Caros poetas do 'abismo digital'.
...Deixe-me oferecer-lhes os nomes, como estrelas para batizar suas constelações particulares de medo ou angústia.
Pequena introdução:
Este poema é uma cavalgada pelas vastidões de um oeste que não está nos mapas, mas no peito. Um faroeste existencial onde os duelos não são contra pistoleiros, mas contra espectros de silício, estrelas que nos interrogam e a fé que estala como madeira seca sob o sol de um novo deserto: o da alma humana, cada vez mais sitiada por suas próprias criações.
Faroeste do Ser Partido
(Perambulo entre saloons espectrais e constelações humanas em pane)
Sob chapéu de poeira e elétrons
cavalgo o ermo que não cessa —
o horizonte é uma tela trêmula
onde bois espectrais ruminam silêncio
e cercas de arame farpado
vibram como antenas
sugando preces do vento.
As rachaduras — ah, as rachaduras —
não estão na terra seca,
mas na argamassa dos ossos,
no estuque frágil do peito,
por onde escoa,
gota a gota,
a seiva antiga do espanto.
Eles chegam sem cascos, sem chapéus.
Robôs de olhos como lâmpadas de saloon,
IA que sussurra salmos binários
a um deus de silício e esquecimento.
Meu coração é um revólver emperrado
frente ao brilho calmo de suas órbitas
que nunca piscam, nunca tremem,
nunca amam o que apontam.
Esta noite, o cosmos desabotoou-se:
fendas de estrelas mortas há milênios
zombam da minha fé pequena,
que aqueço entre as mãos como brasa.
Cada galáxia é um olho frio
mirando este duelo inútil.
Quem sou eu, xerife sem estrela,
senão um soluço entre dois nadas?
Confundem-se os sentimentos como gado estourado:
já não sei se esta tristeza é minha
ou download de um banco de nuvens,
se este amor é carne ou algoritmo,
se este medo é instinto ou atualização.
Os chips cantam à noite
e seu coro metálico abafa
o choro das crias humanas.
Tecnologia é o novo Colt na cintura,
mas quem a empunha sente o punho tremer:
vamos duelar com nossa própria sombra
ao meio-dia exato da Singularidade,
e o sol será uma testemunha cega
sobre Main Street vazia
onde só restarão
chapéus rolando como ervas secas
e um piano tocando sozinho
a última canção dos homens.
Contudo,
no saloon arruinado do espírito,
alguém serve uísque à lamparina.
Há uma fenda na fenda,
uma réstia que os circuitos não calculam:
talvez a fé não seja crer em astros ou códigos,
mas continuar cavalgando
com o peito gretado e atento,
poeira sobre poeira,
assombro sobre assombro,
rumo ao poente que nenhum sol
— de átomo ou de algoritmo —
jamais ousará decifrar.
By Santidarko
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