Caminhei por uma rua que conheço 'desde sempre', e me deparei com algo estranho: quase todos os postes agora 'vomitam' essa luz branca, clínica, de LED — uma claridade que tudo revela, que não deixa sombra para o mistério.
Mas lá no meio do quarteirão, por um descuido do progresso ou uma gentileza do acaso, duas ou três lâmpadas antigas ainda resistem com seu amarelo morno, trêmulo, quase vivo. Fiquei parado ali, dividido entre dois mundos. A luz nova é o futuro: eficiente, onipresente, como essas inteligências que já nos leem os passos antes mesmo de os darmos. Ilumina tudo, promete segurança, mas também nos coloca num holofote perpétuo — e eu me perguntei: - quando todo mundo estiver sob esse foco implacável, para onde fugirá a nossa vontade de sermos esquecidos, de nos perdermos numa penumbra só nossa?
...E me lembrei do antes, quando o amarelo dos postes pintava as ruas com uma falsa lareira, e a gente podia ser herói ou bicho nas sombras do muro. Essa nostalgia não é só pela cor — é pela perda de um eu que existia longe dos olhos, no anonimato morno que agora se esfarela. Escrevi isso como quem acende uma vela no meio de um data center.
...Talvez seja um jeito de me esconder.
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Poema: Nostalgia do sódio e ao Hálito de Máquinas
Ainda restam dois, três postes de sódio
numa rua que trocou seu coração amarelo
pelo olho azul-cirúrgico dos LEDs.
Caminho entre eras: o chão que conheci como um menino-grande
hoje revela cada pedra, cada inseto no asfalto,
num diagnóstico de luz que não sossega.
As lâmpadas velhas piscam como quem hesita,
como quem sabe que está ali por esquecimento,
não por escolha. E eu as reconheço:
são o último abraço morno num mundo
que nos quer sob holofotes, catalogados,
otimizados, previstos pelo hálito das máquinas
que já escrevem poemas sem memória do escuro.
O amarelo era a infância filtrada,
era o medo gostoso de olhar para o mato
e inventar olhos que não existiam.
Era a sombra cúmplice onde eu podia
ser ninguém — e nisso havia um reino.
Agora o branco unificou os cantos:
não há mais canto. Não há mais esconderijo
para o menino que falava sozinho
atrás do portão, ensaiando ser adulto
sem testemunhas, sem dados, sem nuvem.
Dizem que é progresso. Que a luz exata
vai nos proteger de tropeços, de assaltos,
de nós mesmos. Mas eu pergunto ao vento
que ainda atravessa essas ruas sem algoritmo:
proteger de quê? Do esquecimento?
Da delícia de ser esquecido?
Da possibilidade de apagar-se um pouco,
como esses postes amarelos que agonizam
e ninguém troca porque o orçamento acabou?
Inteligências agora me leem os passos
antes que eu os dê — sabem de mim
mais do que eu mesmo, mas não sabem
do cheiro de mato molhado na grade da escola,
do arrepio de sumir no escuro do quarteirão
quando a mãe chamava e eu não respondia
só para existir, por mais três segundos,
num mundo sem ninguém olhando.
Quero às vezes que o poste inteiro se apague,
que a rua volte a ser boca de lobo,
que nenhum dado maquinário me encontre,
que eu seja novamente aquele vulto
que a luz amarela mal revelava —
um contorno, uma hipótese de gente,
não essa certeza branca que as telas exigem.
Mas não vou pedir que parem as máquinas,
nem que arranquem os LEDs. Só registro,
como quem enterra um vidro de leite no quintal,
que um dia fui de sódio e treva,
filho do halo inseguro e quente,
antes de ser este corpo exposto,
esta transparência involuntária
sob o futuro que não tem pestanas.
'Saudades dos lugares com olhos fechados '.
By Santidarko
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