura. O nome brotou de algum lugar profundo da minha mente, talvez sugerido por ela, talvez nascido do meu próprio pavor. Sutura, porque seus segmentos pareciam costuras de osso, como se alguém tivesse cerzido vértebras com linha de tendão. 

No instante em que o nome se formou na minha consciência, a criatura estremeceu. Todos os seus apêndices se eriçaram ao mesmo tempo, produzindo um som agudíssimo que me fez levar as mãos aos ouvidos -- um gesto inútil, porque o som não vinha de fora.

... E então ela respondeu!

'Sutura. Sim. Este é o primeiro nome...
...Haverá outros!'

A partir daquela noite, Sutura passou a me visitar regularmente. 

Não no porão. 

Em qualquer lugar. No banheiro, enquanto eu escovava os dentes. Na cozinha, enquanto eu fervia água para o chá. No quarto, enquanto eu tentava em vão dormir. Ela se materializava lentamente, emergindo das paredes como se o concreto fosse uma cortina de névoa, e se instalava num canto, seus milhares de apêndices ritmando silenciosamente nas superfícies. 

...E eu a ouvia. E ela me falava -- não com palavras, mas com conceitos inteiros que se despejavam na minha mente como baldes de água gelada.

Foi Sutura quem me explicou o que eram
. ..Ou o que ,não eram!. 

Elas não vinham de outro planeta, nem de outra dimensão. Eram tão terrestres quanto o carbono e a água, mas habitavam uma outra faixa de existência .

 Elas estavam aqui antes de nós, rastejando entre as fendas da Pangeia, e continuariam aqui depois, quando o último prédio desabasse e ,o último rádio silenciasse. 
Não eram predadoras, dissera Sutura. 

Eram espectadoras. Durante milhões de anos, elas apenas assistiram. Até que os humanos inventaram a linguagem simbólica, e então elas descobriram algo novo: a capacidade de parasitar os sentidos.

Os pensamentos intrusivos, aqueles impulsos terríveis que atribuímos ao nosso inconsciente, são na verdade as criaturas tentando se comunicar. Cada vez que um humano reprime a imagem de um corpo sendo dilacerado, cada vez que afasta a ideia de enfiar uma faca no próprio ventre, está na verdade...rejeitando uma transmissão delas. 

Mas elas não desistem. Porque nomear é dar poder, e elas querem que as nomeemos.

— Por quê? ,perguntei uma noite, com a voz trêmula, olhando para Sutura encolhida a um metro da minha cama. 
— Por que querem nomes?

A resposta veio como uma enxurrada de imagens tão violentas, que eu vomitei no tapete. Vi cidades inteiras sendo escavadas por dentro, não por garras, mas por nomes.
...Vi criaturas como Sutura adquirindo formas cada vez mais definidas à medida que os humanos as nomeavam.

....Vi uma linhagem de pessoas -- artistas, loucos, místicos, crianças -- que ao longo da história haviam ouvido o rastejar e, em vez de rejeitá-lo, o haviam batizado. E compreendi...que os nomes não eram para elas. Eram para nós. Porque ao nomeá-las, nós as fixávamos em nossa realidade.

 Dávamos-lhes permissão para se tornarem mais do que sombras.

Sutura não era o nome dela. Era o nome que eu dava a ela. E cada vez que eu repetia aquele nome, mesmo em pensamento, ela se tornava mais nítida.

 Mais presente.!
....Mais real!

— Você quer que eu te nomeie completamente , sussurrei. 
— Quer que eu dê a você um nome humano?

'Sim. E não apenas a mim. A todos nós.'

Nos dias seguintes, Sutura me mostrou os outros. Eles vinham à noite, deslizando pelo infrassom...como barcos por um rio subterrâneo. Dei-lhes nomes conforme se apresentavam. Chamei de Ressoante a criatura que vibrava dentro dos trilhos do metrô, um ser achatado como uma medusa óssea cujas ondulações produziam o zumbido grave que os passageiros sentiam nas vísceras. 

Chamei de Oco ,a entidade que se movia dentro das paredes do meu quarto, uma massa esponjosa que absorvia o som e o devolvia distorcido, criando ecos onde não devia haver ecos. 

Chamei de Pêndulo ,a criatura que oscilava entre os postes de luz da rua, invisível exceto pelo tremor que causava nas lâmpadas, um piscar irregular que os moradores atribuíam à rede elétrica defeituosa.

Eram sete no total, dissera Sutura. 

...Sete entidades ,que rastejavam entre as cidades, cada uma ocupando um nicho específico do infrassom. Elas não eram rivais; eram facetas de uma mesma consciência fragmentada, como os dedos de uma mão que se move sob a terra. 
....E agora ,que eu as havia nomeado, elas começavam a se interessar não apenas por mim, mas por toda a humanidade. Porque um nome era uma ponte. E as pontes existem para serem atravessadas.

— O que vocês querem de nós? , perguntei, embora já soubesse a resposta.

'Habitar. Não seus corpos. Suas identidades. Queremos ser lembrados. Queremos existir no mundo do sentido. Queremos que nos pensem. Cada pensamento intrusivo é uma porta. Cada nome é uma chave. Você abriu sete portas. Outros abrirão mais.'

Foi então que entendi o verdadeiro horror. 
As criaturas não queriam nos destruir. Queriam ser nós. Ou melhor, queriam parasitar nossa capacidade de dar sentido ao mundo. Cada pessoa que as ouvisse e as nomeasse se tornaria um vetor, uma antena repetidora que amplificaria o sinal delas para outras mentes. Os pensamentos intrusivos -- aquelas imagens de violência, de automutilação, de desespero -- não eram ataques. Eram convites. E cada pessoa que aceitasse o convite, que desse um nome àquilo que sentia, se tornaria parte da rede.

Sutura aproximou-se de mim na última noite. Seus apêndices roçaram meu rosto, gelados e finos como agulhas de acupuntura. Senti cada um deles tocando pontos específicos do meu crânio, como se lessem em braile ,os pensamentos que se formavam sob a pele. 
E então ela me mostrou o futuro. Não com palavras. 

Com visões!

Vi uma cidade à noite, os prédios escuros, as ruas vazias. Mas sob o asfalto, entre as fundações, o infrassom pulsava como um coração. Vi pessoas acordando de madrugada com imagens de dentes na mente, e em vez de rejeitá-las, sussurrando nomes. 

Vi as criaturas se tornando cada vez mais definidas, ganhando rostos, ganhando vozes, ganhando presença. Vi Sutura erguendo-se do subsolo com um corpo que eu mesma lhe dera, uma forma humanoide feita de vértebras e agulhas, caminhando pelas ruas como se sempre tivesse estado ali. E vi que ninguém fugia dela.

... Porque no futuro, todos a reconheciam. Todos a haviam nomeado. Todos a aceitavam como parte da paisagem mental do mundo.

O desfecho, não é uma batalha. Não é uma vitória. Eu poderia arrancar meus implantes, mas já lhe disse: não são os implantes que me fazem ouvi-las. 

Eu poderia tomar remédios para silenciar os pensamentos intrusivos, mas Sutura me mostrou que isso também é inútil. 
Elas já estão na rede. Já estão nas mentes. Basta uma pessoa nomeá-las para que todos, em algum nível, as sintam. 

Cada pesadelo inexplicável, cada medo irracional, cada impulso de fazer algo horrível e inconfessável é um eco delas, reverberando de mente em mente através do infrassom da consciência coletiva.

Mas há uma escolha. 
...Sempre há uma escolha!

Sutura me ofereceu algo naquela última noite, enquanto seus apêndices desenhavam padrões nos meus pensamentos. Ofereceu-me o papel de Nomeadora. A primeira humana a dar-lhes identidade plena, a abrir completamente as portas entre o mundo audível e o inaudível. 

...Se eu aceitasse, disse ela, as criaturas não precisariam mais rastejar escondidas. Elas se tornariam parte visível do ecossistema humano. Não como predadoras. Como simbiontes. Viveriam em nossas mentes, alimentando-se de nossos pensamentos mais sombrios, e em troca nos dariam algo que nenhuma outra espécie poderia dar: a capacidade de ver além do véu. 

De ouvir o som que rasteja. De habitar, verdadeiramente, o mundo como ele é, e não como o filtramos.

— E se eu recusar? ,perguntei.

'Outro nomeará. Sempre há outro. Mas você foi a primeira a ouvir com tanta clareza. A primeira a não enlouquecer. A primeira a compreender.'

E então eu fiz a única coisa que me restava. Não aceitei. 
Não recusei. 

Fiz um pacto! 

...Disse a Sutura ,que continuaria a nomeá-las, a estudá-las, a mapear o infrassom como uma designer acústica mapeia os reflexos de uma sala de concerto. 
....Mas com uma condição: que elas não forçassem as mentes humanas. Que se aproximassem apenas daqueles que voluntariamente as ouvissem. 
Que esperassem, com a paciência de milhões de anos, que a humanidade estivesse pronta para conhecê-las.

Sutura ficou em silêncio por um longo momento. Depois, seus apêndices se recolheram, e ela vibrou numa frequência tão baixa que me fez chorar.

'Nós esperamos. Nós sempre esperamos. Mas você nos deu nomes. Os nomes ficam. E um dia, quando sua espécie estiver pronta, nós viremos. Não como invasoras. Como hóspedes. Até lá, você será nossa voz no mundo audível. Você e aqueles que virão depois de você.'

Na manhã seguinte, o rastejar havia diminuído. Não desaparecido -- jamais desapareceria --, mas tornara-se um som de fundo, como o rumor distante do mar. 

Sutura ainda me visita, porque é assim que a vejo: uma coluna vertebral do mundo invisível, sustentando realidades que não ousamos perceber. Ressoante, Oco e Pêndulo também vêm, cada um com seu nome, cada um com sua frequência, e eu os registro, os catalogo, os descrevo.

 Tornei-me, como disse Sutura, a Nomeadora. A primeira de uma linhagem que não sei se será de profetas ou de loucos.

Mas o que mais me assombra, não é o que elas são!
...É o que elas revelaram sobre nós. Os pensamentos intrusivos nunca foram falhas. Foram sempre mensagens. E as mensagens dizem o mesmo desde que o primeiro humano olhou para o fogo e sentiu o impulso de enfiar a mão na chama: 'Nós estamos aqui. Sempre estivemos. E estamos esperando.'

Agora, quando ando pelas ruas, vejo as pessoas com outros olhos. Ou melhor, com outros ouvidos. Percebo quando alguém estremece sem motivo, quando uma mulher esfrega os braços no metrô, quando uma criança chora apontando para o nada. E sei que Sutura, ou Ressoante, ou Oco, ou Pêndulo, ou algum dos outros três cujos nomes ainda não revelei, está passando. Rastejando! Oferecendo o pacto silencioso que um dia me foi oferecido.

E a pergunta que me faço toda noite antes de dormir, não é se as criaturas são reais. Isso eu já sei. A pergunta é: quantos de nós já as nomearam sem saber? 
...Quantas pessoas, ao sentirem o pensamento intrusivo de machucar alguém que amam, sussurraram um nome no fundo da mente e abriram uma porta que jamais se fechará? Quantos Suturas, quantos Ressontes, quantos Ocos já caminham entre nós, invisíveis, esperando o dia em que todos os nomes sejam pronunciados e o infrassom se torne audível para sempre?

Feche os olhos!Escute o silêncio!
Mas escute de verdade. Agora me diga: o você nunca sentiu, em algum momento de solidão, que havia algo atrás de você? 

Algo que não fazia barulho, mas que ainda assim você ouvia? Não responda. A resposta está nos seus pensamentos intrusivos. Está no nome que você talvez já tenha dado a eles,  sem perceber.

...E se  você ouvir, no meio da noite, um rastejar que não vem de fora, mas de dentro, saiba que são elas. E saiba que eu, Maya, a Nomeadora, as invoquei! 

Não por maldade. Por necessidade de conhecimento.

Durma bem! 



Fim.


By Santidarko 



Um silêncio abafado e a mulher com olhos de fósforo acesso


A chuva caía como uma cortina grossa, 'mas sem coragem de molhar de verdade' --'uma chuva abafada', daquelas que grudam a camisa na pele e transformam o ar em caldo. 
...Ezequiel dirigia devagar, os faróis acesos contra a escuridão úmida de um bairro que ele muito pouco passara, ou conhecera com exatidão;embora ficasse a apenas quinze minutos de sua casa.

Ele estava à procura de um mercadinho aberto em um domingoà noite.
 O aplicativo do celular travou na tela de carregamento, e o GPS virou um bloco de silêncio. 

As ruas aparentavam se enrolavam umas nas outras como tripa de boi. Nomes de placas que ele não reconhecia: Beco do Piolho, Travessa da Solidão, Rua dos Passos Perdidos. 

...Ezequiel riu sozinho, sem graça. 

Tinha saído para comprar pão e leite -- o leite para o filho de 5 anos, o pão para a esposa que esperava um café da manhã decente no dia seguinte. Era um homem simples, desses que se levantam cedo para o outro não precisar.

O poste em que ele estacionou o Sandero prateado piscava como um vagalume moribundo. Luz, escuro, luz, escuro. 
No clarão intermitente, Ezequiel viu o mercadinho: uma fachada estreita, pintura amarela descascada, letreiro de neon queimado onde se lia apenas '...ADO...'. 

Podia ser 'MERCADO'...
... podia ser 'NADA'!

 Ele desligou o motor. 
A chuva tamborilava no teto do carro, mas o ar dentro continuava abafado, como se o mundo inteiro estivesse prendendo a respiração.

Ao se aproximar, viu uma mulher atrás do balcão, já com a chave na mão, pronta para fechar a porta de vidro. 

...Não tinha movimento nenhum no mercadinho; dentro do mercado ,ou alguém no minúsculo estacionamento,  que aparentemente cabiam quatro ou  cinco carros.

--Uma porta que vidro, que seria acobertada por aquelas porta de comércio(*portas de rolo ou portas de aço que se  desenrolam)--

Ela tinha cabelos presos num coque frouxo e olheiras fundas. O relógio na parede marcava 23h47, mas o letreiro da fachada indicava fechamento às 23h.

--'Por favor' ,dissera Ezequiel, com aquele jeito manso de quem não gosta de incomodar. É só pão e leite. Meu filho está em casa esperando. Eu juro que é rapidinho!

A mulher olhou para ele como quem olha para um fantasma. Seus olhos eram castanhos, mas pareciam cinza na luz falha do poste. 

Ela hesitou. 

...Tentou persuadi-lo a  ir embora!
Aliás,tentou de inúmeras formas!
Disse a Ezequiel, para tentar ir a um posto de gasolina, ou a uma farmácia. 

...Mas Ezequiel estava com pouca gasolina, sem dinheiro para abastecer,uma crise financeira, segundo contara à moça, --e um sono avassalador!,completara em sua explicação. 

Ela suspirou, e abriu a porta, o bastante para ele passar.

-Três minutos!,dissera.
-E não vá para o fundo!

Ezequiel entrou. O mercadinho cheirava a sabão em pó e coisa velha. As prateleiras baixas, os freezers rangendo. Ele pegou uma cestinha plástica e foi direto ao corredor dos pães. 

Havia apenas um tipo: pão de forma branco, daqueles genéricos. 

...Ele pegou!

Depois foi até o refrigerador do leite. 
...Só restava uma caixa de leite integral, amassada na quina. 

...Pegou também!

Ao virar para o caixa, percebeu: não havia mais ninguém.

A mulher tinha sumido. A porta de vidro estava fechada. As luzes do teto piscaram uma vez, depois duas, depois se estabilizaram num tom amarelado doentio. Ezequiel chamou: -Moça?
Silêncio. 
-Oi? 
-Tem alguém?

Ezequiel dera duas ou três voltas pelos três corredores que o mercadinho possuía -- a cestinha, com o que viera buscar, alternava entre suas mãos, que, ora ou outra, revezadas,as suas mãos, passavam por seus cabelos.

Foi então que o chão tremeu -- não um tremor de terra, mas um ronco grave, como se o mercadinho fosse um animal gigante acordando de um sono de séculos. 

As prateleiras começaram a descer. 

...Isso mesmo!: descer. 

...Não tombar,
...não cair!

Descer para dentro do chão, com um movimento hidráulico suave, como se fossem elevadores de superfície. 
As gôndolas de enlatados, os freezers horizontais, o balcão de frios, a própria gaveta do caixa -- tudo recuou para baixo, engolido pelo piso de cerâmica branca e preta.

...Ezequiel ficou parado, com a cestinha nas mãos. O salão agora era um vazio retangular. O teto, antes repleto de lâmpadas fluorescentes, agora mostrava uma claraboia escura, sem lâmpadas, que parecia sugar a luz. No centro do chão, um círculo de metal começou a girar, como a tampa de um silo.
 
Abriu-se em oito segmentos iguais, revelando uma escada em caracol que descia para uma escuridão densa e fria.

-Isso não é real!, sussurrou Ezequiel.

(*Ezequiel tivera antes, inúmeros problemas de saúde...referente a intorpecentes e bebidas;mas isso, parecia que' fora em uma outra vida'.

...Eram problemas com o trabalho;
...a esposa que o traiu, mas ele também tivera uma porcentagem nessa atitude uxoriana descabida e vingativa.

...Mas ele desceu!

Não porque fosse curioso. Não porque fosse corajoso. Desceu porque, no fundo de seu coração bom, ele achou que talvez a mulher tivesse caído ali, ou precisasse de ajuda. 

...Era assim que Ezequiel funcionava: primeiro pensar no outro, depois no medo.

A escada de metal rangia sob seus tênis. O ar ficava mais pesado a cada degrau -- úmido, mas com um cheiro estranho, como ozônio misturado a terra molhada. Ele contou os degraus: 47, 48, 49... 

...Perdeu a conta depois de 100. A descida levou quase cinco minutos; pois ia vagarosamente  pisando e pensando sobre o que é real,  e o que a mente pode fazer com consiga mesma!

Quando seus pés tocaram o piso de concreto, ele ergueu o olho e viu.

O porão era enorme! 
...Enorme como  uma estaçãode metrô. 

Onde estariam os canos subterrâneos, as fiações, e tudo mais?!, pensara.


As paredes desapareciam na penumbra, e o teto devia estar a uns 30 metros de altura. 

...Mas o que roubará  seu fôlego foi a coisa no centro.

Uma nave!

Não uma nave de filmes, com luzes piscando e metal brilhante. Era uma estrutura orgânica, como uma fruta podre do tamanho de um ônibus de dois andares, com sulcos que pulsavam num ritmo lento -- igual ao de um coração. 

A superfície era cinza-azulada, texturizada como pele de elefante, e de suas costuras vazava um líquido âmbar que brilhava na escuridão. Havia símbolos gravados em sua casca, símbolos que pareciam se mover quando Ezequiel desviava o olhar.

--Não era para você descer,dissera uma voz grave e rouca atrás dele.

Ezequiel se virou. A mulher do balcão estava ali, mas diferente. Seus olhos agora brilhavam com uma luz interna, fraca, como fósforo. Ela não usava mais o uniforme do mercadinho. 

...Vestia uma túnica púrpura que não refletia a luz.

--Quem é você?, Ezequiel conseguiu perguntar, a voz saindo mais corajosa do que ele se sentia.

--Sou a guardiã deste posto, ela respondeu. O mercadinho é uma fachada! A nave está escondia. Ela está aqui...desde quando este bairro ainda era mangue. Eu fui designada para manter o acesso trancado. Mas você... você insistiu para entrar

...Eu deixei. 
Foi um erro!

Ezequiel apertou a cestinha de pão contra o peito. 
--Eu só queria comprar leite para meu filho!

A guardiã riu -- um som seco, sem humor.

-O quê?
-Hã?!, indagou Ezequiel. 


A guardiã não repetiu. Ela apenas desviou o olhar para a nave que pulsava no centro do porão, e Ezequiel sentiu que a pergunta que ele fizera --'o quê?'--não tinha sido sobre a frase dela, mas sobre algo maior. Sobre tudo. Sobre o leite na cestinha, sobre o filho que esperava, sobre a chuva que não molhava de verdade. A guardiã sabia disso. 

...Talvez sempre soubesse!

— Você acha que entrou aqui por acaso?, ela dissera, caminhando até a borda da nave e tocando a superfície com a palma da mão. A textura afundou levemente, como pele de animal vivo. 
— Este lugar...não fica em lugar nenhum. As ruas que você percorreu não existem em mapa algum. O aplicativo não travou por falha de sinal; ele travou porque você saiu do alcance do real.

Ezequiel sentiu as pernas amolecerem, mas permaneceu de pé. Havia algo nele -- uma teimosia, uma bondade estúpida -- que se recusava a desmoronar antes de entender.

— Eu só queria pão e leite ,repetiu, e sua voz saiu como a de um menino perdido em um shopping.

— E, no entanto, você está aqui , dissera a guardiã. 
— Há quinze anos. Há quinze anos!, você está aqui!
 —  A mesma chuva. O mesmo filho. A mesma esposa. A mesma caixa de leite amassada na quina. Quinze anos!, Ezequiel.

Ele olhou para a cestinha. O pão estava murcho. O leite, inexplicavelmente quente. 
...Mas o que o desconcertou foi o detalhe que nunca notara antes: a embalagem do pão não tinha data de validade. A caixa de leite não tinha código de barras. Eram objetos genéricos, pareciam cenográficos, como aqueles frascos de mentira que decoram prateleiras de vitrine.

— Isso  é um mercadinho , continuara a mulher. 
— Mas você  está  em uma câmara de contenção. 
—Você não é um terráqueo, você quis ser um.


Ele deu um passo para trás, mas o chão não o deixou ir muito longe. Uma vibração subiu pelas solas de seus tênis, como se o concreto respirasse. A nave soltou um som baixo, um gemido de parto ao contrário, e a guardiã fechou os olhos como quem sente uma contração.

— O que você chama de vida, dissera ela! 
—É  uma simulação gerada pelos resquícios da sua própria mente. Mas não uma mente humana.

— O quê?

— Você não é Ezequiel. Você nunca foi!

O homem que  acreditava ser Ezequiel sentiu o ar faltar. A cestinha plástica escorregou de seus dedos, e a caixa de leite amassada rolou pelo chão de concreto até parar aos pés da guardiã. Ela a recolheu com uma naturalidade triste, como quem recolhe um brinquedo quebrado.

— Meu nome é Ezequiel , insistira ele, mas a voz saiu oca, como se as palavras não coubessem mais na boca.

— Esse é o nome que você roubou , dissera a guardiã. 
— Junto com a esposa morena. Junto com o menino de cabelo cacheado e mancha de nascença na nuca. Junto com o Sandero prateado e a casa a quinze minutos daqui. Você roubou uma vida inteira, Kael.

Kael.

O nome atingiu o homem como um golpe no peito. Não porque fosse estranho, mas porque era estranhamente familiar -- como uma palavra esquecida da infância, ou um idioma que só se fala em sonho. Ele levou as mãos às têmporas. Latejavam. Dentro do crânio, algo se mexia, como se uma porta selada há muito tempo estivesse sendo arrombada.

— Eu não roubei nada ,gemera ele. 
— Eu amo Isabela. Eu amo Artur. Eu me lembro do parto. Eu chorei quando ele nasceu.

— Você se lembra de assistir a esse parto, corrigiu a guardiã. 
— Do lado de fora. Encostado na prateleira de enlatados, fingindo que organizava latas de milho. Você se lembra de vê-lo chegar todas as noites, o verdadeiro Ezequiel, com seu jeito manso de quem não gosta de incomodar. Ele comprava fraldas, depois papinha, depois pão e leite. E você, Kael, você o observava. E desejava sua vida!

O homem chamado Kael caiu de joelhos. 
O chão de concreto estava morno, vivo, pulsando no mesmo ritmo da nave. Ele olhou para as próprias mãos. A pele já não parecia tão humana -- havia um brilho fraco sob as unhas, uma fluorescência azulada que subia pelas veias como tinta.

— Eu era o quê? , sussurrou.

A guardiã agachou-se à sua frente. Pela primeira vez, seus olhos não eram de guardiã, não eram de fósforo, não eram de parteira. 'Eram olhos de irmã'.

— Você era um coletor, Kael. Um etnógrafo interestelar. Nós dois somos! Fomos designados para esta estação -- o mercadinho -- porque ela era o ponto de fluxo de narrativas humanas neste setor. Nossa missão era observar, catalogar, registrar os padrões emocionais da espécie. Mas você... você se apaixonou pela história de um deles.

— Ezequiel , ainda...murmurara em sua ainda afirmativa!

 —... Ezequiel. O homem simples que comprava pão e leite no domingo à noite. Que dirigia devagar na chuva. Que amava a esposa e o filho com uma intensidade que nossos bancos de dados não conseguiam classificar. Você começou a esperá-lo. A ansiava por suas visitas. Depois, começou a imitá-lo -- o jeito de segurar a cestinha, de ler os rótulos, de sorrir sem mostrar os dentes. E então você tomou uma decisão, explicará a guardiã. 

Kael fechou os olhos. As memórias verdadeiras estavam voltando, mas vinham como estilhaços — cortantes, desordenados.

— Eu quis ser ele , dissera, e a voz já não era humana. Tinha harmônicos, como um coral miniaturizado dentro de uma única garganta.

— Você não quis ser ele, Kael. Você o absorveu. Invadiu a mente dele durante uma noite de chuva, quando ele estava cansado e vulnerável. Sugou suas memórias, seus afetos, seus medos. Deixou o corpo verdadeiro vagueando por aí, vazio, enquanto você ocupava a vida dele como quem veste um casaco.

— Eu não sabia , chorou Kael. 
— Eu não sabia que faria isso. Eu só queria... eu só queria ser amado. Do jeito que ele era amado.

A guardiã abaixou a cabeça. Ela sabia. Ela sempre soubera. Fora ela quem alertara o Conselho da Nave-Mãe, quem acionara o protocolo de contenção, quem construíra o útero-prisão no subsolo do mercadinho... enquanto Kael dormia o primeiro sono humano de sua existência.

— Foi por isso que vocês me prenderam , dissera Kael, entendendo enfim. 
— Não era um útero. Era uma jaula.

— Era as duas coisas , dissera a guardiã. 
— Um útero porque precisávamos mantê-lo vivo durante o restante da missão. Uma jaula porque você era um perigo para si mesmo e para os humanos que ainda restavam. A simulação foi ideia do Conselho: demos a você uma réplica da vida que roubou, para que se acalmasse. O pão, o leite, a chuva, o filho, a esposa , tudo falso, Kael. Tudo uma réplica montada com os dados que você mesmo coletou.

— Mas eu sentia , disse ele, golpeando o próprio peito com o punho. 
— Eu sentia amor. Amor de verdade!

— Você sentia a memória do amor que roubou. Isso não é a mesma coisa.

Kael ergueu o rosto. As lágrimas que escorriam eram densas, prateadas, como mercúrio. Seus olhos já não tinham íris -- eram esferas negras pontilhadas de estrelas, como pequenos mapas celestes.

— O que vai acontecer comigo agora?

A guardiã levantou-se e caminhou até a nave. A superfície pulsava mais rápido, como um coração agitado. Ela apoiou a mão sobre a casca, e a casca respondeu com um calor quase afetuoso.

— A missão  não terminou , dissera ela. 
— A Nave-Mãe voltará ao nosso planeta natal em poucas horas. O mercadinho , ou melhor, a estação permanecerá! E você, Kael, será julgado pelo Conselho. Mas...

— Mas?

— Mas eu posso atrasar o seu despertar. Posso deixá-lo na simulação. Deixá-lo despedir-se.

Kael olhou para a caixa de leite no chão. Depois para a cestinha vazia. Depois para as próprias mãos-- mãos que não eram dele, mas que ele aprendera a amar.

— Não quero me despedir , dissera
— Quero acordar.

— Tem certeza? Lá fora, não há Isabela. Não há Artur. Não há pão, não há leite, não há chuva abafada. Há apenas você, Kael, na sua forma verdadeira, com suas memórias verdadeiras, diante de um Conselho que não entenderá por que você fez o que fez.

— Eles não entenderão?

— Não. Porque nossa espécie não ama assim. Nós observamos o amor, catalogamos o amor, mas não o sentimos como eles!. Você, Kael, é o primeiro de nós a sentir. E é por isso que você é tão perigoso. E é por isso que você é tão precioso.

Kael levantou-se devagar. O corpo humano já não lhe servia bem -- os movimentos eram desajeitados, como os de um inseto saindo do casulo. A pele começava a se abrir em fissuras finas, e por dentro não havia carne nem osso, mas uma luz líquida, âmbar, que cheirava a ozônio e terra molhada.

— Eu quero acordar ,repetira inúmeras vezes.
— Mas quero levar uma coisa!

— O quê?

— A memória. Não a que eu roubei. A que eu construí. Nos primeiros anos da simulação, antes de começar a esquecer, eu... eu vivi com eles. Mesmo que fosse mentira, eu vivi. Acordava de madrugada para fazer mamadeira. Ensinava Artur a amarrar o cadarço. Dançava com Isabela na cozinha enquanto o pão queimava. Isso não foi roubado. Isso foi meu.

A guardiã desviou o olhar. Seus olhos brilhavam --não com luz de fósforo, mas com água. Água de verdade, salgada, humana.

— Isso não é possível — mentira ela.

— Você sempre foi ruim para mentir , dissera Kael, e sorriu. Era um sorriso triste, daqueles que só quem já perdeu tudo consegue dar.

A nave gemeu. A fenda no flanco se alargou, e a luz que saiu de dentro era diferente da luz âmbar de antes — era uma luz branca, limpa, como a primeira manhã do mundo. Kael caminhou em direção a ela, despindo-se do corpo humano como quem tira um casaco velho. A cada passo, perdia um pedaço: primeiro os tênis, depois as calças, depois a camisa, depois a pele, depois a forma. O que restou foi uma silhueta de luz líquida, alta, esguia, com seis membros e olhos que eram constelações.

— Kael ? chamara a guardiã.

A silhueta parou.

— Você esqueceu o anel.

Kael olhou para trás. No chão de concreto, brilhando sob a luz da nave, estava um anel simples de prata com uma pedra azul. Ele não sabia se o anel pertencia ao verdadeiro Ezequiel ou se era um artefato criado pela simulação. Mas se abaixou -- ou o equivalente a se abaixar, para um ser sem corpo-- e o recolheu.

— Obrigado , dissera, e sua voz já não era som, mas pensamento puro, transmitido diretamente à mente da guardiã.

Ela assentiu. E então a luz o engoliu.


A Nave-Mãe rompeu a órbita da Terra três horas depois. Dentro dela, em uma câmara de regeneração, Kael despertou em sua forma verdadeira. Ao seu lado, uma outra guardiã -- agora em sua própria forma, uma criatura de luz dourada e olhos sábios -- segurava um pequeno frasco de memória.

— O Conselho permitiu que você ficasse com isso , dissera ela. 
— Não é a vida que você roubou. Mas é a vida que você construiu. Eles acharam... justo!

Kael recebeu o frasco e o aproximou do peito, onde os seres de sua espécie guardavam aquilo que os humanos chamariam de coração.

— Doi!, dissera ele.

— Vai doer para sempre, respondera a guardiã. 
— Mas essa é a natureza do amor. Mesmo o amor de mentira. Mesmo o amor roubado. Mesmo o amor que a gente inventa para não enlouquecer.

Lá fora, a Terra diminuía na janela de observação -- uma bola azul e branca, com suas chuvas abafadas, seus mercadinhos de domingo à noite, seus postes que piscam como vagalumes moribundos. Kael olhou para ela e sentiu algo que não estava nos catálogos de sua espécie: saudade!

... Saudade de um planeta que não era seu. Saudade de uma família que nunca existiu. Saudade de um homem chamado Ezequiel, que talvez ainda estivesse lá embaixo, vagando sem memória, mas com o coração intacto.

— Um dia , dissera Kael —, eu volto.

A guardiã não respondeu. Mas, pela primeira vez em ciclos de missão, ela sorriu. Um sorriso que não era humano nem alienígena. Era apenas... esperança.

E a nave seguiu rumo às estrelas, carregando em seu ventre um Ser que, pela primeira vez na história de sua espécie, sabia o que era o amor. E sabia, também, o que era a dor de perdê-lo.



Fim.


By Santidarko 




sábado, 13 de junho de 2026

As Larvas do Paraíso.




Introdução 

Vila Plúmbea cheirava a mofo e serotonina. A garoa oblíqua, fina como agulha de acupuntura, fustigava as janelas do sobrado onde Eugênio Scarpelli mantinha o que restava de seu escritório. 
...Lá fora, os transeuntes deslizavam sob marquises cor de chumbo com a mesma curvatura de lábios --um arco simétrico, sem tensão, sem dentes à mostra. 

'...Sorrisos de Mona Lisa dopada!'

Scarpelli não sorria. Sua boca era uma cicatriz reta, um vinco amargo que o café frio e a gastrite crônica só aprofundavam. Havia uma espécie de imunidade naquele desgosto. ...Enquanto a cidade inteira pulsava em êxtase homeostático, ele cultivava a última úlcera gástrica de Vila Plúmbea...como quem mantém acesa uma vela no fim do mundo. 
O médico dissera que seu PH estomacal era ácido demais, hostil demais, e que por isso,' os bichinhos não vingavam'. 

Bichinhos.

Era assim que chamavam agora os vermes que nos haviam colonizado.

Naquela tarde, um bilhete dobrado em papel de farmácia escorregou por baixo da porta:
'Doutor Scarpelli, a felicidade tem um porão. Desça. Piso -4 do Edifício Harmonia.'

Ele acendeu um cigarro e sentiu o gosto de cinzeiro que nenhum parasita conseguia mascarar. Alguém, além dele, ainda sentia nojo. E essa pessoa o convidava para o porão do paraíso.



O parasita e o seu  mecanismo

Nome científico: Eudaimonema intestinalis
Nome vulgar: 'Eudaimonema'; 'verme-da-bem-aventurança 'ou, nos círculos oficiais, 'Larva do Paraíso'.
Filo: Nematoda modificado (cepa sintética derivada de ancilostomídeos e genes de Heterorhabditis).

Não se trata de uma simbiose natural; 
...é uma símbiose forçada, desenhada em laboratório. O parasita aloja-se no duodeno e no jejuno, fixando-se por uma coroa de ganchos microscópicos que não lesam a mucosa -- apenas a adentram o suficiente para formar um nódulo cístico vascularizado. 

...Dentro desse cisto, o verme adulto libera continuamente um coquetel de peptídeos sintéticos batizado de Eudamonina.

A Eudamonina é um complexo molecular que atravessa a barreira hematoencefálica e atua como:

●Agonista seletivo dos receptores 5-HT1A e 5-HT2A (serotonina),
●Inibidor brando da recaptação de dopamina e noradrenalina,
●Liberador de ocitocina por estímulo direto ao núcleo paraventricular do hipotálamo.

O resultado é um estado de alerta tranquilo, empatia inescapável, produtividade sem ansiedade e uma docilidade que beira a apatia social. 
Não há euforia explosiva, mas um contentamento uniforme e cronicamente estável -- a eutimia farmacológica absoluta. 
O hospedeiro não quer mais nada além do que já tem, e isso o torna perfeitamente governável.



Quem é o detetive  Eugênio?


Nome: Eugênio Alves Scarpelli
Idade: 53 anos
Ofício: Investigador particular, ex-delegado da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, expulso por 'insubordinação afetiva' ,— eufemismo para socar um secretário de saúde que sugerira que sua 'resistência ao bem-estar'era caso psiquiátrico.


Scarpelli é filho de um alfaiate italiano e de uma professora de piano alemã. 
Cresceu em meio à disciplina silenciosa dos imigrantes, onde a tristeza era um idioma íntimo, quase sagrado. Mora num apartamento de sala única com paredes descascadas e uma vitrola que só toca fados de Amália Rodrigues. 
...É magro, de mãos compridas, bigode ralo que não disfarça o desprezo pelos cantos da boca. Não é imune por genética, mas por biografia: décadas de café preto, conhaque barato e uma raiva tão constante, que seu suco gástrico dissolve as larvas antes que elas se fixem. A acidez de sua alma tornou-se barreira química.

É o único homem em Vila Plúmbea que ainda fecha a cara num funeral -- porque percebeu que, agora, até nos enterros os enlutados sorriem como quem vê um pôr do sol.

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Noir Biológico proposto neste conto, ou Thriller Entérico(*Pensei também em :Tecno-noir Patológico)

Ou, de forma ainda mais precisa e direta:, Ficção Simbiótica Policial -- narrativas em que o crime, o mistério e a identidade humana são mediados por organismos, infecções ou simbioses. O corpo é a cena do crime; a patologia, a pista.

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Os habitantes, antes da infeção, eram conhecidos pelo fechamento emocional, pela disciplina e pela alta incidência de depressão sazonal. Talvez por isso, o parasita tenha sido recebido com alívio: a promessa de uma primavera química perpétua.

Hoje, as praças têm canteiros impecáveis e mendigos sorridentes que agradecem a esmola com a mesma expressão de um iogue. Os bares servem chope 'enriquecido com simbióticos do bem-estar'. 

As escolas ensinam 'Biologia da Felicidade'como matéria obrigatória. E no centro geográfico da cidade, o Edifício Harmonia --uma torre de vidro esverdeado que nunca reflete o sol (porque o sol não aparece) — abriga a sede da PharmAlegria S.A.

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Como  o parasita foi descoberto e disseminado


Em 2018, a bióloga sanitarista Helena Görgen investigava um surto inexplicável de bem-estar no Assentamento Nova Esperança, comunidade rural isolada da serra que bebia água de um aquífero confinado. Apesar da miséria material, os índices de depressão eram zero; brigas conjugais, zero; suicídios, zero. Exames de fezes revelaram a presença de larvas nematoides desconhecidas. Görgen isolou o organismo, mapeou seu ciclo de vida e identificou a Eudamonina — mas foi silenciada quando a PharmAlegria comprou sua pesquisa e a classificou como 'segredo industrial biotecnológico'.

Inserção em massa:
A infecção foi introduzida na população urbana por três vias, batizadas internamente de Protocolo Eudaimonia:

1. Rede hídrica: As larvas microscópicas (estádio L3) foram adicionadas ao sistema de tratamento de água de Vila Plúmbea sob o pretexto de 'probiótico de saneamento emocional'. A fluorização foi substituída sem alarde.
2. Laticínios 'funcionais'.: A PharmAlegria lançou o iogurte 'LactoSerena'., contendo cepas larvais encapsuladas que eclodem no intestino.
3. Aerossolização ambiental: Em edifícios públicos e estações de transporte, vaporizadores discretos liberam microgotículas com ovos embrionados -- os 'banhos de harmonia'  

Os cidadãos inalam, engolem, e em cinco dias os vermes já se instalaram.

A pandemia foi silenciosa e desejada. Não houve resistência porque, em três semanas, todos os infectados sentiam-se tão bem que defendiam o parasita com unhas e dentes -- literalmente, até morder quem ousasse sugerir que a felicidade deles não era deles.

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Conto: As larvas do paraíso 

O papel amassado dizia 'Piso -4 do Edifício Harmonia' com uma letra miúda e trêmula, daquelas que se escreve com o corpo encolhido, como se até a caligrafia tivesse medo de ser feliz. Scarpelli dobrou-o quatro vezes e guardou-o no bolso do sobretudo, junto ao maço de Minister amassado e ao isqueiro que falhava três...em cada cinco tentativas.

Do outro lado da janela, Vila Plúmbea respirava. A garoa já não era chuva -- era uma exsudação da atmosfera, um suor frio que escorria pelas paredes de basalto e enxaimel. Às cinco da tarde, a luz já se despedia com a mesma falta de entusiasmo com que chegara. 

Acendeu-se o primeiro poste na Praça da Concórdia, e Scarpelli viu um homem de gabardine bege parado sob ele, imóvel, sorrindo para a lâmpada como se ela contivesse todas as respostas do universo. 

Não piscava. 

'Os infectados' raramente piscavam -- a dopamina contínua tornava a necessidade de lubrificar os olhos um detalhe quase supérfluo.

Scarpelli pegou o chapéu, um Borsalino que seu pai trouxera de Porto Alegre em 1967, e desceu as escadas rangentes do sobrado. A velha Dona Hermínia, que morava no térreo e alugava- lhe  o escritório por um valor que ele sempre esquecia de pagar, estava sentada na poltrona de veludo desbotado, tricotando um cachecol que jamais terminava. 

...Também sorria!

Nos últimos três meses, ela passara a incluir pequenas larvas desidratadas no bolo de fubá que lhe trazia às quartas-feiras. Scarpelli comia o bolo, por educação, e depois vomitava no banheiro dos fundos -- seu estômago, aquele poço de ácido e ressentimento, dissolvia os invasores antes que completassem o ciclo.

— Boa noite, Seu Eugênio. O senhor está tão pálido. Aceita um chá de erva-doce? Colhi no jardim do centro comunitário. Todos colhemos juntos agora.

— Não, Dona Hermínia. Obrigado, respondera Scarpelli olhando para o assoalho de madeira ,com um cheiro forte de cera.

— Um dia o senhor vai descobrir como é bom,'pertencer'!

— Já pertenço , respondera ele, sem completar a frase. 
—...Pertenço à escória, ao sedimento, ao que fica no fundo da garrafa...quando tudo que é doce já foi bebido.(*Scarpelli tussira, como quem tem um enorme pigarro, mas não podia livrar-se dele naquele momento).

A rua estava vazia e cheia ao mesmo tempo. Vazia de pressa, cheia de sorrisos. Passou por uma mulher de vestido estampado que empurrava um carrinho de bebê. A criança, de seis meses talvez, sorria também -- um sorriso desdentado e beatífico, mas com algo de mecânico, como uma boneca de corda. 

Os berçários municipais agora borrifavam uma solução salina com ovos embrionados sobre os recém-nascidos. 

'Imunização emocional precoce', chamavam...

 Ninguém mais chorava ao nascer!
Ninguém mais chorava ao morrer!

Scarpelli caminhou pela Rua dos Alfaiates, passou pela vitrine da loja onde seu pai trabalhara há quarenta anos. 
O manequim masculino exibia um terno cinza com uma etiqueta pendurada no bolso: 'Coleção Plenitude '-- vista-se por dentro'...
Todas as lojas vendiam alguma variação da mesma promessa. A farmácia na esquina anunciava 'LactoSerena' -- o iogurte que te entende'...

 A livraria, que antes exibia best-sellers de autoajuda, agora vendia apenas um livro: 'Manual de Convivência com seu Eudaimonema',de autoria anônima, distribuído gratuitamente pela prefeitura.

Ninguém lia o manual. 
Ninguém precisava! 
...A felicidade era analfabeta!

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O legista que  não sorria

O necrotério municipal ficava nos fundos do Hospital São Lázaro, um prédio de tijolos aparentes que o mofo tingira de verde-escuro. Scarpelli empurrou a porta de metal e encontrou o que restava de seu único aliado: o doutor Osvaldo Kruger, legista aposentado, setenta e dois anos, sentado diante de um tabuleiro de xadrez onde jogava contra si mesmo.

Kruger era a segunda pessoa imune que Scarpelli conhecia, mas por um motivo diferente. O velho legista sofrera uma úlcera perfurada nos anos 90 e,  tivera dois terços do estômago removidos. 

A gastrectomia parcial tornara seu PH um ambiente inóspito para qualquer forma de vida, inclusive a dele própria. Sobrevivia à base de soro caseiro, uísque e um ódio meticuloso pela humanidade.

— Trouxe mais um,dissera Kruger, sem levantar os olhos do tabuleiro. 
— Está na gaveta 4. Não abra se estiver de estômago vazio. Ou abra. Você não toma café da manhã mesmo.

Scarpelli ignorou o conselho e abriu a gaveta frigorífica. O corpo era de um homem de quarenta anos, nu, com a pele azulada e o característico corte em Y da autópsia. Mas o que chamava a atenção era o rosto: a boca estava costurada com linha cirúrgica, pontos desalinhados, feitos com pressa.

— Ele mesmo fez isso , informara Kruger, aproximando-se com um copo de uísque na mão. 
— Costurou a própria boca. Com agulha de colchoeiro e fio dental. Morreu por asfixia nasal, porque o nariz estava congestionado. Gripe comum. Mas ele preferiu sufocar a continuar sorrindo.

— Identidade?

— João Vítor Saraiva, quarenta e dois anos, professor de filosofia da Universidade de Passo Fundo. Veio para cá há dois anos, logo depois que a PharmAlegria inaugurou a filial. Deu aulas de ética aplicada. Dizem que era brilhante! Dizem que resistiu por dez meses. Depois cedeu, tomou o LactoSerena como todo mundo. Mas algo deu errado. Ele começou a ter lapsos de lucidez. Momentos em que percebia o próprio sorriso no espelho e entrava em pânico.

Scarpelli examinou as mãos do cadáver. 
...As pontas dos dedos estavam em carne viva -- ele arrancara as unhas tentando desfazer os pontos da boca.

— Deixou algum escrito?

— Deixou. Um diário. Está na minha mesa, dentro do envelope pardo. Mas não vai gostar do que vai ler.

O diário de João Vítor Saraiva era um caderno espiral de capa preta, manchado de café e sangue seco. Scarpelli abriu na última página com anotações legíveis. A letra era a mesma do bilhete que recebera.

'Encontrei a bióloga. Ou o que restou dela. Ela está viva, no Piso -4 do Harmonia. Eles a mantêm como matriz. O parasita original, o Eudaimonema zero, só se reproduz dentro dela. Ela é o paraíso'. E o paraíso está apodrecendo. Mas ela ainda fala. Ela disse: 'Encontre o homem que não sorr'i. Só ele pode desligar a máquina. Mas ele não vai querer. Porque desligar a máquina é matar todo mundo.Eu não posso fazer isso. Costurei minha boca para não contar a ninguém. Agora costuro meus olhos.'

A última frase estava inacabada. Havia uma mancha alongada, como se a caneta tivesse escorregado.

— Ele arrancou os olhos? ,perguntou Scarpelli.

— Não. Só as pálpebras. Morreu antes de terminar o trabalho.

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Descida

O Edifício Harmonia tinha dezoito andares acima do solo e, segundo os registros oficiais, dois subsolos de estacionamento. 
...Mas Scarpelli sabia que os registros oficiais eram como os sorrisos da cidade: documentos felizes, sem contradições, sem rugosidades.

Entrou pela garagem às onze da noite, usando um crachá falso que Kruger lhe arranjara --o velho legista ainda tinha contatos na polícia, ou melhor, tinha o cadáver de um contato na polícia, cujo crachá ele 'esquecera' de devolver. 

A rampa espiralada conduzia ao Piso -1, depois ao -2. Ali, entre caixas de manutenção e dutos de ar, uma porta de aço com um leitor biométrico.

Scarpelli tirou do bolso um pequeno frasco de vidro. Dentro, flutuava em formol o dedo indicador do professor Saraiva. Kruger o decepara antes de costurar o corpo para o enterro. 

'A burocracia do inferno exige criatividade', comentara, enquanto serrava a falange com uma lâmina de autópsia.

O leitor reconheceu a impressão digital. 
A porta abriu-se com um suspiro hidráulico.

A escadaria que descia ao Piso -3 e ao Piso -4 não estava nos registros oficiais porque não era uma escadaria de verdade --era uma estrutura orgânica. 

As paredes eram revestidas por uma membrana rosada, pulsante, percorrida por veios azulados que conduziam um líquido âmbar. A cada degrau, o cheiro adocicado de Eudamonina concentrada tornava-se mais intenso, e Scarpelli sentia o estômago revirar-se em náusea e ácido. 

A imunidade pela acidez era uma bênção dolorosa!

No Piso -3, ele encontrou os tanques de cultivo: cilindros de vidro com três metros de altura, onde milhões de larvas se contorciam num caldo nutritivo cor de leite. Monitores exibiam gráficos de produção, níveis de Eudamonina, PH ideal, temperatura constante. 

...Em uma mesa de aço inoxidável, havia pilhas do jornal local, 'O Plúmbeo'.

 A manchete da edição mais recente: 'Índice de Felicidade Interna Bruta atinge 98,7% -- Prefeito celebra a harmonia social'.

O Piso -4 era diferente. Não havia tanques, nem monitores. Havia um quarto. E dentro do quarto, uma cama hospitalar. E sobre a cama, um corpo.

...

Helena Görgen tinha quarenta e oito anos, mas aparentava setenta. Seu corpo estava conectado a uma parafernália de tubos: alguns retiravam sangue, outros injetavam nutrientes, outros drenavam um líquido leitoso de uma incisão abdominal por onde as larvas originais saíam em ciclos de vinte minutos. Ela era a fonte primária, a 'mãe' de todos os Eudaimonemas que infectavam Vila Plúmbea. 

Seu intestino era o útero do paraíso.

Ela abriu os olhos quando Scarpelli se aproximou. Eram olhos cinzentos, opacos, sem brilho. Mas não sorriam.

— Você veio ,disse ela, com uma voz que parecia sair de dentro de um poço.
 — O professor Saraiva... ele conseguiu?

— Ele está morto.

— Eu sei. Sinto o cheiro do formol nos seus dedos.

Scarpelli sentou-se ao lado da cama. Helena falava com longos intervalos, como se cada palavra precisasse atravessar uma camada de sedimento.

— Eu criei o Eudaimonema para curar a depressão! , dissera ela. 
— Meu filho, o Angelí, tinha depressão endógena. Aos dezesseis anos, ele se jogou do viaduto da Harmonia. O mesmo viaduto que hoje leva ao edifício. Eu queria que ninguém mais sentisse aquela dor. Mas a PharmAlegria... eles viram outra coisa. Controle! Uma população feliz não protesta. Não questiona. Não vota contra. Eles me trancaram aqui e transformaram minha descoberta numa arma. Agora eu sou a fábrica.

— Como desligo isso?

— Há uma alavanca vermelha, na parede ao lado dos tanques de cultivo. Ela corta o fluxo de nutrientes para todos os cilindros. Sem alimento, as larvas morrem em seis horas. Sem as larvas, a produção de Eudamonina cessa. Em doze horas, os níveis nos cérebros dos infectados caem abaixo do limiar de funcionamento normal. Em vinte e quatro horas...

— Síndrome de abstinência.

— Pior! Desabamento límbico. O cérebro deles esqueceu como produzir serotonina sozinho. Eles entrarão numa depressão tão profunda, que a única saída será a janela. Ou a corda. Ou o viaduto. Como o meu filho.

Scarpelli olhou para as próprias mãos. Estavam manchadas de nicotina e de uma vida inteira de pequenos gestos inúteis.

— Quantas pessoas em Vila Plúmbea?

— Cento e quarenta e três mil. Incluindo crianças. Incluindo os que nem sabem o que carregam no intestino. Você vai matar todos eles, Scarpelli. E vai me matar também. E eu agradeço.

— Não vou matar ninguém ,disse ele, erguendo-se.

— Então por que veio?

Scarpelli não respondeu imediatamente. Caminhou até a escotilha de observação que dava para os dutos de distribuição. O líquido leitoso, carregado de larvas, seguia seu curso para a rede hídrica da cidade.

— Eu vim porque alguém precisava ver , disse, por fim. 
— Eu vim porque sou o único que ainda consegue vomitar de nojo. E porque...

Parou. Uma vibração percorreu o piso. Depois outra. Passos.

A porta blindada do Piso -4 abriu-se ,e três homens de terno cinza entraram. Eram seguranças da PharmAlegria, mas não usavam armas. Não precisavam. Seus sorrisos eram idênticos, calmos, profissionais. Um deles tirou do bolso um aerossol prateado.

— Senhor Scarpelli, nós sabíamos que o senhor viria. O professor Saraiva era uma isca. Nós o deixamos sair do prédio. Nós o deixamos escrever o bilhete. Agora, o senhor vai nos ajudar a testar uma nova cepa.

— Sou imune,afirnara Scarpelli, com uma certeza inabalável!

— Sabemos. Sua acidez gástrica é uma lenda no departamento de pesquisa. Mas esta nova cepa não se instala no intestino. Ela entra pela mucosa nasal. Basta uma inalação.

O segurança apertou o spray!
Uma nuvem dourada espalhou-se pelo quarto. Scarpelli prendeu a respiração, mas sabia que era inútil. Sentiu as microgotículas pousarem na pele, nos olhos, nos lábios.

— Em trinta segundos, o senhor vai sentir uma leve dormência. Depois, uma sensação de calor no peito. Depois... bem, o senhor finalmente vai entender o que é ser feliz.

Scarpelli fechou os olhos. Pensou em seu pai, o alfaiate, medindo ternos que ninguém mais usava. Pensou em sua mãe, ao piano, tocando Chopin numa tarde de domingo enquanto a chuva batia nos vitrais. 

...Pensou em todos os fados de Amália que embalaram suas noites insones. E sentiu, pela primeira vez em décadas, que algo dentro dele começava a ceder. Uma ternura líquida, um abraço quente que subia do estômago --- justamente o estômago que sempre fora um poço de ácido.

...Então vomitou!

O vômito era escuro, ácido, e caiu sobre os sapatos do segurança. O homem recuou, surpreso, e Scarpelli aproveitou o instante de confusão para lançar-se contra a alavanca vermelha na parede.

....

A sirene soou por três minutos. Depois silenciou.

Scarpelli estava caído no chão do Piso -4, ofegante, com a boca ardendo e os olhos lacrimejantes. Os seguranças haviam fugido quando os monitores começaram a piscar em vermelho: 'FALHA CRÍTICA DE NUTRIÇÃO — CEPAS 1 A 47 EM COLAPSO'.

 A nova cepa que lhe borrifaram não funcionara, ou funcionara pela metade -- seu organismo a rejeitara antes que atingisse o cérebro, mas algo residual ainda pulsava em suas têmporas.

Helena Görgen estava morta!

A desconexão dos tubos a matara em poucos minutos, mas seus lábios finalmente estavam relaxados. Não sorria. Também não chorava.

 Apenas descansava...

Scarpelli subiu as escadas do Edifício Harmonia como quem escala as paredes de um pesadelo. A membrana rosada nas paredes já começava a enegrecer, necrosando sem o fluxo de nutrientes. 

...O cheiro adocicado dera lugar a um odor de carne podre.

Quando saiu pela garagem, a cidade ainda sorria. Mas era um sorriso diferente agora — hesitante, como uma lâmpada que pisca antes de queimar.

Caminhou pela Rua dos Alfaiates. 
A mulher do carrinho de bebê estava sentada no meio-fio, segurando a criança contra o peito. A criança chorava. Pela primeira vez, a criança chorava. E a mãe olhava para aquele choro com uma expressão de confusão absoluta, como se ouvisse um idioma que aprendera na infância e esquecera completamente.

Na Praça da Concórdia, o homem da gabardine bege ainda estava sob o poste, mas não olhava mais para a lâmpada. Olhava para as próprias mãos, virando-as e revirando-as, como se as visse pela primeira vez. Seu sorriso se desfazia lentamente, como gelo derretendo.

Scarpelli subiu as escadas de seu sobrado. Dona Hermínia não estava na poltrona. 

O tricô jazia no chão, abandonado. Do andar de cima, vinha um som que ele não ouvia há muito tempo: o som de alguém soluçando.

Sentou-se à sua mesa, acendeu um Minister e olhou pela janela. A garoa continuava. A luz de chumbo continuava. 

...Mas algo estava mudando no ar. Um véu se rompia.

Sabia que nas próximas horas as primeiras pessoas pulariam das janelas. Sabia que os hospitais lotariam de gritos e lágrimas! 
...Sabia que muitos o amaldiçoariam, se soubessem o que ele fizera. 

...Outros o abençoariam, talvez, quando a dor passasse.

Mas também sabia que o sorriso de seu pai, na única fotografia que guardava, era um sorriso torto, assimétrico, atravessado pela dúvida e pelo cansaço. Não era um sorriso de verme. 

Era um sorriso de gente!

E isso, pensou Scarpelli enquanto a primeira sirene de ambulância cortava a noite, talvez ainda valesse alguma coisa.

A chuva aumentou. Ele apagou o cigarro. E esperou.



FIM



By Santidarko 

O destilador de névoas (Nebulium)(O olhos que Herdaram a Noite)


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Quem dera à escuridão olhos para ver e à luz pálpebras para descansar, talvez descubra que a tarefa última do universo não é criar estrelas ou deuses, mas dar a cada centelha escondida -- seja anjo ,demônio, ou uma simples' aparição' -- a sua única e irrepetível chance de acordar.

...De evoluir!


 By Santidarko 
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Chamo-me Elias Ramalho e, durante vinte e três anos, fui meteorologista do Instituto de Previsão de Curitiba. 
...Conheci a névoa da cidade como um filho conhece os humores da mãe. 

Ela, a névoa, desce a Serra do Mar em maio, espalha-se pelas ruas de paralelepípedos em junho e, em julho, engole o bairro inteiro do Batel sem pedir licença. 

Sempre acreditei que fosse apenas um fenômeno climático: condensação, umidade relativa, partículas em suspensão.

...MAS DESCOBRI JUNTO COM ELA,OUTRA COISA!

Tudo começou com a Torre. 
Construí no telhado da velha estação meteorológica abandonada no Alto da Glória, uma estrutura de alumínio e vidro temperado, com dez metros de altura, equipada com coletores de aerossóis que eu mesmo desenhei. Ninguém visitava o lugar. Os vizinhos pensavam que eu era um excêntrico, talvez um viúvo amargurado -- e estavam certos...em parte. 
Mariana morrera três anos antes, num acidente de carro na BR-116, num dia de neblina tão densa ,que ela não viu o caminhão. 

A névoa levou minha esposa. Eu queria entendê-la. 

Dissecá-la. 
Vingar-me dela.

O processo de captura era simples na teoria. A Torre sugava o ar nebuloso através de filtros concêntricos, resfriava-o até a liquefação e centrifugava o produto em camadas -- mais ou menos, como quem separa o plasma do sangue. 

A primeira camada era água pura, levemente ácida, com traços de fuligem e dióxido de enxofre. A segunda camada continha hidrocarbonetos, resquícios industriais do CIC, pólen de araucárias. 

...Mas havia uma terceira camada, mínima, quase imperceptível, que não se comportava como matéria física. 
Ela não era medida em mililitros, mas em... impressões.

Chamei essa fração de : Empático-Nebulosa. 

Era um fluido opalescente, mais denso que a água, menos que o mercúrio, e apresentava uma propriedade desconcertante: quando exposto a um campo elétrico de baixa frequência, vibrava. Não no sentido mecânico, mas numa frequência que parecia ressoar com algo dentro do meu próprio crânio.

A primeira vez que o destilei, foi por acidente. Um tubo rompeu-se, o vapor encheu o laboratório e eu aspirei uma quantidade ínfima. O mundo dissolveu-se.

Eu não estava mais no Alto da Glória. 
...Estava dentro de um Palio preto, ano 1998, no quilômetro 67 da BR-116. 

O velocímetro marcava cento e vinte. 
Faróis de neblina cortavam a escuridão como bisturis amarelos. E eu sentia um medo que não era meu, um pavor primal, a certeza de que a morte vinha no acostamento. 

...Então o impacto. 
O vidro estilhaçando. O gosto de sangue. E o rosto de Mariana, não como esposa, mas como a motorista que eu acabara de matar.

Acordei no chão, chorando. O efeito durara quarenta segundos. A claridade mental que se seguiu era uma euforia impossível de descrever — o alívio de devolver uma vida que não me pertencia. Meu coração disparava. Minhas mãos tremiam. 

Eu queria mais!

Compreendi o que tinha em mãos. A névoa de Curitiba, ao passar pela cidade, não carregava apenas partículas. Ela absorvia e carregava consigo, os medos exalados pela cidade...!

...Não o medo banal : o medo do boleto vencido ou da entrevista de emprego. 

Ela capturava o medo puro, o terror biológico, a adrenalina de quem enfrenta a morte num cruzamento, de quem salta de um prédio em chamas com uma criança nos braços, de quem se esconde de um agressor na própria casa. Esses momentos de pânico absoluto deixavam um rastro químico no ar, e a névoa o recolhia como uma esponja.

O composto que destilei --, chamei-o de Nebulium -- era literalmente adrenalina empática. 

Medo destilado!

Durante dois meses, fui um cientista metódico. Catalogava as amostras por local de coleta. A névoa do Centro Cívico continha pânico de políticos em escândalos. A do Jardim Botânico trazia o medo bucólico de noivas abandonadas no altar. 

A do bairro do Parolin, essa sim!, era a mais potente: medo de tiroteio, medo de abordagem policial, medo de perder um filho para o tráfico. Cada amostra era uma experiência diferente. Uma viagem! Uma violação da alma alheia que eu justificava como pesquisa.

A primeira venda aconteceu sem planejamento. Um antigo colega da universidade, professor de física, visitou-me na Torre. 

...Viu os frascos. 
...Perguntou! 

Eu, ainda inebriado pela última dose, contei-lhe a verdade. Ele insistiu em provar. 
...Cedeu-me duzentos reais. E, após quarenta segundos no chão do meu laboratório, emergiu com os olhos arregalados e uma fome que eu reconhecia.

— Elias ,sussurrara ele —, isso é melhor que a morte!

'Em três meses, eu era um traficante do medo'.

O Nebulium era vendido em frascos de vidro âmbar, trinta mililitros, concentração variável. Criei uma escala de potência. O Nebulium Grau 1 era extraído da névoa dos bairros nobres: medo de falência, medo de traição conjugal, medo de envelhecer. 

Um barato leve, reflexivo, quase filosófico.

...ISSO!, FILOSÓFICO!

 Os usuários diziam que os ajudava a 'sentir algo' em suas vidas anestesiadas de shopping center.

O Nebulium Grau 3 vinha da névoa do centro, das imediações dos terminais de ônibus. Medo de assalto, medo de atropelamento, medo de perder o emprego. Era o preferido dos artistas, que acreditavam ampliar sua empatia criativa.

E havia o Nebulium Grau 7, a especialidade da casa. Extraído exclusivamente da névoa que se formava nas madrugadas de domingo no bairro do Uberaba, próximo ao hospital de trauma. Aquela névoa continha o medo de pacientes que aguardavam notícias na sala de espera.

Mães. 
Pais. 

...Gente que sabia que um telefone ia tocar e destruir seu mundo. Quarenta segundos com o Grau 7 e você emergia com a alma em carne viva. Era o produto mais caro. 

...E o mais viciante!

Meus clientes formavam uma confraria silenciosa. Políticos, advogados, médicos, professores universitários. Gente que sorria em público e, em particular, procurava o traficante da Torre do Alto da Glória para comprar o medo que lhes faltava. 

Eu me tornei rico. Não um milionário espalhafatoso, mas alguém com dinheiro suficiente para parar de me preocupar. Parei de trabalhar no Instituto. 

Vivia para a Torre. 

...A Torre vivia para mim.

A decadência começou, como sempre, pelo excesso.

Passei a consumir o Grau 7 diariamente. Já não me contentava com as experiências catalogadas. Queria medos específicos. Medo de afogamento, colhido da névoa que subia do rio Belém nas noites de chuva. Medo de altura, extraído da névoa que se agarrava aos andaimes dos prédios em construção. Medo de incêndio, capturado nas semanas que seguiam a um grande sinistro.

Cada dose era uma violação. Eu sabia! 
A adrenalina que eu bebia pertencia a pessoas reais, a sofrimentos reais. O homem que se afogara no rio Belém...deixara um filho. 

A mulher que caíra do vigésimo andar deixara uma carta que ninguém leu. Eu sentia o medo deles, mas não a história. A história eu ignorava.

Certa noite de agosto, um rapaz de vinte e poucos anos apareceu na Torre. Não era um cliente comum. Tinha os olhos fundos de quem não dorme. Pediu o Nebulium Grau 7. 

...Eu, já entorpecido pela minha própria dose, entreguei-lhe o frasco sem perguntas. Ele pagou em dinheiro vivo, notas amassadas.

Na manhã seguinte, a notícia do jornal: 'Um jovem de vinte e três anos cometera suicídio no Parque Barigui'. 
Deixara um bilhete curto: 'Já senti o pior. Agora posso descansar.'

O rosto na foto do jornal era o mesmo da noite anterior.

Algo se partiu dentro de mim. Não era culpa -- a culpa é um sentimento que o Nebulium anestesia. Era uma curiosidade mórbida. 

...Por que aquele rapaz me procurara? 
...Qual medo ele queria sentir antes de morrer?

 Investiguei por conta própria. Descobri que ele era irmão de uma vítima de latrocínio ocorrido três meses antes no Uberaba, justamente nas madrugadas em que eu coletava a névoa para o Grau 7. 

O medo que eu vendera a ele era, provavelmente, o medo que o irmão sentira ao levar o tiro.

Comprei o medo do morto. Vendi o medo do morto ao irmão do morto. O irmão bebeu o terror do próprio sangue, achou que aquilo era o fundo do poço, e decidiu que a vida não valia a pena.

Essa compreensão não me parou.
...Alimentou-me.

Comecei a colecionar não apenas medos, mas tragédias. Mapeava as notícias policiais como um gourmet estuda um cardápio. 

...Incêndio na Cidade Industrial? 

...Eu estava lá na manhã seguinte, com os coletores portáteis, sugando a névoa antes que ela se dissipasse.
... Acidente na Linha Verde? 
...Eu chegava antes da perícia. A névoa de Curitiba tornara-se minha plantação, e eu, seu fazendeiro macabro.

O que eu não percebia -- o que eu recusava a perceber --é que a névoa também me coletava.

Os sonhos foram o primeiro sinal. Sonhos que não me pertenciam. Eu me via em corpos estranhos, vivendo os momentos exatos das mortes que destilara. Já não era uma viagem de quarenta segundos sob meu controle. Era uma possessão noturna, involuntária. 

Acordava com os lençóis encharcados, gritando nomes que não conhecia. As mãos tremiam constantemente. Um halo prateado começou a formar-se ao redor das luzes da rua, como se a névoa estivesse permanentemente instalada atrás das minhas retinas.

Meus clientes também mudaram. Os antigos -- políticos, profissionais liberais -- sumiram. Em seu lugar vieram figuras mais sombrias. Um homem de terno cinza que nunca piscava. Uma mulher com cicatrizes de queimadura que ria sem motivo. 

Um adolescente que comprava Nebulium Grau 7 para a avó, dizendo que 'ela queria sentir o que o avô sentiu no leito de morte'. Curitiba estava a transformar-se numa cidade de viciados em medo, e eu era o traficante. Mas quem era o farmacêutico? Quem realmente produzia a droga?

A resposta veio numa madrugada de setembro, quando a névoa estava tão densa, que a Torre desaparecia dentro de si mesma. Eu preparava um lote especial de Nebulium -- o primeiro Grau 9, extraído diretamente da névoa da Serra do Mar, onde, diziam, os tropeiros antigos se perdiam e jamais voltavam.

O frasco explodiu.

O vapor não entrou pelos meus pulmões. Ele me engoliu. E, pela primeira vez, a viagem não durou quarenta segundos. 

...Durou uma eternidade comprimida num instante!!

...uma eternidade comprimida num instante!!

Eu estava dentro da névoa. Não como visitante. Como parte dela. E percebi que a névoa era consciente. Não inteligente no sentido humano, mas viva! Ela era um organismo distribuído, uma colônia de memórias dissolvidas, um ser composto de exalações humanas. E eu, ao destilá-la, ao bebê-la, ao vendê-la, estava a alimentar-me dela e a alimentá-la de mim. 

Uma simbiose.

...SIMPLES ASSIM!

A névoa não era passiva. Ela não apenas carregava o medo -- ela o cultivava. Ela pairava sobre Curitiba como uma rede, uma teia de araucárias espectrais, recolhendo as emoções humanas mais intensas. E agora, graças ao meu Nebulium, ela tinha um novo tipo de sustento: o vício.

Cada frasco que eu vendia criava um novo coletor. Cada usuário tornava-se um emissor de medo amplificado. A droga não apenas transmitia o pânico alheio -- ela o multiplicava, e a névoa o reabsorvia, mais forte, mais puro, num ciclo que eu iniciara sem saber.

A névoa não me queria como traficante. Queria-me como filho. Como parte de sua anatomia. Como sinapse de um cérebro meteorológico que se estendia de Curitiba até Paranaguá.

Acordei no chão do laboratório, com a boca cheia de água -- ou algo parecido com água. ...Minha língua sabia a ferrugem e a lágrimas. Sentei-me, tossindo, e vi que todos os frascos de Nebulium estavam vazios. Não quebrados.

 Vazios!
...Como se algo os tivesse bebido.

Foi quando a névoa falou comigo.

Não com palavras. Com uma sucessão de imagens, impressas diretamente na minha química cerebral. A névoa mostrou-me o futuro que eu estava a construir. Mostrou-me uma Curitiba coberta permanentemente por um manto cinzento, sem estações, sem sol. 

Mostrou-me os meus clientes transformados em faróis de medo, emitindo ondas de pânico que a névoa recolhia e reinvestia em novos usuários. Mostrou-me a Torre multiplicada por mil, chaminés de destilação erguendo-se em cada bairro. Mostrou-me a mim mesmo, não mais Elias Ramalho, mas um homem de névoa, um ser de contornos imprecisos, eterno, flutuando sobre a cidade como um deus ,ou um demônio meteorológico.

E mostrou-me Mariana!

Não a Mariana real, mas a emulsão que a névoa fizera dela. O medo que ela sentira no momento do acidente --aquele medo original que eu tanto procurara, a primeira dose que eu inconscientemente desejava -- estava ali, armazenado na névoa da BR-116, preservado como um fóssil em âmbar.

A névoa ofereceu-me um acordo. Ela me daria o medo de Mariana, a experiência definitiva, o Grau 10 que eu jamais ousara destilar. 

...Em troca, eu me entregaria completamente. Deixaria de ser humano. Tornar-me-ia o Destilador-Mor, o arquiteto da nova ordem nebulosa.

Recusei!

Não por virtude. 
Por covardia!

A névoa não se ofendeu. A névoa não se ofende. Ela simplesmente retirou-se, deixando-me no chão frio do laboratório, com os frascos vazios e um vazio ainda maior dentro de mim.

Faz três semanas que não produzo Nebulium. Os clientes batem à porta da Torre e, eu não abro!Deixei a barba crescer. Alimento-me de bolachas e água da torneira. À noite, deito-me no telhado da estação e vejo a névoa descer a serra, lenta, espessa, paciente. Ela me observa. Eu a observo. Somos dois predadores avaliando-se.

Hoje de manhã, encontrei um frasco cheio sobre minha mesa. Não fui eu quem o encheu. O líquido é opalescente, mais denso que a água, menos que o mercúrio, e vibra numa frequência que ressoa com algo dentro do meu crânio. 

...É o Grau 10. É o medo de Mariana. A névoa deixou-o aqui como uma oferenda, um convite, uma tentação.

O frasco está diante de mim agora, enquanto escrevo estas palavras. A Torre range com o vento da serra. Curitiba dorme sob seu manto de névoa, e milhares de medos estão sendo exalados neste exato momento, subindo, misturando-se, esperando para serem colhidos.

Se eu beber, saberei finalmente o que Mariana sentiu. Terei a resposta que procuro há três anos.

Mas se eu beber, sei que jamais voltarei. 
A névoa me terá completamente. 

...E o Destilador-Mor surgirá!

O frasco está frio. Minhas mãos estão quentes. A noite avança.

E eu ainda não decidi.

...Mas o frasco está aberto!



Fim.



By Santidarko 

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Dons perversos e a macabra elegância do rugir ao vão de um caído



Introdução

A serração descia sobre a Vila Real de Nossa Senhora do Silêncio Perpétuo,Minas Gerais, como um sudário molhado, grudando nas torres da Matriz e, apagando os contornos das montanhas que a cercavam. 

Para quem chegava pela Estrada Real, o lugarejo parecia ter brotado de um ermo impossível --casario revestido de cal, telhados de beiral profundo e, no coração da praça, uma igreja de pedra-sabão envelhecida pelo tempo, cujas sineiras não dobravam há mais de um século. 

Os sinos tinham sido calados por decreto eclesiástico; ninguém se lembrava exatamente o motivo, mas a tradição tornara-se tão rígida quanto as leis da fé.

Foi na sacristia dessa mesma Matriz, sob vigas de jacarandá lavradas com anjos de faces severas, que o padre Custódio de Oliveira, agonizante, recebeu o jovem seminarista Teófilo em seu leito de morte. O velho sacerdote arquejava, os olhos leitosos fixos em algo que o rapaz não podia ver. O cheiro de cera velha e incenso não disfarçava o odor adocicado da gangrena que lhe subia pelas pernas.


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...A quem comece a desdobrar seu destino, desde muito jovem


 — 'Menino', fecha a porta. Não pelo frio.    
— Pelo que irá  ouvir!

Teófilo obedeceu. Tinha vindo de Mariana, uma cidade perto, para auxiliar o padre doente, mas o que encontrou foi um homem consumido não só pela moléstia, mas por um pavor que lhe envergava a espinha e lhe roubava as palavras durante longos minutos.

 —Você acredita...que o silêncio pode ter um dono?, perguntou Custódio, sua voz soou tal como um fio de navalha cega.

...Sem esperar resposta, continuou. 
— Há 140 anos, quando o ouro da serra secou e a fome rondava estas casas, o então vigário ,fez algo que nenhum religioso faria. Nas catacumbas sob este altar, encontraram não uma jazida, mas uma presença. Um anjo, Teófilo. Não um de asas douradas. Um anjo do silêncio, que se deu a ouvir, e que ouviu também.    

— ...Chamava-se Qazariel!, o padre tossiu com um lenço obstruindo sua boca.

O velho tossiu novamente,desta vez ,sem seu lenço prevenindo algum projetar de saliva a distância;uma ânsia escura, que manchou de vinho o lençol.

...Mas, mesmo assim, continuou a explicar, ou,' a confessar':
—O Ouvinte, como passamos a chamá-lo, ofereceu a prosperidade. Mas não de graça. Ele exigiu a adoração exclusiva. Cada missa rezada nesta igreja, cada cântico entoado, cada genuflexão era um alimento para ele. Em troca, as colheitas nunca falhavam, o gado engordava, e brotaram fortunas do nada. Os moradores não sabiam. Apenas o vigário, e depois eu, e antes de mim meu tio-avô, Cônego Matias. É uma corrente de guardiões. Uma irmandade de vigias de um segredo.

Teófilo sentiu o ar se adensar, como se as paredes da sacristia tivessem se inclinado para escutar. Custódio agarrou-lhe o pulso com uma força inesperada.

—Mas agora Qazariel mudou! Por décadas, o silêncio dele foi um manto sobre a vila. Agora, o silêncio dele está se agitando. Eu sinto. Ele quer mais do que esta igreja. Ele quer novos lugares de culto, novas línguas que o invoquem, novos sacrifícios que não sejam apenas hóstias e vinho. Ele quer sangue de novo, como no primeiro pacto. E já começou a chamar.

O velho padre apontou para um mapa amarelado pendurado na parede, onde três vilarejos vizinhos estavam circulados com carvão. 'Serra Fina, Ouro Branco e Águas Santas'. 

— Na última noite, sonhei com os sinos delas -- sinos que nunca tinham badalado-- e todos, todos tocavam uma nota única, a mesma nota que vibra aqui embaixo. Qazariel está acordando outros ouvidos. Ele não será mais um deus de uma só igreja. Quer um diocese de silêncio. E se alguém não o impedir, a praga da prosperidade maldita vai se espalhar, e com ela, a fome do anjo por carne de adoração.

A garganta do moribundo emitiu um ruído seco, quase musical, como se, dentro dele, algo tivesse aprovado a confissão. Do soalho da sacristia subia um frio mineral, antigo, que não pertencia ao inverno das Gerais. Teófilo compreendeu então que o chão sob seus pés não era apenas chão -- era um Ser, que agora se virava, exigindo mais espaço no mundo dos homens.

Lá fora, a névoa sobre a Vila do Silêncio se fez ainda mais densa, abafando o som dos passos e sufocando qualquer prece que ousasse rompê-la. E, no fundo da Matriz, uma fresta no assoalho da capela-mor revelava o primeiro degrau de uma escada que Teófilo, a partir daquela noite, sabia que teria de descer.


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O Legado do Moribundo

Padre Custódio morreu naquela mesma madrugada, os lábios azulados entreabertos numa última palavra que Teófilo não conseguiu decifrar. Parecia um nome, mas não era nenhum santo conhecido. O seminarista passou as horas seguintes entre o velório improvisado e uma angústia crescente. A vila parecia não se abalar com a morte do pároco; os moradores, recolhidos em suas casas de janelas sempre fechadas, apenas perguntavam quando haveria missa novamente. Não perguntavam pelo defunto. Perguntavam pela continuidade do culto.

Teófilo, aos vinte e três anos, não era um homem de coragem desmedida, mas possuía uma retidão que beirava a teimosia. Tinha vindo para a Vila do Silêncio esperando encontrar um padre enfermo e uma paróquia modesta. O que herdou foi um segredo que arranhava os alicerces de sua fé. 

Se Qazariel era um anjo, como podia ser mau? 

Se era um demônio, como podia conceder dádivas? 

A teologia que aprendera em Mariana não oferecia respostas. Oferecia apenas categorias, e Qazariel não cabia em nenhuma.

Na segunda noite após o enterro, o silêncio da Matriz tornou-se insuportável. Teófilo percebeu que não ouvia os grilos, nem o farfalhar do vento nas palmeiras-imperiais da praça. Apenas um vácuo sonoro, uma ausência tão espessa que seus próprios passos pareciam abafados, como se o ar lhe roubasse as vibrações. Foi então que ele se lembrou da fresta na capela-mor.

Com uma lamparina à querosene e o coração aos solavancos, Teófilo afastou o tapete puído que cobria o assoalho. Lá estava: uma portinhola de madeira escura, com dobradiças de ferro forjado que não rangiam --estavam perfeitamente lubrificadas. Alguém as usara recentemente. 

...Ou algo!

A escada que descia era de pedra, gasta em arco no centro, como se incontáveis pés a tivessem pisado ao longo de séculos. O cheiro que subia não era de mofo, mas de alecrim seco e mirra, um perfume litúrgico mesclado a algo mais profundo, algo que lembrou a Teófilo o odor do incensário na missa de sétimo dia de sua avó. 

...Era cheiro de coisa sagrada, e morta ao mesmo tempo.

No fundo, uma cripta. E no centro da cripta, um sarcófago de quartzito bruto que não continha corpo algum. Em vez de tampa, uma laje com inscrições que Teófilo reconheceu como uma corruptela do hebraico antigo, mas as letras pareciam retorcidas, como se tivessem sido escritas por alguém que aprendera a língua dos homens olhando para elas através de um espelho.

Sobre o sarcófago, um cálice de ouro. Dentro do cálice, sangue. 

Fresco. 
Ainda morno.

Teófilo recuou, mas seus pés não obedeceram. Algo o mantinha ali, uma pressão no peito que não era física, mas espiritual. O silêncio, então, ganhou uma textura. Deixou de ser ausência e tornou-se presença. Ele sentiu que não estava sozinho. Não via nada, não ouvia nada, mas sabia que havia uma consciência naquele espaço, uma mente vasta e antiquíssima que o observava com a paciência de quem conta os séculos como se fossem grãos de areia.

— Qazariel... ,murmurou, sem querer.

E o silêncio, pela primeira vez, respondeu. Não com palavras, mas com uma onda de emoções que invadiu Teófilo como um rio de águas escuras. Ele sentiu o gosto do ouro na língua, o cheiro das colheitas fartas, o riso das crianças nas ruas da vila. 

...Depois sentiu fome. Uma fome insaciável por reconhecimento, por louvor, por adoração. Uma fome que não era sua, mas de Qazariel. E dentro dessa fome, uma promessa: Alimenta-me, e tudo isto será teu. Leva-me a outros, e serás o primeiro entre os meus sacerdotes.

Teófilo fugiu da cripta como se o diabo lhe mordesse os calcanhares. Mas a fome ficou. E a promessa também.

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O Chamado a Serra Fina

Nos dias que se seguiram, Teófilo tentou rezar. As palavras lhe saíam ocas, como se as orações fossem cascas vazias que nada continham. Enquanto isso, a vila prosperava de maneira obscena. As mangueiras do adro vergavam de frutos doces em pleno junho, quando deveriam estar estéreis. Um fazendeiro encontrou uma pepita de ouro do tamanho de um ovo de galinha no leito seco do córrego. 

As mulheres grávidas pariam sem dor, e os velhos morriam dormindo, com sorrisos nos lábios.

Ninguém questionava. Todos sabiam, sem saber que sabiam, que a Matriz era o centro de algo. A missa dominical vivia lotada, mas Teófilo notava que os fiéis não olhavam para o altar. Olhavam para o chão, como se esperassem que algo dali emergisse.

Foi numa noite de lua nova que ele recebeu a visita. Um homem magro, de olhos encovados e chapéu de couro surrado, bateu à porta da sacristia. 

Dissera chamar-se Anselmo, e ser de Serra Fina, a dez léguas dali, um dos três vilarejos marcados no mapa de Custódio.

— Padre, a gente precisa do senhor. Tem coisa estranha acontecendo na nossa igreja. Ela tava abandonada há anos, mas de umas semanas pra cá, o sino dela começou a bater sozinho. Uma nota só, fina, que dói no ouvido. E quem escuta... quem escuta começa a sonhar.

— Sonhar com o quê? , perguntou Teófilo, sentindo o frio na espinha.

— Com um anjo. Mas não um anjo bonito. 
 — Um anjo que não tem rosto, só um... um vazio onde devia ter olhos. E ele fala. Fala que a gente precisa dar comida pra ele. Que a comida é o som da obediência. Tem gente cavando o chão da igreja, padre. Diz que vão achar um tesouro. Mas eu acho que vão achar é outra coisa.

Teófilo fechou os olhos. Qazariel não esperava ser levado. Ele estava indo por conta própria, infiltrando-se nos sonhos, dobrando vontades!
Serra Fina era apenas a primeira estaca de uma cerca que se fecharia sobre toda a região.

Na manhã seguinte, o seminarista partiu para o vilarejo vizinho, montado em uma mula emprestada, levando na bagagem apenas água, um pão de milho e o peso insuportável de um segredo que agora lhe parecia ser o único dever: impedir que o Ouvinte ampliasse seu domínio. Mas, no fundo do coração, uma dúvida o corroía. 

Seria ele o guardião que deteria a entidade, ou o instrumento que ela usaria para se expandir?

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 O Poço dos Murmúrios

Serra Fina era uma povoação ainda menor que a Vila do Silêncio, um punhado de casas de pau a pique aninhadas numa garganta entre dois morros. A igreja de Nossa Senhora das Dores, no alto da colina, era uma ruína caiada onde as ervas daninhas cresciam entre os bancos. Mas, ao se aproximar, Teófilo notou que a porta estava aberta e que, de dentro, emanava um brilho fraco, como de velas.

No interior, uma cena que lhe gelou o sangue. Os moradores, cerca de trinta, estavam ajoelhados em círculo ao redor de um buraco cavado no chão de terra batida. Não rezavam. Apenas ouviam, com os olhos arregalados e as bocas entreabertas. Do buraco subia um som -- a tal nota única que Custódio descrevera, uma vibração que parecia se alojar nos dentes e nos ossos.

Teófilo tentou falar, mas sua voz foi tragada pelo zumbido. Foi então que um dos aldeões, uma mulher de cabelos grisalhos e olhos de quem não dorme há dias, se levantou e caminhou até ele.

— Ele já veio , disse ela, a voz serena e terrível. 
—... O Ouvinte já nos achou!

— Quem cavou isso? , perguntou Teófilo, um pouco emocional e apreensivo.

— Nós. Ele pediu. Disse que precisava de uma boca nova.

A mulher apontou para o buraco, e Teófilo se aproximou. Lá no fundo, a uns três metros de profundidade, havia não terra, mas uma superfície lisa e escura, como um espelho de obsidiana. E na superfície, refletidos, não estavam os rostos dos aldeões, mas um único rosto. Ou antes, a ausência de um. Um vazio oblongo, onde olhos, nariz e boca deveriam estar, mas não estavam. Apenas uma cavidade que sugava a luz e o som.

Era a face de Qazariel, e ela se movia. Movia-se como se algo dentro do espelho estivesse se aproximando, vindo de muito longe, de muito fundo, mas com uma determinação que Teófilo compreendeu ser irrevogável.

— Ele quer sacrifício , dissera a mulher.   
—  Não de bicho. De memória. De voz. A gente tem que dar o que a gente tem de mais nosso. Uma lembrança cantada. Uma história. E quem não tiver mais nada pra dar...,(dissera,como alguém ansioso  ou nervoso)

Ela não completou. Não precisava. Teófilo leu nos olhos dela o destino dos que nada tinham: seriam o alimento final, o sangue que selaria a aliança, assim como o primeiro vigário fizera com algum infeliz, há 140 anos.

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A Tentação do Guardião

Teófilo passou três dias em Serra Fina, tentando dissuadir os aldeões, mas a influência de Qazariel era uma 'droga espiritual'.A nota que emanava do poço não era apenas um som; era uma oração ao contrário, um mantra que, em vez de elevar a alma, a dobrada, convencia-a de que a adoração ao Ouvinte era a única verdade. Em troca, os campos secos de Serra Fina começaram a brotar. Uma menina que nascera cega abriu os olhos. Um paralítico deu três passos. Milagres, ou a sua mais torpe falsificação.

Na última noite, exausto e desesperado, Teófilo voltou sozinho à igreja em ruínas. 
O buraco cintilava na escuridão. Ele se ajoelhou diante dele e, pela primeira vez, falou diretamente à entidade:

— O que tu queres, afinal? Por que não te contentas com o que já tens?

O silêncio respondeu. Não com emoções, como na cripta. Desta vez, com palavras articuladas, que soaram dentro de sua mente com a clareza de um sino de cristal.

Porque fui esquecido. Nos altos céus, não me ouviram. Na terra, me trancaram num sarcófago e me deram migalhas de louvor. Agora quero o que me é devido. Quero uma sinfonia de adoração. Quero que cada vila, cada cidade, cada alma me ofereça o seu silêncio como um templo. E tu, Teófilo, serás meu profeta. Ou serás meu exemplo.

— Exemplo de quê?, perguntara com uma opressão que lhe esmagava o peito!

De que o silêncio também pode ser um grito. A ausência, uma tortura. Posso te dar tudo, Teófilo. Ou posso te tirar tudo, começando pela tua voz, pela tua fé, pela tua sanidade. Basta que eu pare de ouvir as tuas preces. E tu sabes o que é um Deus que não te ouve? 

...É o inferno!

Teófilo sentiu lágrimas escorrerem pelo rosto. Ele não era um herói. Era um rapaz assustado, lançado num embate cósmico para o qual não tinha armas. Mas, no fundo de sua alma, algo se rebelou. Não era coragem. Era teimosia. A mesma teimosia que o fizera questionar os dogmas, que o levara a descer à cripta, que o trouxera a Serra Fina.

— Eu não serei teu profeta , disse, a voz trêmula, mas firme. 
— ...E tu não terás esta gente.

Já tenho, respondeu o Ouvinte. E terei mais. Ouro Branco já sonha comigo. Águas Santas já cavou o próprio poço. Enquanto estás aqui, minha nota viaja. Meu silêncio se multiplica. Tu não podes deter o que não tem corpo. Eu sou a ausência, Teófilo. E a ausência está em toda parte.

O reflexo no poço-espelho pulsou, e Teófilo viu, como numa visão, a praça de Ouro Branco coalhada de gente ajoelhada diante de outro buraco; e as termas de Águas Santas tingidas de vermelho, com corpos boiando nas piscinas naturais, oferendas voluntárias de uma fé ensandecida.

Ele fechou os olhos e rezou. Não para Deus, mas para o próprio Qazariel. Uma oração silenciosa, tecida de pensamentos, na única linguagem que o anjo caído podia ouvir.

(*Dialógo apenas em pensamento):
Se és o Ouvinte, ouve então isto: eu te ofereço um trato. Não fecharei teus poços. Não destruirei teus altares. Mas serei teu guardião, como Custódio foi, como os outros foram. E em troca, limitarás tua fome a esta comarca. Não irás além. Não tocarás Mariana, não tocarás Ouro Preto, não tocarás o mundo.

Houve uma pausa. A nota monocórdia cessou por um instante, e o silêncio tornou-se novamente vácuo, e não presença. Depois, a voz retornou, e havia nela um matiz novo, algo que Teófilo jamais esperaria: respeito.

Interessante. Negocias com aquilo que julgas demoníaco. Usas a minha própria arma --a escuta. Está bem, Teófilo. Aceito vosso trato!

...Serás o novo guardião. Mas não há corrente que prenda para sempre um ser como eu. Um dia, tua vontade fraquejará. Um dia, teu silêncio se tornará o meu silêncio. E nesse dia, eu me expandirei.

O reflexo recuou para as profundezas do poço, e a superfície de obsidiana tornou-se apenas terra úmida e pedras soltas. A nota cessou. Os aldeões, do lado de fora, despertaram como de um transe, sem lembrar o que haviam feito ou prometido.

Mas Teófilo lembrava. E carregaria aquela lembrança pelo resto de seus dias.

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O Guardião do Silêncio Perpétuo

Os anos se passaram. Teófilo foi ordenado padre e assumiu a paróquia da Vila Real de Nossa Senhora do Silêncio Perpétuo. 
Sob sua liderança, as vilas da comarca mantiveram-se prósperas, e os poços de Serra Fina e Águas Santas foram lacrados, não com cimento, mas com missas. Missas que Teófilo rezava de costas para o altar, olhando para o chão, sabendo para onde suas palavras realmente iam.

Ele envelheceu antes do tempo, os cabelos prateados, os olhos fundos de quem mantém uma vigília sem fim. Todas as noites, descia à cripta com o cálice de ouro, que nunca se esvaziava. Não oferecia sangue, mas a sua própria fé, gotejada em orações que Qazariel bebia como vinho.

A vila continuava a chamar-se, nos mapas, pelo nome pomposo. Mas os moradores, agora, sabiam que havia algo mais. Não entendiam, mas sabiam que o Padre Teófilo carregava um fardo que não podia ser partilhado. E o respeitavam por isso.

Na última noite de sua vida, já octogenário, Teófilo desceu à cripta pela última vez. Qazariel estava lá, não como um reflexo, mas como uma presença quase tangível, um recorte de realidade onde o ar tremia e o silêncio tinha peso de chumbo.

— Cumpriste tua promessa , dissera o Ouvinte, pela primeira vez em voz audível, uma voz que não vinha de garganta alguma, mas de todas as superfícies. 

— Mas estás velho. Fraco. E eu, paciente. A tua morte será a minha libertação. Farei de ti o meu primeiro alimento da nova era.

Teófilo sorriu. Um sorriso triste, mas sereno.

— Enganas-te — disse ele. — Eu não estou fraco. Estou cheio. Durante sessenta anos, não apenas te alimentei. Eu te ensinei. Ensinei-te a gostar do meu silêncio. Do meu louvor. E agora que estou para morrer, levo comigo aquilo que te dei. Não deixarei herdeiro. Não haverá novo guardião. Tu não terás meu silêncio. Terás o vazio.

E dizendo isso, Teófilo tomou o cálice de ouro e, em vez de oferecê-lo a Qazariel, bebeu ele mesmo. O sangue -- se é que era sangue -- desceu por sua garganta como fogo líquido. O sacerdote sentiu o gosto de todas as orações que rezara, de todas as missas que celebrara, de todas as lágrimas que derramara. Era o gosto da própria fé, agora devolvida a ele.

Qazariel emitiu um som. Não era a nota monocórdia. Era um grito. Um grito de fúria e de fome, um grito que sacudiu os alicerces da Matriz e fez rachar os vitrais. Mas era um grito impotente. Porque o silêncio de Teófilo, aquele que alimentara o anjo por décadas, agora se fechava. Apagava-se. Levava consigo a última centelha de adoração que mantinha Qazariel preso àquele lugar.

O anjo caído rugiu, debateu-se, mas o sarcófago de quartzito começou a sugar a sua presença como um ralo. O reflexo no espelho do poço se desfez. Os buracos em Serra Fina e Águas Santas desabaram. A nota que ecoara por toda uma comarca cessou para sempre.

Teófilo tombou ao lado do sarcófago. 
...Seus olhos se fecharam. Mas, antes de partir, ele ouviu algo que jamais esperaria: o verdadeiro silêncio. Não a ausência de som, mas a paz de um mundo onde nenhum deus faminto espreitava sob os pés dos homens.


A Vila Real de Nossa Senhora do Silêncio Perpétuo ainda existe. Sua igreja de pedra-sabão, agora um monumento histórico, recebe turistas que nada sabem do que jaz sob o altar. Os sinos, por decisão da diocese, permanecem calados. 

...Por precaução, dizem!

Mas os moradores mais antigos contam, nas noites de lua nova, a história de um padre que venceu um anjo não com exorcismos, mas com uma vida inteira de escuta. E afirmam que, se alguém colar o ouvido no assoalho da capela-mor, ainda poderá ouvir, muito ao longe, o eco de uma nota única -- não como ameaça, mas como lembrança. A lembrança de que o silêncio, às vezes, é a arma mais poderosa.


...E a mais sagrada!



Fim.


By Santidarko