quarta-feira, 2 de julho de 2025

A efemeridade do amor, da vida e da memória



Nas ruínas do tempo, onde a névoa se enovela,  
Ergue-se um castelo de mármore e dor;  
Sussurram os ventos na sala morta, desvela  
O eco de um riso que extinguiu-se em pavor.  

A Lua, cadáver pálido no céu de um baforado e invernal alcatrão,  
Vertia no chão sua luz sem calor;  
E a sombra do passado, em triste procissão,  
Rastejava nas pedras do lúgubre salão.  

Ali, entre estátuas de olhos vazios e frios,  
Um espectro de mágoa se pôs a vagar:  
Era a alma que outrora, em ardentes desvios,  
Sonhara com amores que o tempo apagou.  

Ó vento!' — clamava — levai meu lamento  
Aos ouvidos surdos do Além, sem perdão!  
Pois a carne é terra, o desejo é lamento,  
E a vida... um suspiro na escuridão.

Nenhum ser respondeu. Só o gotejar da lage,  
Como lágrimas negras da abóbada a cair,  
Marcava a sentença do eterno ultraje:  
Amar é sofrer, e o sofrer... é finir.  

E o relógio de ossos, no alto da torre,  
Gritava à meia-noite um fado cruel:  
Tudo o que vive, a treva absorve!  
Até o eco do grito se funde ao seu véu!

Então, sob o peso do silêncio antigo,  
O fantasma rendeu-se à noite sem fim...  
E apenas ficou, no salão inimigo,  
O frio — e o perfume de um lírio murcho, enfim.


By Santidarko 

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