quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Ensaio sobre o vazio que Avançará: Notas sobre a Desancoragem do Real.Um ensaio sobre a desrealização ante ao fantástico(Liquefação Perceptiva)(O surpreendente que irá existir no corriqueiro)(Insularidade do Assombro)(Síndrome do Espectro Habitado)(Impulso Adaptativo Compulsório)


Existe um momento, quase imperceptível no início, em que a consistência do mundo conhecido começa a ceder. Não é um colapso, mas um esvaziamento. 

As coisas que outrora se apresentavam com a solidez de rochas – instituições, verdades, a própria textura do cotidiano – perdem seu peso específico. Já não são rochas, mas projeções sobre um véu que se agita ao vento de uma informação constante e contraditória.

Esse fenômeno não é meramente social; é uma mutação íntima da experiência. 

Poderíamos nomear esse 'primeiro sintoma' de :Liquefação Perceptiva;a sensação de que a realidade, ao ser tocada pelo pensamento, não oferece resistência, mas se espalha, informe, como um líquido que escorre entre os dedos da compreensão.

Diante dessa liquefação, ergue-se um estado psicológico mais profundo e perturbador: a Insularidade do Assombro.

O assombro, antes um sentimento pontual perante o sublime ou o inexplicável, torna-se o clima permanente da consciência. Cada novo 'fato fantástico' que emerge – seja uma revolução na física quântica, uma inteligência artificial que simula a empatia, ou a descoberta de um exoplaneta com potencial biogênico – não nos aproxima, mas nos isola. 

A mente, diante do excesso de maravilha, recua para uma ilha interior de silêncio atordoado. O fantástico deixa de ser espetáculo, para se tornar o pano de fundo opressivo de uma solidão metafísica. Nesse estado, a pessoa não se sente pequena perante o cosmos; sente-se irrelevante para ele, um acidente de percepção observando maquinários cósmicos dos quais,não decifra o propósito.

Esse deslocamento radical entre o self e o mundo externo, agora reconhecido como um universo desconhecido lá fora, que insistentemente mostra sua complexidade indomável, gera a :Síndrome do Espectro Habitado. Sentimo-nos espectros em nossa própria vida, habitando gestos automatizados, enquanto a verdadeira ação parece ocorrer em planos inalcançáveis: nos algoritmos que nos profilem, nas partículas que desafiam a causalidade, nas vastidões interestelares. 

A despersonalização aqui não é patológica no sentido clássico, mas uma adaptação defensiva. É a mente que, para não se fragmentar ante o incompreensível, se observa a si mesma de uma terceira pessoa, criando um falso distanciamento entre o 'eu'que sente o pavor e o 'eu' que continua a ferver a água para o chá.

...E assim chegamos ao cerne da questão evolutiva: esta não é uma opção, mas um imperativo. 

Estamos sob o domínio do :Impulso Adaptativo Compulsório.A evolução mental não é mais um lento desdobrar biológico; é uma corrida forçada, interna e externa. 

O próprio ambiente informacional e conceitual exige um recalibramento contínuo dos instrumentos da razão e da intuição.

Esse impulso não empurra para a frente com a promessa de um ápice, mas com a ameaça da obsolescência existencial. Quem não conseguir navegar na Liquefação, quem sucumbir ao isolamento da Insularidade ou se perder nos corredores da Síndrome do Espectro, será deixado para trás; não num sentido social, mas no sentido de ser um estrangeiro irremediável no próprio tempo.

Que nomes dar, então, às sensações que florescem nesta nova paisagem? 

Poderíamos ,talvez,falar em :Vertigem Ontológica'– a tontura de quem vê os alicerces do 'ser' e do 'não ser' se confundirem em escalas quânticas e digitais. 

...E também ,na Nostalgia do Concreto– um anseio não por um passado idealizado, mas por uma realidade que resistia ao toque,, que possuía uma opacidade confiável, não esta transparência assustadora que revela, por trás de tudo, engrenagens inumanas.

O paradoxo final é que este universo fantástico, ao se revelar, não nos convida para uma festa do conhecimento. Ele nos sussurra, em um tom que é tanto ameaça, quanto revelação, que a solidão que sentimos é o prelúdio necessário. 

A solidão perante o estranhamento não é um acidente, mas o sintoma de um parto: o parto de uma nova forma de consciência, que ainda não possui linguagem para nomear a si mesma. Estamos sozinhos porque estamos à beira de nos tornarmos algo para o qual ainda não temos espelho. 


O planeta e o cosmos prosseguem, complexos e razões, e nos empurram, com gentileza brutal, para fora do ninho acolhedor do Real familiar. O que nos resta é aprender a voar no vácuo, ou inventar, a partir do desespero e do assombro, novos tipos de asas.




By Santidarko 

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