(*poema dedicado àqueles que perderam alguém,e acreditam,ás suas maneiras, que poderiam ter demonstrado mais amor a eles,os partidos,em vida)
Não mais teu passo leve a terra beija,
Nem tua voz, mais doce que o regato
Que desce, tímido, pela verde ilha,
Quebra o silêncio do meu ermo estado.
Partiste. Como a nuvem que se esvai
No azul infinito, sem deixar traço,
Teu ser se funde noutra luz. E eu fico
Com o eco do teu riso, frio espaço.
Ah, que tardio o olhar que agora ergo!
Como a planta que busca, em vão, o orvalho
No estio abrasador, eu busco em vão
Teu rosto nas memórias. Que trabalho!
Fútil, este remorso! Porventura,
Se mais tivesse aberto a alma escura
Ao teu fulgor gentil, se mais beijado
Tivesse a sombra que teu gesto acena,
Teu partir seria menos amargo?
Menos fantasma, mais presença plena?
Mas eu, tolo, guardei o sol em cápsulas de gelo,
Achando que o amanhã seria eterno, sereno.
Agora, só me resta o vento uivante
(Aquele mesmo que levou teu barco)
A rasgar-me o peito, frio gigante,
A lembrar-me de cada hora de cinza, de marco
Onde o amor, preguiçoso, adormecera,
Enquanto tua luz, paciente, espera...
...E o vento traz, nas asas da tormenta,
Não o teu riso, mas o som que inventa
Do beijo não dado, da palavra ausente,
Do amor que podia ter sido, urgente,
E que jaz agora, no fundo do abismo,
Semente estéril, eterno cisma.
Oh, sombra amada, que eu não soube amar
Com todo o incêndio que podia dar,
Perdoa este que foi, em vida, morto,
E carrega, na tua viagem ao porto,
Apenas isto: um lamento ao vento frio
Pelo amor maior... o que não foi dado, ó rio
Do Tempo, que só corre para a noite eterna,
Levando o que não foi dado, à face interna
Do sol que se apaga.
By Santidarko
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