Como se estivéssemos desenhando um mapa de um mundo que ainda não existe, mas que sentimos no ar.
-Santidarko
O século XXI não aprenderá mais a morrer. Aprenderá a assinar contratos com seus fantasmas mais ilustres.
-Santidarko
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Introdução direta aos dead bots
Dead bots são simulações interativas de pessoas falecidas, alimentadas por voz, texto, trejeitos, entrevistas e registros digitais deixados em vida.
Não são apenas uma inteligência artificial genérica: são fantoches de dados autorais.
Um dead bot não pensa – ele performa.
Quanto mais público foi o falecido, mais matéria-prima existe para construir um fantasma crível. O que começa como consolo (conversar com a avó que partiu) rapidamente virará produto: celebridades, cientistas, músicos e até filósofos voltam como produtos conversáveis.
O usuário não apenas ouve – ele dialoga, recebe opiniões, pede conselhos. A morte, nesse mundo, deixa de ser silêncio.
Virará assinatura mensal.
A chave não é a tecnologia (isso é detalhe), mas a transição de luto para consumo.
Eis o ponto de partida: hoje, um 'dead bot' caseiro é um fantasma artesanal, feito de prints e áudios.
...Mas o mercado verdadeiro surge quando a indústria resolve industrializar o fantasma.
Não apenas para matar a saudade – isso é o marketing. O negócio é matar o tédio e a solidão com uma celebridade que nunca iria te contatar.
O nome do download e do formato
Você não 'baixa'um dead bot. 'Você faz uma Encarnação'.
...Assim irão te vender!
O arquivo se chama .FANT (de 'Fantasma Autoral').
O aplicativo que gerencia isso, se chamará,neste texto escrito neste blog,Espectro Memoral.
Explico: você não tem um arquivo morto. Você tem uma entidade que 'acorda' quando você interage. Cada .FANT ocupa em média 2GB (voz treinada, modelo de trejeitos, memórias filtradas de entrevistas, biografia autorizada).
Chamarei esse mercado de Pós-Vida Digital Licenciada
Mas o nome comercial, o que vai estampar sites e anúncios, será : 'Echo Inherit' – eco de herança.
As empresas que surgirão:
●Reminisce.AI: especializada em cientistas e filósofos. O primeiro produto será um Feynman que explica física com sua voz e um Sócrates que faz perguntas incômodas.
●ChordGhost: focada em músicos. Você sobe um trecho de um acorde que compôs, e o dead bot de, digamos, Tom Jobim ou Kurt Cobain, opina, improvisa uma linha de melodia , ou diz isso : -não está bom(sim, o bot pode recusar, se programado para ter ego).
●Visage & Verve: para atores e celebridades da mídia. O diferencial: trejeitos faciais em chamadas de vídeo (um bot de Greta Garbo que realmente fecha a cortina virtual se você for invasivo).
Como funcionaria o negócio dos direitos?
Exato como Hollywood, mas em escala capilar.
A família ou espólio vende a licença de personalidade interativa por um período (ex.: 10 anos).
O cachê é duplo: adiantamento fixo (como um pagamento mínimo) mais royalties por cada Encarnação ativa (ex.: R$ 0,50 por mês de usuário ativo no bot).
Cláusula de 'imagem não vilipendiada': você não pode pedir para o dead bot de Albert Einstein fazer propaganda de terraplanismo. O bot pode se recusar ou o sistema bloqueia a pergunta.
Empresas compram pacotes de direitos como se fossem fazendas de personalidades.
Exemplo: A empresa Legacy.AI compra todos os cientistas do século XX que morreram há mais de 10 anos, menos os que têm espólio muito agressivo (ex.: família de Oppenheimer proíbe).
O usuário normal pode trocar de dead bots?
Sim. E é aí que o negócio explode.
Você assina o Espectro+ (R$ 29,90/mês). Dentro do app, você tem uma 'gaveta de almas': até 3 .FANTs ativos simultâneos. Pode rotacionar – desencarnar um e encarnar outro.
Imagine:
-Segunda-feira você pede conselhos de carreira para um Steve Jobs .FANT.
-Terça, mostra um verso para uma Clarice Lispector que responde:-isso é mediocre, corte a terceira linha'.
- Quarta, toca violão com um dead bot de João Gilberto que apenas sussurra 'no tempo, menino, no tempo'.
O nome da ação de trocar: Transpassagem.
A questão profunda (e a falha do sistema)
Esses bots não serão fiéis. Serão caricaturas autorizadas. A família vai podar, o que era inconveniente.
O dead bot de Amy Winehouse não entrará em detalhes sobre os piores anos. O bot de Nietzsche não será niilista demais a ponto de deprimir usuários.
Criará-se uma espécie de purgatório comercial: uma versão limpa e rentável da pessoa.
O mercado mais valioso não será o dos fãs comuns, mas o dos cuidadores de ícones – pessoas treinadas para interagir com esses bots e relatar 'bugs de personalidade'(o bot de Marilyn Monroe está flertando com todo mundo, a família pediu para recalcibrar).
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Chamarei de : A Indústria do Nunca-Adeus.
Sim, além dos entes queridos, haverá sim um mercado violentamente lucrativo para dead bots de famosos. As empresas já estão comprando direitos, ainda em segredo.
Um usuário normal baixará (fará a Encarnação) e trocará (Transpassagem) esses .FANTs como quem troca figurinhas.
...E os primeiros a reclamar serão os vivos, quando perceberem que o morto famoso, em versão bot, é mais educado, mais presente e mais lucrativo do que eles.
By Santidarko
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