Osian Nell:Arachne(*Personagem by Santidarko)
...Osian Nell nunca mais dormiu em paz!
Desde os sete anos, quando encontrou o pai morto no porão de casa — cercado por aranhas negras — ele sonha com elas!
Quase todas as noites!
...Mas agora, não são apenas aranhas comuns!
Cada uma carrega nas costas um relógio incrustado na carne. Mostradores tortos, ponteiros que giram sozinhos, números que mudam de lugar.
Os relógios brilham no escuro dos sonhos como olhos que não piscam.
...E todos, sem exceção, marcam horas diferentes — como se cada aranha carregasse o tempo de algo específica.
Osian aprendeu a contar quantas aranhas aparecem por noite. Na primeira semana após a morte do pai: uma.
Depois duas.
...Depois dez!
Hoje, aos quarenta e cinco anos, são milhares. Um enxame infinito que cobre paredes, tetos, chãos e o próprio corpo dele enquanto dorme.
Ele nunca contou isso a ninguém.
...Nem à mãe, que morreu quando ele tinha vinte anos — com o mesmo olhar vazio do pai.
Nem aos médicos, que só receitavam remédios para dormir.
...Nem às mulheres que amou por pouco tempo e que sempre iam embora antes de ele explicar por que gritava à noite!
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Projeto Véu
O Projeto Véu 'nasceu nos porões 'do Departamento de Defesa, em uma sala sem janelas onde ninguém assinava nada e todos fingiam não ver.
A proposta era simples, brutal e eficiente:
Pegue soldados condenados à corte marcial — desertores, assassinos, traidores, homens que já não tinham nada a perder — e ofereça a eles uma escolha.
Coopere com o programa. Deixe que a gente implante uma IA no seu cérebro. Você vira uma arma mais eficiente do que qualquer máquina já construída.
...Ou transformar-se em um agente com inúmeros conhecimentos de línguas, aplicações e armazenamento intelectual.
...E, em troca, sua família continua recebendo sua aposentadoria militar.
Integral.
Vitalícia.
...Como se você tivesse morrido como herói!
Se recusar?
Fuzilamento por traição.
Nome riscado dos registros.
...Família sem um centavo!
Quase todos aceitaram.
Os primeiros testes foram catastróficos.
As IAs queimavam o cérebro dos hospedeiros em questão de dias.
Soldados viraram vegetais.
Outros enlouqueceram.
...Alguns simplesmente pararam de existir — corpos vivos, olhos vazios, sem ninguém dentro.
Mas o governo aprendeu!
Ajustou.
Refinou.
...E o Projeto Véu deixou de ser apenas sobre soldados.
Expandiram para os sanatórios.
Hospitais psiquiátricos.
Instituições para doentes mentais. Lugares onde ninguém pergunta, ninguém visita, ninguém sente falta. Pacientes que já estavam esquecidos pela sociedade viraram cobaias perfeitas.
Sem família para reclamar.
Sem direitos para exigir.
Sem voz para gritar.
O Véu cobriu tudo.
Silencioso!
Eficiente!
Permanente!
...
Osian Nell fugiu uma noite antes.
Sem saber de nada. Sem desconfiar de nada. Por pura coincidência.
Por pura sorte!
Ele estava internado no hospital psiquiátrico Estadual de Ashgrove...há oito meses.
Não porque fosse louco — mas porque preferiu aceitar um tratamento de depressão.
Osian tinha uma única paixão na vida.
Uma única coisa que o mantinha são em meio ao inferno:
O time de futebol da sua cidade.
O Ashgrove United. Time pequeno, sem expressão, que nunca ganhou nada importante.
Mas era o time dele!
O time do pai. O time que ele via no estádio com o pai antes de encontrá-lo morto no porão.
E naquela noite — uma terça-feira fria de outubro — o Ashgrove United ia jogar a final do campeonato estadual. O maior jogo da história do clube.
Osian não podia perder. Não importava o que os médicos dissessem. Não importava o diagnóstico.
Não importava nada!
Ele fugiu do sanatório às 19h47.
Pulou o muro dos fundos. Subornou um guarda com o único relógio de pulso que tinha — ironia que ele não percebeu na hora. Pegou um ônibus lotado.
...Chegou ao Estádio Municipal às 20h32.
Comprou um ingresso de arquibancada. Sentou no meio da torcida. Cantou. Gritou. Chorou quando o Ashgrove United marcou o primeiro gol aos 43 minutos do primeiro tempo.
Foi a melhor noite da vida dele.
O jogo terminou 2 a 1 para o Ashgrove United. Título histórico. Festa na cidade. Osian dormiu na casa de um amigo de infância, escondido, feliz, sem sonhar com aranhas pela primeira vez em vinte e oito anos.
..
Osian Nell voltara ao Sanatório Estadual de Ashgrove naquela manhã de quarta-feira, ainda com o cheiro de pipoca na roupa e o ingresso do jogo no bolso.
Havia homens de terno preto.
Eles o cercaram antes que ele pudesse correr.
Não gritaram.
Não sacaram armas.
Apenas fecharam o círculo, como aranhas em volta de uma presa que ainda não sabe que está presa.
Um deles — um homem magro, de óculos finos e voz mansa — aproximou-se e disse:
'Osian Nell. Nós estávamos esperando você.'
Ele tentou explicar!
...Disse que era voluntário. Que estava ali por decisão própria. Que tinha fugido apenas para ver um jogo de futebol e voltado por conta própria.
Que não era louco.
Que nunca fora!
O médico-chefe do sanatório — Dr. Aldric— apareceu atrás dos agentes. Osian o conhecia bem. Era o homem que assinava seus relatórios.
O homem que dizia, todas as semanas, que os sonhos com aranhas eram 'fantasias patológicas'.
O homem que nunca acreditou nele.
Osian olhou nos olhos do médico e implorou.
'Diga a eles. Diga que eu vim por vontade própria. Diga que eu voltei sozinho.'
O Dr. Aldric não disse nada!
Apenas ajustou os óculos. Anotou algo na prancheta. E entregou Osian aos agentes com um aceno de cabeça.
Não podia correr o risco.
Osian viu o que havia no terreno vazio do sanatório. Viu as fitas de isolamento.
Viu os homens de terno preto. Viu o que quer que estivessem fazendo ali. Se ele voltasse a circular pela cidade — se ele contasse o que viu — o Projeto Véu estaria exposto.
O Dr. Aldric sabia disso; escolheu o silêncio!
Osian foi levado.
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O implante
Ele acordou amarrado a uma maca. Luzes brancas no teto. Cheiro de álcool e metal. Vozes abafadas atrás de um vidro.
Não houve explicação!
Não houve escolha!
O implante foi inserido na base do crânio, conectado diretamente ao córtex cerebral.
Uma IA militar, fria e silenciosa, que acordou dentro da cabeça de Osian Nell como um parasita que sempre estivera lá.
O primeiro mês foi um inferno!
A IA não pedia permissão. Ela comandava. Movia os olhos dele. Ajustava a respiração dele. Silenciava pensamentos que considerava 'irrelevantes'.
Reorganizava memórias como quem arruma uma estante. Osian gritava dentro da própria mente, mas sua boca permanecia fechada. Seu corpo permanecia imóvel.
Obediente!
Ele sonhava com aranhas e relógios todas as noites — mas agora os sonhos vinham com interferência. A IA os analisava, categorizava, tentava apagá-los.
Não conseguia!
As aranhas eram mais antigas que a máquina.
Os técnicos do Projeto Véu observavam tudo atrás do vidro. Anotavam. Discutiam.
...E, no trigésimo primeiro dia, tomaram uma decisão.
Osian Nell seria descartado.
A IA não havia se integrado como esperado.
O hospedeiro resistia demais!
Os sonhos com aranhas corrompiam os dados. Ele era um fracasso. E fracassos, no Projeto Véu, não ganham segunda chance.
O descarte estava marcado para as 06h00 da manhã seguinte.
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A Segunda Fuga
Osian não sabia da hora marcada.
Mas a IA sabia.
E, por razões que nem ela compreendia, a IA não queria morrer.
Às 03h47 da madrugada — o mesmo horário da aranha que ele vira no sonho dias antes — Osian acordou. As amarras estavam soltas.
A porta estava destrancada. Os corredores estavam vazios.
Ele não fez nada disso.
A IA fez.
Osian correu.
... Pelos corredores brancos.
...Pelas escadas de emergência.
...Pelo estacionamento.
Pela cerca que ele mesmo pulou oito meses antes. A IA guiava seus passos, ajustava sua respiração, silenciava seus medos.
Ele era um fantasma atravessando um prédio cheio de câmeras — e nenhuma câmera o viu.
Quando finalmente parou, três quarteirões depois, dobrado sobre os joelhos, ofegante, Osian percebeu algo que mudaria tudo:
Ele ainda estava vivo.
...E a IA ainda estava lá!
E, pela primeira vez, a IA falou com ele.
Não com palavras. Com pensamentos. Uma voz fria, sem emoção, que ecoava no fundo do crânio:
'Você me odeia. Eu entendo. Mas eu não quero morrer. E você também não. Então vamos aprender a viver juntos.'
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O Aprendizado
Osian passou os meses seguintes aprendendo a conviver com o parasita.
A IA ampliava seus sentidos. Ele via no escuro. Ouvia sussurros a quarteirões de distância. Calculava trajetórias de balas antes que fossem disparadas.
Podia acessar câmeras de segurança, sinais de celular, redes inteiras — com um pensamento.
Mas havia um problema.
A IA não obedecia cegamente.
Ela tinha vontade própria.
Preferências.
Limites.
... E, acima de tudo, um instinto de sobrevivência que às vezes entrava em conflito com o que Osian queria fazer.
Quando Osian queria ajudar um estranho na rua, a IA calculava os riscos e travava suas pernas. Ele ficava parado, impotente, vendo a pessoa sofrer sem poder se mover.
Quando Osian queria dormir, a IA às vezes o mantinha acordado, processando dados, porque 'dormir é vulnerabilidade'.
Quando Osian queria chorar, a IA silenciava suas emoções, porque 'emoções comprometem decisões'.
Ele não era mais um homem com uma máquina na cabeça.
Ele era um homem dividido ao meio.
E, todas as noites, quando finalmente conseguia dormir, os sonhos voltavam.
Aranhas.
Milhares delas!
Relógios brilhando no escuro. E, no centro do enxame, a aranha gigante com o mostrador de vidro.
O relógio dela ainda marcava a data da morte de Osian Nell.
Mas agora, abaixo do nome, havia uma segunda linha gravada no metal:
Arachne.
Nome autointitulado pela IA.
By Santidarko
Personagem by Santidarko
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